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terça-feira, 5 de setembro de 2017

Memória (117)


O Vouga, de quem Rúben A. dizia ser o rio mais tímido que há em Portugal, e o Douro, estão na mira de deambulações, esta semana. Mas se, para o primeiro, o objectivo há-de ser museológico, no segundo se irão provavelmente enquadrar aspectos mais prosaicos, como sejam as vindimas.
Delas, as recordações também a Norte, são muito longínquas. E de uma camioneta grande e de caixa aberta em que, com o meu amigo Fernando, rumámos às Taipas, para colher as uvas tintas de uma pequena quinta, que quase bordejava o Ave. Da sequência é que já não me lembro...
Mas, de tempos remotos, recordo a primeira e única vez em que pisei uvas, num enorme lagar vimaranense. Meu tio Jorge pontificava, soberano, e dando indicações. Ainda hoje, esse cheiro intenso a mosto me chega às narinas, vindo da infância, quando o chamo à memória.

domingo, 4 de janeiro de 2015

A magnólia de José-Augusto França



Eu julgo que qualquer ser humano tem a sua árvore de referência ou eleição. As minhas primeiras árvores de estima foram uma ameixoeira e uma figueira. Esta última parecia retorcer-se até ao céu, no quintal vizinho do meu amigo Fernando. Por ela, tanta e tanta vez, trepámos!... A outra, muito mais maneirinha, florescia e frutificava no meu pequeno quintal minhoto, até que, um dia, secou e deixou de dar essas, para mim, antiquíssimas ameixas vermelhinhas.
No seu lugar, foi plantado e cresceu, dando frutos generosos, um belíssimo limoeiro que passou a ser a minha árvore preferida e emblemática, para sempre. O branco nupcial da floração e, depois, o verde e o amarelo dos limões deram-me para mais do que um poema... E estão lá, no fundo da memória. Mais os outros dois outrabandistas e presentes, quase bonsais, na varanda a leste.
Ora, para lá do cedro do Príncipe Real e de tantas outras árvores do Jardim Botânico de Lisboa, no segundo livro de memórias (Memórias para após 2000, Livros Horizonte, Lisboa, 2013) de José-Augusto França (1922), ergue-se e destaca-se, em Jarzé (França), uma magnólia. Assim:

"A magnólia mesmo, de há meia dúzia de anos para cá, árvore centenária, aclimatada da Índia, e mal reconhecida de reacções biológicas, especialistas a especialistas, remédios a remédios experimentados, uma muleta que se lhe fiz dar, para suportar o peso da ramagem virada a nascente, mais abundante, mas que se rendilha, perdido o lustro verde das longas folhas e só, ainda, brotando, em Junho e Julho, belíssimas, acetinadas e olorosas flores que são, afirmam os pré-historiadores, as mais antigas do mundo, conhecidas em fósseis e que persistem, ano a ano das nossas eras... Até este «Pavillion» onde vejo (com André) falecer a minha árvore de adopção e referência. Qual de nós os dois, pergunto também, se irá primeiro? Abatê-la, aconselham os sabedores, e dentro de vinte anos outra grande árvore, à escolha, no mesmo sítio terá crescido. Vinte anos? Muito obrigado..." (pgs. 148/9).