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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Desabafo (17)


Fui quase sempre comedido nos meus desejos. Talvez por isso o meu animal doméstico de estimação foi o canário - cabia-me em casa, sem grandes complicações.
Mas sempre achei graça aos burros; o seu tamanho, porém, é que nunca me permitiu tê-los ao pé...

sábado, 17 de setembro de 2011

Carta de alforria para os melros


Pequenas coisas ou aptidões podem salvar uma vida. Nos campos de concentração nazis, por exemplo, houve judeus a quem pouparam a vida, por serem bons músicos e para continuarem a tocar.
No anterior Governo- soube por intermédio de c. a.- foi alargado aos melros o regime de caça. Até aí era proibido caçar estes Turdídeos. É certo que a população dos melros tinha crescido muito, em Portugal, até mesmo nas cidades. Mas, quando foi publicada a autorização legislativa, houve um côro de protestos civis e de associações - mesmo assim, o governo de Sócrates não emendou a mão, nem arredou pé.
Recentemente, o novo Governo revogou a lei, e bem. Seja isto levado em conta positiva, para as muitas medidas negativas que tem tomado em relação aos humanos animais...
Terá pesado (quem sabe?) na decisão o cantar melodioso dos melros que, tanta vez alegra os jardins e praças das cidades, provavelmente também. Mesmo assim, com a crise e fome escondida que aí anda, será conveniente que estas aves de bico amarelo e andar furtivo se mantenham longe dos humanos, não vá o diabo tecê-las. E que não façam como os atrevidos pardais que quase debicam os nossos sapatos, ou as ousadas pombas. Seja como for, pintassilgos, melros e canários!, continuai a cantar no vosso tom melodioso e agradável, pois assim, talvez eviteis as balas mortíferas dos caçadores e a impiedade de algum ministro. Quanto aos tordos, rolas e perdizes, creio que não há nada a fazer...a menos que aprendam música nalgum Conservatório.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

A força da música


É sabido, de quem já teve ou criou canários, que a melhor forma de os pôr a cantar é fazendo deslizar uma rolha, ligeiramente humedecida, verticalmente, pela superfície de uma garrafa de vidro. Os silvos agudos produzidos motivam a ave a também ensaiar os seus trinados. Lembrei-me disto ao ler, de George Steiner ("Os livros que não escrevi"), a descrição das reacções do seu cão, "Ben", à música: "...O seu gosto musical é selectivo. Ladra aos metais e emite um longo uivo no início do Bolero de Ravel. Haydn sossega-o, o mesmo se diga de todos os compositores barrocos."
Pessoalmente, conheci um bébé que, ao ouvir Beethoven, agitava os pés, incansavelmente, naquilo que eu considerava uma manifestação de alegria, ou excitação positiva. Mas também soube de outra criança que, ainda antes de falar, ao ouvir cantar o "Parabéns a você", começava a fazer beicinho, e quase chorava. Música e sensibilidades...

Nota pessoal: por razões exteriores à minha vontade, ou por malfeitoria alheia (!?), desde a manhã de hoje que não consigo adicionar imagens aos postes do Arpose. Ou então é o Alzheimer do Google que continua a avançar.

Obsv.: só consegui colocar a imagem da harpa do séc. XVIII no dia 23/6/11.

sábado, 18 de junho de 2011

O pintassilgo, de visita


Sou um apaixonado por canários - e sempre utilizei e uso a palavra paixão com contenção e propriedade. Com extrema usura, e respeito. Não sou capaz (a não ser por ironia) de dizer como as "Tias": "Adorei, adorei!" Porque acho tosco, muito quitche, pedestremente vulgar. E também porque revela ignorância linguística, pobreza de sentimentos e é, no fundo, uma desvalorização da importância concreta e valor ou peso intrínseco das palavras. Será difícil, e moroso, eu explicar porque gosto tanto de canários - vem de longe. Mas a última paixão que tive por uma destas avezinhas canoras, correu mal (expliquei-a, aqui no Blogue e na terceira pessoa, a 27/3/2010). Mas agora, muito recentemente, para minha (nossa) felicidade tenho um pintassilgo por vizinho. Não é um canário, mas é da família: Carduelis magellanica. Não canta tão bem, mas canta bem. E lembra-me o canário emblemático da minha paixão e da minha infância.
A velhice contenta-se com pouco, fica grata com uma pequena lembrança quando chega ao coração. Mesmo que a visita e a lembrança não sejam constantes e quotidianas. Pois, embora seja bissexto nas visitas, o jovem, ágil e bonito pintassilgo vem pousar, de vez em quando, no parapeito da varanda a Leste, quando não está ninguém, e lhe apetece. E solta os seus gorgeios ritmados.
Longa vida, avezinha simpática! Que me acompanhes, mesmo de longe a longe, com o teu canto amigo!

sábado, 27 de março de 2010

Ducentésimo : quase uma fábula



Quando Fernanda passou no exame de 4ª classe, o Tio Joaquim deu-lhe uma gaiola grande com um canário-flauta, daqueles que cantam muito bem. O primeiro cuidado da menina, logo que acordava, era ir ver o pequeno pássaro verde-amarelo e castanho que desde que o sol nascia começava a trinar. Aprendeu a cortar-lhe as unhas, a esperar a muda da pena, a borrifá-lo de água fresca, no Verão, para que ficasse mais luzidio e limpo. Depois, ficava a vê-lo espanejar-se das gotas de água que perlavam as suas penas. Todas as semanas limpava e lavava o fundo da gaiola, para que tudo ficasse asseado. E soprava com cuidado a caixinha dos minúsculos cereais para que as cascas vazias saíssem e ficassem apenas as que ainda tinham miolo. A menina foi crescendo e o canário, envelhecendo. Entretanto, o Tio Joaquim morreu. Quando Fernanda fez catorze anos, na festa de aniversário, o primo Pedro deu-lhe, de presente, uma canária muito jovem. Era airosa, elegante e esguia, de um amarelo puríssimo e total, mas - como todas as canárias - não cantava.

Fernanda tinha aprendido e visto, em casa do Tio Joaquim, como ele aproximava em duas gaiolas um casal de canários, para habituá-los à presença, um da outra, e reciprocamente, para depois virem a acasalar. Sempre em gaiolas isoladas, durante algum tempo. E, depois, o Tio Joaquim abria as duas portinholas que havia em cada uma das gaiolas para que, finalmente, as pequenas aves coabitassem. A menina colocou então as duas gaiolas, uma junto à outra, e esperou. A princípio, a canária era esquiva e assustadiça. Piava e fugia para o lado oposto à gaiola do velho canário. Este, pelo contrário, mostrava-se agressivo e avançava, ameaçador, até às grades junto da gaiola da jovem e bela vizinha. E passou-se assim uma semana. Gradualmente, o canário foi ficando mais tranquilo e a canária amarela mais curiosa e contígua. Até que Fernanda concluiu que era tempo de juntá-los, na mesma e única gaiola. E assim fez.

No fim dessa semana, os Pais e Fernanda tiveram que deslocar-se a outra cidade, para fazer uma visita de família. A menina reforçou a ração de paínço e milho alvo na gaiola e abasteceu, com mais um recipiente de água, a nova casa dos passarinhos. Iam estar fora dois dias e ela não queria que lhes faltasse nada.

Fernanda, logo que regressaram a casa, correu para a cozinha para matar saudades dos canários. Já perto, só via a canária, muito repimpada, no poleiro. Aflita, subiu a um pequeno banco vermelho, e deparou-se-lhe, então, o pequeno corpo do seu querido canário, inerte, no fundo da gaiola. Tinha morrido. Duas lágrimas caíram-lhe dos olhos, mas logo uma divina ira adolescente a possuiu. E metendo a mão pequena pela portinhola da gaiola de arame, retirou dela a esbelta canária amarela, e furibunda deu-lhe um grito. O coração da canária batia, agora, descompassado, entre os dedos de Fernanda. E os pequenos olhos da avezita começaram a abrir e a fechar veloz e ritmicamente. Emocionalmente exausta, a menina largou então a canária no interior da gaiola, mas a canária adornou, definitiva, também e, depois de vários espasmos, ficou também inerte junto ao corpo morto do velho canário.

Os canários são pássaros muito sensíveis e nervosos. Muito mais tarde, quando veio a ler a "Carta de Guia de Casados", de Francisco Manuel de Melo, ao deparar-se com o que o escritor diz sobre os três tipos de casamento (jovem com jovem, velha com jovem e velho com moça - casamento da morte, lhe chama, neste caso), Fernanda lembrou-se, com saudade e tristeza, do casal de canários da sua adolescência e apercebeu-se que tinha feito "justiça" com suas próprias mãos, e com o seu grito. Mas, entretanto e para sempre, nunca mais quis ter canários...