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quinta-feira, 22 de maio de 2014

De uma fala de Bieito da écloga Basto, de Sá de Miranda


Come de toda a vianda,
não andes nestes entejos;
não sejas tam vindo à banda,
tem-te às voltas co's desejos:
anda por onde o carro anda.
Vês como os mundos são feitos:
somos muitos, tu só és;
por isso, em todos seus geitos,
um esquerdo antre direitos
parece que anda ao revés.

Dia de maio choveu:
a quantos a água alcançou
o miolo revolveu;
houve um só que se salvou,
que ao coberto se acolheu.
Dera vista às semeadas,
as que tinha mais vezinhas;
viu armar as trovoadas,
acolhe-se às bem vedadas
das suas baixas casinhas.

Ao outro dia um lhe dava
paparotes no nariz,
vinha outro que o escornava;
aí também era o juiz,
que se de riso finava.
Bradava ele: - Homens, estai!
iam-lhe co dedo ao olho.
Disse então: - E assi che vai?
Não creo logo em meu pai,
se me desta água não molho.

Apaixonado qual vinha,
achou num charco que farte;
o conselho havido o tinha:
molhou-se de toda a parte,
tomou-a como mèzinha.
Quantos viram lá correram:
um que salta, outro que trota,
quantas graças i fizeram!
Logo todos se entenderam:
ei-los vão numa chacota.


Nota: o excerto segue a versão de Rodrigues Lapa (Sá da Costa, 1942).

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

De Sá de Miranda, um pequeno excerto de "Montano"


...
Assi vivem sem vergonha
vestidos de mansidão,
mas dentro no coração
anda escondida peçonha,
que por mezinha nos dão.
Não sei já o que te diga;
todo o mal é da panela:
se ela dá e se dão nela
dela só é a fadiga,
dela só é a querela.

Tudo é contra os piquenos!
Destas leis tais arrenego!
A justiça não a vemos,
senão no manco ou no cego,
em nós, que pouco podemos!
...
Sá de Miranda, in Obras Completas (versão de Rodrigues Lapa).

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Idiotismos 1


Escreve Rodrigues Lapa: "Chamamos portanto grupos fraseológicos, idiotismos, frases feitas ou locuções estereotipadas a esses conjuntos de palavras, em que os elementos andam mais ou menos intimamente ligados, para exprimirem determinada ideia."
E acrescenta: "...a linguagem popular, quer citadina, quer regional, é sempre uma preciosa mina para quem souber cavar nela com acerto. Esta escolha deverá ser feita sempre com bom senso e bom gosto, de modo que os provincianismos não sejam tantos nem tão cerrados que possam dificultar a compreensão do texto."
Mas isto das também conhecidas por frases idiomáticas ou, às vezes, por expressões populares tem que se lhe diga. Normalmente, percebe-se o sentido geral em que são usadas, mas perdeu-se-lhe a origem ou razão inicial da sua criação. E é sempre bom sabermos, através duma explicação fundamentada, os pormenores do seu nascimento e utilização, no dia a dia.
Comecemos, hoje, esta rubrica, e com a ajuda de Alexandre de Carvalho Costa, pela expressão: Dar com tudo de pantanas ou Dar em pantanas. O significado geral que se pretende transmitir é: ficar sem nada, arruinar-se, estragar tudo... Mas, originariamente, este pantanas veio de Pandanare, terra da costa do Malabar (Índia) onde os portugueses, numa batalha naval do séc. XVI, terão desbaratado, numa zona de muitos ilhéus, os navios do rei de Calecute, destruindo-os completamente. Parece que, na ilha da Madeira, a frase idiomática, mais frequentemente, significa: deixar perder um negócio ou delapidar os bens de família ou os próprios. 

sábado, 25 de dezembro de 2010

Bibliofilia 38 : Livros de Cetraria



Os livros sobre cetraria (arte de caçar com falcões e açores) são sempre muito apetecidos, procurados e disputados em leilões, pelos bibliófilos. Este "Livro de Falcoaria", de Pero Menino, publicado, pela primeira vez, por Rodrigues Lapa, em 1931 (via manuscrito da secção Pombalina, 518, BNP), bem como a "Arte da Caça de Altaneria", de Diogo Fernandes Ferreira (cuja 1ª edição, de 1616, é raríssima; a 2ª data de 1899), são as obras mais conhecidas, portuguesas, sobre esta arte.
Pero Menino era um dos muitos falcoeiros do rei D. Fernando I que gostava muito de caçar. O livro acima referido, lê-se com muito agrado pela vivacidade da escrita e pelo "castiço" da linguagem medieval, usada pelo falcoeiro régio.
O meu exemplar do "Livro de Falcoaria" custou-me, nos anos 80 do séc. passado, Esc. 2.200$00 (cca. 11,00), num alfarrabista da Rua do Alecrim, em Lisboa. Recentemente, a 7 de Dezembro de 2010, num leilão (75) da Livraria Antiquária do Calhariz, de José Manuel Rodrigues, um exemplar (lote 503) semelhante ao meu, também brochado, foi arrematado por 55,00 euros.

sábado, 2 de outubro de 2010

Jorge de Sena e as suas "Dedicácias"


Há uma ideia que se perpetuou, grandemente, a propósito de Jorge de Sena (1919-1978). É a de que era um homem agressivo, de mau feitio e pouco conciliador. Eu tenho, no entanto, uma opinião diferente. Baseio-me nos poucos dados pessoais de que disponho, e no testemunho de Eugénio de Andrade que o conheceu bem. Penso que era alguém que, tanta vez atacado injustamente (por vezes, de forma encoberta e sinuosa), criou uma estratégia inteligente de defesa prévia e um espaço, em volta, que lhe permitia ter tempo e modo de contra-atacar, pensada e engenhosamente. E aí, sim, era, por vezes, agressivo.
Como me preocupo, já, muito pouco com as modas e novidades literárias - que deve ser uma obrigação e dever da Juventude -, só ontem dei pela saída da segunda edição das "Dedicácias" (Março de 2010). Em relação à 1ª edição (1999), vem acrescida do discurso da Guarda, onde Jorge de Sena pronunciou, como convidado oficial, uma exposição de ideias sobre Camões e sobre o dia de Portugal - que eu ouvi, na altura, mas nunca mais tive oportunidade de ler, posteriormente. Comprei, por isso, esta segunda edição da editora Guerra e Paz.
Num folhear ligeiro, apercebo-me de que não consta da obra, pelo menos, o poema de "escárnio e maldizer" dedicado a Alberto de Lacerda. Aliás, Mécia de Sena diz-nos, na Nota Prévia, que faltarão 7 dedicácias...
Transcrevo de "Dedicácias" um dos poemas menos ácidos de Jorge de Sena, em que se refere a Rodrigues Lapa, António Sérgio e Charles S. Boxer.

História Trágico-Marítima

Lapas e Boxers eminentes, Sérgios racionais,
com que prazer glosais erros e culpas
que às naus as afundaram
na carreira das Índias!
Dos carpidores ecoais todas as queixas
de Velhos do Restelo. O que quereis?
Que nada se afundasse
e o império fosse rico?
Ou que ninguém jamais o navegasse
senão entre Coimbra e Celorico?