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quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Criancinhas

 

Por vezes, é preciso algum tempo para vir a perceber amplamente umas coisas que nos parecem inexplicáveis.
Lembro-me de infância que o sr. Coutinho, vizinho de rua, me mentia, por vezes, ao dizer que o Quim, neto dele, não estava em casa, quando me abria porta, para eu lá ir brincar. Percebo hoje que ele queria era o sossego e silêncio doméstico, e o da D. Amélia, sem a perturbação frenética dos gritos e agitação infantil da brincadeira, lá por casa.
Um grande amigo meu, já falecido, quando recebia os netos lá em casa, costumava dizer-me que era uma grande alegria quando eles entravam e um alívio enorme quando eles se iam embora. Acrescentava, às vezes, quando as coisas corriam melhor, que os netos "eram a sobremesa da velhice". 

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Memória (116)


Iriam a meio os anos 60, aqui por Lisboa, quando um querido amigo meu, já falecido, me convidou para o acompanhar e  assistir a um recital de poesia, ali para as Portas de Sto. Antão, no Ateneu. Lá fui.
O ambiente era encasacado, algo decotado também, e do melhor: roupas boas e de marca, mas de muito mau gosto estético, no seu conjunto. Assistência oxigenada, perfumada, cheia de tentativas frustes de rejuvenescimento sobre o já caduco.
Deprimente e decadente, em suma, o recital. Havia em tudo aquilo um mofo espiritual.
A diseuse, então, nem se fala. Requebros lânguidos, refegos flácidos, transparências, tules a que presidia uma voz cavernosa, entre o delicodoce e o melodramático, que começou a entoar Florbela e acabou em poetas menores desconhecidos. O último soneto era dela, declamadora.
Às vezes, quando vou à deriva pela net, encontro montes de versinhos destes, muito felizes de si, dignos de recônditos e regionais semanários de província. Como também encontro, em comentários de alguns blogues, essa maneira forçada e pobrezinha de querer fazer prosa poética saloia, à viva força. Como, às vezes, me aparecem, em logotipos de blogues, fotos de senhoras pretensamente capitosas, loiras, diáfanas e de cabelos longos à Veronica Lake. De óculos escuros, quase sempre, a disfarçar a idade e as rugas nas comissuras dos olhos... Tudo isto me parece patético e, nessas alturas, vem-me à memória essa deprimente noite poética, no Ateneu de Lisboa, pelos idos de 60...

à memória de J. M. F. M..

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Divagações 119


Havemos de procurar, para a perda de ontem, algum consolo, hoje. Mesmo que indefinido e vago.
Com os anos, vamos tendo cada vez mais dificuldade em nos despedirmos daquilo a que nos habituamos ou gostamos. Pode ser um cinzeiro que se parte, uma companhia teatral que acaba, um restaurante que fecha, um amigo de infância que resolveu partir mais cedo, uma livraria afectuosa que se vai transformar num banalíssimo café, como dezenas de outros...
Nestes casos, creio que uma boa memória nem sempre nos ajuda. Porque diminui as expectativas, as novidades inteiras, as situações inéditas, para a frente; e, por outro lado, afeiçoa-nos demasiado àquilo que nos acompanha, ou tem vindo a acompanhar, naturalmente, até que se começa a perder para sempre.
Como se fora um tango de que tanto se gosta, mas que se vai esgotando à medida que se vai ouvindo.