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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Bibliofilia 220

 

O meu interesse pelo poeta e filósofo romano Tito Lucrécio Caro (c. 94 a. c. - c. 50 a. c.) deu-se por leituras de Vergílio Ferreira (1916-1996), que o refere algumas vezes nos seus livros de ensaios. Assim, em meados dos anos 80, adquiri em leilão de José Manuel Rodrigues, da Livraria Antiquária do Calhariz (Lisboa), o poema A Natureza das Coisas (2 volumes, encadernados num só, 1851/53), traduzido para português pelo médico e político António José de Lima Leitão (1787-1856).
Por carimbo e etiqueta de posse consegui apurar que o proprietário inicial do, agora e ainda, meu exemplar, terá sido Sebastião d'Almeida e Brito (1797-1868), nascido em Figueira de Castelo Rodrigo, que, em Coimbra, terá sido companheiro de quarto de Almeida Garrett, e que era filho de um abastado lavrador. Consta, também, ter tido uma boa biblioteca, com obras raras. De seguida, o livro transitou para a posse de Adolpho Soares Cardozo que faleceu no Porto, em 1895. No entretanto, desconheço os donos intermediários, até mim.

O meu exemplar, com encadernação modesta, encontra-se em muito boas condições.
Em breve pesquisa pela net não encontrei muitas vendas, apenas duas de iguais exemplares,, com preços entre 60 e 140 euros. Uma delas da Livraria Manuel Ferreira (Porto).



terça-feira, 4 de outubro de 2022

Mercearias Finas 182



O livro lê-se com apetite, para não dizer: gula. E traz ainda, como bónus, algumas receitas (caldeirada, peru assado, pombos em compota...) testadas, de renomados cozinheiros ou gastrónomos: Paulo Plantier, João da Mata, gente de bem, com provas dadas e bons recados.
Saída a obra em 2000, não déramos por ela, não fora o nosso bom amigo H. N. no-la ter oferecido, há dias.
Editado com a chancela das Bibliotecas Municipais de Lisboa, este Garrett e a Gastronomia é um trabalho limpo e cuidado de Manuela Rêgo e Luís Sá, que o coordenaram.
E que, vivamente, recomendámos, a quem ainda o conseguir comprar.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Pensar 2

 


Durante a leitura do livro de Luís Reis Torgal, Essa Palavra Liberdade ..., o autor refere-se, por diversas vezes e com pertinência óbvia, a Almeida Garrett, o “poeta da Revolução”.

Aliás, a obra ímpar supra reproduzida, modelo espantoso de junção de géneros, exige sempre um retornar à História do Liberalismo para compreender bem a obra e situar o leitor no seu contexto. Caso contrário, a criação magnífica de Almeida Garrett não passa de uma enorme “chatice”.

No entanto, a consulta e leitura de várias obras sobre a época não tem ajudado, em muitos casos, ao esclarecimento, porque, nas palavras de Reis Torgal, “sou já de um tempo em que a história do liberalismo e da república, ou a história contemporânea em geral, não era abordada na Universidade e, se o era no ensino primário e no ensino secundário, pretendia-se, de uma forma expressa ou subliminar, integrá-lo numa lógica corporativa de crítica ao liberalismo individualista, ao demoliberalismo, ao socialismo (democrático ou comunista) ou mesmo ao cristianismo dito «progressista».”

Nesse sentido, Reis Torgal cumpre perfeitamente o que promete no capítulo O Sentido deste Livro, a saber:

“Assumidamente esta obra integra-se nas comemorações do Bicentenário da Revolução de 1820, que se estende pelo menos até 1823, e pretende atrair a atenção do leitor para alguns aspetos que o autor foi estudando, com a maior objectividade a que o obriga a condição do historiador, aspectos que considerou de certa importância e atualidade. Não quis cometer o erro de confundir o presente com o passado, mas também não quis esconder as razões que me levarem a abordar os temas que a seguir são tratados. Num país em que (quase) nada se discute seriamente, não pretendi omitir qualquer ideia, mesmo mais presente e polémica, que justificasse o trabalho realizado e, por vezes, revisto”.

1)Luís Reis Torgal, Essa Palavra Liberdade ..., Lisboa, Temas e Debates – Círculo de Leitores, junho de 2021

Post de HMJ

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Bibliofilia 184


Não são muito abundantes os elementos biográficos ou dados críticos sobre o poeta José Maria da Costa e Silva (1788-1854), que foi também tradutor e historiador de literatura. Óscar Lopes dedica-lhe apenas duas entradas mínimas na sua obra maior, apesar do escritor ter uma bibliografia extensa, como aliás Inocêncio refere nos volumes V (pgs. 25, 450), VII (120) e XIII (90) do seu Dicionário.

Se a tradução, em 1850, de Os Argonautas, de Apolónio de Rodes, foi bem recebida pelos seus leitores, o poema O Passeio, cuja segunda edição, aumentada, saiu em 1844, foi elogiado por José Agostinho de Macedo e Almeida Garrett. Dono de uma importante biblioteca, que contava cerca de 16.000 livros, sobretudo de poesia, Costa e Silva dedicou-se, já nos últimos anos de vida, à escrita do Ensaio Biographico-Critico sobre os Melhores Poetas Portuguezes ( 1850/9).


Obra monumental em 10 volumes (os 2 últimos livros são já póstumos) que, apesar de algumas inexactidões, lhe grangearam fama e prestígio, no final da vida. Consta de uma análise por escolas literárias, cronológica, e da recensão interpretativa dos vários poetas portugueses, com transcrições de muitas poesias. Este notável trabalho merecia ser mais bem conhecido. E lido...

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Esquecidos (4)

Enquanto 3 canónicos e bolorentos académicos vêm definir em livro, inquisitorialmente, o que se deve ler e lembrar na literatura nacional, venho eu, com generosidade liberal, recordar um mavioso esquecido: João Xavier de Matos (1730?-1789), poeta de tardios acentos camonianos. 



As dez entradas do vate no registo do Arpose dispensam-me que dele fale em pormenor neste undécimo poste. Mas direi que dele falaram bem Garrett, Jacinto do Prado Coelho e David Mourão-Ferreira, pelo menos. E os cegos cantavam os seus versos suaves pelas ruas de Lisboa. A sua Écloga de Albano e Damiana teve inúmeras impressões, muito embora a primeira edição das suas obras em livro só tenha aparecido em 1770.



O Poeta, que gozou da protecção do Marquês de Nisa e de Fr. Manuel do Cenáculo (na BPE existem inúmeras cartas e manuscritos seus), foi sendo reeditado até ao primeiro quartel do séc. XIX, mas depois deu-se-lhe um quase total apagamento. Nascido, porventura em Alfange (como sugere J. do Prado Coelho), no termo de Santarém, João Xavier de Matos viveu em Lisboa, Porto (alguns poucos anos, onde se fez sócio da Arcádia Portuense), Vidigueira e Vila de Frades, onde veio a falecer. E onde tem nome de rua.

Aqui ficam dois sonetos seus do primeiro tomo dos três existentes da sua obra esquecida.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Do que fui lendo por aí... 26


Li ontem uma boa parte da correspondência diplomática de Almeida Garrett (1799-1854), enquanto representante português em Bruxelas. As cartas lêem-se quase como um romance desesperado, à espera de uma solução airosa, que tarda, sobre o pagamento de salários do nosso cônsul na Bélgica. De 5/8/1834, pelo menos, até 30/9/1835, o nosso homem em Bruxelas implora e reclama o que lhe é devido. Como ele sobreviveu todo esse tempo, não nos é dito. Para além de se endividar, continuadamente. E até o pão adquirir fiado...
O silêncio olímpico da nossa secretaria de Estrangeiros, em Lisboa, provoca, no leitor, perplexidade e revolta, pelo injusto da situação. Por outro lado, a não resolução de algumas questões administrativas e burocráticas, por parte da tutela, aos pedidos de autorização de Garrett, acrescentam e denunciam, de forma flagrante, o laxismo e a indiferença dos burocratas das Necessidades, nessa época.
A minha experiência de salários em atraso é única e curta. Ocorreu apenas uma vez. Data de 1976, quando o meu ordenado se vencia a 29 do mês e só veio a ser pago no dia 5 do mês seguinte. A angústia dessa semana de incerteza ficou para sempre marcada na minha memória profissional...

quinta-feira, 7 de março de 2019

Das histórias


Será que ainda haverá histórias por contar? Duvido.
Originárias de mitos, ancestrais, dão expressão catárctica às angústias humanas ou, de forma positiva, aos anseios mais íntimos, inconfessáveis ou não, dos seres humanos. E a sua urdidura ou trama reside em contos ou fastos mais antigos, normalmente, a que cada geração dá formato actualizado na sua época, sem transgredir demasiado, a matriz original. O ponto acrescentado ("quem conta um conto, acrescenta um ponto") à verdade real ou à imaginação ficcionada pode, no entanto, dar-lhe a suficiente beleza e qualidade que obriga a narrativa da mera tradição popular e oral, a passar para a classe superior de literatura escrita.
Será por isso curial lembrar, a propósito, as palavras de Almeida Garrett, para explicar a génese da sua peça teatral "Frei Luís de Sousa":

Há muitos anos, discorrendo num Verão pela deliciosa beira-mar da província do Minho, fui dar com um teatro ambulante de actores castelhanos fazendo as suas récitas numa tenda de lona no areal da Póvoa de Varzim além de Vila do Conde. Era tempo de banhos, havia feira e concorrência grande; fomos à noite ao teatro; davam a comédia famosa não sei de quem, mas o assunto era este mesmo de Frei Luís de Sousa. Lembra-me que ri muito de um homem que nadava em certas ondas de papelão, enquanto num altinho, mais baixo que o cotovelo dos actores, ardia um palàciozinho também de papelão... era o de Manuel de Sousa-Coutinho em Almada!

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Bibliofilia 167


Mesmo em bibliotecas especiosas  de consagrados e conhecidos bibliófilos podemos encontrar edições desvaliosas e vulgares que, provavelmente, também foram tratadas com desvelo pelos seus anteriores donos. O afecto aos livros não faz discriminação nem despreza exemplares porventura menos nobres...
Foi assim que encontrei, em boníssimo estado, cerca de duas dezenas de volumes, com encadernação do editor (Empreza da História de Portugal) das obras completas de Almeida Garrett, publicadas (1904) sob a orientação de Teófilo Braga. Os livros repousavam na prateleira de baixo das estantes, na loja do meu alfarrabista de referência, sítio que significava terem o preço simbólico de 1 euro, cada um.
Dos vários volumes, muitos deles de Teatro, escolhi apenas 4: um de Poesia e três sobre documentos (cartas, relatórios, projectos...) da vida pública (Parlamento, Governo e Diplomacia) de Garrett. Todos os livros tinham 2 ex-libris interessantes. Do grande bibliófilo Avila Perez e de Fernando Castelo Branco. Que aqui ficam registados por imagem. 


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Leilão de livros e manuscritos


A Livraria Olisipo leva a efeito, nos próximos dias 21 e 22 de Fevereiro, mais um leilão com um acervo importante de obras raras, bem como um conjunto de manuscritos, composto por correspondência endereçada ao crítico Álvaro Salema, por parte de vários escritores portugueses.
De destacar algumas edições primeiras de Francisco Manuel de Melo e de Almeida Garrett. O leilão terá lugar no Palácio da Independência, às Portas de Santo Antão (Lisboa).

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Sobre a Língua (portuguesa) e seus cultores


Eu respeito os frades, e não receio plagiar Eça de Queiroz afirmando que faz falta em cada geração um Castilho, imitador de frades; mas a Língua não faz profissão e não pode viver eternamente encapuchada no recolhimento de uma cela monástica. Herculano, mestre da prosa narrativa, mas propenso ao estilo tonítruo e oratório, tinha a mão um tanto pesada para esta tarefa. Coube a Garrett essa operosa e espinhosa missão, que nunca será suficientemente agradecida. Nem todos os autores se dispunham a descer num café do Cartaxo para o descrever, e levantar daí a mão para nos iniciar nos encantos da charneca ribatejana.

Álvaro J. da Costa Pimpão (1902-1984), in Gente Grada (pg. 24).

Nota pessoal: Álvaro Júlio da Costa Pimpão, tendo sido reitor de Liceu, foi depois leitor de português em Bordéus, vindo mais tarde a tornar-se professor catedrático da Universidade de Coimbra. Tive-o como mestre de Teoria da Literatura, creio que em 1963. Como episódio curioso posso informar que usava cerca de duas aulas para analisar a forma como Eça descrevia os modos diversos do bater das horas de relógio nos seus romances...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Curiosidades 50


Será que Eça de Queiroz fumava? E Camilo? Ambos os escritores se referem a tabaco, nas suas obras, mas a ficção, nem sempre serve para testemunhar os usos e costumes dos seus autores. No que diz respeito a Almeida Garrett (1799-1854), eu estou convicto de que gostava de fumar. Nas "Viagens na minha terra" (1846), que é um livro com partes autobiográficas, há um passo que me faz pensar que Garrett apreciava o tabaco. Aqui fica a citação:
"...No entretanto, vamos acender os nossos charutos, e deixemos os precintos aristocráticos da ré; à proa que é país de cigarro livre.
Não me lembra que Lord Byron celebrasse nunca o prazer de fumar a bordo. É notavel esquecimento no poeta mais embarcadiço, mais marujo que ainda houve, e que até cantou o enjoo, a mais prosaica e nauseante das misérias da vida! Pois num dia destes, sentir na face e nos cabelos a brisa refrigerante que passou por cima da água enquanto se aspiram molemente as narcóticas exalações de um bom cigarro da Havana, é uma das poucas coisas sinceramente boas que há neste mundo.
Fumemos!
Aqui está um campino fumando gravemente o seu cigarro de papel, que me vai emprestar lume.
- Dou-lhe eu, senhor... - acode cortêsmente outra figura mui diversa, cujas feições, trajo e modos singularmente contrastam com os do «moçarabe» ribatejano.
Acenderam-se os charutos, e atentámos mais devagar na companhia em que estávamos. ..."

sábado, 31 de outubro de 2015

Filatelia CVIII


Em menos de 20 anos, a Primeira República não se esqueceu dos escritores portugueses e lembrou, em cuidadas emissões filatélicas, Luís de Camões, em 1924, e Camilo, em 1925, pelo centenário do seu nascimento. Ambas as séries, de 31 valores, foram executadas a talhe doce pela Waterlow & Sons (Londres), com base em desenhos de Alberto de Souza. Dos selos, em imagem, ficam algumas taxas das emissões.
À ditadura do Estado Novo, mais do que a literatura interessava-lhe celebrar a História. Nos seus 48 anos de vigência, os CTT, se não estou em erro, lembraram apenas Bocage, pelo seu 2º centenário (1966), e, anteriormente, em 1957, dedicaram emissões a Cesário Verde e Almeida Garrett. Chegamos assim ao 25 de Abril, com a temática Escritores Nacionais, composta por apenas 5 séries de selos. Não foi muito...
Nos últimos anos, pode dizer-se que o programa dos CTT tem sido pródigo em lembrar as figuras literárias portuguesas. Mas não deixa de ser curioso que, um dos mais conhecidos, lidos e populares dos escritores, Eça de Queiroz, tenha tido que esperar pelo ano 2000, para ser homenageado pelos Correios Portugueses, na passagem do centenário da sua morte.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Leilão de Outono


Sob a direcção de Pedro de Azevedo, inicia-se a nova temporada de leilões de livros. Como habitualmente, esta almoeda terá lugar no Amazónia Lisboa Hotel, no próximo dia 6 de Outubro de 2014, pelas 19h30.
A sua importância decorre de virem a ser leiloadas obras que pertenceram à biblioteca de Carolina Michaelis e seu marido, Joaquim de Vasconcelos. Do acervo, e pessoalmente, eu destacaria os seguintes lotes:
146 - Frei Luiz de Sousa, de Almeida Garrett, na sua edição primeira de 1844, com uma estimativa de venda de 200/ 300 euros.
217 - Poesias, de Sá de Miranda, edição de Halle, 1885. Exemplar de trabalho, com anotações manuscritas de Carolina Michaelis. Com preço previsto de venda entre 800,00 e 1.200,00 euros.
230 - Só, de António Nobre, na sua edição original de 1892, impressa em Paris. O livro tem dedicatória manuscrita do Poeta, para António Cândido. Tendo uma estimativa de venda de 1.200/ 1.800 euros.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Bibliofilia 101


Este portuense ilustre, cujo retrato, em litografia de José Alves Ferreira Lima, encima o poste, nasceu a 2 de Março de 1807, na Cidade Invicta. De seu nome, José Gomes Monteiro, estudou, em Coimbra, leis e cânones, não chegando a completar o curso. Foi para Inglaterra, ainda novo, e, posteriormente, veio a fixar-se em Hamburgo, alguns anos, onde chegou a criar uma empresa comercial, que não foi bem sucedida.
Na cidade hanseática, viria a publicar os Autos de Gil Vicente, baseados numa edição original, existente na Universidade de Göttingen. Mais tarde, regressou ao Porto, onde viria a falecer a 2 de Junho de 1879.
Bom conhecedor da língua alemã, traduziu e publicou, na sua cidade, em 1848, o livro Eccos da Lyra Teutonica, com versões de poemas de Uhland, Chamisso, Heine, Goethe, Schiller, Lessing e outros poetas germânicos, alguns deles em apresentação bilingue. Esforço meritório, que fez acompanhar de um Appendix, com notas explicativas. O conhecimento e amizade que teve com Almeida Garrett, terá tido, provavelmente, alguma importância no seu interesse por poesia.
Comprado em finais dos anos 80, do século passado, este meu exemplar custou-me Esc. 1.700$00, e encontra-se em bom estado de conservação.

quinta-feira, 27 de março de 2014

No Dia Mundial do Teatro


Creio que a primeira peça de teatro que li terá sido o "Auto da Alma", de Gil Vicente. Também por razões escolares, seguiu-se-lhe "Frei Luís de Sousa", de Almeida Garrett. E até pouco depois dos 30 anos continuei, com regularidade, a ver e a ler obras teatrais.
Subitamente, e mais ou menos por essa altura, o meu interesse começou a declinar, a pouco e pouco, e julgo que há mais de dez anos que nem vejo, nem leio teatro. Mas também não consigo explicar a razão deste meu desinteresse acentuada por essa temática literária.
E, embora não a pratique de todo, actualmente, neste Dia Mundial de Teatro, que se celebra hoje, quero deixar, em imagem, algumas das obras que li e recordo, com maior satisfação, do passado.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Um livro


Há já largos meses (mais de um ano?) que não leio um romance, novela ou um conto que me agrade inteiramente. Uma obra de ficção, em suma.
Será uma verdade, à marechal de La Palice, eu dizer que o que distingue uma obra ficcional, de uma biografia, é sabermos que, nesta última, as personagens que a integram existiram e os factos foram reais. Há, no entanto, em toda a literatura, obras híbridas, em que a ficção e a realidade se entrelaçam, numa harmonia perfeita. Estou a lembrar-me, por exemplo, de "Viagens na minha Terra", de Garrett, ou de "Os cadernos de Malte Laurids Brigge", de Rilke, para referir apenas dois casos.
É este hibridismo perfeito, segmentado, embora com maior peso biográfico, e que, pela antologia valeriana (ficção, poesia e ensaio) se torna compósito, que caracteriza o livro que ando a ler, com imenso agrado. Intitula-se "Paul Váléry" (Editions Pierre Charron) e foi (bem) escrito e organizado por Pierre Caminade. E que recomendaria, não fora o facto de ter sido publicado em 1972, sendo por isso, decerto, difícil de encontrar.
Para além disso, é um prazer folheá-lo: é uma edição cuidada, tem ilustrações invulgares e bonitas, vendo-se que foi produzido por quem tinha muito bom gosto estético.

domingo, 20 de outubro de 2013

O poder avassalador da imagem e da música, sobre a palavra


É um facto que começamos a ver muito antes de aprendermos a ler. E também é verdade que a memória das imagens, embora de natureza mais fragmentária e desordenada, é mais "fácil" do que a fixação memoriada de textos, e até frases.
Mas quantos de nós, ao ouvir falar de "Il Gattopardo" (O Leopardo), antes de pensarmos em Tomas de Lampedusa, lembramos Visconti, Nino Rota, Burt Lancaster, Claudia Cardinale. Mesmo que tenhamos lido, com intenso agrado, a obra-prima do escritor italiano. E a memória sobreleva, indiscutivelmente também, da "Morte em Veneza", o Adagietto de Mahler ou expressões de Dirk Bogarde, em prejuízo das palavras da novela de Thomas Mann.
E, até por cá, o célebre "Ninguém!", do Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett - para quem viu o velho filme português - poderá ficar sombreado pela imagem luminosa de Maria Dulce, muito jovem, ou pelo avultado corpo e voz de João Villaret.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Apontamento 25: "Pronunciei-me", glosando Almeida Garrett



Por detrás de pretensos discursos explicativos sobre a inevitabilidade de medidas castradoras, previstas no código do sistema neo-liberal e dirigidas àqueles que vivem do esforço do seu trabalho, e não aos que praticam a usura, descobrem-se cada vez mais os jogos do poder económico, comprometendo o poder político e, sobretudo, os que se põe a jeito como é a CDU da Senhora Merkel.
Já o Senhor Kohl, de quem nunca gostei, viu-se envolvido em escândalos de financiamento ilícito do seu partido, i.e., a CDU. Agora, pouco depois das eleições da Alemanha, em que a Senhora Merkel anda há semana “em conversações” para constituir um governo, a CDU recebeu um presente “inesperado”: 690.000,00 de euros da família Quandt, detentora da empresa que fabrica os carros BMW ! Coincidência suprema ! Não é que a EU está a querer, contra a firme oposição da Senhora Merkel, legislar sobre os limites de CO2 nos veículos automóveis.
Para quem ainda não percebeu o motivo da resistência merkeliana a tamanha iniciativa, já se tornou clara a sua oposição: “Favor com favor se paga”
Certamente, a oposição da Senhora Merkel relativamente à supervisão bancária no espaço da EU esconderá outras moscambilhas, cujo preço social e cultural ficamos a saber hoje. Segundo o dito popular: “Quem cabritos vende e cabras não tem, dalgum lado lhe vem.”
Perante isto, o “nosso” Zé Manel, que deve ter tido uma abrangente passagem adminstrativa nas cadeiras que implicavam o domínio do direito constitucional e das instituições, não se pronuncia.
Fizeram bem os poucos resistentes, democratas e europeus, que lhe fizeram lembrar os princípios da Constituição Europeia que ele jurou. Certamente, já não se lembrava muito bem como o nosso exemplar, o esquecido belenense.
E perante todos os interesses ocultos resolvi pronunciar-me, tal como A. Garrett, esperando pelo engrossar do “sopro” patriótico que tarda a surgir perante tanta humilhação social e cultural.


Post de HMJ

sábado, 31 de agosto de 2013

Férias 6 - Fim: "Viagens na minha Terra"



Nas minhas primeiras viagens, em Portugal, desconhecia aquela que considero a “obra prima” de Almeida Garrett e, também, da Literatura Portuguesa. Certamente não teria, na altura, capacidade para avaliar o seu engenho literário.
Identifico-me, contudo, com os tempos em que as viagens permitiam conhecer lugares insólitos, costumes diferentes, a Cultura e a História, que estimulavam o pensamento – sobre nós e os “outros” – e nos deixavam fisicamente exaustos ao fim do dia, mas com o “papo cheio” de espírito.
Uma aventura memorável, em finais de Setembro e no fim da época das travessias, foi uma passagem de barco, com cheiro a naufrágio, de Peniche até às Berlengas. A demorada travessia obrigou a uma montagem da tenda ao lusco-fusco, no planalto da ilha, numa “covinha” aconchegada. Ao acordar, houve tempo para apreciar a natureza, mas, sobretudo, para dominar o susto ao verificar que a tenda tinha sido montada junto de um precipício.


No entanto, e no final do tema dedicado às férias, fica a noção da evolução do conceito de “viagens” – como forma de enriquecimento intelectual e pessoal – para uma vertente perniciosa de “turismo”, economicista e contabilística.
Com efeito, prefiro as “Viagens na minha Terra” e, como Garrett, “amo a Charneca” quando passo perto de Santarém. E, na passagem pela planície ribatejana, volto a pensar no engenho de sua obra. O aparente sub-género litarário de viagens, reúne, numa construção sem precedentes, o dramático, narrativo e poético, confundindo os nossos sentidos como é próprio da sinestesia.

É obra !

Post de HMJ

domingo, 11 de agosto de 2013

Bibliofilia 85 : Garrett (com algumas transmigrações espúrias)


Abriu-se o Sogrape tinto de 1983, de que aqui dei imagem e notícia, há dias, nas "Mercearias Finas 76" (2/8/13). Um pouco a contra-natura, pela canícula. Mas estava excelente, este vinho do Dão com trinta anos, que se bateu lealmente com uma tábua de queijos, à altura: Azeitão, branco e finíssimo, um Emental de olheiras pronunciadas e um Serra, fidalgo austero.
Na varanda a leste, depois, sopeso e acaricio um voluminho de Garrett (1799-1854), de formosa feição. E constato que, ao falar dele, hoje, vai o Arpose ficar, inteiramente, sob o signo celta da Irlanda. Porque Almeida Garrett tinha ascendência irlandesa. E se irritava, solenemente, quando lhe pronunciavam o final do apelido à francesa: ê. Replicava logo que se devia ler e dizer: éte.
Pois este livrinho, que não é raro, mas foi, em mais de 140 anos, bem estimado e encadernado, já o comprei no dealbar do séc. XXI (2002), por 20 euros. Numa edição de 1871, promovida pela Imprensa Nacional, ocupa-se, substancialmente, com um texto inédito até à altura, que era um projecto de romance, intitulado Helena.
Anos antes (1989), fora vendido um exemplar semelhante, num leilão da Soares & Mendonça (lote 89), por Esc. 9.000$00. Devia merecê-los...
Começava assim este inédito de Garrett:
Acabava de passar uma d'aquellas trovoadas espantosas que, nos paizes tropicaes, repentinamente se formam, estalam, e de repente se dissipam tambem, deixando o ar mais puro, o ceo mais azul, e toda a natureza respirando uma frescura, um viço, uma lasciva animação de todo o ser, que não parece senão que alli foi agora a creação e começa a vida pela primeira vez. ...
Prosa límpida, não é?