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quinta-feira, 25 de outubro de 2018

A fortuna dos inéditos


A palavra inédito sempre teve um particular fascínio. Mas há quem abuse dela, ou deles (inéditos) se aproveite para tirar partido e dividendos, mesmo que à custa do abaixamento de qualidade da obra de um autor (escritor, músico, cineasta, pintor). Normalmente o criador deixa exarado que pretende que, o que sobrar, seja destruído: assim Cesário Verde, assim Kafka. Que, felizmente, nestes casos, não foram respeitados, porque o melhor estava para vir... Em relação a Pessoa e Sena, já não estou tão seguro, quanto ao que foi sendo publicado, como inéditos, depois da sua morte.
O jornal Le Monde, de 19/10/2018, anuncia a remontagem e próxima exibição do mítico The Other Side of the Wind, que Orson Welles (1915-1985) nunca chegou a completar, depois de deixar  o filme inacabado, em 1976.
Dando benefício da dúvida, há que esperar para ver.

sábado, 22 de abril de 2017

Bibliofilia 152


Não sendo de primeira água, a obra de cariz naturalista e parnasiano de António Macedo Papança (1852-1913), primeiro conde de Monsaraz, é, no entanto, muito estimável e agradável de ler, na sua simplicidade lírica, virada quase sempre para o mundo rural. Alentejano de gema, nascido em Reguengos de Monsaraz, foi Par do Reino, e pessoa grada da cultura portuguesa finissecular. Carteou-se e foi grande amigo de Cesário Verde e Bulhão Pato, por exemplo.



Em 1954, pouco após o centenário do seu nascimento, creio que por iniciativa do poeta Mário Beirão (1890-1965), foi editado, pela Livraria Ferin (Lisboa), um grande volume (26 x 19,5 cm.), com a obra poética completa do conde de Monsaraz. O livro, ilustrado com desenhos de Alberto de Souza, tem um grande apuro gráfico e estético, bem como textos em prosa de António Sardinha e Hipólito Raposo. Dá gosto folheá-lo e lê-lo.



A obra, cuja edição especial foi subscrita por algumas centenas de admiradores, permite ao leitor uma abordagem ampla da poesia de António Papança e tirar algumas conclusões sobre o merecimento do poeta, hoje, infelizmente, bastante esquecido. Talvez por isso é que o livro me custou apenas 12 euros, usado, num alfarrabista de Lisboa, alguns meses atrás.



Porventura excessivamente regionalista e campestre, mas muito cantabile, um dos poemas (O Senhor Morgado) do livro foi inspiradamente musicado por José Niza e lindamente cantado por Adriano Correia de Oliveira (ver Arpose, 20/4/2016), com grande sucesso, nos anos 70. Não se esgotando aí a fina ironia pitoresca dos versos do Conde de Monsaraz. Por exemplo, ela é notória no surpreendente final da Salada Primitiva, que aqui deixamos para leitura...






para H. N., que se lembrou, e me lembrou este último poema de António Macedo Papança.

sábado, 31 de outubro de 2015

Filatelia CVIII


Em menos de 20 anos, a Primeira República não se esqueceu dos escritores portugueses e lembrou, em cuidadas emissões filatélicas, Luís de Camões, em 1924, e Camilo, em 1925, pelo centenário do seu nascimento. Ambas as séries, de 31 valores, foram executadas a talhe doce pela Waterlow & Sons (Londres), com base em desenhos de Alberto de Souza. Dos selos, em imagem, ficam algumas taxas das emissões.
À ditadura do Estado Novo, mais do que a literatura interessava-lhe celebrar a História. Nos seus 48 anos de vigência, os CTT, se não estou em erro, lembraram apenas Bocage, pelo seu 2º centenário (1966), e, anteriormente, em 1957, dedicaram emissões a Cesário Verde e Almeida Garrett. Chegamos assim ao 25 de Abril, com a temática Escritores Nacionais, composta por apenas 5 séries de selos. Não foi muito...
Nos últimos anos, pode dizer-se que o programa dos CTT tem sido pródigo em lembrar as figuras literárias portuguesas. Mas não deixa de ser curioso que, um dos mais conhecidos, lidos e populares dos escritores, Eça de Queiroz, tenha tido que esperar pelo ano 2000, para ser homenageado pelos Correios Portugueses, na passagem do centenário da sua morte.

sábado, 10 de outubro de 2015

Um poeta do passado


Quem lhe saberá o nome, ou conhecerá a obra, hoje em dia? Óscar Lopes, na sua História da Literatura Portuguesa, classifica-o como "romântico tardio", com benevolência crítica. Eu seria, porventura, menos amável, ao considerar que Fausto Guedes Teixeira (1871-1940) já veio, ou publicou depois do Orpheu ou de Camilo Pessanha. Grande parte dos seus versos são flébeis e não tem sequer a musculatura moderna dos versos de um Cesário, mas o poeta menor de Lamego deve-o ter lido.
Assim, palidamente, por exemplo:
...
Fomos colhêr a fruta. Um ar de fogo
Cortava, assolador, terras de vinha...
Somos noivos então? disse-te: e logo
Tiraste à pressa a tua mão da minha.

Com os braços erguidos p'ra colhêr
Os frutos, inclinada para a frente,
Êsse esforço fazia aparecer
As formas do teu corpo, suavemente.

Num movimento que fizeste, a saia
Colou-se às tuas pernas com doçura,
E eu vi, como através duma cambraia,
A sua fôrça e quasi a sua brancura.

Tu descascavas uma tangerina,
As mãos agora nuas, com anéis;
E ria a tua boca pequenina
Mostrando uns dentes brancos e cruéis.
...

sábado, 10 de janeiro de 2015

Cosmopolitismos


No coração de Lisboa, cheirava a pão quente, via-se o fumo evanescente das castanhas assadas, uma coladera despropositada contorcia-se em dois corpos jovens e morenos, secundados por instrumentos africanos sob a benção flectida do poeta Chiado, metálico e eterno. Francês era a língua dominante.
Três cavalheiros de aspecto nobre e trajar distinto, embora não tão neutro como os bibes bancários e reconhecíveis, que por lá passam, mais uma tia chanel número 5, graciosamente, distribuiam encartes preciosos, sugestivos de rico grafismo, como o da imagem, por alguns passantes escolhidos.
Coube-me um a mim, que ia de sobretudo digno e de marca, nas minhas cãs enganosas de prosperidade tranquila. As legendas do encarte vinham em caracteres sóbrios e elegantes da língua portuguesa - como manda a lei - mas também em russo, inglês e chinês, fazendo a apologia e louvando a segurança do Golden Visa ERA na compra de mansões milionárias. Foi ontem.
Veio-me Cesário à memória: "Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo..."

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Leilão em Março


Mais um importante leilão de livros (e manuscritos, postais, moedas...) a realizar entre 13 e 18 de Março, no Palácio da Independência, promovido por José Manuel Rodrigues (Livraria Antiquária do Calhariz). De destacar um boa queiroziana e uma camiliana extensa, bem como a obra de Miguel Torga, em primeiras edições. O lote 1048 corresponde à 1ª edição de (Paris, 1892), de António Nobre, com uma estimativa de venda entre 3.000 e 5.000 euros. Não menos interessante, a edição original de O Livro de Cesário Verde (1887), no seu exemplar nº 5 (de 200), que foi pertença de Columbano Bordalo Pinheiro. E com valor de venda previsto (lote 1586) de 2.000/ 4.000 euros.
Muito mais haveria a referir, mas fiquemo-nos por aqui, hoje.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Lembrete 14


Não abrangendo, embora, toda a obra, hoje conhecida, de Cesário Verde, a edição primeira de O Livro de Cesário Verde (1887), organizada pelo seu amigo Silva Pinto, teve uma tiragem de apenas 200 exemplares.
Será, por isso, de louvar que o jornal Público tenha feito imprimir a edição facsimilada da obra, que acompanhava a edição do jornal, de ontem. Ao preço módico de 5,95 euros. Aqui lembro o facto.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Nadir Afonso


De Nadir Afonso (1920-2013),  frequentei, sobretudo e aqui há uns anos, com alguma regularidade, os painéis de azulejos da estação de Metro dos Restauradores, por onde eu entrava em Lisboa. E as palavras que ele, cidadão do mundo, lá fez inscrever, que me lembravam Cesário e os seus versos de O sentimento de um Ocidental. Mas mais que as penedias transmontanas, desalinhadas e agrestes, o que eu lá via era a geometria limpa das grandes metrópoles e alguns céus estranhos de abstractas nuvens singulares, e em revoada. Era uma pintura que arrumava a alma, se assim o posso dizer, porque o sentia.
Nadir Afonso deixou-nos, hoje, com 93 anos completos. E soube-o através de Artur Costa, pelo seu blogue O Linguado. Os transmontanos nunca se perdem entre si...

domingo, 13 de outubro de 2013

Em jeito de gestão participativa...


                                                              Ocorrem-me em revista exposições, países:
                                                              Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

                                                                       Cesário Verde, in O Sentimento dum Ocidental

De vez em quando, fez-se-me hábito dar, aqui no Arpose, conta de perspectivas gerais, search words insólitas ou parvas, números de visitantes, percentagens genéricas sobre a vida interna do Blogue. Cabe hoje a vez à intensidade das visitas, por países, desde a fundação, em Novembro de 2009. Aqui vão os 10 mais:

Portugal - 256.756 visitantes
Brasil - 132. 444
Estados Unidos - 36. 276
Rússia - 20. 712
Alemanha - 13. 367
França - 8. 077
Holanda - 3. 685
Espanha - 2. 994
Reino Unido - 2. 579
Ucrânia - 1. 304.

Confesso que me surpreende a 4ª posição da Rússia, com tantas visitas, porque a 3ª posição dos Estados Unidos é devida à frequência diária que o Google faz, por sistema, ao Arpose, bem como os coscuvilheiros da NSA. Também estranho que a Ucrânia consiga arrebatar a 10ª posição, no ranking. Pela negativa, só a Espanha, país aqui ao lado, que se queda numa humilde 8ª posição...

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Marcadores (7)


Oferta das Edições Cosmos e datados de 1998/9, estes marcadores destinavam-se a publicitar ensaios sobre as obras dos escritores portugueses Almeida Garrett, Cesário Verde e José Cardoso Pires.

para MR, pioneira desta temática, no Prosimetron.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Cidades imaginadas


Em determinados meios, Veneza não seria a mesma, sem Mann ou Visconti. Nem Tanger, sem tudo aquilo que William Burroughs lhe acrescentou. Alexandria não projectaria o fascínio mítico, que exerce, sem as obras de Cavafy e Durrell. E Dublim foi outra, depois de Joyce. À nossa medida talvez não o sintamos tanto, mas Lisboa, para alguns estrangeiros, tem a aura imaginada que Saramago lhe deu, através de Pessoa, em "O Ano da Morte de Ricardo Reis". Tenho a certeza que há turistas que visitam a Capital portuguesa, num itinerário espiritual que o livro lhes transmitiu. E, decerto, não desdenham ser fotografados, na cadeira vazia que Lagoa Henriques lhes deixou, junto à "Brasileira", e em boa companhia. Mas os portugueses podem ainda percorrer Lisboa pelos versos de Cesário, ou através da prosa de Eça.
Quem não vê isto, infelizmente, são os nossos burocratas cinzentos e agentes da Cultura, que servem apenas para a estrangular, numa pobreza de espírito sem futuro.

sábado, 10 de novembro de 2012

Da crise, um percurso


A rua que frequentamos, aos sábados, já teve melhores dias e uma pujança comercial bem mais dinâmica. Hoje, está reduzida a meia dúzia de lojas e, para as sete ou oito que entretanto fecharam, apenas uma, nova, abriu. De roupa usada (de marca e boa qualidade) e de bom gosto, que deve ter clientela fiel e "tias" fornecedoras. Além desta última, recente, há um café-geladaria, que foi um "must" nas décadas 80/90, mas agora está quase sempre despovoado, um pequeno restaurante familiar que foi perdendo clientes, um relojoeiro, bom profissional, de quem já usei, com proveito, os serviços; e ainda uma sapataria, que também vende acessórios, cujo dono, septuagenário avançado, abre quando abre...
Junto do Cine-Teatro, que se vai arruinando, está sentado, habitualmente, nos degraus de entrada, um sem-abrigo de meia idade que concita pombas esfomeadas e sujidade, à volta. Um bar-discoteca, que teve vida breve (2, 3 anos?), acumula, visível por debaixo da porta, correspondência (contas?) por abrir. Uma loja de roupas, fechada, com um letreiro já amarelecido e tentador, mas que ninguém compra ou aluga. E uma Óptica, na esquina, que parece não ter muito movimento. Apenas a Padaria-Pastelaria, ao cimo, conserva o ritmo de outrora: o pão é muito bom e "honesto" (como diria Cesário), o atendimento (brasileiro) é cortez e atento, e os Sonhos de Natal, que começam a fazer a partir do 5 de Outubro, são excelentes.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Memória 66 : Cesário Verde - uma escolha





Pela passagem de mais um aniversário do nascimento de Cesário Verde (1855-1886), este poema campestre.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Quarta-feira de cinzas


Havia ainda "um cheiro salutar e honesto a pão de forno" (como diz Cesário Verde), no interior do lugar, mas notava-se que todos tínhamos acordado tarde. Não fora o perfume excessivo da balzaquiana, que saíu pouco antes de mim, e as frutas expostas nas bancadas exteriores ter-me-iam ficado na memória olfactiva da manhã.
Na tabacaria, concentrada sobre a banqueta, a mulher-a-dias preenchia, esperançada, o euromilhões. Uma velhota afagava com a unha uma raspadinha. Eu comprei tabaco e o jornal.
Um silêncio matinal de domingo enchia a rua - a todos era permitido acordar devagar. A escola da zona, fábrica maior de ruídos nos dias úteis, estava calada e sossegada. Uma empregada de bata lavava, parcimoniosa e lenta, a soleira da entrada. O tempo pascia, tranquilo. Não havia aulas, nem algazarra.
O sol brilhava nítido, no alto. Pacífico entrei, portuguesmente, em casa, na beatitude dos dias sem história - os mais felizes. Despertei, apenas, assustado, com a fotografia da Troika, na primeira página do jornal.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A angústia do empregado, antes do fecho


A última meia hora era sempre  a pior. Já a Adelaide tinha saído, deixando a copa a brilhar e os panos húmidos, pendurados, a secar. Não antes de, às escondidas e disfarçadamente, dar uma golada na S. Domingos, para o frio do caminho, que ela morava longe. E ele fingia que não via - perdoava.
Já pouca gente viria. Pontualmente, e dez minutos antes de fechar, chegava o casal de meia idade para o café de depois do jantar. E, na música-ambiente sucediam-se, impreteríveis, o Ray Conniff, o Mantovani e o Bacharach, diariamente, até que ele desligasse.
Mas hoje, um cliente desconhecido, que já ia no terceiro whisky, tamborilava no balcão e entoava, pausadamente: "Nas nossas ruas, ao anoitecer...", numa lúgubre melopeia oscilante, que lhe deu angústia. Faltava pô-lo na rua, desligar a máquina de café e as luzes, silenciar a música, despir a farda, ir-se embora. Atravessar, depois, a pequena ponte sobre a ribeira, que já ia alta e barrenta. E, hoje, que chovia tanto...
A casa, quando chegasse, devia estar muito fria. E o desconhecido cliente lá continuava a tamborilar no balcão e a cantarolar: "...há tal soturnidade, há tal melancolia..." Um arrepio gélido chegou-lhe ao coração. E os minutos nunca mais passavam.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Ponto de situação


Com este sol envergonhado dos últimos dias, nem as beldroegas crescem para a sopa, nem as andorinhas andam confortáveis. Recolhem tarde, voam mais tempo, decerto porque o exercício e movimento as aquece; e os insectos, sem o calor habitual de Julho, são em menor número, pelos ares. Há cruzamento de ventos: do mar, a oeste, vem nuvens café com leite, as nortadas vão contribuindo com nuvens cinzentas muito escuras. E, quando confluem, em diagonal, dirigem-se mescladas para sudeste. O Verão travestiu-se de Outono, neste Julho estranho, para mágoa de muitos. Ou, como dizia Cesário: "Nas nossas ruas, ao anoitecer / Há tal soturnidade, há tal melancolia, / Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia..."

terça-feira, 7 de junho de 2011

A Maioria Silenciosa


Para quem, como eu, era adulto no ano de 1974, esta expressão (maioria silenciosa) tem um significado, pelo menos, conservador. Foi um movimento de pessoas que, em Setembro desse ano, tentou, através de uma manifestação e de uma tourada, na Praça do Campo Pequeno, reforçar os poderes do PR em exercício. Não o conseguiram, e o general Spínola viria a demitir-se pouco tempo depois. Mas não vou falar de política, aqui. O assunto é outro.
Diz-me a experiência e as estatísticas que, num conjunto de 100 visitas ao Arpose, no máximo, apenas 2 ou 3% se manifestam, participam, comentam os postes. Os restantes mais de 95% ou se calam, ou vem para sugar uma informação ou imagem, e, provavelmente, não têm qualquer opinião sobre o teor dos postes colocados - são o que eu chamo: a maioria silenciosa. Por ironia, é assim que se constrói uma ditadura. Ou pode construir, num plano mais elevado e geral.
Este facto poderá ajudar a perceber que o grande vencedor, nestas recentes eleições, foi, uma vez mais, a abstenção. Os portugueses, de uma forma geral, parece não terem opinião, ou serem tímidos a expressá-la. Daí a debilidade da nossa sociedade civil que, muito raramente, assume iniciativas ou luta por causas.
Mas o mais curioso é que nesta "maioria silenciosa", cerca de 40% são visitas brasileiras. E eu que julgava que os nossos irmãos brasileiros eram expansivos, criativos e extrovertidos!...Enganei-me. Claro que o Carnaval são só 3 dias... Porém, uma ou outra vez, uma ou outra "search word" vinda do Brasil, desvenda alguma coisa. A última, que me deixou perplexo, foi uma brejeirice curiosa: "angela cezario metendo gostoso", mas o puritano do motor de busca do Google fez de conta e, moralista religiosamente, trouxe o pesquisador maroto até ao poste "Bibliofilia 11 - Cesário Verde". O investigador deve ter ficado frustradíssimo, coitado...

terça-feira, 12 de abril de 2011

Esboço para um retrato de família


Creio que foi Marlon Brando que disse um dia, já ia alto em idade: "Representamos sempre, representamos todos!" Eu, muito humildemente, acrescentaria: alguns melhor do que outros. Mas, em abono da máxima do grande actor americano, vou tentar esboçar um episódio ou facto passado que, não tendo sido encenado, "em todo o caso, dava uma aguarela", como dizia Cesário.

Fiquemo-nos pelo trio das personagens, muito embora houvesse mais gente. O jovem arquitecto, de feições um pouco rústicas, como aparecem na pintura flamenga alguns retratados, estava feliz. Tinham-lhe encomendado o projecto de restauro de uma casa rural em Terras do Bouro, com um adiantamento, já no bolso, de 3.200,00 euros. E ele, mal o acabasse, tencionava estadiar em Katmandou, durante um mês: um sonho antigo... O actor, na curva rotunda inicial dos 40, de barba bem cuidada, vivia ainda à sombra do seu último Hamlet (bem saudado pela crítica) e sentia-se plenamente realizado. Finalmente, a jovem poeta: cabelo crespo, desalinhado, roupa brava e mal combinada - mas tudo muito natural. Açoreana e vulcânica, tinha acabado de publicar o seu primeiro livro e, pelas impressões um pouco tontas do Facebook, o sucesso caminhava ao seu encontro. Quero eu dizer: também se sentia feliz. Local: uma esplanada em Setembro, algures, no tempo. Estavam a ser atendidos por um empregado, de rabo de cavalo, que parecia o Inca Garcilasso de la Vega. Embora, tanto quanto me lembro, era apenas brasileiro. Pena!

Foi então que apareceu a Nair, vinda de nenhures naquela manhã de sol, a querer vender-lhes umas pequenas aguarelas muito naïf de vistas turísticas citadinas ou de marinas tempestuosas, muito incipientes. Ao abordar o grupo perguntou, melíflua: "Gostam de Pintura?"; e, subitamente, os 3 mudaram de vocação, sem qualquer combinação acertada, previamente. O arquitecto respondeu, de imediato: "- Detesto!, a pintura já acabou há muito!...", acrescentando, depois, que era poeta. A jovem poeta disse que gostava, mas proclamou-se actriz, falou a Nair do seu último papel de Ofélia, e acabou por comprar uma marinha por 5,00 euros. O actor, cofiando a barba espessa, assumiu-se como romancista gótico e, no que dizia respeito a pintura, confessou que só apreciava os Pré-Rafaelitas, porque eram muito certinhos e bonitinhos, e toda gente gostava deles. Mas o trio de amigos foi amável com Nair, convidaram-na a sentar-se com eles na esplanada e até lhe pagaram um café. Estiveram quase uma hora, com ela, a falar de política e do Rodrigo Leão: seja como for, a música não estava representada à mesa, neste retrato de família. Ah! a Nair era esquerdina. Reparei nisso quando assinou a marinha no verso, com esmero, embora a sua caligrafia fosse absolutamente ilegível. Nem todos somos actores perfeitos...

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

"Oito luas fatais fitam o espaço"


O título deste poste tirei-o de um poema que Fernando Pessoa dedicou a António Duarte Gomes Leal (1848-1921), também ele poeta, e a quem, no amplo sentido "verlaineano" do termo, poderíamos apelidar de "maldito". Na idade adulta, vivendo de expedientes ou da colaboração em jornais republicanos, mas também do património que o Pai - morto jovem - deixara, e que sua Mãe, parcimoniosamente, moeda a moeda lhe ia dando, após a morte dela, em pouco tempo, delapidou o que sobrara. Os restantes 11 anos, viveu-os Gomes Leal em decadência gradual até à sua morte, em casa do amigo Ladislau Batalha, na Rua do Telhal. Vagabundeou muito, antes. Pode dizer-se que foi um sem-abrigo, "avant la lettre", e muitas vezes, sem dinheiro para pagar um quarto, adormecia nos bancos do Rossio ou da Avenida da Liberdade. Mas assim como esbanjou dinheiro, também esbanjou talento. Dos seus versos se sente o eco em Cesário e Nobre, e um pouco menos em Pascoaes.
Era consensualmente admirado como poeta. Quando já quase indigente, a República, pelo seu Parlamento, votou-lhe uma tença, no melhor exemplo camoniano - pagavam-na tarde e a más horas... E Aníbal Soares, monárquico convicto, também lhe arranjou um subsídio, provavelmente, do seu próprio bolso. Dele, na literatura e antigas selectas, ficou memória do poema "A Duquesa de Brabante" que Gomes Leal dedicou a Alberto Osório de Castro. Opto pelo soneto "Fantasias" onde se notam "raízes" do que, depois, Cesário Verde viria a fazer com outra elegância e geometria...

Tenho, às vezes, desejos delirantes
De a todos te roubar, meu lírio amado!...
E levar-te, em um vôo arrebatado,
Aos países fantásticos, distantes.

À Índia, China ou Irão, e os meus instantes
Passá-los a teus pés, grave e encruzado,
Num tapete chinês aveludado,
Com flores ideais e extravagantes.

Nossa vida seria - ó pomba minha! -
Mais leve do que a asa da andorinha,
E, nas horas calmosas, eu e tu...

Olhando o mar sereno, o mar unido,
Comeríamos os dois arroz cozido...
- Embalados num junco de bambu!

segunda-feira, 29 de março de 2010

Bibliofilia 11 : Cesário Verde




O exemplar que se mostra de "O Livro de Cesário Verde"(1855-1886), sendo uma 4ªedição, não é raro e foi impresso, em Lisboa, em 1919. Mas o seu valor estimativo, para mim, é grande. Tem a particularidade de ter pertencido ao poeta Guilherme de Faria (1907-1929), nascido em Guimarães, ostentando data e marca de posse, manuscrita (1920). O Poeta conheceu e deu-se com Fernando Pessoa que tinha, na sua biblioteca, dois livros com dedicatória, manuscrita, do jovem vimaranense; e, no espólio do autor de "Mensagem", havia apontamentos para fazer o horóscopo de Guilherme de Faria. Teve também relações amistosas com Teixeira de Pascoaes, António Pedro, entre muitas outras figuras literárias da sua época. Na sua curta vida, foi autor prolífico. Estreou-se aos 15 anos, em 1922, com "Poemas". Nos anos seguintes publicou mais quatro livros. Mas não chegou a completar 22 anos. No dia 4 de Janeiro de 1929, vindo de sua casa da Rua da Horta Seca, atravessou o Largo Luis de Camões e desceu a Rua do Alecrim até ao Cais do Sodré. Na estação, comprou o bilhete de ida para Cascais. Aí chegado, escreveu dois postais a explicar ou desculpar-se do que ia fazer e meteu-os na caixa do Correio da Vila. Depois, encaminhou-se para a Marginal e, descalço e rezando por um terço, seguiu até à Boca do Inferno.
De onde se atirou ao mar. Dizem que foi uma história de Paixão. E, como estamos próximos da Páscoa, talvez mereça ter sido lembrada, agora.
Grande parte da biblioteca de Guilherme de Faria ficou para o irmão (mais tarde,Frei) Francisco Leite de Faria, grande estudioso da História do Livro, falecido há poucos anos. Mas este exemplar de "O Livro de Cesário Verde" foi parar às mãos de outro dos vários irmãos, de nome, Miguel de Faria. Que lhe colou o seu ex-libris. O volume tem uma encadernação bonita, em pele, e está bem conservado. Custou-me, nos anos 90 do século passado, e na mesma Rua do Alecrim, por onde Guilherme de Faria desceu, pela última vez e em direcção à Morte, Esc. 2.200$oo, ou seja cerca de euros 11,00. Por isso eu dizia que tinha, para mim, um grande valor estimativo. E há-de acompanhar-me até "sempre".