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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Apontamento 130: Instrução




Pese embora o aumento da escolaridade obrigatória, constata-se uma degradação acentuada no que se refere a uma instrução básica, ferramenta essencial para uma realização pessoal digna desse nome.

A minha constatação, não sendo recente, encaminhou-me, desde sempre, para obras com o tema genérico da “ensinança”, desde os “espelhos dos príncipes”, “tratados sobre a educação dos nobres” até aos “vademecuns” como o acima reproduzido.

Confesso que sempre aprendi imenso. Do livrinho de Francisco José Freire, e recordando um verso de Luís de Camões, sobre o seu “discreto secretário”, ficamos, pois, a saber que uma das principais perfeições do secretário é, como não podia deixar de o ser, a “observância do segredo”.

Passando das qualidades às imperfeições, não deixei de reparar nos defeitos da prolixidade, sobretudo olhando ao panorama que nos rodeia no quotidiano.

Assim, explica o autor o defeito da prolixidade: “Chamo prolixidade a huma certa vastidão, e grandeza de Cartas, que dizendo pouco em muitas palavras, causa fastio a quem lê. Livra-se por tanto o Secretario de amplificações, digressões, e de outras semelhantes, e fastidiosas locuções. Fuja de multiplicidade de textos, e authoridades: e busque sempre ser breve, com tanto que naõ tire a energia ao conceito, de que usa na sua Carta.”

Sublinhei, portanto, os conselhos de superior sabedoria do autor, muito recomendáveis a escrevinhadores actuais, aduzindo que ele associa a prolixidade à “escuridade no dizer” e, claro está, à ignorância“, quão grande defeito seja em hum Secretário.”

Post de HMJ

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Da riqueza e dificuldades da língua portuguesa (3)


A contenção é rara entre os latinos, e uma virtude nobre se acontece. O barroco é grandemente sulista, na sua verborreia decorativa de brilhos e dourados. A concisão dos nossos anexins ou adágios de lapidar sageza contrapõe-se, desabrigada, à multidão, quase toda redundante, de epopeias portuguesas que, depois de Camões, enxameou os nossos séculos XVII, XVIII e XIX. Para culminar e acabar talvez, em 1972, com as QVYBYRYCAS, de A. Q. Grabato Dias (1933-1994), editadas em Moçambique, com competente prefácio de Jorge de Sena (1919-1978).
Esta lusa falabaratice desbragada contribuíu, certamente, para a inexistência de uma filosofia genuinamente portuguesa que orientasse, projectasse e arrumasse os nossos desígnios mais íntimos e os encaminhasse para objectivos maiores e essenciais. Não raro, até os nossos, por caridade chamados, proto-filósofos - de quem, por pudor cristão, não refiro os nomes - frequentemente, pelos seus textos desorganizados, se perdem em obscuros labirintos, por onde o seu pensamento e teorias se fragmentam, estiolam e perdem, em definitivo, por terras sáfaras de nenhures.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Osmose 111


Claro que posso dizer: vivo há 45 anos em Lisboa. Mas é falso ou, pelo menos, não é exacto. Quantos dias que, somados, fariam anos, passei por outras terras portuguesas, para além dos muito mais de 17 anos que vivi em Guimarães? E pela vizinha Espanha, por onde me iniciei em tenra meninice, devo ter, bem à vontade, aí 2 meses de permanência, feitas as contas de somar. Pouco mais ou pouco menos, deve seguir-se a Bélgica, que ultrapassa largamente Paris de França onde me aboletei cerca de uma semana, bem cara por sinal, aos preços da época. De Luxemburgo foi apenas um vol d'oiseau, menos ainda do que as horas que passei na e pela Holanda.
Europeu ocidental de alma e coração, e sem desejo doutras pátrias de afeição, restam-me Londres, Kew Gardens e Greenwich, por onde andei cerca de mês e meio, em seis anos distintos. Inglaterra, portanto. E, finalmente, a Alemanha, ocidental claro, que me acolheu bem perto de dois anos espaçados, por entre 1963 e 2018 - campeã das minhas permanências estrangeiras.
Se usasse de ufania, bem poderia dizer que tive a alma em pedaços pela Europa repartida, como do Mundo se gabava o nosso Vate maior...

domingo, 28 de julho de 2019

Bibliofilia 178


Nos meus tempos de frequentador assíduo de leilões de livros, ficou-me a lembrança de algumas figuras características, nas suas preferências apaixonadas, da singularidade de alguns comportamentos humanos, no aceso das almoedas. Se uns licitadores eram discretos, outros mostravam a sua exuberância ruidosa, outros ainda o seu mau feitio e birras. Quanto a temáticas, havia um discretíssimo licenciado em Farmácia que se abalançava, tenso, a livros quinhentistas, um general na reserva que não perdia uma camoniana, um industrial corticeiro que comprava muito e diverso, um alfarrabista sorumbático que não perdia nunca um lote de livro raro que começasse a licitar...
Quanto a camilianistas, lisboetas, nunca dei por nenhum muito importante, mas havia os que vinham do Norte, quando o leilão era significativo, como este da Soares & Mendonça, que foi organizado pelo alfarrabista portuense Manuel Ferreira. E que tem um gostoso prefácio do bibliófilo e grande jornalista Raul Rego (1913-2002), que aqui deixo em partilha, pela sua qualidade intrínseca.


Não faltavam nesta riquíssima almoeda de Fevereiro de 1968, as muito raras edições originais camilianas de A Infanta Capellista (1872) ou do célebre folheto Matricidio sem Exemplo..., (capa em imagem, abaixo) que terão feito porventura as alegrias dos afortunado arrematadores.
Não tive oportunidade de assistir a este importante leilão, porque me encontrava, em Mafra, a cumprir o serviço militar, mas vim a adquirir, mais tarde, o catálogo desta almoeda da Soares & Mendonça, por 9 euros, no meu alfarrabista de referência - em boa hora.

para MR, obviamente, e com estima.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Mercearias Finas 147


De pêras, mais do que a Rocha, na memória gustativa ficou-me a saborosa Passe-Crassane, só que se dava muito mal com a minha crónica, ainda que suportável, colite. Vim depois a saber que era um híbrido enxertado de marmeleiro, ainda no século XIX, na Normandia (França). Daí o seu tamanho, talvez. E sabor muito especial.
Quanto a Pêras Bêbadas, de sobremesa, só as provei, pela primeira vez, em Lisboa. E, quando bem feitas, passaram a ser um dos meus terminais predilectos para coroar e sublinhar, principescamente, uma boa refeição aconchegada. Mas já não as provava há muito.
Ora, aconteceu que, de surpresa, nos ofereceram um cestinho de pêras médias, criadas com desvelo, numa quintinha lá para as bandas de Constância, por onde dizem que Camões também andou... Cruas e experimentadas por HMJ, provaram ser muito boas, tanto que resolveu embriagá-las, para mim. E abrir, nas suas manufacturas domésticas, um novo capítulo - veio a sair-se lindamente.
Cozidas num tachinho de Dão tinto Grão-Vasco (colheita de 2016), acompanhadas de 2 paus de canela e 5 cravinhos da Índia, com raspa de laranja e açúcar q. b., ficaram um primor, as pêras bêbadas. E já marcharam 3...

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Retratos (24)



Esguio, muito seco de carnes, pele muito branca, o que nele mais surpreendia era o aperto de mão musculado e forte vindo de uma tão aparente fragilidade corporal. 
Naquela vilória desengraçada e repetida, encontrá-lo era um oásis de frescura, no meio das minhas deambulações profissionais desinteressantes. E o prólogo apetecido de dez dedos de conversa estimulante. Bancário reformado, viúvo, pertencera à tertúlia lisboeta de José Marinho, era um ledor compulsivo e os seus diálogos tinham quase sempre um pendor filosofante.
Ele no início dos seus 80, eu a entrar nos sessenta, apesar da diferença de idades, fizémo-nos amigos leais, porque nos entendíamos facilmente. Trocámos muitas ideias e livros, mas há mais de 5 anos que o não vejo. O mais provável é já ter falecido, seguindo talvez o seu amigo Luís Amaro que lhe morava perto e de quem me falava muitas vezes.
O que eu não posso esquecer é que referindo-lhe eu, esmorecido, as leituras de Cícero (De Senectute) e Simone de Beauvoir (La Vieillesse), nos preparatórios para a velhice, J. Braga me tivesse oferecido, alguns dias depois, os Comentarios sobre la Vejez..., de Blanco Soler. Que foi, até hoje, o melhor livro que li sobre o assunto. E que conservo, religiosamente.
E já que falei de coisas santas, e a ele, que era crente, lhe desejo daqui a tranquilidade filosofante, lá, no assento etéreo, para onde provavelmente subiu.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Do que fui lendo por aí... 29


Eu creio que só teremos a ganhar, se nos dispusermos a reler Camões e se, antecipada e humildemente, fizermos acompanhar essa leitura de uma prévia abordagem a alguns dos muitos ensaios que Jorge de Sena dedicou, com labor abnegado, ao nosso grande épico.
Far-se-á assim uma leitura mais proveitosa de Camões, madura e enriquecida, que nos permitirá, por cotejo, verificar também a insignificância daquilo que, sob o nome de poesia, se vai publicando, copiosamente, em livro, nestes nossos dias de "apagada e vil tristeza" literária.


quarta-feira, 22 de maio de 2019

Desabafo (46)


Volta, Dylan, que estás perdoado!
Afinal, quem é Luís de Camões, comparado com Alfred Nobel!?
Apenas um pobre homem luso que nem sequer inventou a dinamite...

domingo, 28 de abril de 2019

Shakespeare, outra vez?


O penúltimo TLS (nº 6055) consagra a Shakespeare 11 das suas 40 páginas.
E eu fico pasmado como é que estes ingleses ainda conseguem produzir, com inovação e qualidade, novos estudos sobre o seu maior dramaturgo. E com regular frequência.
As comparações são quase sempre despropositadas, mas eu arriscaria dizer que seria o mesmo que a Colóquio-Letras ( JL e a Ler estão muito abaixo da qualidade do TLS), ciclicamente, abordasse a obra do nosso Camões, com estudos inovadores e originais. Se nos anos 50/70 tivemos uma pléiade de sérios e competentes académicos e ensaístas (Pimpão, Costa Ramalho, Aguiar e Silva, Jorge de Sena...) que estudaram Camões, hoje, os nossos professores universitários de Humanidades parece que meteram todos a viola ao saco...
Tudo isto me faz pena. 

P.S: chamo a atenção para o elegante grafismo da capa deste TLS, representando Hamlet.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Se... um poema


Desde que haja algum talento, traquejo de ofício e sensibilidade, o célebre poema If, de Rudyard Kipling (1865-1936), pode ser acrescentado, de versos, interminavelmente, sem que se lhe altere, de forma significativa, o seu conteúdo original. Ou pode ser glosado até à exaustão, nas suas proposições condicionais e moralistas. Alexandre O'Neill (1924-1986) fê-lo, com humor e sucesso, em Feira Cabisbaixa (1965). Outro tanto se poderia dizer do soneto camoniano "Amor é um fogo que arde sem se ver..." que, por sua vez, também foi imitado (mal, quase sempre), embora de forma séria, por tantos poetas portugueses.
Há que desconfiar, sempre, da qualidade poética destas ladainhas encantatórias e destas verborreias irradiantes e repetitivas que pululam em todas as literaturas, e agradam a muita gente, pouco preparada. Talvez alguns dos poemas consigam atingir a bitola da  verdadeira poesia. Outros, que são a grande maioria, não.
Fica o aviso à navegação.

domingo, 3 de setembro de 2017

Palavras mágicas


As expressões Shazam e  Abracadabra perderam, há muito, a sua força encantatória. Agora, são as workshops, as startups e quejandos, que fazem sonhar. Para alguns, ditas estas palavras, logo eles entram em transe hipnótico de felicidade tecnológica e alumbramentos de alma.
Graças aos economistas, aos comentadores espúrios, aos CEO, aos informáticos mono-aculturados e a alguma juventude pária, o linguajar português transformou-se, pouco a pouco, numa incaracterística manta de retalhos, talvez semelhante à "linguagem meada de ervilhaca" de que falava Camões, na sua carta da Índia.
Penso até que não devíamos perder mais tempo com a CPLP, por causa do A. O.. Melhor seria encetarmos negociações, pragmaticamente e desde já, com a administração norte-americana. E criarmos, cheia de futuro, uma nova sub-língua, neste rectangular espaço europeu à beira-mar plantado. 

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Sete anos de pastor Jacob servia...


Ao dar contas, vêm chegando os números:
quase 9.000 postes, ultrapassados os 300.000 visitantes, nestes 7 anos que hoje o Arpose celebra.
Veremos o futuro, agradecendo a quem nos vai visitando!

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Da leitura (15)


Se nos dermos ao trabalho, como eu fiz nestes últimos dois meses, de (re?)ler Os Lusíadas, pelo menos, chegaremos a uma sucinta e pragmática conclusão: todos os impérios acabam, por mais grandiosos que tenham sido.
Também, depois da leitura e para sermos justos, ficaremos assombrados com os conhecimentos prodigiosos de Camões: de ordem histórica, geográfica e humana, de mitologia e antiguidade clássica, reunidos num simples homem. Que, porém, tinha mundo... e não pequeno.
Não recomendarei a ninguém este exercício de leitura, apesar de valer a pena. Estes desejos, ou vêm com a idade, ou não vêm nunca. Mesmo que sejamos portugueses que, na sua maioria, infelizmente, preferem ler e folhear tijolos, nos transportes públicos. Calhamaços que são totalmentes inúteis e muito mais indigestos.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Dia de Camões e das Comunidades


Já aqui no Arpose falei (8/5/2011) do bom humor do nosso grande Poeta. E como hoje é dia de celebrar Camões, aqui deixo duas estâncias do chamado episódio de Veloso, marinheiro que se aventurou a ir a terra, durante viagem de ida para India, mas ia sendo mal sucedido e morto, se não fugisse correndo, para longe de alguns indígenas africanos, ameaçadores e sanguinolentos. O episódio espelha bem o sentido de humor do autor de Os Lusíadas. Como se pode ler:

...
E sendo já Veloso em salvamento
Logo nos recolhemos para a armada
Vendo a malícia feia e rude intento
Da gente bestial, bruta e malvada:
De quem nenhum melhor conhecimento
Podemos ter da Índia desejada,
Que estarmos ainda muito longe dela
E assim tornei a dar ao vento a vela.

Disse então a Veloso um companheiro
(Começando-se todos a sorrir)
Ou lá Veloso amigo, aquele outeiro
É melhor de descer que de subir:
Se é, responde o ousado aventureiro
Mas quando eu para cá vi tantos vir,
Daqueles cães, depressa um pouco vim
Por me lembrar que estáveis cá sem mim.
...

Luís de Camões, Os Lusíadas (Canto V).

sexta-feira, 29 de abril de 2016

As favas de Constância


Lá voltámos às favas, que vem aí o tempo delas. Dadivosas primícias de um casal amigo que as trabalham lá para os lados de Constância, terra que se arroga ao privilégio de ter acolhido Camões, em tempos de juventude e de desventura amorosa. Frescas, macias e temporãs, deram uma favada deliciosa, à mistura com uns enchidos pecaminosos de gula, mais uns bocados generosos de entrecosto, de reco luso.
Estava eu a guardar um vinho, que trouxera do Fundão, para um momento auspicioso. E isto porque era lotado com as duas castas tintas minhas preferidas: a Tinta Roriz (Aragonez) e a Jaen. Mas eu podia lá esperar, tanto tempo!?... E abri-o, para ver no que dava a companhia. Perfeita.
É um vinho capitoso, nos seus 8 anos e 14º. E não digo mais nada, porque o silêncio é de ouro e o almoço foi soberbo...

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Que razões?


"Como é que alguém se senta e se dispõe a escrever mais um livro sobre Shakespeare?" - pergunta Neil Forsyth, no penúltimo TLS (nº 5855), ao iniciar a sua recensão sobre a obra Shakespeare and Abraham, de Ken Jackson.
Ora, isto mesmo já me perguntei eu, variadíssimas vezes, neste meu já longo convívio com o jornal literário inglês, em que é rara a semana em que não se fala do grande dramaturgo britânico. Este facto, insólito para mim, seria comparável, talvez, a que cada quinzenal JL trouxesse um texto sobre Camões.
Acrisolado amor? Fascínio continuado ou devoção perseverante e patriótica? O que é facto é que a obra de Shakespeare vai ganhando novas perspectivas e actualizadas interpretações. Que melhor a explicam, ao nosso tempo, facilitando porventura a sua leitura, pelas novas gerações.

sábado, 20 de junho de 2015

(Mote e) Glosa (5)


"...Um outro cristão-novo, Manuel Batista Peres, «el capitán grande», nasceu em Ançã em 1589. Aos 5 anos veio para Lisboa, aos 12 para Sevilha, aos 20 torna a Lisboa donde viaja para a Guiné entregue ao tráfego negreiro. Desembarcou umas quatro vezes em Cartagena das Índias com armações de negros. E durante anos navegou em comércio entre Cartagena e Callao, o porto de Lima.
Em Callao era proprietário duma loja na Rua dos Mercadores, dumas casas de morada junto ao convento de S. Domingos, duma quinta no vale de Bocanegra, duma fazenda nas Lomas de Pachacana e de casas para negros em S. Lázaro. Em 1635 a sua biblioteca reunia 150 títulos, de Xenofonte a Plínio e Cícero, e nos contemporâneos Cervantes, Quevedo, historiadores espanhóis, João de Barros, Diogo de Couto, as Rimas de Luís de Camões, Fernão Mendes Pinto, Francisco Rodrigues Lobo. ..."

António Borges Coelho, in Os Filipes (pg. 118).

Se me não questiono sobre o resto da vida deste grande comerciante luso, por terras do Peru, outro tanto não acontece sobre qual terá sido o destino da sua interessante biblioteca. Quem sabe se amarelecida pelo calor tropical e pela humidade geográfica local. Pergunto-me, se sobreviventes, por onde andarão as Rimas de Camões, o livro de Quevedo e a, hoje, raríssima (e cara) Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Na melhor das hipóteses, poderão estar no acervo de alguma biblioteca universitária (?) do Peru. Assim seja!

segunda-feira, 11 de maio de 2015

O todo e o mínimo


Será que o espaço geográfico determina a capacidade de um autor, no tratamento de grupos sociais, pela expressão artística? Foi a pergunta que me ocorreu, pouco depois de reiniciar a leitura de "Guerra e Paz" de Tolstoi, com as suas inúmeras personagens, de algum modo, cobrindo, transversalmente, a sociedade russa. De outra maneira, se o espaço nacional, em que nos movemos, diminui ou alarga o horizonte da expressão artística dos naturais - ver pequeno, ou ver grande... Será que os autores dos pequenos países estão confinados e amaldiçoados ao tratamento artístico de pequenos microcosmos regionais? E o todo se lhes escapa, sempre?
É evidente que "Guerra e Paz" é transversal na abordagem das várias camadas sociais, privilegiando embora as classes mais altas, em detrimento de camponeses e artesãos. Mas poderemos ver o inverso, mantendo-se a larga latitude, nas obras de Eisenstein, de D. W. Griffith ou de Kurosawa. Por aqui, Portugal, teríamos de recuar vários séculos atrás, para chegar até a "Os Lusíadas", de Luís de Camões. Quando ainda havia Império e longas extensões territoriais, abertas ao olhar...

sábado, 2 de maio de 2015

O açúcar da diáspora


Diz-me pouco, o Uruguai, mas 467 portugueses, numa população de pouco mais de 3 milhões e meio de habitantes, será uma comunidade emigrante pequena, embora significativa.
Taprobana, no tempo de Camões, depois, Ceilão se chamou, e agora dá pelo nome de Sri Lanka, que é mais exótico. Ao que parece, os portugueses desembarcaram lá, na grande ilha do Índico, ainda no início do século XVI, mais precisamente, em 1505. Mas, hoje em dia, este pequeno grupo de 5 portugueses deve sentir-se bem isolado. Malhas que o Império tece e os políticos canhestros vão favorecendo, no presente...

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O Livro


Isto de haver tantas celebrações - algumas supinamente ridículas - faz com que já nem cheguem os dias do ano, em singular, para deitar os foguetes. O mesmo acontece com os Santos da Igreja, que são tantos, que há dias em que se celebram aos magotes e grupinhos numerosos.
Juntar o Dia Mundial do Escutismo, na mesma data, com o do Livro, só por maldade, a menos que se queira lembrar apenas a literatura infanto-juvenil, apropriada aos escuteiros, o que seria redutor, porém.
O Livro é, na verdade, e para o mundo ocidental, a Bíblia. Como o Corão será, talvez, para o Islão, tão representativo.
E não tenho dúvidas em afirmar que os livros me deram grandes alegrias e muitos conhecimentos, ao longo da minha vida. São, para mim, objectos de estimação que muito respeito. Até sublinhá-los me custa...
Para o país que somos, alguns livros serão matriciais, mas nenhum tanto como "Os Lusíadas", de Luís de Camões, autor que, hoje em dia, pouco deve ser lido, na sua integralidade essencial. E em livro. E falo do que observo e noto, por exemplo, na grande quantidade de visitas, que quase diariamente vêm ao Arpose ler a magnífica "Carta da Índia", de Luís Vaz...Lê-la-ão por inteiro (que ela é extensa), ao menos?