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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

(In)Tradução


Estaco, frustrado, perante um simples, mas grande poema composto por 5 versos, de René Char (1907-1988). Percebo-o, traduzo-o literalmente, mas o poema fica muito aquém do original na minha versão para português - é de expressão menor, e francamente abortado. Falta-lhe fogo e alma, palavras gémeas para atingir, ao menos, um paralelo fulgor aproximado, da criação do poeta francês.
Talvez mais tarde, ou noutro dia lhe consiga captar alguma da grandeza original. Entretanto, e como dizia Fernando Echevarría:
                                             A língua, sustenida, imóvel pensa.


sábado, 31 de agosto de 2019

Divagações 152


O tema do renovo é recorrente, em poesia, desde a Antiguidade clássica, mas teve uma particular importância sobretudo no Renascimento (... e tudo o mais renova, isto é sem cura. Sá de Miranda). Hoje, o nosso tempo-consciência mantém algumas referências de luz e sombra, juventude e velhice que se pautam pelas estações, mas também por várias dicotomias, como por exemplo: férias e trabalho, prazer e obrigações.
Setembro marca, para muitos, o final do lazer (férias) e o recomeço da rotina laboral. E, se para mim,  em tempos de extrema juventude, era o mês do campo (Briteiros) que se seguia ao Agosto da praia ( Póvoa), a diminuição da luz, no dia, a transformação do verde no castanho ou dourado da natureza, anunciavam-me também o fim da aventura ou, pelo menos, a proximidade (Outubro = Outono) de um tempo de responsabilidade (Escola) inexorável.
Com os anos, porém, essas diocotomias simples foram adquirindo novos contornos e significado, talvez mais amplo:

Vai sendo tempo de largares o verão
soltá-lo no caminho mais estreito
à boca do outono ou numa praia
onde já não passe mais ninguém.

O real dos factos encarrega-se de fazer implodir a fantasia. A esperança tem de ir para outras coisas, como disse um poeta inglês, avisadamente. Mas é bom que vamos em boa companhia. Ao menos.



Para A. de A. M., amigo de muitos anos, e por variadíssimas razões, afectuosamente. 

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Divagações 151


O supérfluo pode ser o que os norte-americanos chamam: a pain in the ass, com propriedade.
Mas os redundantes com frequência nem se apercebem da sua incontinência ou dos seus despropósitos, que nada acrescentam ao que foi essencial. A auto-crítica não faz parte do seu ADN.
A sra. Charlotte Johnson Wahl (1942), pintora inglesa, poderia ter-se limitado a pintar os seus quadrinhos e ficar na história apenas como mais uma artífice estimável.
Mas não quis ficar por aqui. Também teve 4 filhos. Um deles ainda mais incontinente do que ela. E como incontinente vai levar a cabo o Brexit, mesmo sem condições...
No entretanto, o Boris vai fazendo comentários e declarações - supérfluos, despropositados, redundantes. E nós a termos que ouvi-lo.


quarta-feira, 10 de julho de 2019

Divagações 150


Tenho para mim, embora conceda que de forma excessivamente simplista, que o progresso, numa família portuguesa, se pode medir pelos níveis de educação atingidos ao longo das gerações. Um esquema simples poderá ajudar a perceber melhor esta minha ideia, exemplificada por 3 gerações. Assim:

1. Avô - trabalhador rural, assalariado: analfabeto ou com instrução primária.
2. Pai - empregado por conta de outrém, pequeno empresário : curso dos liceus ou comercial e industrial.
3. Filho - profissão liberal, professor, industrial...: curso médio ou superior universitário.

Este elevador social - como hoje se costuma dizer - permitiria uma progressão social e cultural dos cidadãos. Bem como do seu bem estar económico e da sua própria liberdade.
Dito isto, resta-me acrescentar que não sou inteiramente inclusivo e que concordo com o número clausus, a nível universitário. Por isso também não estou de acordo com o título generalizante do artigo de Rui Tavares, que aparece, hoje, na última página do jornal Público.
A meritocracia é para mim um ponto essencial para aceder aos últimos graus de instrução. Mas acrescento que, a exemplo do mundo anglo-saxónico, respeito por igual o profissionalismo e competência de um bom electricista, como a qualidade de um catedrático competente.

domingo, 30 de junho de 2019

Divagações 149


Nem tudo aquilo de que gostamos congrega o consenso geral. E ainda bem, ou o mundo seria de uma monotonia infindável. Por outro lado, sendo saudável nos seres humanos, há, quase sempre, uma evolução do gosto. Que permite chegarmos a novos patamares de beleza e prazer, com a idade, embora sem descartarmos totalmente o que ficou para trás, dando-lhe apenas o seu ajustado e preciso valor. Mas também há quem fique agarrado, desesperadamente, à infância, como um paraíso perdido inviolável que se não pode perder e donde nunca se pode partir. Uma espécie de felicidade liofilizada. Em que os valores de infância correspondem, exactamente, aos mesmos interesses da maturidade. Sem o mínimo aggiornamento crítico.
É por aqui que se perde o horizonte e o pé, de forma definitiva, e se exclui da vida a palavra aventura e o crescimento mental, para sempre.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Divagações 148


Tenho consciência de que, no que diz respeito à verdadeira poesia, quando um autor explica um poema, acaba por limitar o seu horizonte, no leitor. E tornar redutora, condicionando, a sua leitura. Restringindo a interpretação que o inconsciente lhe possa dar, por experiências outras e alheias, ao motivo que desencadeou, no poeta, a criação do poema.
Quando Walt Whitman (1819-1892) editou Leaves of Grass (1855) nos Estados Unidos, preocupou-se e apressou-se, sob pseudónimo, a emitir interpretações pessoais sobre a sua obra. Quando o livro, pela primeira vez, foi publicado na Inglaterra (1868) por William M. Rossetti, foi-o, por razões de censura, de forma reduzida e amputado de alguns poemas.
Ainda assim, e mais uma vez, Whitman, numa espécie de paternalismo estranho e insólito, se desdobrou em intervenções pessoais tendentes a orientar a leitura da obra.
Numa entrevista de E. M. Cioran, em 1979, o escritor, de origem romena, declarou: Evidentemente, que eu gosto de que aquilo que escrevem sobre mim seja exacto. Mas eu creio que os mal-entendidos podem ser fecundos.
Penso que Cioran tinha toda a razão. 

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Divagações 147


É expectável, por cá, que, durante uma semana, jornais, televisões, redes sociais e comentariado se desdobrem em interpretações metafísicas sobre o resultado das Europeias. Num barroquismo balofo e desmesurado que já nos vem, no ADN, desde o século XVII.
Entretanto, o jornal alemão Die Zeit titula, sucinto, qualquer coisa como: "O ataque do quarto das crianças", numa alusão expressiva e divertida à subida percentual surpreendente dos Verdes (Die Grünen) em relação aos "velhos" (ou maduros) partidos germânicos.
Por cá, talvez a mais expressiva subida tenha pertencido ao partido dos animaizinhos, mais do que justificada pelo aumento exponencial e enorme dos dejectos que vamos vendo pelas ruas portuguesas. Mas também pelo crescente espaço que, nas grandes superfícies, vai sendo consagrado às gôndolas dedicadas aos alimentos para animais...

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Divagações 146


A recordação é linear, do ponto de vista visual, e passa muitas vezes pela fotografia unidimensional, naquilo que diz respeito a pessoas já desaparecidas ou que não vemos há muito. Na sua forma estática mental de representação.
Da memória, podem chegar palavras soltas ou frases, de um encontro inesquecível, mas o tom de voz, no seu timbre único e pessoal, perde-se quase sempre. Bem como o tacto ou a pele das coisas, se esquece.
Raramente o filme é animado, quero eu dizer, a lembrança não tem movimento próprio na memória, ao contrário dos sonhos que o possuem quase sempre. Quanto ao sabor, há alguns, raros, que nunca mais se esquecem e nos chegam, misteriosamente, ao palato da memória, de forma inesperada, quase intempestiva.
Isto, no que diz respeito aos 5 sentidos na memória - segundo me parece.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Variações


Há o número e a excelência, quero eu dizer, por outras palavras, a quantidade e a qualidade. Pela sua frequência se podem conhecer os perfis de quem os usa e refere, de algum modo.
Podemos ir muito ao cinema, ou raras e escolhidas vezes. Podemos ler vertiginosamente e muito, ou ler de forma pausada, pouco e com critério. Há quem coleccione países e quem os frequente e repita, apenas por afinidades de exigência. Quem fotografe com frenesi tudo e nada, outros usarão de usura elitista, necessariamente, tentando fixar melhor a sua vida. Há quem adore facilmente, quem se arrase de coisas banais, quem desrespeite as palavras de forma debochada e perdulária, mas, por outro lado, há quem as use com excessiva usura, parcimónia reflectida e respeito. Há quem queira abarcar o mundo todo, mas há igualmente quem queira, com sucinta modéstia, conhecer bem e completamente a sua pequena aldeia. Ou a si mesmo, no fundo.
É tudo uma questão de tom ou de grau - a felicidade de cada um assume formas muito diversas. 

terça-feira, 2 de abril de 2019

Divagações 145


O cantautor Etiénne Daho (1956), nascido na Argélia então francesa, mas que tem feito carreira em França, dizia que: Ce sont les premières années qui vous construisent. Après, on se démerde et on fait ce qu'on peut.
Eu não seria tão radical, mas estou de acordo que grande parte dos poetas se perdem pela idade madura e, na velhice, se vão, normalmente, glosando a si mesmos, numa lamentável decrepitude. As excepções são raríssimas. Romancistas e pintores, com frequência, resistem melhor, porque trabalham menos com o desejo. E ordenam melhor o caos fílmico-cerebral, quando são verdadeiros artistas.
Acredito que é entre os 30 e os 40 que se atinge a plenitude, em quase todas as actividades. Por isso, que não se lamente Rimbaud, Nobre e Cesário. Mas saudemos, entretanto, Lampedusa e Matisse pela criatividade dos seus últimos anos. E Saramago, porque não?

domingo, 24 de março de 2019

Divagações 144


O trabalho em mármore Taddei Tondo (= Composição Circular), de Miguel Ângelo Buonarroti (1475-1564), executado entre 1504 e 1505, é a única peça escultórica do artista italiano existente na Inglaterra. Pertence ao acervo da Royal Academy (Londres).
Este museu londrino, segundo o TLS (nº 6049), tem em exposição, até 31 de Março de 2019, uma mostra intitulada Bill Viola / Michelangelo - Life, Death, Rebirth. Viola (1951) é um vídeo-artista norte-americano estimável, com notoriedade e nome feito.



Quando se começou a falar e tratar, universitariamente, a cadeira de Literatura Comparada, era talvez muito cedo para miscigenar artes plásticas e obras de artistas diversos. Mas, hoje em dia, isso tornou-se comum e frequente.
Um pouco na sequência da 3ª proposição do poste anterior (Miscelânea...), não sei se isto não será excessivamente contraproducente e forçado. A facilidade, por exemplo, com que se usa, hoje, o nome de Arte Urbana, para classificar alguns mamarrachos, nas paredes das cidades, preocupa-me...
Parece-me ser tudo isto mais uma das delicadezas da democracia: fazer descer a arte até ao povo. Em vez de o educar e fazer subir os degraus estéticos da arte, criando-lhe referências, sentido crítico e ferramentas de rigor.
Positivamente, não creio, por muito bom artista que Bill Viola seja, que se possa (já) pô-lo em paralelo com a grandeza da obra de Miguel Ângelo. Há coisas que não se podem ou não se devem, pelo menos e em nome do bom senso, comparar.


quarta-feira, 6 de março de 2019

Divagações 143


Eu sei que há convites indeclináveis e tentações irresistíveis. E, em relação a figuras públicas, o dilema ainda é pior. A recusa pode ser sempre interpretada como fruto de elitismo ou de sobranceria, pela gente comum. A personagem, no entanto, pode dar sempre um ar de distinção, sublinhar a diferença, mesmo em ambiente de tasca pimba ou nova-rica e barroca. Entre um arroz de lata de atum, ainda que algarvio, em forma de assim, e uma cataplana a preceito vai uma enorme diferença. Depende de quem o ou a faz e escolhe para ementa, em local mesmo que pouco recomendável.
Tenho constatado, com preocupação crescente, a ausência de abelhas nas nossas varandas, quando  os vasos estão floridos. As vespas, porém, são mais que muitas, pousando em tudo quanto é flor. E eu bem as dispensava... Mas, de há uma semana a esta parte, tenho uma pequena razão de alegria. Sobre o tufo primaveril das frésias, há um jovem e bonito besouro que as visita, diariamente, fiel e persistente, libando-as por uns bons cinco ou dez minutos.
Tem bom gosto, iluminado talvez por aquele perfume divinal.
Prefere a cataplana ao atum de lata...


sábado, 23 de fevereiro de 2019

Divagações 142


Se algumas, raras, vezes um poste pode ser uma discreta vontade de diálogo com outro poste que vimos e lemos num blogue alheio, a maior parte deles resulta de uma vontade pessoal de tomar posição perante um facto, uma pessoa, um acontecimento que não nos deixou indiferentes.
Por outro lado, romper o nosso silêncio encasulado pode resultar de um irreprimível desejo de partilha com os outros (ainda que anónimos) de uma emoção ou sensação demasiado agradável que não pode só restringir-se às restritas paredes do nosso pequeno universo.
Eugénio de Andrade exprimiu isso, em verso, de uma maneira admirável e para sempre: "...De coisas que te dou/ para que tu as ames comigo..."
Não tenho grande memória para a Música. Melhor dizendo, consigo reconhecer e situar uma melodia, às vezes, quando a volto a ouvir, mas tenho enorme dificuldade em me lembrar, por exemplo, de quem a interpretou, quando e onde.
Se tenho a certeza que vi, ao vivo, execuções de Braga Santos e de Stravinsky, este último no Coliseu, já não estou seguro de ter assistido a interpretações de Maria João Pires, muito embora seja altamente provável tê-la ouvido na Gulbenkian, nos anos 60 ou 70.
Tudo isto para deixar escrito, aqui no Arpose, o nome de Sequeira Costa (1929-2019), que ontem nos deixou. E que era um homem discreto e sério, para além de ser um notável pianista português.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Divagações 141


Escolhi, para cenário de fundo da leitura de um pequeno ensaio de Saul Bellow (1915), um vídeo-gravação do 4º Concerto para piano de Beethoven. Embora qualquer dos sentidos (olhar e audição) obrigue a uma concentrada atenção, desvio, de vez em quando, o olhar da leitura para o dirigir para a primorosa execução de Wilhelm Backhaus (1884-1969), que foi dirigido pelo maestro Karl Böhm (1894-1981), em 1967. O vídeo é excelente, quer em imagem, quer na sonoridade. A orquestra era a Sinfónica de Viena.
Fico surpreendido pela impassibilidade facial do pianista e do maestro. Apenas se nota, por vezes, uma ligeira contracção muscular na face de Backhaus, quando alguma passagem da partitura obriga a uma maior energia de execução. Menos ainda alterado, o porte e expressão do maestro Böhm.
E dou-me a pensar, por comparação, em interpretações de Alfred Brendel e Maria João Pires cujos jogos fisionómicos se expressam, variada e profundamente. Por entre o que parece ser dor, prazer, dramatismo...
Não sei o que hei-de concluir.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Divagações 140


As coisas importantes, para quem gosta de reflectir, precisam de repousar um tempo, antes de serem contadas. Perde-se o pormenor, mas ganha-se e avulta a riqueza exclusiva do essencial. E a análise dos factos acaba por ser, normalmente, mais justa. O tempo acrescenta razões, explica motivos que, na altura, pareceram desajustados e excessivos, atenua a emoção de julgamentos apressados.
Ganha quase tudo a devida proporção da verdade.
É por isso que, talvez agora, se possa começar a  pensar no 2018, que acabou, há dias. E sem pressas. Mas também resgatar alguns propósitos para este novo ano. Eu seria modesto e pouco ambicioso. No que vou escrevendo, gostaria de ser mais comedido nos adjectivos, que são sempre uma tentação caracterizante (São Simenon me valha!...) e mais cauteloso nos advérbios de modo - o que já não é pouco, convenhamos.

para AVP, que me tem falado nos também...

sábado, 29 de dezembro de 2018

Divagações 139


Arriscando a contra-corrente mas, de certo modo, muito naturalmente pela época que atravessamos, o penúltimo TLS (nº 6037) aborda como temática: Deus. Nos aspectos tratados, a abordagem parece-me muitíssimo adequada. E até fiquei a saber de uma Santa Tecla, discípula inicial para além dos 12, citada pelos Evangelhos Apócrifos, que eu não conhecia,  nem nunca tinha ouvido falar.
Deus não é, seguramente e no momento actual, um tema que me fascine ou interesse, em particular, mas os artigos do jornal literário inglês não deixam de ser importantes e de agradável leitura. Um dos textos pergunta-se, em equação, qual a forma melhor de abordar a questão: se pela filosofia, através da ficção, ou pelo ensaio? Estranhamente, não fala da poesia, nem do teatro. Omissões que me pareceram imperdoáveis.
Godot, de Beckett, ou o  dono da Tabacaria, de Pessoa, que serão senão deuses mutilados pela imaginação humana, desejante? E, ainda há dias, de um poeta vivo português, li um livro, é certo que irregular na qualidade, em que Deus estava presente ou subjacente em quase todos os poemas. E não diria que por misticismo forçado, ou por pose meramente acidental...

sábado, 15 de dezembro de 2018

Divagações 138


No Mercado, a dona Irene lacrimosa, soluçando a tuberculose inesperada de uma jovem parente sua, de 21 anos, tinha o pinhão a 70 euros, o quilo. Mas eu, este ano, até já o vi mais caro, e menos bonito.
Daí, algumas confeitarias, por vezes, fazerem uma vaquinha com caju e até amendoim torrado que, como vem de África, sempre fica mais barato e dá mais lucro no Bolo-rei vendido. Como já notei, aqui há dias.
Porque isto de tradições é tudo uma questão formal e de parecer. Mas também de contágio, como a tuberculose. Quem já passou Natal e Ano Novo, sozinho, alguma vez na vida, sabe que o facto pode nada ter de dramático ou infeliz. Sobretudo, se for depois de um enorme dia de trabalho...
Desde que haja uma fatia de Bolo-rei, com pinhões autênticos, e outros com casca, mesmo que não esteja ninguém à beira, com quem jogar o Rapa (,tira e põe), como a lembrar a infância de outrora.
Não farei coro com Sartre, a dizer que o Inferno são os outros, mas o Comércio é que leva à obrigação devota e clonada de afivelarmos, por uns dias, esta máscara de solidariedade e alegria, formais, sem mesmo reflectirmos, realmente, se estamos de bem com a Vida. E com os outros...


segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Divagações 137


Hesito em acrescentar o obituário do blogue, com mais um nome. As memórias são poucas, talvez de apenas dois filmes medianos, para a minha bitola. Falar por falar não faz o meu ideal. O enquadramento parece-me sempre essencial, num poste. Salvo quando se trata de música, de alguma citação suficiente, porventura. Ou, então, acrescentar ao título, alguma coisa de pessoal que exceda a menção corriqueira e a imagem previsível. É melhor ficar por aqui...
No fim de contas, não preciso de marcar o ponto nem a presença. A liberdade de um blogue passa por aqui.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Divagações 136


Dificilmente um suicídio se explica, ou justifica. Menos ainda por uma única razão, como Albert Camus defendia, apoiando a hipótese de que a imolação própria é originada por mais do que um motivo pessoal.
Após o suicídio de Sylvia Plath (1932-1963), o marido, também poeta, Ted Hughes (1930-1998), directa ou indirectamente, foi acusado, nos meios intelectuais ingleses, de ter sido o responsável moral pela morte da mulher, que tinha abandonado, pouco tempo antes.
O facto de ter destruido parte do diário da Mulher, corroboraria o sentimento de culpa. Com o tempo, porém, esta ideia de culpabilidade indirecta foi-se atenuando, tendo ganhado força o aspecto de Sylvia ser dada a depressões e, já anteriormente, se ter tentado suicidar.
A recente publicação da correspondência da poetisa coloca novas hipóteses. O penúltimo TLS (nº 6031), em relação ao livro, e, numa recensão de Hannah Sullivan, obriga a repensar o assunto, reforçando com peso, ambas as possibilidades e motivos.
A pergunta mantém-se, por isso: porquê o suicídio?
O mistério rodeia sempre este acto humano capital. Se somos capazes de ensaiar razões bastantes para o suicídio de Camilo, já a morte de Antero de Quental, por exemplo, deixa-nos em quase total obscuridade. Pelo menos, a mim.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Divagações 135


Com o tempo, qualquer moeda se deprecia para os nacionais que a usam. E, normalmente, um imóvel terá tendência para se valorizar, ao menos, consoante os índices de inflação. No presente, e em Portugal, as subidas de preço no imobiliário, especulativas de algum modo, só se explicam, não pelo valor real das casas, mas pela intensa procura personificada por estrangeiros e pelos artíficios criados pelos mercados que se dedicam à habitação.
Ando a ler, com atenção mas intermitantemente, Problemática da História Literária (Ática, 1961), de Jacinto do Prado Coelho (1920-1984). Foi com enorme surpresa que me deparei com o nome de Benedetto Croce, crítico e teorizador literário, que é muitas vezes citado. Na altura, era um ensaísta muito frequentado, tal como Harold Bloom, aqui há 20 ou 30 anos. Quem saberá hoje de, ou lerá, Croce, nesta fugacidade e efemeridade dos tempos?
Celebra-se hoje a implantação da República, com sentimentos amortecidos em relação à data, embora com o valor simbólico de um acontecimento patriótico que marcou a História de Portugal. Daqui a 108 anos, como se irá celebrar o 25 de Abril?
Porque uma coisa são as efemérides, e outra são as efemeridades...