segunda-feira, 31 de maio de 2010

Memória 27 : D. Manuel I



D. Manuel I nasceu a 31 de Maio de 1469, e veio a falecer em 13 de Dezembro de 1521. Porque a iconografia portuguesa é, normalmente, exígua, socorremo-nos do retrato que Damião de Góis, na Crónica de D. Manuel I (cap. LXXXIV), traça do rei:
"Foi el-Rei D. Manuel homem de boa estatura, de corpo mais delicado que grosso, a cabeça sobre o redondo, os cabelos castanhos, a testa alevantada, e bem descoberta deles, os olhos alegres, entre verdes e brancos, alvo, risonho, bem assombrado, os braços carnudos e tão compridos que os dedos das mãos lhe chegavam abaixo dos joelhos, tinha as pernas tão compridas e bem feitas, segundo a proporção do corpo, que nenhuma coisa se lhes podia desejar. Tinha voz clara e bem entoada, era mui atentado no falar, e mui honesto e discreto em suas práticas. Quando comia posto que fosse apressado no comer, nem por isso deixava de praticar e disputar com os letrados que sempre estavam à sua mesa, e sobretudo com homens estrangeiros, ou com alguns dos seus que andaram fora do Reino: foi sofrido, manso e clemente,..."

Curiosidades do Baú


No meio dos livros infantis encontrava-se este pequeno livrinho (105 x 70 mm), com calendários para os anos de 1957 e 1958. O voluminho é mais propriamente uma pequena agenda, fornecendo, para além da publicidade própria da Casa Rendália, todo um conjunto de informações para a história local, i.e., a cidade de Braga nos idos de 1957.

Eis alguns exemplos:
- o que em Braga deve ser visto e admirado;
- horários de carreiras e comboios de Braga para:
Porto/Lisboa/Póvoa/Guimarães/Barcelos/Esposende (...);
- horários das missas em Braga (das 6.00 da manhã até às 19.00);
- telefones dos médicos que, ainda, cabiam em página e meia e com 4 dígitos apenas (o Sr. Dr. Rocha Peixoto atendia o telefone com o nº 2711);

Talvez o mais curioso é que se conservaram, no meio da agenda, pequenos desenhos de motivos infantis de que se reproduz uma imagem. Para que serviriam ? Segundo consta para decalcar em papel ou tecido. Seria também molde para bordar posteriormente ?

Post de HMJ

domingo, 30 de maio de 2010

Give Europe a Chance!


Sempre os bárbaros cobiçaram os Impérios - é da História...
Mas a fasquia desceu muito, entretanto: em políticos, imperadores e bárbaros. Os bárbaros são hoje reptilínios especuladores, ajudados por perfumados treinadores de bancada (Moody's e quejandos abutres, hienas e chacais); os políticos, na sua grande maioria, são o que a gente sabe... Na ausência de líderes políticos actuais de qualidade, valham-nos alguns (sobreviventes) "senadores/séniores" que, com a autoridade de um Helmut Schmidt ou de um Giscard d'Estaing, continuam a pronunciar-se. Com clarividência, e bem. Contra a desorientação reinante surgiu, hoje, no Die Zeit-on line, um apelo realista destes dois Senhores (Schmidt e d'Estaing) a favor de uma resposta inteligente, concreta e dinâmica, para lutar contra o desalento, o baixar de braços, para vencer esta especulação financeira destes "cadáveres adiados que procriam" desemprego, insegurança e miséria. Para ler em : www. zeit. de..
Post de HMJ e APS

Os grilos não tardam aí...

Com o calor que aí vem, vão aparecer, certamente, os grilos, simpáticos cantores noctívagos. Desde infância que gosto deles. E Josquin des Prez, ou Després (1450-1521) também devia apreciá-los muito...

Curiosidades 6 : Visitas



O último balanço que fiz sobre as visitas ao Arpose, foi a 14 de Abril de 2010 (Curiosidades 4). Impõe-se, por isso, uma reactualização. Há casos que permanecem sólidos e inamovíveis (os postes mais visitados): 1º- Receitas Poéticas (F. Assis Pacheco) - e eu bem gostaria de avisar os meus irmãos brasileiros que não é com este poste que vão aprender a fazer poesia...; 2º- Poema autógrafo (Eugénio de Andrade), 3º- Uma colagem de Matisse, dos primórdios do Arpose. Os Estados Unidos continuam, mercê de Mountain View (Califórnia), a virem, diária e meticulosamente curiosos, visitar o Arpose. Gratíssimo pelo vosso zelo que só revela uma acrisolada ternura à "velha " Europa! Mas, desmarcado, tem aparecido também um novo visitante de New Jersey: Evoé! O Brasil equipara-se, nas entradas, aos U. S.A.. Mas é bastante mais diversificado, e menos monótono: Saravá! O sul do Brasil ( Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), de forte influência germânica na emigração, tem procurado muito o "Schwebender Engel", de E. Barlach, mas também temas dos séculos XVIII e XIX, curiosamente: Cruz e Silva, José Daniel Rodrigues da Costa, "O Piolho Viajante"- este último já com 2 postes.
Saúde-se, entretanto, a visita de um Continente, até muito recentemente, virgem: a África. Com nada menos de 3 entradas: Nigéria (Lagos), Moçambique (Maputo) e Angola. Da Europa, a Espanha, aqui ao lado, tem aumentado as visitas. Também me visitaram de Belfast (Irlanda do Norte), Polónia (Varsóvia) mais uma vez, a Finlândia, pela primeira vez de Helsínquia. Houve, também, um inesperado visitante do Vietname (Hanói), provavelmente, por umas referências que fiz ao arroz. E o Vietname é um dos maiores exportadores desta leguminosa...
Finalmente refira-se, embora por razões muito explicáveis e circunstanciáveis, a entrada ou visita de Singapura e Lituânia (Kaunas); e ainda das simpáticas ilhas Baleares.
De uma forma meramente numérica, posso informar que as visitas diárias ao Arpose rondam as 40 entradas. Excepcionalmente, e também por razões muito particulares, num dos dias de Maio, o Arpose teve um pico de 86 visitantes - que é o seu recorde absoluto. Obrigado, António. Obrigado a Todos. E voltem sempre!...

Ainda Gassman, para um bom começo de domingo

P. S. : para MR e JAD.

Beethoven por Brendel : Bagatelas



sábado, 29 de maio de 2010

Leituras Antigas II : Templo de Heróis


Pouco sei, para lá das parcas informações nas primeiras páginas, desta colecção (?) Templo de Heróis que tinha por sub-título - Narrativas Históricas para Crianças. Os dois únicos volumes que possuo são cartonados e, pelos vagos indícios que tenho, ter-me-ão sido oferecidos, por volta de 1949/50. Foram-me lidos, antes de eu os vir a ler, posteriormente. Intitulam-se: " A História de Cortez - Conquistador do México" e "A História de Sir Walter Raleigh". Foram impressos pelas Edições Europa, Lisboa. O primeiro livro foi traduzido por José Pinto Guimarães; o segundo, por José Parreira Alves. E a direcção desta colecção de "Narrativas Históricas para Crianças" pertencia a Teresa Leitão de Barros (1898-1983) que foi professora do Ensino Liceal, e formada em Românicas. Interessou-se pela condição e promoção femininas, escrevendo, também, livros para crianças. Regressando aos dois pequenos volumes (de 124 e 132 páginas), que estão em muito bom estado, atendendo à idade, devo referir que foram impressos em bom papel e cada um deles possui 8 ilustrações coloridas e bonitas, em papel couché, não fazendo o desenho qualquer cedência inferiorizante ou "rodriguinho" de traço à classe etária a quem se destinava. Creio que foi a primeira vez, na minha vida, que, para além do conteúdo, livros me despertaram atracção estética pela harmonia que deles emanava. E ainda gosto, imenso, de os manusear.
Nota complementar (posterior): graças a HMJ, a quem agradeço, foi possível identificar a data de impressão de um dos voluminhos - "A História de Cortez...", que é 1937. Deste mesmo livro se diz que as ilustrações são de autoria de V. H. Robinson. É o único que consta do catálogo electrónico da BNP.

Sobre o Bobo



"...Um bobo tem que estudar e ter qualidades muito ocultas. É o segredo da abelha. E bem se vê que muitos se querem meter a dizer chufas e não lhes sai nada que preste. Precisam-se maneiras que nem todos têm. Primeiramente, precisa-se ser muito velhaco; cumpre não ter, nem por isso, lá muita vergonha (assim em meia conta) porque, às vezes, levam a sua meia dúzia de sopapos e é preciso mamá-los com cara alegre, se não perde-se a chuchadeira..."

António Manuel Policarpo da Silva, in "O Piolho Viajante".

Dante : 745 anos



Menos que a sua poesia (hoje tão distante do nosso tempo), que, muito sinceramente, me diz pouco e, tirante as versões portuguesas de David Mourão-Ferreira, são normalmente más, gostaria de lembrar o Homem, do signo dos Gémeos, que nasceu, em Florença, a 29 de Maio de 1265. E, sobretudo, reproduzir o retrato que dele fez Sandro Botticelli. Magnífico como pintura (tirado ao natural, ao que dizem, do crâneo do florentino; ou copiado de toscos desenhos coevos da morte de Dante...). Ainda para mais com aquele nariz " com cavalo", como tinha o nosso Sá de Miranda.É evidente que a "Divina Comédia" merece todo respeito e, até pelo título, a devida reflexão... Florentino, mas nunca copiador : lídimo ouro de lei, puríssimo- autêntico e original.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Luigi Bocherini

Luigi Bocherini nasceu em Luca (Itália), a 19 de Fevereiro de 1743 e veio a falecer, em Madrid, a 28 de Maio de 1805. A sua obra "Retirada de Madrid" é, para mim, um momento de beleza e harmonia musical, inesquecível.

Curiosidades 5 : impostos e obras públicas


A construção e pagamento do Aqueduto das Águas Livres motivou, segundo o "Panorama" (vol. I, pg. 289), os "seguintes tributos especiais, criados por decreto de 26 de Setembro de 1729, a saber: 60 reis em cada alqueire de sal, 10 reis em cada paneira de palha, que se vendesse na cidade e seu termo. Depois lançou-se o real d'água e o realete, que vem a ser 4 reis em cada canada de vinho. O tributo do sal e da palha foram extintos em 13 de Novembro de 1743, ficando subsistindo os outros."

O'Neill, no seu melhor




Tive ocasião de, muito recentemente, ter tido acesso a um proémio de Alexandre O'Neill (1924-1986) às "Obras de Nicolau Tolentino de Almeida" (Estúdios Cor, Lisboa, 1968), em que ele, muito judiciosamente, diz o seguinte:
"...Pode acontecer que o poeta se desacerte ao abotoar-se, diga «perdão!» quando é pisado por vocês, faça uma declaração de amor a um marco do correio, não saiba ganhar a (vossa) vida... Pode acontecer. Mas acautelai-vos: o poeta é um distraído, terrivelmente atento. A sua distracção é pura economia. Apostado em caçar o essencial, o poeta resvala de olhos vagos pelo que já viu e reviu. Ele sabe que até morrer nunca mais terá tempo. Como quereis que perca o tempo que não tem - convosco? Ou melhor: com aquilo que, em vós, é mero ornato repetido até à náusea?..."

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Ao passar pelo Prosimetron


Ao ver no Prosimetron, hoje, um poste muito interessante de MR, sobre o Café Procope que é o mais antigo de Paris (séc. XVII), lembrei-me da beleza do Majestic, no Porto. É já considerado imóvel de interesse público, mas data apenas do início do séc. XX. Fica à esquina da Rua de Santa Catarina e foi local de tertúlias onde pontificaram, ao longo dos tempos, Pascoaes, Leonardo Coimbra, José Régio, Angelo de Sousa. E, posso testemunhar, também Eugénio de Andrade. Para quem não conheça aconselho, vivamente, uma visita, quando for ao Porto.

Voltar a Cioran, por coerência e humildade



"Sabendo o que sei eu não devia correr o risco de nenhuma surpresa. Mas o perigo existe, que digo eu?, ele é quotidiano. Essa a minha fraqueza. Que vergonha em relação à verdade, o facto de poder ser ainda ultrapassado, ou desiludido!"

E. M. Cioran (1911-1995).

Memória 26 : Teixeira Gomes



Passam hoje 150 anos sobre o nascimento de Manuel Teixeira Gomes (1860-1941). Comerciante, diplomata, político, é como escritor que é mais conhecido. Foi embaixador em Londres, no início da República, e num período particularmente difícil das relações entre os dois países. Presidente da República de 1923 a 1925, demitiu-se do cargo ("A política longe de me oferecer encantos ou compensações converteu-se para mim, talvez por exagerada sensibilidade minha, num sacrifício inglório."), tendo, pouco tempo depois, partido para um exílio voluntário em Bougie (Argélia) onde permaneceu até à morte. Escritor fragmentário e disperso, a sua escrita é portadora de uma extrema elegância e de uma clara luminosidade que denuncia as suas origens marcadamente mediterrânicas.

Salão de Recusados XVI : Poesia Galega


A alma mais profunda foi comum, no início, e ainda hoje a contiguidade entre o norte de Portugal e a Galiza é enorme. Entre a chuva, a morrinha ou o "inho" minhoto e o "iño" galego há toda uma irmandade de ternura. E há, pelo menos, para lá dos trovadores galaico-porugueses, um nome incontornável - Rosalía.

1. Um repoludo gaiteiro
de pano sedán vestido
com'un príncipe cumprido
cariñoso e falangueiro,
antr'os mozos o primeiro
e nas suidades sin par,
tiña costum'en cantar
aló po-la mañanciña,
con esta miña gaitiña
as nenas ei de engañar.

Rosalía de Castro (1837-1885)


2. D'aldea lexana fumegan as tellas;
detrás d'os petoutos vay póndos'o sol;
retornam pr'os eidos co'a noite as ovellas
tiscando n'as veiras o céspede mol.
Un vello, arrimado n'un pau de sanguiño,
o monte atravesa de car'o piñar.
Vay canso; unha pedra topóu n'o camiño
e n'ela sentou-se pra folgos tomar.
- Ay!, dixo, qué triste!
qué triste eu estóu!
Y- un sapo qu'oía
repuxo: - Cro, cro!

Manuel Curros Enriquez (1851-1908)


3. Sopra o curisco fora
arrofíanse os campos coa xiada
cai das nubes a neve peneirada...
o inverno chora,
no tellado da casa; o vento refunfuña
cando pasa
y-as tellas arrebuña.

Gonzalo López Abente (1878-1963)


P. S. : Para MR que, há pouco, lembrou Rosalía.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Vale o que vale


As indicações dos atributos dos dias de nascimento, neste postal, valem o que valem. Mas a Amizade não tem preço. Para o António, que me mandou o postal, o fraterno abraço.

Franz Liszt : para agradecer a Todos os que...


Embora compositor romântico para os especialistas e puristas, eu, como mero amador musical, atrever-me-ia a classificar Franz Liszt (1811-1886) como simbolista... Estes "Jeaux d'Eau à la Villa d'Este", integrados no "Terceiro Ano de Peregrinação", aqui ficam para agradecer aos meus Amigos e visitantes, e para provar essa minha afirmação atrevida. É, da obra de Liszt, uma das peças musicais de que mais gosto.

É apenas uma capicua...



Por quem amei
me envelhecem os olhos:
mal me dou comigo jovem.
(25/9/83)


Alan Brownjohn : palavras simples



Não sendo dos mais conhecidos poetas ingleses, vivos, Alan Brownjohn (1931) é , seguramente, um dos mais originais pelas suas palavras simples e pelos seus temas minimalistas, muito atentos ao essencial. Crítico e novelista, colaborador do "Times Literary Supplement", ""Encounter" e "Sunday Times", sobre poesia disse, numa entrevista: "Não vejo a linguagem poética como um veículo para a experimentação - mas como um meio de compreender o mundo e as coisas existentes nele." Brownjohn exerceu a profissão de professor até 1979, altura em que passou a dedicar-se apenas à escrita. Os seus temas mais recorrentes, em poesia, são o Tempo naquilo que tem de irremediável, mas também nas hipóteses virtuais do que poderia ter sido, e não foi.
O sagrado, em sentido lato, é outra das questões mais abordadas pelo Poeta. Aparentemente lineares, os seus poemas ganham com releituras, ou como disse Alan Brownjohn: "Sempre tentei que a força dos (meus) poemas - quando a tem - emergisse, não da primeira vez que são lidos, mas à segunda ou terceira leitura." Passo a traduzir e transcrever "Balance":

A cerimoniosa posição das mãos
No ar tranquilo da benção, da oração,
Em momentos íntimos de amor,

Possui a paz mais exacta. A sua calma retém
Um equilíbrio sagrado: cada acto perfeito
Um instintivo respeito e segurança.

Elas sabem que não devem vacilar nem trair
O que fica sob o seu domínio. Usam a sabedoria
Para evitar os gestos discordantes.

E assim, por alguns momentos, não deslizam
Da cerimónia para a realidade: ficam
A pairar; conduzem-se de modo a não mostrar

Que a benção muitas vezes condescende,
A oração se ergue da miséria onde se forja
E as mãos do amor podem ter fins diferentes.

P. S. : para Alexandra e manu, pela gentil surpresa. E pelo mistério...

terça-feira, 25 de maio de 2010

Contraditório


Por causa do Leonard Cohen, eu estava a dever a mim próprio um contraditório. Por isso, a Tina Turner. Com as melhores lembranças. Em dois tempos e 1 "encore".

Citações XXIX : Francis Bacon


Quando os anos se me fizeram sentir, procurei preparar-me. Sentia-me um sobrevivente: já tantos tinham desaparecido... e eu ainda por cá andava. Sabia, porque tinha lido e havia exemplos ao longo da minha vida, que a velhice pode tomar dois aspectos - a arrogância e a humildade. Tinha conhecido uma bonita velhice de alguém que, com humildade a vivera e chegara aos 81 anos. Mas também tinha constatado que velhice é, normalmente, arrogância.
Ao procurar preparar-me, fiz uma pequena lista de várias obras. H. N., amigavelmente, emprestou-me "De Senectute" ( em tradução francesa) de Marco Túlio Cícero que chegou aos 63 anos e que escreveu a obra dois anos antes de morrer. Comprei "La Veillesse" de Simone Beauvoir que começou a escrever o livro quando tinha cerca de 60 anos. E li outras obras, ainda. Foram uma total decepção. Nenhuma da obras ajudou ou esclareceu e, a maior parte dos textos, era mais um balanço de peripécias, ou uma estatística de casos.
Mas, hoje, ao folhear um livro de Francis Bacon (1561-1626) dei de caras com algumas palavras que, na sua simplicidade, me parecem muito realistas. Aqui vão traduzidas e transcritas:
"...Os homens de idade contrapõem demasiado, documentam-se demais, ousam pouco, arrependem-se muito depressa, muitas vezes levam para casa os seus negócios e preocupações, mas contentam-se, a eles próprios, com a mediocridade de um pequeno sucesso. ..."

Entardecer



Não sei que sons
se calaram há momentos:
o verde dos limões e o branco das paredes
foi tudo o que ficou.

A água está parada
e o sol namora a sombra
- daqui a pouco é noite.

Ouvem-se crianças pela rua fora
e eu quase pressinto
que tu deves ter vindo,
mas já te foste embora.

Mais nada:
é noite agora.

(10/66 - 5/10)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Leituras Antigas I : As Aventuras do Capitão Morgan



Esta colecção das "Aventuras do Capitão Morgan" (que penso não ter nada a ver com Emílio Salgari) era composta, pelo menos, por 81 números e foi das minhas leituras predilectas, aí pelos meus dez anos. Era muito difícil de encontrar, pelos anos 50, porque iniciara a sua publicação no início dos anos 40 (1943/4?) e já tinha deixado de publicar-se. A sua editora era a Empresa Literária Universal (Rua da Hera, 17 - Lisboa) e tinha representante ou distribuidor no Porto: Jornal Divulgação Comercial, na Rua da Cruz, 161. As capas dos livrinhos eram muito sugestivas e, normalmente, algo agressivas quer nas imagens, quer nas suas cores berrantes. Os "fascículos", que mal livros se podiam chamar, tinham, meticulosamente, 23/24 páginas, anúncios diversos no final ou na contracapa, e o preço de venda era de 2$00 (dois escudos), mas comprei muitos a 1$50, ou porque estavam em saldo, ou porque os adquiri em alfarrabistas pouco importantes do Porto, e em quiosques. Lembro-me, perfeitamente, onde comprei o primeiro exemplar: na Póvoa de Varzim, na Tipografia Camões (?). Procurei-os depois incessantemente e consegui reunir 36 livrinhos. Trancrevo o final do nº 53 ("A Caminho de Granada"): "Os Irmãos da Costa não vieram, não se produziu nenhum milagre, e no entanto, ler-se-á na próxima narração, como os nossos heróis e Flor dos Bosques saíram triunfantes deste vespeiro, como Henrique Morgan dizia com tanta razão."
Vi, há dias, na net, o voluminho nº 20 das "Aventuras do Capitão Morgan" ("No País dos Celestes") à venda por euros 3,50.

Bob Dylan

Judeu, com ascendentes russos, Robert Allen Zimmerman, mais conhecido por Bob Dylan, nasceu a 24 de Maio de 1941, nos Estados Unidos. Polémico ou, pelo menos, controverso, começou a sua carreira artística como cantor "folk". As suas canções alargaram-se depois para os temas sociais, afectivos, políticos e, até, religiosos. É uma lenda viva, considerado como um dos maiores cantores americanos, de sempre.

Christine





Do tempo chegam memórias, às vezes, inesperadamente. Basta que regresse uma voz a interromper um silêncio, para que um capítulo do arquivo morto volte ao primeiro plano das imagens activas.
Nos finais dos anos quarenta do séc. XX, depois da II Grande Guerra, cerca de oito centenas de crianças austríacas - dadas as carências do seu país natal - foram acolhidas por famílias portuguesas e por cá ficaram até 1953. Aprenderam o português, vestiram à portuguesa, tomaram contacto com os costumes portugueses. Depois, regressaram à Áustria.
Hoje, um Amigo com quem já não falava há muito tempo, telefonou-me. E, o arquivo morto da memória, reabriu um capítulo esquecido.
P. S. : para F. J. V. C. F..

domingo, 23 de maio de 2010

Cinema Italiano






Está a decorrer a Festa do Cinema Italiano. No meio de tantas e tão memoráveis recordações, o difícil foi escolher apenas duas. Optei por Dino Risi (Uma Vida Difícil) e Giuseppe Tornatore (Cinema Paraíso).

Nos 87 anos de um "Senador" da Pátria



Num país em que os "senadores" da Pátria se podem contar pelos dedos (arrisco: Adriano Moreira, Freitas do Amaral, José Mattoso e Mário Soares) relembro Eduardo Lourenço que hoje completa 87 anos. Com palavras suas de "O Labirinto da Saudade":
"Os Portugueses não convivem entre si, como uma lenda tenaz o proclama, espiam-se, controlam-se uns aos outros; não dialogam, disputam-se, e a convivência é uma osmose do mesmo ao mesmo, sem enriquecimento mútuo, que nunca um português confessará que aprendeu alguma coisa de um outro, a menos que seja pai ou mãe..."

Biblioteca Infanto-juvenil XVI: Colecção Era uma vez...



Os Serões do Avôzinho, sendo o nº 21 desta Colecção Era uma vez..., de 127 x 95 mm, é também o único sobrevivente no acervo de APS. Os Serões eram contados por J. Fontana da Silveira, com ilustrações de Dinis Tâmega de Sousa. O volume, editado pela Livraria Progredior, do Porto, acabou "de se imprimir aos 19 de Maio de 1949". Não tendo indicação do preço de venda de então, constatou-se que, a 2.4.2010, se encontrava um exemplar à venda, na internet, pelo preço de 12,00 Euros.
Mas, para terminar esta secção de livros infantis, vamos ouvir a oportuna lição do avozinho ao seu neto Alvarinho:
"Uma história? - exclamou o Alvarinho, satisfeito, aproximando-se do ancião. - Vamos a ouvi-la. Então, escuta: «Era uma vez um livro que falou com um menino que acabava de o receber. Merece a pena repetir as suas palavras. Foram estas: Não me pegues com as mãos sujas, porque envergonharias a minha classe quando eu fosse parar às mãos de outro menino. Não me deixes apanhar chuva porque os livros também se constipam como as crianças. Não desenhes sobre mim nem me sujes com lápis ou tinta porque tirarás muito valor à minha aparência. (...)"
Continua o livro a falar, terminando desta maneira:
"Trata-me, pois, com amor para que, ao cabo de pouco tempo, te não admires de me ver velho e sujo; ajuda a conservar-me limpo, e, em paga, farei o possível para que sejas feliz e estejas sempre satisfeito."

E com esta boa lição me despeço dos leitores, especialmente de MR.

Post de HMJ

sábado, 22 de maio de 2010

Uma noite especial...




Não é muito frequente dar conta, aqui no Arpose, de acontecimentos culturais, ou outros, de minha especial predilecção. Ultimamente, também não sou grande telespectador, por razões óbvias. Mas hoje é diferente: a RTP 2 tem um programa notável, depois do Jornal 2. Aqui vai para os meus Amigos e visitantes menos avisados:
22,44 hrs. - Entrevista a João Bénard da Costa (1935-2009) - Filme da Minha Vida.
23,03 hrs. - "Johnny Guitar" (1954) de Nicholas Ray (1911-1979).
01,00 hrs. - "Intriga Internacional" (1959) de Alfred Hitchcock (1899-1980).
Tenham uma boa noite televisiva!, como eu vou ter. Se não forem ao "Rock in Rio"...

Memória 25 : Charles Aznavour

Shahnour Vaghinagh Aznavorian (apelido final em "ian" como todos os arménios: vide Calouste Gulbenkian, por exemplo) nasceu, em Paris, a 22 de Maio de 1924, filho de pais arménios emigrantes. Afrancesou, como artista, o seu nome para Charles Aznavour. Actor, cantautor e, mais recentemente (2009) embaixador honorário nomeado pela Arménia como seu representante na Suiça, bem merece ser lembrado, hoje, no dia do seu 86ºaniversário.

Prosápia



De "Glosas al Sermón de Aljubarrota", atribuidas a Diego Hurtado de Mendoza (1503-1575), passamos a traduzir e transcrever:
"...em Salamanca tendo um português terminado o seu bacharelato, perguntaram-lhe os seus colegas se depois de graduado se se sentia mais do que era antes; respondeu: - Sinto uns fumozinhos em forma de presunção."

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Franz Schubert : "Sobre a água a cantar"

Já em Dezembro de 2009 postei esta canção de Schubert ("Auf dem Wasser zu singen") apenas em versão musical de Jorge Bolet, ao piano. Mas esta soprano bávara, Irmgard Seefried (1919-1988), canta maravilhosamente.

Um novo Top ten : Romance em língua portuguesa

Em 14 de Abril de 2010 foi colocado um poste intitulado "Top ten : Romance Português - Séc. XX", aqui no Arpose. Amigos, visitantes e eu próprio fizemos as escolhas pessoais de preferências. Tive hoje notícia que a Universidade de Coimbra promoveu o concurso «10 Paixões em Forma de Romance" abrangendo os romances de sempre escritos em português. Eis a lista vencedora, para que conste:
1. Amor de Perdição - Camilo Castelo Branco.
2. Aparição - Vergílio Ferreira.
3. Dom Casmurro - Machado de Assis.
4. O Delfim - José Cardoso Pires.
5. Esteiros - Soeiro Pereira Gomes.
6. Memorial do Convento - José Saramago.
7. Os Maias - Eça de Queirós
8. A Sibila - Agustina Bessa-Luís.
9. Sinais de Fogo - Jorge de Sena.
10. Terra Sonâmbula - Mia Couto.

Bibliofilia 17 : José Daniel Rodrigues da Costa





Nem sempre bibliofilia coincide com qualidade literária. A bibliofilia persegue a raridade, quase sempre; o estudioso da literatura procura, sobretudo, a excelência dos textos.
José Daniel Rodrigues da Costa (1757-1832) terá nascido perto de Leiria e usou, arcadicamente, o nome literário de Josino Leiriense. Tem obra vasta e terá vivido, principalmente, da escrita, como Camilo mais tarde. Mas as suas obras, vendidas em fascículos semanais, quinzenais e mensais, deram origem a alguns "best-sellers", sendo o mais conhecido intitulado "Almocreve das Petas...". Pouquíssimos o estudaram e para além das referências de Inocêncio, há - tanto quanto eu saiba - pouco mais que um trabalho interessante e meritório de João Palma Ferreira, incluído em "Obscuros e Marginados", IN-CM (1980), com o título "Apontamentos sobre José Daniel Rodrigues da Costa e a Fortuna da Sátira" (pgs. 103/138). Contém uma preciosa bibliografia, embora com algumas lacunas. O facto de grande parte das obras de Rodrigues da Costa, tais como "Os Engeitados da Fortuna...", "Comboy de Mentiras..." ou "Portugal Enfermo..." terem sido publicadas em fascículos continuados contribuiu para a raridade de as encontrarmos completas. São, portanto, muito pouco frequentes, muito apetecidas e, normalmente, muito caras. Sendo, como João Palma Ferreira diz, J. D. Rodrigues da Costa pouco culto, os seus livros e poemas não são obra erudita, nem de grande excelência e qualidade literárias. São, porém, fáceis de ler, divertidas e dão uma interessante visão sociológica da época, com os seus maneirismos, tiques, modas e costumes.

P. S. : para MR - o prometido é devido.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Favoritos XXII : Leonard Cohen

Os meus primeiros contactos com as canções de Leonard Cohen (1934) não foram os melhores. Por uma questão de ritmo. Um grande amigo meu da altura (anos 70), hoje perdido no tempo e na geografia, era um fanático ouvinte de Cohen. Eu depreciava, achava-o muito lento e meloso. O meu ritmo era mais o de Tina Turner (1939), com o Ike por má companhia. Com o tempo e idade, porém, foi-o ouvindo com menos irritação e impaciência e, hoje, já gosto de o ouvir. Daí o poste e o "envoi" para E. S. , onde quer que ele esteja.

Salão de Recusados XV : Juventude



1. Talvez a juventude apenas seja isto:
sem arrependimento amar sempre os sentidos.

Sandro Pena (1906-1977), trad. de D. Mourão-Ferreira.


2. Adolescentes que vão pelos caminhos
tão seguros de si e tão sozinhos.

João José Cochofel (1919-1982).


3. Sim, eu conheço, eu amo ainda
esse rumor abrindo, luz molhada,
rosa branca! Não, não é solidão
nem frio, nem boca aprisionada.
Não é pedra nem espessura.
É juventude. Juventude ou claridade.
É um azul puríssimo, propagado,
isento de peso e crueldade.

Eugénio de Andrade (1923-2005), versão de 1961.


P. S. : para c. a..

« Os poetas nunca mentem»



No seu livro "Poetas Españoles Contemporáneos"(Gredos, Madrid, 1969), e nas páginas dedicadas a Antonio Machado (1875-1939), capítulo "Los poetas nunca mienten"(pg.110), Dámaso Alonso(1898-1990) refere, e passo a traduzir:
"Na introdução às «Páginas escogidas» (edição Calleja), Machado escreveu: «É meu costume não voltar nunca ao que está feito e não reler nada daquilo que escrevi...». Vamos ver repetidas vezes quão inexactas são essas palavras. Mentia Machado? Não; aqueles que o conhecemos e o amamos sabemos como era incapaz aquela nobre alma de mentir ou fingir. Esses «prólogos» são sempre perigosos. É numa espécie de prólogo que Frei Luís (de León) fez esta afirmação: «... na minha mocidade, e quase na infância me cairam como de entre as mãos estas obrazinhas...». As «obrazinhas» são nada mais nada menos que as suas odes... Frei Luís, que através dos séculos em tantas coisas se pode comparar com Machado (em profundidade, altura e intensidade de inspiração), não era homem de mentiras. Quando um poeta fala da sua poesia, não lhe peçamos rigor; não: ele mergulha o seu olhar num vago mundo poético. Os dados mais inexactos - muita atenção, crédulos e probos investigadores! - são os mesmos que o poeta proporciona sobre a sua própria pessoa ou sobre a sua poesia. E tomai nota disto: um verdadeiro poeta nunca mente."

P. S.: para MR que gosta de Antonio Machado.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O mês de Maio, os Papas e Portugal



Se excluirmos o Papa S. Dâmaso, que terá nascido em Guimarães no séc. IV e que, na cidade-berço tem direito a nome de freguesia e igreja (orago que andou em bolandas e mudou, pedra por pedra, para junto do Castelo onde se encontra); dizia eu, se pusermos de lado S. Dâmaso, que nasceu antes de Portugal ser nação, o único papa português é Pedro Julião ou Pedro Hispano que foi, em Roma, João XXI. Médico respeitado, pontificado breve, tinha nascido em Lisboa, ao que parece na freguesia de S. Julião, antes de 1226. Foi aluno de S. Alberto Magno, foi arcebispo de Braga, e condiscípulo, no estrangeiro, de S. Tomás de Aquino e S. Boaventura. O seu pontificado durou apenas 8 meses: de Setembro de 1276 a 20 de Maio de 1277. E há duas versões para o seu local de morte, mas que têm uma mesma base comum e coincidente: obras de manutenção. A versão mais difundida é que houve um desmoronamento nos aposentos em que se encontrava e que estavam a ter obras de beneficiação, provocando-lhe a morte. A segunda versão é que, tendo João XXI ido visitar e vistoriar as obras de uma igreja, na altura em que ele passava a cavalo, o telhado ruíu e o desabamento atingiu-o, mortalmente. Coincidências fastas ou nefastas papais que ocorrem em Maio. Mês habitualmente escolhido pelos Papas para visitar Portugal, por causa de Fátima aonde foram Paulo VI, João Paulo II e, recentemente, Bento XVI.

Breve nota, em forma de declaração: este poste não tem nada a ver com a "pappa col pomodoro" da Rita Pavone.

Quase um "pipabaquígrafo", em jeito revivalista irreverente: Rita Pavone


Em adenda a Mercearias Finas. Para maiores de 18 anos, e para um bom dia!

Mário de Sá-Carneiro




Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), poeta e prosador notável, nasceu precisamente há 120 anos. É, com Almada e Pessoa, a trindade magnífica do modernismo português. O facto de ter morrido jovem não lhe permitiu libertar-se totalmente de algumas influências (Nobre e Pessanha, principalmente) para aceder a uma voz mais pessoal. Muito embora a exuberância quase barroca ( que prenuncia o surrealismo) e alguma estridência de tom identifiquem muitos dos seus poemas. Será uma evidência repetí-lo, mas sendo tão impressivo o poema, obviamente aqui o lembramos nos versos de "Fim":

Quando eu morrer batam em latas
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!

Mercearias Finas 7





Vai-se compor o poste por causa do Arroz de pato, ao jantar. Mas o vinho escolhi-o mal, valha a verdade. Tenho sempre alguma dificuldade nos casamentos líquidos das ementas onde entra pato. Hoje, optei por um monocasta branco Antão Vaz, do Alentejo e, francamente, foi um desastre. Acho que teria ido melhor com vinho tinto, ainda que leve. Talvez Beiras ou Dão. Mas falei, a princípio, de Arroz de pato. Tenho de confessar que sou um "arrozeiro" indefectível. E, na família, tenho um continuador radical - os genes sempre contam para alguma coisa... E tenho, para mim, de forma definitiva que se cozinha melhor o arroz a Norte, do que a Sul. E não é só do estrugido ou refogado, são outras sabedorias ancestrais.
Sempre pensei que, em Portugal, a sequência teria sido: castanhas, batatas, arroz. Estava enganado (obrigado, António!). Já se plantava arroz no tempo do rei D. Dinis, muito embora o seu uso intensivo comece a crescer a partir do séc. XIX. Camilo tem um romance tripartido intitulado: "Coração, cabeça e estômago". Como se dissesse: mocidade, maturidade e velhice. Não sei se Ana Plácido era boa cozinheira. Mas que eu tenho comido bom arroz de carqueja, em Vila Nova de Famalicão, é verdade. Acabemos com palavras do escritor de S. Miguel de Seide, para acabar em beleza: "...E assim se prova que o orgão mais sensível à eloquência é ela (a barriga), e que a humanidade sofredora é um estômago desconcertado..."

P. S.: a A. A. M. e H. N., com agradecimentos bibliográficos, e não só.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Haja deus!



O Tribunal Internacional de Haia quer e aceita Baltasar Garzón.
O Juíz Baltasar Garzón recebeu o prémio Liberdade e Democracia René Cassin, na Escola de Ciências Políticas de Paris.
( dos jornais)
Felizmente, nem tudo são más notícias.

Citações XXVIII : Francisco de Quevedo y Villegas




"Onde há pouca justiça é um perigo ter razão."


Francisco de Quevedo y Villegas

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Música e Poesia X : Patxi Andión


Há muito mais proximidade entre a poesia portuguesa e a poesia espanhola do que, por exemplo, a brasileira que até usa a mesma língua. O que é necessário é, talvez, dar por isso.
Para MR, num vai-vem onde até entra "A Ilha do Tesouro".

Há 500 anos, Sandro Botticelli




Alessandro di Marino Vanni Filipepi nasceu em Março de 1446 (?) e veio a falecer a 17 de Maio de 1510, exactamente há quinhentos anos. Mas a sua pintura ainda hoje parece moderna. Sendo Sandro um diminutivo de Alessandro, o apelido Botticelli - que significa pequeno pipo - veio-lhe da alcunha do irmão mais novo, Giovanni, que era gordo. Esta é a explicação que dá Giorgio Vasari, pintor também e arquitecto que o biografou, bem como a mais seis artistas da época. Botticelli cedo começou a trabalhar como aprendiz de ourives mas, insatisfeito, passou para aluno do pintor, já consagrado, Fra Filippo Lippi. Dadas as suas qualidades de artista e sucesso das suas obras, foi apoiado pela poderosa família dos Medicis. Ainda segundo Vasari a primeira "Adoração dos Magos", de 1475, retrata Cosimo Medici (que é o rei mago mais velho que, ajoelhado, beija o pé de Jesus menino), Giuliano e Giovanni Medici - todos como reis magos. E do lado direito do quadro, em primeiro plano, há um auto-retrato do próprio Sandro Botticelli. O pintor, embora ganhasse bom dinheiro com as contínuas encomendas que lhe faziam, era também muito perdulário. Foi, por algum tempo, um adepto fervoroso do apocalíptico orador Savonarola.
A pintura de Botticelli é reconhecida por uma aérea elegância de corpos e movimento onde parece haver o desejo impossível de cruzar o sacro com o profano, a mitologia greco-romana com a simbologia cristã, num neo-platonismo ideal.

domingo, 16 de maio de 2010

Em louvor da comédia italiana : Ettore Scola e Alberto Sordi

A morte deveria ser, por motivos óbvios e para os católicos, um motivo de júbilo. Não é, todavia alguns italianos parece que perceberam isso.
P.S. : com re-"envoi" para JAD, com amizade.

Bibliofilia 16 : Folheto do séc. XVIII



São pouco frequentes os folhetos à venda em alfarrabistas ou leilões, quer sejam de poesia, sermões ou de assuntos variados como os de José Daniel Rodrigues da Costa. A fragilidade das suas poucas páginas, a má qualidade do papel (habitual) e a erosão do tempo são, de algum modo, os principais responsáveis pela sua perda. Mas eram estimados e Almeida Garrett fala deles, dizendo que também eram vendidos pelos cegos, no início do séc. XIX, nas cercanias da Baixa lisboeta. Muitas vezes, os folhetos eram encadernados em "Miscelâneas" de assuntos diversos e, em leilões, bibliotecas e alfarrabistas, assim ainda apareciam agrupados. Mas também acontece, sobretudo a partir do séc. XX, serem as miscelâneas desencadernadas para os vendedores melhor lucrarem com a sua venda, em separado.
Os folhetos custavam, em média, Esc. 5.000$00 (cca. euros 25,00), mas hoje estarão mais caros, porventura. Dependendo o preço, também, do autor da obra. O folheto que ora se apresenta, "Egloga de Florencio, e de Liberata", de 1759, é de autoria de Caetano Araújo Lasso que Inocêncio diz ser "poeta bucólico hoje desconhecido" (Tomo II, 5) e ter mais uma composição impressa. Tem o folheto, no entanto, uma carta introdutória de João Xavier de Matos, que é interessante.

Antonio Machado/ Patxi Andión/ Baltasar Garzón

Porque os cogumelos venenosos do franquismo, às vezes, voltam à tona.

sábado, 15 de maio de 2010

Biblioteca Infanto-juvenil XV: Colecção Manecas


A Livraria Romano Torres editou, na Colecção Manecas, alguns dos contos infantis mais conhecidos, contados "ás crianças" por autores diversos. Os ilustradores também variam e, assim, a qualidade dos desenhos.
Dos títulos registados na imagem sobreviveram apenas sete volumes no "baú" de APS. Os livros, com uma dimensão de 190 x 135 mm, vendiam-se ao preço de 3$50.
Nas Novas Aventuras de Pinóquio, compostas e impressas na Gráfica Santelmo, em 1955, encontramos, infelizmente, gralhas. Assim, logo no início, aparece um "boneco de modeira" [sic] e, na página 5, "Pinóquio desejou ir dar um passeio ao campo ... creto [sic] domingo."
O preço de venda exigia maior atenção na composição e as crianças mereciam uma revisão final cuidada.

Para MR quando se aproxima o fim deste "baú" de livros infantis

Post de HMJ

Memória 24 : Emily Dickinson



Há muito que gostaria de ter falado de Emily Dickinson (1830-1886), mas não terá havido motivo suficiente ou razões objectivas para o fazer. Esta autora americana, que criou um "dialecto" poético de sintaxe, pontuação e elípticos sentidos muito próprios, compôs uma obra imensa de mais de 1.500 poemas, a maior parte deles breve, mas à sua morte, em 15 de Maio de 1886, só tinha publicado apenas 7 poesias. Celebra-se, hoje, o aniversário da sua morte. E nada melhor que a morte, que está obsessivamente nos seus poemas, para lembrá-la.
Numa carta a um amigo, traça de si um curto retrato, algo irónico: "... pequena como a carriça; o meu cabelo é forte como o ouriço das castanhas e os meus olhos como o «sherry» que o visitante deixa no fundo do cálice...". Emily Dickinson viveu, grande parte da sua vida, em reclusão por ela escolhida. Ou como disse em verso: "...A alma escolhe a sua própria sociedade / Depois fecha a porta...". Quando, raramente, saía usava quase sempre roupas brancas. As suas amizades, nem sempre correspondidas em profundidade pelos outros, quer fossem masculinas ou femininas, eram intensas. Como intensa era a sua vida interior. Lia muito, sobretudo a Bíblia, mas também Shakespeare (aliás, muitos dos seus poemas lembram diálogos dramáticos ou teatrais), e John Keats. A morte, a eternidade e a dor ("Depois de uma grande dor chega o sentimento / Formal - os nervos descansam silenciosamente como túmulos;...") são os seus temas mais recorrentes e obsessivos.
Jorge de Sena traduziu-lhe, em 1978, com grande qualidade, 80 poemas (Edições 70). Para a tradução que fiz, e transcrevo a seguir, escolhi um poema que, creio, nunca terá sido vertido para português. A exemplo de William Blake, René Char ou Saint-John Perse, traduzir Emily Dickinson é tarefa condenada à imperfeição pela singularidade da sua poesia. Além disso a escritora e poeta americana raramente dava títulos aos poemas, títulos esses que, em muitos autores ajudam à descodificação dos temas e melhor compreensão da obra em si.


Porque não podia deter a Morte
Ela gentilmente me travou;
A carruagem parou precisamente
Entre nós e a Eternidade.

Guiamos sem pressa, suavemente,
E eu pus de lado
O meu trabalho, e o ócio também,
Por causa da sua urbanidade.

Passamos pela escola onde crianças
Lutavam no recreio;
Passamos por searas que nos fitavam
E passamos também p'lo pôr do sol.

Paramos junto à casa que parecia
Da terra o prolongamento;
O telhado mal se via
A cornija um alto de terra apenas.

Tantos séculos se passaram; cada um
Sentia os dias cada vez mais curtos
E a princípio suspeitei que a fronte
Dos cavalos rumava à eternidade.

Torquemada vive



A democracia sempre tratou os seus defensores com mais rigor do que os seus próprios inimigos. Que, inexplicavelmente, são objecto de pruridos de consciência, respeito e tolerância zelosamente democrática. É isso que, muitas vezes, contribui, decisivamente para o suicídio da própria democracia. Em Portugal, muitos dos militares de Abril foram julgados por erros menores ou questões mesquinhas, enquanto grande parte dos pides escapou ao julgamento ou às penas que mereceriam.
Baltasar Garzón (1955) foi suspenso pelo Conselho Geral do Poder Judicial (espanhol). Ao sair da Audiência Nacional, havia um cartaz que dizia: "Torquemada vive!". Os espanhóis são sucintos e certeiros a definir situações e coisas. E directos.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Brian Eno : para ms, a agradecer

... e porque Brian Eno (1937) faz anos amanhã. Muito embora saiba que as nossas preferências particulares nem sempre coincidem. Mas que há muito, do que é essencial, que nos une.

Especialmente desaconselhado aos hipocondríacos

Heinrich Biber : para a despedida

A "Missa Bruxellensis", de Heinrich Biber, foi composta em 1692 e é portanto posterior à "Missa Salisburgensis". Não terá a frescura notável da primeira, mas é, apesar de tudo, uma agradável obra musical sacra.

Praxes conimbricenses



Fortuitamente, nasci em Coimbra e em plena celebração da Queima das Fitas, segundo me disseram. Nos inícios de 60 lá voltei para estudar e por lá passei cerca de dois anos lectivos. Vivi, "sofri" e, vagamente, exerci também as praxes académicas. Eram aspectos "legislativos" inocentes, se comparados com a crueldade e desmandos que, hoje, se praticam em nome da tradição (?) praxística. E que condeno, veementemente. Não sei se hoje se mantêm, em Coimbra, as regras que até tinham o seu próprio código em livro: "Código da Praxe Académica de Coimbra", Coimbra Editora, 1957. Dele respigo alguns pontos mais interessantes, hierárquicos e não só:
1. Título VI - Da hierarquia das Faculdades - Artigo 14º : A hierarquia das Faculdades, em ordem descendente, é a seguinte:- Medicina, Direito, Ciências, Letras e Escola Superior de Farmácia.
2. Título VI - Da hierarquia dos animais - Artigo 15º : A hierarquia dos animais, em ordem decrescente é a seguinte:- «Bicho», «cão», «polícia» e «caloiro».
3. Título XII - Das auto-protecções - Artigo 151º : Todos os que estiverem embriagados ficam auto-protegidos, ainda que só haja protecção de sangue. Esta protecção tem o nome de protecção do «Deus Baco».
4. Título II - Da tourada ao lente - Artigo 213º : Constitui "tourada ao lente" a recepção feita pela Academia ao professor universitário, doutorado ou não, nacional ou estrangeiro, no momento em que este se disponha a dar em Coimbra a sua primeira aula teórica a alunos universitários.

Citações XXVII : Bento XVI



Joseph Alois Ratzinger (1927) disse:
"Tanto a arte como a religião partem da ferida, de uma ferida semelhante: a interrogação. Nesse sentido, acabam por iluminar-se mutuamente. Ambas são formas de demanda, formas de nomadismo."

Privilégios dos Cidadãos do Porto



Em 1 de Junho de 1490, encontrando-se D. João II em Évora, em carta régia, concedeu aos cidadãos do Porto alguns privilégios que viriam a ser confirmados por Filipe I, em Novembro de 1596. Recordemos alguns deste privilégios:
1.- Não serem presos nem metidos a tormento senão nas mesmas condições em que os fidalgos o podiam ser.
2.- Poderem trazer por todo o reino e senhorios régios quais quer armas, quer de noite quer de dia.
3.- Desfrutarem dos mesmos privilégios que gozava Lisboa ressalvando a proibição de andarem em bestas muares.
5.- Não serem obrigados a hospedar gratuitamente poderosos, nem tomadas as suas casas, adegas, cavalariças, bestas de sela e albarda ou qualquer outra coisa contra sua vontade.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Gottfried Benn e Chopin




Mão amiga me trouxe, ontem, uma voz desconhecida para mim: Gottfried Benn (1886-1956), poeta alemão. Os poemas são traduzidos por Vasco da Graça Moura e, embora não cotejados com os originais, as versões parecem-me de grande qualidade. Escolhi "Chopin".
Não muito fecundo na conversa,
as ideias não eram o seu forte,
as ideias vão de roda,
quando Delacroix desenvolvia teorias
ele ficava inquieto, por seu lado
não podia dar razões para os Nocturnos.
Fraco amante:
sombra em Nohant
onde os filhos de George Sand
nenhum conselho proveitoso
lhe aceitavam.

Doente dos pulmões,
com hemorragias e formação de cicatrizes
naquele modo que se arrasta;
morte tranquila
ao contrário de uma
com paroxismos de dor
ou com salvas de tiros:
encostaram o piano (Erard) à porta
e Delphine Potocka
na hora extrema
cantou-lhe um Veilchenlied.
Viajou para Inglaterra com três pianos:
Pleyel, Erard, Broadwood,
tocava a vinte guinéus por noite
um quarto de hora
nos Rothschilds, Wellington, em Strafford House
e perante inúmeras jarreteiras;
sombrio de fadiga e do acercar da morte
voltava para casa
no Square d'Orléans.
Depois queimou os seus esboços
e manuscritos,
sobretudo nenhuns restos, fragmentos, notas,
esses indícios traiçoeiros -
e disse no fim:
«As minhas tentativas consumaram-se à medida
do que me era possível alcançar».
Cada dedo devia tocar
com a força correspondente à sua estrutura,
o quarto é o mais fraco
(só irmão siamês do dedo médio).
Quando começava, pousava-os
em mi, fá sustenido, lá sustenido, dó.
Quem dele já ouviu
certos Prelúdios,
seja em casas de campo ou
em colinas
ou por portas abertas de terraços,
por exemplo, de um sanatório,
dificilmente o esquecerá.
Nunca compôs uma ópera,
nenhuma sinfonia,
só estas progressões trágicas
de convicção artística
e com uma mão pequena.

Nota breve: G. Benn exerceu durante a sua vida a profissão de médico. Enquanto lia este poema não pude deixar de pensar na "Arte de Música" de Jorge de Sena.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Contra a obscuridade



Os pântanos e as areias movediças, às vezes, são terríveis: não permitem avançar, enredam-nos, pegajosamente. Fomes de séculos, ignorâncias genéticas de gradual degenerescência, tontices de pouca cultura : são alguns dos suspeitos do costume, para além da prosápia bacôca, quando não de uma hipocrisia de sacristãos que "manquejam" do cérebro, como Camões "manquejava" de um olho. Há questões fracturantes na sociedade portuguesa, são reais e há que tê-las em conta.
Sobretudo quando são dialogadas de forma limpa, alta e digna. O problema é que há uma gentinha a puxar "para o chinelo" que quer arrastar os outros para o pântano da treta, da desconversa, da demagogia dos "clichés" e do politicamente correcto. Que maçada!...
Jorge de Sena, no seu prefácio a "O Reino da Estupidez (I), escrevia: "...O espírito religioso não tem que ver, a não ser em subsistência de ritualismos primitivos, com uma ordem moral. Quando, por um gesto mal feito, o homem temia ofender a divindade, era compreensível que, teocraticamente, fosse organizada e mantida uma normalização ética no seio de uma natureza hostil. Mas, quando o progresso das ciências postula que a religiosidade é, inescapavelmente, uma situação interior, cuja liberdade deve ser protegida e respeitada, qualquer normalização que extrapole esses limites, quer impondo aos outros uma conduta que nos seja atraente, quer tentando regulamentar aquela situação, viola os direitos sagrados da dignidade humana, essa dignidade que nunca soubemos tão bem, como hoje, qual deverá ser."
Por palavras de Jorge de Sena, disse. E acrescento, no ano do 1º centenário: Viva a República!

P. S.: para JAD e MR, solidariamente.
Nota: pedi a Eugénio de Andrade o título, deste poste, emprestado.