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domingo, 11 de outubro de 2015

Divagações 98


Não tendo a espectacularidade dos tsunami, as marés vivas também ocorrem no mar, ciclicamente, pela oposição gravitacional que se estabelece, de tempos a tempos, entre o Sol e a Lua e a sua influência na Terra. O fenómeno tem o seu equivalente, oposto, nas chamadas marés mortas que raramente são referidas e que resultam numa aparente neutralidade ou harmonia das águas marítimas. A que damos pouquíssima importância. Ou que nem sequer notamos.
Lembro-me de as observar, às primeiras, quase sempre em finais de Agosto, nos meus tempos de juventude, no mar da Póvoa. O fenómeno, em si, despertava-me sempre desencontradas emoções de alegria, espanto e medo. Medo que, no entanto, não me impedia, pelo gosto do risco e aventura, de me lançar nas ondas furiosas do Atlântico, para ser arrastado, violentamente, quase até às barracas da praia, numa voragem vertiginosa e célere.
Pois voltei a vê-las ontem, às marés vivas, na praia da Areia Branca, pelo Oeste. E, desta vez, interpretei aquele ronco cavo e selvagem, como se fosse a cólera do mar que se expressava num enorme desagrado destruidor sobre a terra e suas gentes. Também me lembrei que o recente, trágico naufrágio na Figueira da Foz teve, de algum modo, origem nessa fúria natural do mar...

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Na esplanada a oeste


Na praia de Sto. António, e no dia de S. Pedro, para um único pescador, há cerca de 20 surfistas. O pescador debruça-se do molhe, para as águas, os surfistas, no mar, aguardam rebentações à altura, que a maré vai enchendo.
Há, no mínimo, 5 rebentações sucessivas, embora pouco cavadas, até as ondas morrerem na praia, numa fímbria de espuma escurecida. Entre um verde quase alface e um azul suave, as ondas encaracolam de branco, logo após se formarem.
Lembro-me que, na Póvoa, eu conseguia chegar até à sétima rebentação, com pé. Depois, seguindo a corda do pipo flutuante, ainda podia, em segurança, boiar mais um metro. Era a partir daí que se iniciava a natação e toda a liberdade da aventura pelas águas.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Uma fotografia, de vez em quando (25)


Por razões objectivas, e a pedido, não se identifica o autor das fotografias.
De concreto, presidiu a vontade de expressar uma paisagem exterior, de horizonte largo, e outra, interior ou mais intimista.
Admita-se, no entanto, que o mar é o Atlântico, de Casablanca, e o maple, que era forrado a verde, sobre tábuas de pinho, fazia parte da mobília de uma casa minhota. Ambas as fotografias são de 1989.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Fragmentos de umas férias descomprometidas (4) : remate final


É provável que, para Luka, estas tenham sido as últimas das inocentes férias de infância. A adolescência traz outras preocupações e outros perigos, decisões controversas, complexas maneiras de escolher caminhos e a florescência poderosa do amor terreno - o incêndio e a alegria desmedida.
Em finais de Setembro, Kirsten e Wim, os pais de Luka, acabaram de compor, com minúcia e atenção, o álbum-diário visual das férias, na Praia Formosa. As fotografias dão sinal de tudo: a comoção terna do Avô, pela surpresa, o júbilo despreocupado das crianças na piscina da casa, a luz de Portugal, tão única, o verde-azul Atlântico das águas livres; o pôr do sol da despedida, num amarelo torrado de melancolia.
Pode ser que Luka, mais tarde, na adolescência ou até mesmo na velhice, naqueles intermináveis e cinzentos invernos da Flandres, se lembre deste álbum, e a ele regresse. E se recorde dessas longínquas férias felizes de 2011, em Portugal. E se consiga reabastecer, solidamente, de esperança e de alegria.

domingo, 21 de agosto de 2011

Fragmentos de umas férias descomprometidas (3) : com mitologia


Já as crianças loiras tinham partido, quando chegou o Engenheiro e o menino moreno tolhido dos membros, andar trôpego e fala arrastada. Vinham retomar posse da casa e a criança foi dizendo que ia para a garagem, uma espécie de gruta de Ali-Bábá, cheia de ferramentas e alfaias agrícolas. Com ele, assim de perna esquerda deficiente, Vulcano tomava forma infantil, na rectaguarda da casa alta frente ao mar. Cessara, inesperadamente, a chuva de Verão e bagas grossas polvorentas, parara o vento ciclónico e até o calor abafado desse Agosto estranho lusitano. Foi então o tempo de se acertarem as contas, e os últimos partirem. As crianças loiras já iriam longe.
Mas gostei de as ver, à despedida, subir para cima dos marcos da estrada e abrir os braços róseos, jovens e sem rugas, em saudação ao Atlântico, num Ah! uníssono. Pareciam novos nórdicos viquingues, a que não faltou sequer a mãe Valquíria, elegante. Já não respeitavam Odin, mas celebraram a Natureza  num clamor de alegria e vibração juvenil. Ao longe, no Oceano, apenas dois barquitos pequenos tinham ousado afrontar as ondas fortes e o vento traiçoeiro. Na casa alta, frente ao mar, ficaram apenas os sinais e despojos da permanência breve e das férias acabadas: sumos a meio, 3 ou 4 talhadas de melão, meio pacote de bolachas de chocolate...
O Luka, quase toda a manhã, afundado por entre as almofadas fofas do divã, deixava apenas ver um olhar triste, observando os adultos a fazer as malas. Ia acordando, lentamente, de um sonho que acabara.