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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Osmose 113


Se houvesse além, havias de já ter dito alguma coisa, depois de arrumares as tuas roupas, livros e  outros pertences, ao chegares. Sempre foste mais arrumado que eu - lembro-me bem. Excepto no final dos teus dias, já mais complicados.
Mas tenho imensa dificuldade em situar-te, agora. Saiba embora que estás nalgum lado: mas qual o espaço eleito, o cenário preferido para te recordar? A Norte ou a Sul? A Foz húmida dos últimos dias ou a Caparica, ainda quase juvenil e luminosa dos antigos Verões despreocupados e dos Agostos imensos encantados e alegres, povoados de crianças que eram nossas?
Sei, porém, que é em mim, no presente, que te hei-de encontrar.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Osmose 112


O homem era discreto e cliente habitual do pequeno quiosque, que costumo frequentar. Não lhe conhecia extravagâncias nem demasias que não fossem esperadas. Mas também estou habituado a que falem ou me respondam, às vezes e inesperadamente, em verso - para alguma coisa e com motivo dizem que somos um país de poetas e desgarradas...
Convencionalmente, na loja e à saída, eu despedi-me dos outros fregueses com um Feliz Natal. Mas quedei-me na soleira da porta, antes de enfrentar o manto leitoso de nevoeiro, ao ouvir um trautear poético do tal cliente discreto. E até lhe fixei a quadra imperfeita, que, na altura, achei bonita:

Há que medir a vontade:
de sossego ou de distúrbio
- escolher
o natal que se procura.

E, intimamente, até concordei com ele.


sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Osmose 111


Claro que posso dizer: vivo há 45 anos em Lisboa. Mas é falso ou, pelo menos, não é exacto. Quantos dias que, somados, fariam anos, passei por outras terras portuguesas, para além dos muito mais de 17 anos que vivi em Guimarães? E pela vizinha Espanha, por onde me iniciei em tenra meninice, devo ter, bem à vontade, aí 2 meses de permanência, feitas as contas de somar. Pouco mais ou pouco menos, deve seguir-se a Bélgica, que ultrapassa largamente Paris de França onde me aboletei cerca de uma semana, bem cara por sinal, aos preços da época. De Luxemburgo foi apenas um vol d'oiseau, menos ainda do que as horas que passei na e pela Holanda.
Europeu ocidental de alma e coração, e sem desejo doutras pátrias de afeição, restam-me Londres, Kew Gardens e Greenwich, por onde andei cerca de mês e meio, em seis anos distintos. Inglaterra, portanto. E, finalmente, a Alemanha, ocidental claro, que me acolheu bem perto de dois anos espaçados, por entre 1963 e 2018 - campeã das minhas permanências estrangeiras.
Se usasse de ufania, bem poderia dizer que tive a alma em pedaços pela Europa repartida, como do Mundo se gabava o nosso Vate maior...

sábado, 12 de outubro de 2019

Osmose 110


Um discurso luxuriante deixa-me normalmente sem palavras. A retórica funciona, para mim, como uma espécie de vacina, sem me dar febre, porém. E lembro-me, comovido, dum administrativo das ex-colónias, com discursos pernósticos, empolados no tom de voz e muito compridos no tempo de declamação, a quem chamavam por graça, aplicada e justamente: "o garganta do Império".

sábado, 7 de setembro de 2019

Osmose 109


Se há frases que se nos impõem pela sua intensidade contagiante, há versos que nos iluminam o caminho e nos podem incendiar o pensamento. Ou a imaginação.
Em 1962, a então jovem estreante, em prosa, Yvette K. Centeno (1940), através da Portugália, editou um livro que tinha como título o início de um poema de Pessoa: Não só quem nos odeia.
Já nessa altura, Ricardo Reis era o meu heterónimo preferido. E, ainda hoje, aquele que mais releio. Esse poema era um dos que me acompanhava, de cor, como evidência sentida, intimamente.


Se quem nos ama/ Não menos nos limita. completa esse poderoso axioma, ele foi, com a idade, tornando-se-me verdade absoluta e incontornável evidência prática.
Quantas vezes nos auto-censuramos, calando o que sentimos para não ferir ou ofender quem amamos? Quantas vezes omitimos por amor aos outros? Assim nos limitando ou restringindo a própria liberdade individual.
Será que a solidão total é o preço a pagar pela liberdade inteira? Talvez.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Osmose 108


A contemplação do movimento sempre me descansou e atraiu o olhar. É por isso que gosto de ver o mar ou observar a deslocação das nuvens no azul. E me cansa o percurso prolongado do verde, ao longo de uma floresta densa e sem vento. É evidente que tenho de levar em conta, objectivamente, a forma de como reajo às cores.
Ontem, por volta das 19h00, o céu e as nuvens apresentavam-se assim (fotografia acima), no meu horizonte da varanda a leste, em tom quase lilás. Cerca das 20h30, ao sumir-se a luz, as nuvens estavam já brancas e eram suavemente, arrastadas pelo vento para norte. Trovejou depois por três vezes e choveu. E o céu, com a lua minguante, estava de novo límpido, cerca da meia-noite.
Que me venha alguém explicar a Natureza e decifrar a razão mais íntima das nuvens. Agradeço.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Osmose 108


Até nos vários graus da diplomacia se podem encontrar diferenças abissais. Na sua prática, pelo menos. Mas é preciso dar por elas e, para isso, é necessário ter algum sentido crítico: pesar o português da escrita, o tipo de humor e motivos abordados, o sentido de mundo que revelam. Até talvez as imagens que utilizam, para estabelecer uma hierarquia de qualidade e de gosto estético.
É com alguma regularidade que frequento 2 blogues da aristocracia diplomática, já aposentada. De ambos colho proveito. Quer do hebdomadário Retrovisor, quer do quotidiano Duas ou três coisas... Têm perspectivas e mundos diferentes. E, naturalmente, não se podem meter no mesmo saco das Necessidades.
Diplomaticamente: até pela diferença de idades...

terça-feira, 16 de julho de 2019

Osmose 107


As afinidades criam-se, muitas vezes, de sobreposições, ainda que ténues. Um gesto que reconhecemos também nosso, uma palavra que nos irmana pelo significado distinto e próprio, um gosto partilhado intimamente, um desprezo oculto que aflora simultâneo, geminado e natural, depois de expresso.
É assim, ainda que cada vez mais raro com o passar dos anos, que reconhecemos a fisionomia de um amigo possível. E a hipótese, nem sempre concretizável, de uma relação para sempre. Embora possa ter demorado muito, até o vazio ter reconhecido uma presença real de ocupação merecida.

sábado, 1 de junho de 2019

Osmose 106


Dizia, em 1959, com a crueza sincera juvenil do espírito - ele que já ia em avançada maturidade corporal - dizia (repito) Vinicius de Moraes (1913-1980), assim, em início de poema:

As muito feias que me perdoem 
Mas beleza é fundamental...

Não teria, decerto de todo, o poeta brasileiro, assimilado a lição pessoana, ou talvez dela discordasse, o que veio a contribuir para que ele fosse um grande poeta menor da língua portuguesa. E do amor.
Mas bem o compreendo eu que, sendo adolescente e desprovido de sentido crítico, achava os desempenhos cinematográficos de Virginia Mayo, Doris Day, Mylene Demongeot, uma maravilha...
Em contrapartida, era Simone Signoret que eu achava uma bruxa, em "As Feiticeiras de Salém" (The Crucible, 1957), e mal dava pela grande actriz que já era Katherine Hepburn.
Só com os anos, ou com a chegada da maturidade podemos compreender, inteiramente, que o feio também pode ser belo.
Assim Soutine, assim Bacon, por exemplo, em matéria de pintura.

domingo, 5 de maio de 2019

Osmose 105


Talvez porque assisti a algumas coisas grandes demais, na minha infância e juventude, ou talvez excessivamente pesadas e impressivas para a idade, embotou-se-me cedo a capacidade de admiração e deslumbramento. Fui fechando capítulos, arrumando puerilidades que outros conservam até o círculo se repetir, intenso, na senilidade final. Talvez seja um defeito humano pessoal de cepticismo ontológico, que se me acentuou com a idade, mas que me foi poupando a alguns "assassinatos por entusiasmo" (E. M. Cioran), a deslumbramentos pacóvios e a muitas desilusões que é habitual acontecerem, sobretudo na idade madura. E não me arrependo. Até porque me ficou ainda espaço para viver a alegria, mas de forma inteira, pura e essencial.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Variações


Há o número e a excelência, quero eu dizer, por outras palavras, a quantidade e a qualidade. Pela sua frequência se podem conhecer os perfis de quem os usa e refere, de algum modo.
Podemos ir muito ao cinema, ou raras e escolhidas vezes. Podemos ler vertiginosamente e muito, ou ler de forma pausada, pouco e com critério. Há quem coleccione países e quem os frequente e repita, apenas por afinidades de exigência. Quem fotografe com frenesi tudo e nada, outros usarão de usura elitista, necessariamente, tentando fixar melhor a sua vida. Há quem adore facilmente, quem se arrase de coisas banais, quem desrespeite as palavras de forma debochada e perdulária, mas, por outro lado, há quem as use com excessiva usura, parcimónia reflectida e respeito. Há quem queira abarcar o mundo todo, mas há igualmente quem queira, com sucinta modéstia, conhecer bem e completamente a sua pequena aldeia. Ou a si mesmo, no fundo.
É tudo uma questão de tom ou de grau - a felicidade de cada um assume formas muito diversas. 

terça-feira, 9 de abril de 2019

Osmose 104


Da ideia ao gesto, vai uma distância infinita. Todo o espaço que vai do abstracto ao concreto, pelas vias sempre vigiadas do constrangimento, da censura pessoal, ainda que pouco evidente.
Por exemplo, a ternura sempre foi uma palavra envergonhada, raramente se assume como masculina e, hoje, menos ainda. Embora se perdoe, por outro lado, a caridade de não perturbar a alma dos outros.
Sobretudo quando ela é singela, na sua natureza limitada e pueril.
Incomoda-me, às vezes, o isolamento a que me dou, ao ver nos outros o nacional-porreirismo, o meter tudo no mesmo saco. A ausência de critério e de sentido crítico. A indiferença de grau.

sábado, 30 de março de 2019

Osmose 103


Fará sentido, hoje, falar-se de amor imortal? Quando a finitude é uma evidência humana? Prefiro, talvez por isso, aceitar, em alternativa: amor fatal - com todas as suas finitas consequências. Porque, também o Outro irá morrer e a memória desse fogo celeste, comum, se irá apagar "como lume breve".
Nunca me recusei a amar, com todos os seus limites e sujeições, terrenos. Mas usar o verbo adorar, e praticá-lo, sempre me pareceu uma prerogativa feliz e exclusiva das almas simples e ligeiras. O que não deixa, no entanto, de ser uma virtude, na alínea particular da generosidade.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Osmose 102


Tenho para mim, de forma empírica e nada científica, que a pintura abstracta começa a aparecer com o desenvolvimento da psicologia e a crescente importância da psicanálise. Até aí, a expressão figurativa permitia, seguramente, denunciar estados de espírito bem definidos. Mas que dizer de estados de alma indistintos, vagos, difíceis de se exprimirem? Porque, de algum modo, qualquer observador perante uma tela abstracta procura sinais, ainda que pouco concretos, que lhe permitam descriptar e interpretar o sentido do quadro.



Com frequência, o meu olhar se cruza, muitas vezes, com uma inapropriada caderneta de cromos, com mais de 60 anos, que amigas mais velhas me foram preenchendo com bonecos que vinham em pequenas tabletes de chocolate. Quando esse caderno de significados/caderneta estava completo as meninas Coelho (de seu apelido) ofereceram-mo, para meu gáudio e grande alegria infantil.
E, quando o meu olhar, agora, se fixa nessa antiquíssima e tosca caderneta, vem-me à memória, distintamente, a primitiva e original sensação de alegria. Que não saberei identificar melhor ou descrever em pormenor.


Tão vaga e pura como a que, às vezes, experimento perante uma pintura abstracta.
Porque as palavras também nem sempre conseguem circunscrever a alma, nem o tempo e a memória.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Osmose 101


Já por aqui falei, abundantemente, do meu fastio pela ficção nos últimos anos. No presente, liminarmente excluo de compras ou leituras qualquer obra que se baseie em acontecimentos reais, até porque ainda privilegio, acima de tudo, os factos e a história, originais. E nem sempre gosto de ouvir uma narrativa repetida. Por excelente que seja a imaginação de um escritor, o que ele pode acrescentar são minudências, inverdades, rodriguinhos, palha... Ou, na melhor das hipóteses, uma perspectiva inteligente sob um outro ângulo, sobrando apenas o estilo, se for de qualidade. Da mesma maneira, quase, vejo a inutilidade, para mim nesta idade, do romance histórico, pelo muito que prezo a História. Por aqui passa, superiormente, a noção do Tempo. Que provavelmente, muitas vezes, utilizei no passado de forma perdulária em leituras inúteis, que a minha tenra ignorância protegia e a falta de sentido crítico, ainda desculpava.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Osmose 100


Era um rapaz da minha rua... - disse eu a alguém próximo, aqui há uns tempos, antes de uma cerimónia oficial, em que ele, pintor consagrado, era figura central.
Por linhagem, estes amigos de infância gozam de uma imunidade especial, muito embora as afinidades e a intensidade do afecto possam não ser as maiores, no agora. Que outros vieram, entretanto, com mais força e fidelidade. Atenção e persistência, que não se compadece com o que é volúvel, episódico circunstanciável e leve.
Pelo meio, houve afastamentos, silêncios inexplicáveis, equívocos que duraram pouco, desencontros essenciais, mudanças de rumo, mortes inesperadas, mas também, às vezes, ressurreições maravilhosas - sei do que falo.
E o Natal, aqui tão perto...

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Osmose 99


O mal é, normalmente, absolvido pelo tempo, mas o bem nem sempre é compreendido. E não será preciso, em abono desta afirmação, referir Fidel ou citar Hannah Arendt: a História confirma-o, quase sempre.
Uma revolução tem, na minha opinião, qualquer coisa de ingénuo e qualquer coisa de cruel. Aspectos que, na sua evolução, criam à maioria das pessoas algum incómodo interior. E que, consoante a sua capacidade de manobra ou de poder, tentam modificar a seu gosto ou mesmo neutralizar. Para conservar a sua rotina tranquila de viver, ainda que banal. As necessidades são sempre básicas, os ideais, difíceis de descrever ou concretizar e o cepticismo nem sempre se compadece com o sonho.
A alegria adulta, porém, passa quase sempre pelo sobressalto, pela medida das coisas impossíveis ou improváveis. No fundo, por viver de outra maneira.

para AVP, com um piscar de olhos...

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Osmose 98


Pensando bem, creio que nunca me preocupei excessivamente em criar novos amigos. Ou tentar seduzi-los. Eles cresciam, naturalmente, ao sabor de afinidades comuns e de gostos partilhados, de gestos atentos e inesperados. De memórias que se iam fazendo, e de aventuras, a princípio ingénuas, mas cada vez mais reais e impressivas, das nossas vidas. Do primeiro grupo da rua, ao da escola, depois nos locais de trabalho, eles foram aparecendo, tomando vulto e, embora muitos se tivessem sumido, no tempo e na geografia, sempre alguns ficaram - os mais desinteressados, os mais fortes. A triagem do real.
Quando vejo que, no feicebuque, se podem ter até 5.000 "amigos", fico varado! Como será possivel apascentar tanta amizade?!

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Osmose (97)


Parece-me que nunca, como hoje, foi tão difícil optar, inteiramente, por um único lado. Olhamos para o que aconteceu em Las Vegas, ou pelo que está acontecendo em Brasília; pelo que ocorreu em Tancos, infantil e inexplicavelmente. Tomar posição, deixa-nos divididos e a tentação é de nos ficarmos pelo conforto de um cinzento neutral que não nos obrigue, claramente, a uma decisão absoluta sobre os factos concretos. Há que ser realista, no entanto: o cinzento tem, ainda, várias tonalidades.
O se e o mas encontram abrigo neste enovelado desarrumo de espírito a que o próprio tempo parece associar-se, em conformidade. Porque se anuncia, para esta semana, chuva e cinzento, com a entrada triunfante do Outono. O estado do mundo dá vontade de hibernarmos, para só virmos a acordar na Primavera. Como se isso fosse possível... E tudo voltasse a ser claro e róseo, lógico e racional, humanamente acertado com as nossas mais íntimas convicções. De justiça e bom senso.

domingo, 16 de setembro de 2018

Osmose 96


Dou por mim, num destes extremos ocidentais, olhando o areal por onde, aqui ou mais além, há cinquenta anos, mais mês menos mês, rastejei, um dia, como um cão, em exercícios militares, seguramente estúpidos e humilhantes. A raiva era consoladora, nessa altura, mas não podia ter expressão muito visível. A prática, posterior, indiciava já, no entanto, quer nas repartições castrenses quer nas paradas marciais, a agonia de um regime.
Olhando o areal da foz do rio Grande (em 1968, era o Lizandro), dou-me a pensar, inexplicavelmente, na Europa. E o mesmo sentimento me assalta, como outrora. Talvez, também, pela mediocridade das chefias. Ainda que os povos, arregimentados, se resignem, é ao velório da Europa a que estamos a assistir. Tal como a conhecemos, como união dos povos ocidentais, numa solidariedade que se vai desagregando, mais e mais, inexoravelmente.
Amém.