Eu julgo que qualquer ser humano tem a sua árvore de referência ou eleição. As minhas primeiras árvores de estima foram uma ameixoeira e uma figueira. Esta última parecia retorcer-se até ao céu, no quintal vizinho do meu amigo Fernando. Por ela, tanta e tanta vez, trepámos!... A outra, muito mais maneirinha, florescia e frutificava no meu pequeno quintal minhoto, até que, um dia, secou e deixou de dar essas, para mim, antiquíssimas ameixas vermelhinhas.
No seu lugar, foi plantado e cresceu, dando frutos generosos, um belíssimo limoeiro que passou a ser a minha árvore preferida e emblemática, para sempre. O branco nupcial da floração e, depois, o verde e o amarelo dos limões deram-me para mais do que um poema... E estão lá, no fundo da memória. Mais os outros dois outrabandistas e presentes, quase bonsais, na varanda a leste.
Ora, para lá do cedro do Príncipe Real e de tantas outras árvores do Jardim Botânico de Lisboa, no segundo livro de memórias (Memórias para após 2000, Livros Horizonte, Lisboa, 2013) de José-Augusto França (1922), ergue-se e destaca-se, em Jarzé (França), uma magnólia. Assim:
"A magnólia mesmo, de há meia dúzia de anos para cá, árvore centenária, aclimatada da Índia, e mal reconhecida de reacções biológicas, especialistas a especialistas, remédios a remédios experimentados, uma muleta que se lhe fiz dar, para suportar o peso da ramagem virada a nascente, mais abundante, mas que se rendilha, perdido o lustro verde das longas folhas e só, ainda, brotando, em Junho e Julho, belíssimas, acetinadas e olorosas flores que são, afirmam os pré-historiadores, as mais antigas do mundo, conhecidas em fósseis e que persistem, ano a ano das nossas eras... Até este «Pavillion» onde vejo (com André) falecer a minha árvore de adopção e referência. Qual de nós os dois, pergunto também, se irá primeiro? Abatê-la, aconselham os sabedores, e dentro de vinte anos outra grande árvore, à escolha, no mesmo sítio terá crescido. Vinte anos? Muito obrigado..." (pgs. 148/9).