Ao Desconcerto do Mundo
Ao Desconcerto do Mundo
Sendo recorrente, nunca será banal uma referência aos Painéis do Infante ou Políptico de S. Vicente de Fora (1445?-1470?), de Nuno Gonçalves. Se a representação de grande parte da pintura nacional ou estrangeira acaba por entrar numa normalidade da memória visual de cada indivíduo, esta obra-prima portuguesa suscita, de cada vez que a observamos, uma nova e inevitável curiosidade. Até por alguns mistérios insolúveis que encerra.
Eu ousaria afirmar que estes painéis, guardados no MNAA, estão, em importância cultural, para a pintura portuguesa, tal como Os Lusíadas, de Luís de Camões, estão para a literatura nacional. E com uma igual importância matricial.
Tendo em atenção o dia, aqui fica uma imagem das Rimas de Luis de Camões (Sonetos, Centúria Primeira), de 1685, comentadas por Manuel de Faria e Sousa.
É ponto assente, nas minhas referências memoriais, que o primeiro romance de Camilo (1825-1890) que li terá sido O Retrato de Ricardina. Para o 6º ou 7º ano, tive que ler o Amor de Perdição, mas não me lembro, com rigor, da impressão inicial que me deixou.
De há um tempo a esta parte, deu-me para reler alguns clássicos da nossa literatura. Assim fiz com Os Lusíadas, há uns 4 ou 5 anos, assim estou a fazer agora com a obra magna camiliana, tendo alcançado já as 85 páginas e finalizado o capítulo VII.
As impressões são várias. Da pungência custosa até à ironia divertida, da leitura empolgada ao tédio interpretativo, da admiração ao humor. Datado embora, não deixa de ser um grande livro.
Pequenos universos alheios contribuem, muitas vezes, para mínimos microcosmos pessoais que nos levam até outras paragens reflexivas irradiantes e próprias, que se tornam quase pessoais. Alex Moran escreveu que: Uma das tarefas fundamentais da filosofia é a de transformar em estranho aquilo que parece familiar. O agente gráfico do jornal resolveu aditar ao texto a imagem da escultura de Will Ryman, The Roses, situada na Park Avenue, de Nova Iorque. Que, por sua vez, talvez tenha contribuído para o título do texto da recensão do artigo: The redness of the rose. Que eu teimaria em traduzir, forçadamente, por: A vermelhidão da rosa. Quem sabe se não por influência da camoniana pretidão de amor?
Se todos os caminhos, dizem, levam a Roma, também é certo que a imaginação nos pode levar muito longe...