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terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Do que fui lendo por aí... 48



(...) Mãe e pai tinham para com as flores o contacto comum de qualquer pessoa apressada à volta de um ecossistema desnudadamente urbano. Passavam por elas, mas não as sentiam. Aqui e acolá, visitavam-nas nas pólis dos centros comerciais ou por ocasião de um funeral ou de um dia comemorativo. Mas mesmo aí, entravam como se entra num salão social onde a gente se acotovela e onde não é possível distinguir o bom do mau, o sensível do apático. Nessa amálgama de flores de tantos odores, nenhum fica na memória porque todos se confundem. (...)

António Bagão Félix (1948), in O cacto e a rosa (pg. 72).

sábado, 27 de janeiro de 2018

As palavras de ontem


Só hoje dei por uma crónica de António Bagão Félix (1948), sobre o direito ao silêncio. Num jornal que cada  vez sinto mais afastado de mim, na sua deriva direitista que se iniciou, mais ostensivamente, desde a entrada deste último director, que tinha sido assessor do anterior PR. Et pour cause...
Transcrevo o início da crónica de A. B. F., por me parecerem justas e oportunas as suas palavras:

"O silêncio é agora urbi et orbi quebrado pela autocracia do som ainda que musical. Na espera dos telefones onde nos impingem músicas e ritmos que não pedimos e que nunca ouviríamos, a maior parte das vezes para intervalar um serviço de atendimento permanentemente entupido ou deficitário de qualidade. Uma pessoa em desespero e luto é agredida com um alegre folclore ou música pimba que àquela hora a apanhou num telemóvel. Nos elevadores, a má-criação de um mau silêncio de quem não tem a educação mínima de cumprimentar quem entra ou sai, é envolta numa qualquer musiqueta de pacotilha. Nos transportes ou nos táxis, o seu utilizador tem de aturar, sem dar autorização, música rasca ou anúncio aparvalhado. ..."

Ironicamente, eu chamaria a isto a verdadeira ditadura do proletariado, sobre as minorias.