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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Bibliofilia 90


É, provavelmente, a gralha maior que atingiu os prelos portugueses, no que diz respeito a livros de poesia, este "Orbas" (sic), de Cláudio Manuel da Costa (1729-1789), impresso em Coimbra, no ano de 1768, na Officina de Luiz Secco Ferreira. O facto não abona, em nada, o profissionalismo e cuidado deste impressor conimbricense.
Muito pouco estudado em Portugal, embora Vitorino Nemésio lhe tenha dedicado um pequeno ensaio (Bertrand), seguido de uma antologia, este poeta, nascido no Brasil, ao que julgo, nunca mais terá sido reeditado, por cá. Diferentemente do Brasil, até porque a sua morte, na prisão, por pertencer à Inconfidência Mineira, nunca foi devidamente esclarecida (Assassinato? Suicídio?), e ainda hoje provoca controvérsia.
O exemplar da minha biblioteca foi comprado em meados dos anos 80, por Esc. 2.800$00. O preço não elevado, uma vez que o livro não é frequente, deve-se ao facto de lhe faltar o frontispício, que foi substituído por uma fotocópia (a imagem, neste poste, reproduz o frontispício do exemplar da BNP).
No recente leilão de Pedro de Azevedo, aqui anunciado, havia um exemplar (lote 215) semelhante, mas com a folha de rosto original. Tinha uma estimativa de venda entre 100 e 200 euros.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Decantação


Eu teria que dizê-lo um dia.
Houve em Portugal, sobretudo nos anos 80 e em meios universitários, principalmente, uma excessiva benevolência crítica para com as obras escritas que nos chegavam, ou tinham chegado, nos anos 70 do século passado, das ex-colónias portuguesas. Penso haver 3 razões capitais para este "deslumbramento" acrítico:
1. um certo gosto parolo pelo exotismo, que foi uma moda da modernidade em sequência de alguns bons romances sul-americanos;
2. remorsos reflexos de alma dos ex-colonizadores;
3. num universo rarefeito de autores de língua portuguesa, alguns professores universitários sem matéria em que se debruçassem, descobriram a árvore das patacas e novas pastagens, e cadeira: "Literaturas Africanas de Língua Portuguesa". Este maná também chegou ao Brasil.
Assim, autores de terceira ou quarta ordem, e de muitíssimo duvidosa qualidade literária, passaram a merecer monografias detalhadas, estudos bacocos e medíocres, atenção idolatrada. E, deste modo, alguns mestres universitários engordaram com estas novas pastagens.
Quem se lembrará hoje de Basílio da Gama, ou lerá Cláudio Manuel da Costa, senão no Brasil?
Mas no meio do joio de que falava acima, para ser justo, há também autores de primeira água, como, por exemplo, José Craveirinha que morreu há precisamente 8 anos (6/2/2003). Mulato moçambicano, filho de pai branco português e mãe negra, nasceu a 28 de Maio de 1922. Foi Prémio Camões, em 1991. E é um bom poeta de língua portuguesa. Lembrêmo-lo:

Gumes de Névoa

Lágrimas?

Ou apenas dois intoleráveis
ardentes gumes de névoa
acutilando-me cara abaixo?

sábado, 5 de junho de 2010

Um Árcade ultramarino


Cláudio Manuel da Costa nasceu no Brasil, a 5 de Junho de 1729, e veio a morrer, em circunstâncias não totalmente esclarecidas ( suicídio?, assassinato?), na prisão, em 4 de Julho de 1789, também no Brasil. Estudou em Coimbra onde se formou em Direito e criou com Alvarenga Peixoto, Tomás António Gonzaga, entre outros, a chamada Arcádia Ultramarina. Como árcade adoptou o nome de Glauceste Satúrnio. O seu livro de poesias publicado em Coimbra, em 1768, é objecto de uma rara curiosidade: tem uma das maiores e indesculpáveis gralhas no título da portada. Em vez de Obras Poéticas, tem impresso "Orbas (sic) Poéticas". Teve uma vida profissional de sucesso, como advogado, e era muito considerado como poeta. Até que foi acusado de ser um dos cabecilhas da "Inconfidência Mineira" cujo chefe seria "Tiradentes", e encarcerado veio a morrer. A sua obra é vasta, e os seus poemas são melódicos e fluentes. Foi sempre, no entanto, mais estudado no Brasil do que objecto de atenção por ensaístas portugueses - Vitorino Nemésio foi uma das excepções portuguesas. Transcreve-se um soneto do Poeta:

Não de tigres as testas descarnadas
Não de hircanos leões a pele dura,
Por sacrifício à sua formosura,
Aqui te deixo, ó Lise, penduradas:

Ânsias ardentes, lágrimas cansadas,
Com que meu rosto enfim se desfigura,
São, bela ninfa, a vítima mais pura,
Que as tuas asas guardarão sagradas.

Outro as flores, e frutos, que te envia,
Corte nos montes, corte nas florestas;
Que eu rendo as mágoas, que por ti sentia:

Mas entre flores, frutas, peles, testas,
Para adornar o altar da tirania,
Que outra vítima queres mais, do que estas?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Salão de Recusados VIII : Cruz e Silva


António Dinis da Cruz e Silva (1731-1799), Juíz e poeta cuja obra lírica foi sufocada pelo sucesso de "O Hissope", nasceu em Lisboa e faleceu no Rio de Janeiro quando se preparava para regressar a Portugal. No Brasil desempenhou funções de Desembargador da Relação do Rio e teve a seu cargo o julgamento da "Inconfidência Mineira" em que foram réus os seus amigos: Tomás António Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto, para além de "Tiradentes", considerado o chefe da rebelião.

A obra lírica de Cruz e Silva é tão mal conhecida que correm 2 sonetos seus como sendo de Correia Garção, integrados nos "Clássicos Sá da Costa" cuja edição foi preparada e seleccionada (mal) por António José Saraiva.

A sua atribulada viagem de Portugal para o Brasil mereceu-lhe um interessante soneto que transcrevo abaixo.

Saimos pela barra com bom vento,
Mas ao terceiro dia de viagem
Se alçou de Noroeste tal aragem
Que as vagas arrojava ao firmamento:

Socegado este horrendo movimento,
Em que roncava o mar como um selvagem;
Vimos ao sexto dia de passagem
A vinosa Madeira a barlavento.

Na barba da cruel Serra Leoa
Oito dias sofremos calmaria,
E o crebro fusilar com que o Céu troa:

Passamos logo a linha ao quarto dia,
E surgimos com toda a gente boa
Aos sessenta do Rio na baía.