Ora atente-se neste retrato muito curioso que Rocha Martins (1879-1952) traça sobre nós:
" O português desinteressa-se colectivamente; não vibra numa acção conjunta. Entusiasma-se facilmente -, é um rastilho - mas com a mesma rapidez se aborrece. É uma faúlha. Impulsivo, ardente, cosome-se como um fogaréu de palha. Para ele só existe o facto realizado. Falho de espírito crítico e ávido de sensações, ignorante e pouco previdente, com um fundo ancestral de mandria e uma confiança estúpida nos que, por força, o hão-de explorar, indignado ao ver-se no ludíbrio, é então feroz, pachola ante o fascinador, o intrujão, é pascácio e tolo, como seu filho a quem vendem cordões de latão. Ele acabou por duvidar à saloia e fatalmente por se deixar vigarizar embora se julgue com lume no olho. Isto, porém, acontece-lhe, por via de regra, diariamente sem que se emende mas é certo também, que não faz cousa alguma para isso. Em políticos já não acredita e hoje tem apenas um ideal à vista e outro escondido: o que mostra é a ânsia de comer barato; o que oculta é o sonho de se alimentar de graça."
Rocha Martins, in "Resposta de Roberto" (17-III-1923), pg. 12.







