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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

(Adenda a) Mercearias Finas 107 : a primeira prova


Comecei pelo mais curto na garrafa: o Casal da Azenha, branco da colheita de 1957, de António Bernardino da Silva Chitas (Azenhas do Mar).
A rolha quase não se esfarelou, talvez porque o vinho estava protegido, como grande parte dos vinhos bons, antigamente, por cápsula de chumbo. Decantei-o e deixei-o a respirar, em sossego. Tinha muito pouco pé (depósito) e o aroma lembrava um vinho generoso leve e ténue. A cor era linda: entre âmbar e mel (lamento que a fotografia não seja rigorosamente fiel, na tonalidade), ou de aguardente velha pouco densa. Talvez melhor, de chá pouco forte, transparente.
O Ramisco, casta dura de chão de areia, que até conseguiu resistir à filoxera, envelhecera com dignidade. Foi acompanhado por Queijo Serra amanteigado e umas castanhas novas, assadas. Portou-se este branco velho com nobreza, apesar dos seus 58 anos de idade. Um leve sabor a resina suave, de memórias, espalhou-se pelo palato...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Mercearias Finas 93 : um velhíssimo Colares esmaecido


Estava decidido e prometido para este Inverno. Por razões pragmáticas e de bom senso enológico, fazer a revisão dos vinhos mais antigos, na garrafeira, e despachar os ainda bebíveis... Que os queijos curados, por esta altura, requerem velhos companheiros líquidos. E está frio. Dos mais vetustos veteranos, retirados das prateleiras mais térreas, fez-se o inventário sucinto: um Garrafeira CRF 1955, um Bernardino da Silva Chitas, 1957, de Azenhas do Mar; e, finalmente, um Collares Burjacas de 1964 - todos eles tintos.
Por razões sentimentais, mantive o avoengo CRF, e comecei pelo Colares, cujo estado (com 50 anos exactos, de vida) não augurava grandes expectativas: líquido vinoso a 3/4 da garrafa, cápsula de chumbo muito deteriorada, rolha negra que parecia calcinada pelo fogo do tempo. O Burjacas, de Almoçageme, era produzido por J. Gomes da Silva e mantinha no rótulo, ufana mas pouco credível, a indicação de "Vinhos de tipo inalterável". Que mesmo para um Ramisco, de "chão de areia" (que até resistiu à filoxera de outros tempos), afirmar a sua eternidade é um enorme risco - como se veio a confirmar.
O rótulo não indicava a graduação, mas eu sabia que devia andar à roda dos 12º, bem como me lembrava que o tinha comprado num pequeno supermercado da Parede, com uma boa garrafeira, aí por volta de 1975. Obrigatoriamente decantado, que a rolha logo se esfarelou ao meter-lhe o saca-rolhas, a cor do Colares revelou um fogo amortecido com tons de brasas quase extintas. E, provado, o "vinagrinho" era notório, na sua acidez mediana, mas picante. Não fez, por isso, companhia ao queijo do Fratel, que o esperava (abriu-se um Dão Proeza de 2012, premiado em Bruxelas), mas, como vinagre, irá dar, no futuro, um sabor finíssimo a umas iscas de fígado, que se venham a cozinhar. Ou fornecerá, com 5 ou 6 gotas vertidas, um contraponto equilibrado a um arroz de cabidela futuro.
Nem tudo se perde...