Dificilmente se pode escapar a Beethoven (1770-1827), para quem goste de música clássica. E a Karajan, como seu intérprete preferencial, pelo menos, até há bem poucos anos atrás. Embora eu, garoto de 14 ou 15 anos, tivesse começado, na altura, por comprar e ouvir uma boa gravação, em LP (Arpose, 7/4/2012 - Retro [10]), da 9ª Sinfonia, tendo como maestro Jascha Horenstein (1898-1973).
Herbert von Karajan (1908-1989) veio mais tarde. E, apesar de considerar os seus desempenhos com excesso de poses teatrais, não posso deixar de lhe atribuir um enorme profissionalismo e de o incluir no pequeno grupo dos melhores maestros do século XX.
Em imagem, o primeiro CD, da Références - EMI, que é uma remasterização (1988) da gravação de 1948, da Nona, e tem a mais valia de contar com a interpretação, como soprano, de Elisabeth Schwarzkopf (1915-2006). A orquestra é a Sinfónica de Viena. O segundo CD é da Deutsche Grammophone (Karajan Gold) e foi editado em 1984, incluindo a 5ª e 6ª sinfonias de Beethoven. Karajan dirige, neste caso, a Berliner Philharmoniker. Escusado seria dizer que as gravações são excelentes.
Tive a sorte, ou o azar, de ver a integral do Neujahrskonzert 2018, num canal televisivo, pela Orquestra Filarmónica de Viena, dirigida por Riccardo Muti. Que saudades me vieram das ousadias de Herbert von Karajan, e dos seus repertórios musicais, para estas galas de Ano Novo!...
A assistencia era, como habitualmente, a" fina flor do ...", mas com muitos rostos orientais à mistura. O sr. Muti veio engravatado e a sua seleccäo era de 12 músicas. Para além de uma obra de Suppé e outra de Alphons Czibulka (?), todas as outras 10 eram da família Strauss, a pré-finalizar com o Donau... Irra!
Em vez do sr. Muti, mais valia terem encarregado o Rieu (ficava decerto mais barato) que talvez incluisse o Für Elise, para alegria comovida dos ilustres convidados de Viena, e deste pindérico concerto, que mais me vale esquecer...
Dizia Sá de Miranda, na sua écloga Basto: "...bebemos das bem-querias/ que cada um consigo tem..."
E daí, normalmente, não abdicámos. Frequentes são as escolhas de cada um, a nível literário, as tais 10 obras que se levariam para uma ilha deserta. No que à Música diz respeito, não é habitual perguntarem-se, no entanto, as escolhas pessoais. Eu não hesitaria, porém, em seleccionar 3 das obras que mais gosto de ouvir, e que são, por ordem cronológica:
- A Sarabanda, de Händel, que Kubrick usou na banda sonora de "Barry Lindon".
- O allegretto, da 7ª Sinfonia de Beethoven, interpretado por Alfred Brendel, e/ou dirigido por Karajan.
- De Schubert, a maravilhosa Lied "Auf dem Wasser zu singen", interpretada ao piano por Jorge Bolet.
Este último, grande pianista cubano, já falecido, elegia como sua escolha pessoal, umdos Scherzo de Chopin, tocado pelo seu antigo professor, Josef Hofmann (1876-1957). É o vídeo dessa interpretação que deixo a encimar o poste, neste Domingo que amanheceu soalheiro. Pelo menos, por enquanto...
Não é uma marcha fúnebre pelo meu computador lisboeta que feneceu, nem pela perversa Sony, mas uma sugestão festiva de acordes para passar de 2012 para 2013, esquecendo, momentaneamente, as agruras. Com Karajan.
Herdado familiarmente de quem já o achava obsoleto ou com pequenas deficiências - imperceptíveis, para mim, que sou um ignorante e rude informático - o meu computador Sony lisboeta deu o berro. Quero eu dizer, morreu-me nos dedos, estava eu a ouvir, via Youtube, um concerto de Natal, em Viena, superiormente dirigido por Karajan. Fez um relâmpago silencioso, mas verde, começou a mostrar traços verdes finos e verticais, depois pequenas rectas negras intercaladas, e foi-se... Deu a alma ao criador. Ignorantemente esperançado, religuei-o quatro ou cinco vezes, e nada. Ecran absolutamente negro, vazio, obscuro como um buraco negro do Universo.
A Sony sabe-a toda. Faz os computadores com prazo de validade, mas não avisa os utentes. Este feneceu no último dia do ano de 2012. O número redondo deixa-me altamente desconfiado e faz-me pensar que, quem faz isto, tem um espírito matemático, doméstico, de horizontes limitados: deve ser infeliz. Ao menos, os frigoríficos que, hoje, no máximo duram 15 anos, avariam definitivamente em meses aleatórios do ano - o acaso, assim, é mais credível. A Sony é mais chapa zero: morra, pim! , como dizia o Almada, do Dantas.
Nota: esclareço que estou a usar o computador lisboeta e pessoal de HMJ. O meu acabou, de vez.
Congratulo-me com a decisão de atribuir o Prémio Nobel da Paz ao projecto europeu. Para quem cresceu, como eu, sob o símbolo de uma Europa de Paz, Cultura e Humanidade, encontrará motivo de satisfação.
Com efeito, e não confundindo o essencial como o acessório, continuo a defender uma Europa de Paz, identificando-me com as declarações de alguns estadistas ainda vivos. Ainda recentemente, ao receber o Prémio da Paz de Vestefália, Helmut Schmidt fez um discurso notável.
Alertou, e bem, contra diversos perigos e, nomeadamente, o de o Projecto Europeu falhar por "nossa" causa, i.e., da Alemanha.
De facto, a atribuição do Prémio Nobel representa uma responsabilidade imensa na defesa de ideais, contrariando, individual e colectivamente, espíritos menores que têm contribuído para denegrir a essência de um encontro cultural e de Humanidade.
Que me desculpem os estimados visitantes, pelo longo e silencioso genérico que ocupa quase tanto espaço como a vibrante música de Strauss, tocada pela Orquestra Filarmónica de Viena, dirigida por Herbert von Karajan.
Há duas razões, pessoais, para este "post": a primeira é um verso de Keats, no início do seu poema incompleto "Endymion" - "A thing of beauty is a joy for ever (Um momento de beleza é uma alegria eterna)"; a segunda razão é o facto referido de que o Papa Pio XII, ao morrer, pediu para ouvir este "Allegretto" da 7ª Sinfonia de Beethoven. Jorge de Sena refere o caso num dos seus poemas, também.