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sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

O CAM em tirocínio para MAAT



Felizmente, o núcleo central do Museu Calouste Gulbenkian manteve-se inalterável. Rembrandt, Guardi, Lalique continuam a poder ser vistos pelos visitantes. Conserva o bom gosto e qualidade do Sr. Calouste.
Mas no CAM, estes novos curadores e administradores foleiros tinham que meter o pé na poça e, a exemplo dos gerentes das grandes superfícies de distribuição, dar nas vistas, e mudar as arrumações, para os chefes baterem palmas e aprovarem as suas palermices. Introduzindo artistas de muito duvidosa qualidade artística.
Assim, deixamos de poder ver Almada, os Galgos de Souza-Cardoso, José de Guimarães, Pedro Chorão... foi tudo para as reservas escondidas.
Este Feijó é, realmente, um grande esteta cómico!
Bem merece, a seguir, ir para o MAAT, bugiar.

terça-feira, 10 de setembro de 2024

Mudam-se os tempos...

 

Dantes, eram as bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, por cá, agora, por falta de vocações católicas são as igrejas móveis, a que os alemães chamam das Gottesmobil. Esta, em imagem, anda pela Floresta Negra a dizer missas, e com padres nómadas...

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Desabafo (75)


A parolice nacional, por vezes, excede a capacidade da minha tolerância e da minha paciência. A BNP, que foi capaz de ignorar ou omitir o centenário do nascimento de Eugénio de Andrade (1923-2005), desdobra-se agora em publicitar uma exposição sobre o faraó egipcio Tutankhamon. Eu imagino que se deve ao facto de usarem a palavra inglesa superstar no título da mostra da Gulbenkian. Nas mentes débeis, há palavras que têm efeitos mágicos. Outro exemplo é o termo procrastinar. E ninguém nos consegue livrar destas parvoíces mentais...

quarta-feira, 9 de março de 2022

Dicionários e Enciclopédias temáticas



Estes Vademecum, sendo bem feitos, conscenciosos e elaborados por conhecedores da matéria tratada, têm um valor inestimável para amadores e para quem queira ficar a saber alguma coisa sobre os assuntos.
Nem tudo se pode encontrar por lá, daquilo que gostaríamos, e compreende-se, apesar das 1114 páginas cerradas deste Dictionaire des Interprètes et... (Robert Laffont, 1989), do chefe de orquestra Alain Pâris (1947) que orientou um grande número de colaboradores-especialistas. Comprei o grosso volume, usado, muito barato, há tempos, e valeu a pena.
O seu anterior proprietário vê-se que era um melómano e percebia bastante de música pelas anotações a lápis que deixou no livro. Uma das mais curiosas, embora pessoal, foi a que escreveu na entrada do pianista e chefe de orquestra espanhol José Iturbi (1895-1985), assim: 1º pianista que ouvi aos 15 anos. São também inúmeros os apontamentos de nomes de artistas que não constavam deste dicionário, de que eu destacaria o do pianista português Sequeira Costa (1929-2019).
Aliás não são muitas as entradas de artífices portugueses. A referir, cronologicamente:
- José Vianna da Mota (1868-1948), na página 861.
- Pedro de Freitas Branco (1896-1963), a páginas 381.
- Maria João Pires (1944), pg. 691.
Anotem-se ainda as entradas da Orquestra e do Coro da Fundação Gulbenkian, no capítulo das instituições musicais.
Como curiosidade final, não gostaria deixar de referir as entradas, nesta obra, dos 3 irmãos Marx, na sua qualidade, respectivamente de: Chico (pianista), Groucho (guitarrista e tocador de banjo) e Harpo Marx, como harpista.
Ainda assim creio que nenhum destes últimos músicos chegaria aos calcanhares de Sequeira Costa. Mas como lá diz o povo: Mais vale cair em graça do que ser engraçado...

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

O estado das (des)Humanidades



Comprei há dias, a preço de saldo (6 euros), um conjunto de ensaios camonianos muito interessantes, editados pela Livros Cotovia (2008), e de autoria do professor catedrático Vítor Aguiar e Silva (1939). Escritos de uma forma simples, trazem uma série de achegas fundamentadas sobre a obra lírica e épica de Luís de Camões. Aquando do lançamento, a obra custava 25 euros.
Exactamente há 40 anos (1981), os Arquivos do Centro Cultural  Português, em Paris, da Fundação Calouste Gulbenkian, produziram um grosso volume de 858 páginas, todo ele dedicado a Camões e à sua obra. Os ensaios pertenciam e contavam 21 camonistas portugueses, bem como acolhiam estudos de mais 18 colaboradores estrangeiros. Grande parte deles ensaístas de renome.
O preço reduzido de saldo que referi, no início, é um seguro indício do desinteresse que a obra terá despertado. Simultaneamente, hoje, eu teria extrema dificuldade em nomear 5 nomes, para além de Aguiar e Silva, de camonistas de reconhecido mérito, a leccionar em universidades portuguesas...

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Reacções


Têm sido muito diversas as reacções dos meus próximos ao estado de sítio destes tempos mais recentes, desde a resignação ponderada à impaciência frenética, da acédia à quase depressão, do realismo positivo ao pessimismo doentio, quando não, tolo. Depois, há também umas damas piedosas que se apegam com santas e santos de sua estimação. Uma coisa é comum a muita gente: o rearrumar da casa, onde os livros se incluem. Premonitoriamente, parece, eu comecei a fazê-lo ainda em Janeiro, no dealbar do presente ano.
Ontem, dizia-me um bom amigo, que já me vem da infância, que vai estando um pouco farto até porque lhe falta a adrelina, mas também nos rimos, ao telefone, de algumas situações caricatas acontecidas por aí. E, hoje, de um vídeo que me mandaram, Ana Vasconcelos, curadora da Gulbenkian, cita o pintor David Hockney (1937) que, da Normandia onde reside, de momento, teria dito: Temos que continuar a trabalhar porque, lembrem-se, não se pode cancelar a Primavera.
Ora, este parece-me ser um bom lema adequado ao tempo, em vez de perdermos as estribeiras...

sábado, 11 de abril de 2020

A Idade de Ouro do Mobiliário Francês: Maquete de oficina



Como o saber não ocupa lugar, este brevíssimo vídeo que me mandaram, e aqui partilho, com gosto.

agradecimentos a N. C..

domingo, 14 de julho de 2019

Novidades


Embora tenha perdido a Partex, por venda a uma empresa oriental, em Junho passado, a Fundação Gulbenkian vai ganhar 8.000 m2 de novas áreas verdes e com o prolongamento do CAM. O projecto é do arquitecto japonês Kengo Kuma (1954).

quinta-feira, 29 de março de 2018

Se estiver em Lisboa, e até 1 de Abril...

...poderá ver esta exposição na Gulbenkian.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Para a história de "O almoço do trolha", de Júlio Pomar


É sabido que o emblemático "Almoço do trolha", de Júlio Pomar (1926), foi vendido, num recente leilão do Palácio do Correio Velho, em Maio passado, pelo considerável montante de 350.000 euros, um recorde em pintura portuguesa. O que nem toda a gente saberá é que, na exposição inicial (SNBA) desta conhecida obra de recorte neo-realista, em Outubro de 1950, o seu preço de catálogo, conforme se poderá ver na imagem, era de Esc. 7.500$00.
De início, e após o leilão de Maio de 2015, não ficou a saber-se quem o teria adquirido, embora transpirasse que o licitador vencido teria sido uma estranha parceria entre a Secretaria de Estado da Cultura e a Fundação Gulbenkian.
Tive, hoje, a grata alegria de saber que o famoso quadro fora adquirido pela Fundação Manuel de Brito, e que a obra integrará, futuramente, uma exposição retrospectiva da obra de Júlio Pomar. São boas notícias, sobretudo por saber-se que esta conhecida e importante pintura do século XX português, se encontra em mãos e território nacionais.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Curiosidades 22


Com os anos e leituras, a figura controversa, e algo enigmática, de Felipe II (1527-1598), de Espanha (I de Portugal), foi ganhando contornos nítidos muito diferentes daqueles que o definiam, para mim, na adolescência. Filho de Isabel de Portugal e de Carlos V, era neto de D. Manuel, o nosso rei Venturoso. E muito de português tinha ele, sem dúvida, além de gostar de Portugal - em Lisboa, ficou ele cerca de dois anos, com agrado, embora tivesse saudades das filhas. Felipe I (de Portugal) era um burocrata minucioso, respeitador escrupuloso dos acordos que fez com os portugueses, cristianíssimo e pio, mas também misterioso, talvez obsessivo em questões de Poder.
Mas, recentemente, tive notícia, através de Eugenio Asensio (Los «Lusiadas» y las «Rimas» de Camões en la poesia Española - 1580-1640, F.C.G. Paris, 1982), de mais um facto insólito da personalidade de Filipe I. Acontece que ele admirava muito Camões e, não menos, a saga dos descobrimentos portugueses. Sucede que uma das mais célebres naus da Índia, a Cinco Chagas (mandada construir pelo vice-rei Constantino de Bragança) que fizera 10 viagens de ida e volta, estava já imprestável, e foi abandonada no Tejo. Filipe mandou recolher algum do madeirame, e fê-lo enviar para Espanha. Dessa madeira se fez um crucifixo grande para a sua capela particular. As tábuas restantes, por vontade dele, serviram-lhe de caixão: nelas foi amortalhado, no Escorial.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Na Gulbenkian


O último grande Senhor da Europa virá no próximo dia 5 de Junho à Fundação Gulbenkian. É no Auditório 2, às 18h30.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Na Gulbenkian : Arte da Mesopotâmia

A quem interessar. A entrada é livre. Nos próximos dias 24 e 25 de Maio.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Lembrete 5


Na Fundação Calouste Gulbenkian, até 2 de Junho. A não perder. Para quem aprecie, claro.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Uma louvável iniciativa (14) : na Gulbenkian


Como todos os anos, nesta altura, a Fundação Calouste Gulbenkian promove a sua Feira, denominada Festa do Livro, até 23 de Dezembro de 2012, com venda das suas publicações a preços com desconto, muitas vezes substanciais. As "Colóquio" temáticas (presentemente) custam apenas 6,50 euros, ou seja, metade do preço habitual, mas também há catálogos de exposições passadas, obras científicas, etc..
De caminho, e juntando o útil ao agradável, poderá ver-se, ou até revisitar a magnífica exposição denominada "As Idades do Mar". São, no meu entender, duas boas oportunidades culturais importantes.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Notas de Leitura IV: Jacob Rodrigues Pereira




A estela e o medalhão existentes na Praça Jacob Rodrigues Pereira, em Peniche, pressupõem-no nascido nas Berlengas, mas o primeiro reeducador de crianças surdas e mudas em França, que sempre se afirmou português, nasceu de facto em Espanha, na aldeia de Berlanga, em 1715 e morreu em Paris em 1780, sem que conste ter estado alguma vez em Portugal.
Jacob Rodrigues Pereira – Homem de bem, judeu português do séc. XVIII, primeiro reeducador de crianças surdas e mudas em França, estudo biográfico de Emílio Eduardo Guerra Salgueiro, editado em 2010, pela Fundação Calouste Gulbenkian, proporciona ao leitor, através da profusa documentação que o integra, não apenas o conhecimento das várias facetas da vida e da actividade daquele judeu português, mas também uma visão aprofundada acerca da condição dos judeus em Portugal, e em Espanha, no século XVIII, sobre o “modus operandi” dos inquisidores e sobre o comportamento das vítimas: as suas fraquezas, os seus actos de delação, o sofrimento, a iniquidade das acusações, a perversidade das penas.
Para tal, a obra de Emílio Salgueiro remonta, de facto, a 13 de Abril de 1699, quando “um grupo de quarenta e oito portugueses, na maioria de Trás-os-Montes, embarca em Lisboa no barco genovês N. Srª de la Coronada (...) com destino ao porto de Livorno, em Itália”, naquilo a que poderíamos chamar uma fuga para a dignidade.


Conquanto o biografado, já nascido em Espanha, não tenha vivido o período mais negro da vida dos seus pais, e que se seguiu à prisão destes, pela Inquisição, em Cádis, as informações e os documentos, patentes nesta obra, e que nos dão conta quer das ‘memórias’ apresentadas à Academia Real das Ciências de Paris, quer dos registos notariais com que procurou comprovar e atestar o método de reeducação que desenvolveu, quer a forma como preparou a apresentação do seu aluno Azy d’Étavigny na corte de Luís XV, bem como os seus projectos de construção de uma máquina aritmética, de um engenho que suprisse a acção do vento nas grandes embarcações, em situações de calmaria, de um dicionário das 13 principais línguas da Europa e, também, da sua intensa actividade diplomática, na qualidade de “agente das nações portuguesas”, isto é , de representante das comunidades de judeus portugueses em França, e que culminou com a aquisição de um terreno destinado a cemitério dos judeus portugueses em Paris, traduzem, para além de óbvia tenacidade de Jacob Rodrigues Pereira, a sua condição de homem do Iluminismo: o seu pragmatismo, o seu racionalismo, a forma como construía as soluções a partir da análise objectiva e rigorosa dos problemas e como procurava, em todas as situações, controlar os factores de incerteza, prevenir a desconfiança e a herança do preconceito.
Assim, as linhas que vão emergindo da obra de Emílio Salgueiro correspondem, dir-se-ia, ao retrato comovido de um português em que se materializou o espírito das Luzes e a marca do bem comum, bem como uma ideia de biografia em que História e circunstância mutuamente se elucidam.
Nesta perspectiva, são particularmente significativas, para além das comunicações do próprio Jacob à Academia Real das Ciências, o relatório elaborado pela comissão de sábios encarregada pela Academia de examinar e de avaliar os resultados obtidos com o método que desenvolveu, os textos publicados, entre outros, no Mercure de France, no Journal de Savants e no Journal de Verdun, a carta enviada pelo irmão de Jacob, à mãe, então a residir em Bordéus, descrevendo, em pormenor, a audiência concedida por Luís XV e o sucesso de Jacob ao apresentar perante o rei de França e a corte os resultados do seu método, na pessoa do seu aluno Azy d’Étavigny, a referência de Buffon, na sua História Natural, ao método de ensino de surdos-mudos desenvolvido pelo português e o reconhecimento régio, consumado em 1750, com a atribuição de uma pensão de 800 libras.


A par de uma minuciosa investigação historiográfica e seguindo, entre outros, os trabalhos de E. Séguin e de E. La Rochelle, sobre a vida e a actividade de Jacob Rodrigues Pereira, a obra de Emílio Salgueiro dá-nos a ver, por entre rivalidades, controvérsia e contestação, apogeu e declínio, o retrato intelectual de alguém que se afirmou pelo mérito, de alguém para quem o conhecimento procede da razão, da observação e da experiência e está na raiz da autonomia do ser humano, de alguém que se pode filiar numa vertente de pensamento livre e de racionalismo, que a tradição judaica também comporta, e que terá em Espinosa, porventura, o seu mais relevante exemplo.
“Séguin afirma que o Jacob conseguia ensinar a falar aos surdos e mudos por ter descoberto a lei da identidade das percepções sensoriais, o que designaríamos hoje, talvez, como a descoberta das sinestesias na construção dos mapas tanto do mundo exterior, como do mundo interior. E prossegue Séguin, dizendo que Jacob não acreditava que a palavra estivesse inteiramente contida na articulação, procurando, por isso, cultivar nos seus alunos a voz humana e natural, ao ponto de lhes transmitir o seu próprio sotaque estrangeiro (...). Ensinava a articulação pela vista, pelo tacto, pela memória dos movimentos dactilológicos, a voz humana pela percepção táctil das vibrações sonoras, a entoação pelo gesto e o sotaque pela medida”.
Como se vê aquilo que Jacob Rodrigues Pereira pretendia era que os seus alunos descobrissem por si próprios, através da observação e pela experiência da interacção com os outros (pela expressão, pelo movimento dos lábios, pelo gesto) uma certa  inteligibilidade do mundo, um sentido das palavras que está para além do seu referente. E é, por assim dizer, essa dimensão ‘oculta’, inexplicável e, porventura, inata, da aptidão humana para a palavra, que o método de Jacob Rodrigues Pereira torna evidente e que o depoimento de Saboureux de Fontenay, aluno de Jacob, numa carta datada de 1764, sublinha: “Do mesmo modo como uma criança aprende o francês, M. Pereire dedicara-se em primeiro lugar a dar-me a inteligência das palavras de uso diário e as frases mais vulgares (...). Achando que eu já estava suficientemente a par dos diálogos de uso diário, evitou gesticular à minha frente, ao mesmo tempo que me falava pelos dedos com o alfabeto à espanhola, que tinha aumentado e aperfeiçoado: a finalidade era acostumar-me melhor à linguagem e fazer-me perder o hábito de falar através de sinais à minha maneira; exercitar-me melhor a perceber as frases familiares, aprontar-me a executar todo o tipo de coisas, de acordo com o sentido que tomasse no meu espírito a linguagem que tivessem usado para exprimir o que pretendiam de mim; responder sozinho às perguntas fáceis e às difíceis, pensar por mim próprio”.
Partindo de uma detalhada observação da realidade, que o leva a distinguir diferentes graus de surdez nos seus alunos, Jacob Rodrigues Pereira aperfeiçoa o seu método adaptando-o às características de cada aluno ou, melhor dizendo, às possibilidades de aprendizagem de cada um. E, nessa medida, poderemos, talvez, dizer que o sucesso do seu método depende mais da capacidade do mestre do que, porventura, das potencialidades do aluno, pois como sugerem as palavras de Emílio Salgueiro, referindo Renée Neher-Berheim, o ‘segredo’ do método de ensino de Jacob parece residir “(n)o modo e (n)a intensidade com que se ligava aos seus alunos a quem tratava como pessoas completas, a excelente relação afectiva que com eles conseguia criar, propiciadora de um aprendizado entusiasmado das técnicas de desmutização e de um crescimento moral e cívico”.
Consciente de que algo mais do que o meramente mecânico e o meramente instrumental intervêm no acesso à palavra, algo que só a convocação da inteligência, da memória e dos restantes sentidos seria capaz de completar, o método de Jacob Rodrigues Pereira procura, apoiando-se numa certa pragmática da comunicação, incitar os alunos a tirarem partido de todas as vertentes expressivas da natureza humana, de forma a suprirem a carência do ouvido; dir-se-ia querer estimular em cada aluno a capacidade de mobilizar, pela vontade, a plasticidade da própria inteligência e fazê-lo descobrir desse modo ignoradas capacidades, susceptíveis de o resgatar de uma suposta fatalidade divina.
Falamos de uma perspectiva de aperfeiçoamento humano à maneira do Iluminismo, de uma atitude que não pretendia salvar a alma dos surdos-mudos (até então, diga-se, escondidos como fruto de um pecado, como expiação de uma culpa sem motivo) mas tão só devolver-lhes, como nos casos de Aaron de Beaumarin, de Saboureux de Fontenay, de Azy d’ Étavigny e de Marie Maurois, um outro sentido da vida, para além dos sinais à maneira de cada um, permitir-lhes conquistar, pelo acesso à palavra falada, a autonomia, a dignidade social e uma outra inserção no mundo, que só pela fala e pelo entendimento da palavra própria e alheia, porventura, se alcança.


E talvez por tudo isto se explique a circunstância de Jacob Rodrigues Pereira se ter também empenhado, a par da sua acção como representante dos judeus portugueses em França e da actividade de reeducação de crianças surdas-mudas, no desenvolvimento de outros projectos científicos, pois essas actividades, por assim dizer, de contraponto, traduzem claramente, por um lado, o pendor científico da sua personalidade intelectual e, por outro, a ideia de pertença ao ambiente moral e intelectual de um tempo em que o saber deixa de ser apenas invocado, para passar a ser também escrutinado e demonstrado na sua dimensão de eficácia social: um contexto histórico em que os ideais de progresso e de liberdade humana começam a despertar e a fazer o seu caminho.
O facto de ter conseguido demonstrar que, apesar das limitações próprias e óbvias era possível transformar um surdo-mudo num surdo falante, e que é, por certo, a sua mais importante e fecunda herança, a vida e a acção de Jacob Rodrigues Pereira, revelam-se-nos, nesta obra de Emílio Salgueiro, através de um nítido paralelismo entre a condição dos judeus e a condição dos surdos-mudos na Europa na segunda metade do século XVIII, e o propósito de um homem de bem de os querer resgatar, a judeus e surdos-mudos, dos atavismos da injustiça, da tutela do preconceito, do sofrimento sem motivo e da tenaz da indignidade.

Post de H. N.
Nota: O ARPOSE agradece, cordialmente, a H. N. mais esta atenta leitura. 

quarta-feira, 21 de março de 2012

Divagações 22


Dou de barato que o melro da Gulbenkian, de que fala Fernandes Jorge, e um outro que vi, hoje, no espaço livre da Biblioteca Nacional, sejam parentes afastados. E possam ter, ambos, preocupações mais altas, culturais até. Embora não o ouvisse cantar, gostei muito de o ver, embora repetitivo, entre uma e outra, mesmas árvores. De vez em quando descia à terra, esgaravatava no relvado, mas nada apanhou do colóquio. Preferia o sol ameno e primaveril a bater-lhe nas penas negras e luzidias. Parecia jovem, contente e nervoso à luz intensa da tarde. Dava, seguramente, para uma fábula erudita.

para MR, anfitriã, sempre discreta.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Para a história da Pintura portuguesa do séc. XX




Em arrumos dispersos, descobri um velho impresso (1967) da Galeria Quadrante que frequentei, com alguma assiduidade, quer para ver e comprar livros, quer para assistir a exposições, e até mesmo alguns "Happenings", muito em voga na altura.
Este impresso tem a particularidade de conter um texto muito interessante de José-Augusto França, sobre as obras e artistas representados nesta mostra. Anote-se um nome: Paula Figueiroa Rego. Um dos quadros ("Mártires") da Pintora, consegui localizá-lo (em imagem): está hoje na Fundação Calouste Gulbenkian.