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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Do cancioneiro tradicional espanhol (5)


A desconversa e o absurdo não são único apanágio da poesia oriunda dos altos expoentes culturais (Prévert, O'Neill, Ionesco, surrealismo...). Ora atente-se nestas 2 quadras traduzidas do Cancioneiro tradicional Castelhano, em apoio do que disse:

1.
Chega-te a essa vergonha
cara de pouca janela,
e dá-me um copo de sede
que venho morto por água.

2.
Um cão caiu a um poço,
outro cão o tirou dele,
só para dar a entender
que os sonhos sonhos são.

domingo, 23 de novembro de 2014

Em prosa (poética?) repentina, ao jeito de Prévert, e sem auto-crítica sequente


O castanho, sobretudo o mais pálido,
acaba por nos ser consensual
na sua amenidade prática e tranquila
de Outono. Mas há também um fogo rubro
nas folhas suicidas que se despem ou despedem
dos seus ramos, para a nudez tosca de Dezembro.

Há mistérios na Natureza que não convém desvendar,
como no amor - pelo seu encanto singular.
Nem os poetas sabem ao certo,
embora suspeitem,
que vão deixar de cantar.
Os números exactos não são o seu forte.

Nem sequer as certezas.



Sb., 23/11/2014.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Uma fotografia, de vez em quando (27)


Haverá, com certeza, diferenças de mérito entre a, provavelmente, encenada fotografia Le Baiser de l'Hôtel de Ville (1950), de Robert Doisneau (1912-1994) e a placidez tranquila e natural do retrato de Jacques Prévert, sentado, num café, junto a uma menina (filha? neta?), tirado também pelo fotógrafo francês.
Sob fria análise mental do espírito humano, a justiça poética há-de privilegiar, quase sempre, o autêntico, em detrimento do espectáculo. Ainda que só intimamente, e não de forma expressiva e pública.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Memória 11 : Jacques Prévert



Surrealista independente, quase sempre com um olhar endiabrado sobre as coisas e os animais a que não faltava uma certa ternura compassiva, Jacques Prévert nasceu a 4 de Fevereiro de 1900 e morreu 77 anos depois, em Abril. Foi um poeta extremamente popular, não só em França ("Rappelle-toi Barbara / Il pleuvait sans cesse sur Brest ce jour-là..."), escreveu muitos argumentos para realizadores franceses (Autant-Lara, Marcel Carné...), e "Les Feuilles Mortes" proporcionou uma canção célebre de J. Kosma.

Que restará hoje, em França, da memória deste homem? Já não é, com certeza, o autor de culto que foi nos anos 50/ 70 do século passado. Ainda é editado e lido?

Lembro-o com o pequeno poema intitulado "O Grande Homem":


"No gabinete de provas do alfaiate de pedra

onde o encontrei

ele tirava as suas medidas

para a posteridade."


Recordo-o, hoje, com a grata lembrança da boa disposição e alegria com que li os seus livros ("Paroles", "Spectacle", "La Pluie et le Beau Temps"...) na minha adolescência.