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quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Do que fui lendo por aí... 61

 

" Vespera de S. Nicolau e toda a populaça na rua: (...) Vem a cerração da noite e a chuva pegada e tão miuda que se colla e amollece o proprio granito. Das ruas que abrem na praça rompem successivos magotes, tambores à frente, n'um clamor d'inferno. (...)  - S. Nicolau! S. Nicolau!...
É, na vespera da festa, o dia das posses, em que desde tempos immemoriaes certas familias estão na obrigação, que a populaça não perdôa nem perde, de dar, uns castanhas, outros lenha, vinho, pão, uma arvore inteira. Forma-se o cortejo. Já estrondeiam os primeiros compassos da charanga, que desce uma rua a passos marciaes, archotes á frente." (pgs. 49/50, A Farça, 1903, Raul Brandão)

Comentário pessoal: não só esta obra, mas uma boa parte dos livros de Raul Brandão (1867-1930) têm por cenário e retratam, muitas vezes, a paisagem e costumes vimaranenses. Neste excerto são invocadas as Festas Nicolinas, dos estudantes, que se iniciam com o Pinheiro, a 29 de Novembro e encerram, a 6 de Dezembro, com o cortejo das Maçãzinhas.

sábado, 26 de novembro de 2011

Aditamento (sonoro) ao poste sobre as Festas Nicolinas

Cidade Capital de Cultura 2012 / Fastos vimaranenses VIII : Festas Nicolinas



Das festas mais importantes de Guimarães, destacam-se pela singularidade: as Gualterianas e as Nicolinas. Ambas se acolhem à protecção de santos: S. Gualter, patrono de Guimarães, e S. Nicolau, dos estudantes. As Festas Gualterianas têm lugar em finais de Julho e prolongam-se até aos primeiros dias de Agosto, tendo um objectivo económico e turístico. As Festas Nicolinas começam sempre a 29 de Novembro e terminam a 6 de Dezembro e têm sobretudo um carácter lúdico, pois são feitas por e para os estudantes. O figurino na sua versão actual data dos finais do séc. XIX, mas os festejos estudantis já aconteciam, em Guimarães, no séc. XVII, embora numa versão mais incipiente, e muito dependente, ainda, da Igreja. Havia aliás uma capela de S. Nicolau que foi demolida nos anos 30 do século passado.
Por esta altura de Novembro, na cidade, já se ouve o rufar dos bombos e caixas num ruído cavo que se propaga pelas ruas, de manhã, no intervalo das aulas depois do almoço, e à tardinha. É o afinar dos toques, antes do início das festas. Os nós dos dedos sangram, por vezes, mas o rufar continua; e também acontece que o bombo fica "inutilizado", tal foi a força das baquetas que a pele rebentou. Mas tudo isto é antes do princípio, porque a verdadeira festa começa a 29 de Novembro, à noite, quando o Pinheiro (oferecido, tradicionalmente, pelo chefe da comissão das Festas Nicolinas) entra na cidade, puxado por carros de bois e trazido dos arrabaldes. O cortejo, acompanhado de estudantes tocando caixas e bombos, em ritmo compassado, terminará no Campo da Feira, onde a árvore (enorme, habitualmente) será enterrada, sem raízes, e aí ficará, até ao final das Nicolinas. A madeira será depois vendida para custear despesas. No entretanto haverá as "Posses" (ofertas de particulares aos estudantes, muitas vezes, em viandas), o "Magusto" (com castanhas assadas e líquidos à discrição...), a  noite da "Roubalheira" (em que os nicolinos mudam os pertences exteriores dos particulares para sítios insólitos. Vasos, roupa a secar, tudo que esteja à vista ou à mão é levado para locais improváveis e distantes.). Antes do cortejo final das Maçãzinhas, a 6 de Dezembro, haverá ainda a leitura do "Pregão" (pequena epopeia herói-cómica, habitualmente, em decassílabos marotos e de crítica a Guimarães e ao Mundo), declamação que é feita junto à Câmara Municipal, junto à casa que foi da Sra. Aninhas (chamada a Madrinha dos estudantes), e noutros locais da tradição Nicolina. A 6 de Dezembro, o ponto mais alto, com o cortejo de estudantes mascarados que oferecem da rua, às jovens raparigas nas janelas e varandas das casas, maçãzinhas na ponta de uma lança. E recebem delas, em retorno, pequenas ofertas que podem ir de colheres de pau até pequenas garrafinhas de Vinho do Porto. Quando as pequenas maçãs acabam, o estudante oferece a lança (de metal ou latão), adornada com fitas de diversas cores, à eleita do seu coração. Ou, então e manhosamente, só a dá, depois, no baile nocturno que encerra as festividades, para tirar maior "proveito" da oferenda...
Vale a pena ir ver as Festas Nicolinas, a Guimarães.

Nota: nas imagens, Nicolinos, prontos para começar o cortejo das "Maçãzinhas. Reproduz-se ainda uma parte do "Pregão" de 1985.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Curiosidades 24 : Festas Nicolinas (o Pinheiro)




O Arpose está em dia de cortejos. É que se iniciam, formalmente hoje, e como todos os anos a 29 de Novembro, as Festas Nicolinas dos estudantes vimaranenses, com o cortejo do Pinheiro. O pinheiro, propriamente dito, tem de ser de grande porte e é oferecido pelo eleito Presidente da Comissão de Festas, que é sempre um estudante. A grande árvore vem dos subúrbios, trazida por carros de bois, ao som ritmado de bombos e caixas, para ser "re-plantado" no Campo da Feira. Aí ficará até 6 de Dezembro, final das Nicolinas, quando tem lugar o cortejo das "Maçãzinhas", pequenos frutos que são entregues, através de canas com lanças no topo, às donas jovens que se encontram em varandas e janelas, no centro da cidade. Em troca, as moças penduram nas lanças pequenas prendas: saquinhos de rebuçados, colheres de pau, pequenas garrafinhas de Vinho do Porto, etc..

As Nicolinas, como tradição, perdem-se na memória do tempo. Há notícia de celebrações, desde o séc. XVII, tendo como patrono S. Nicolau. No séc. XX adquiriram um figurino mais clássico, ordenado e rígido. Que inclui as seguintes manifestações festivas: o cortejo do Pinheiro, as "posses", a noite da "roubalheira", o magusto, a declamação do Pregão, em verso (com críticas regionais e mundiais aos tempos que correm), e o cortejo das "Maçãzinhas" a que se segue um baile de estudantes, para encerramento, na noite do dia 6 de Dezembro. Só vendo as Festas Nicolinas se poderá avaliar a alegria juvenil que enche as ruas antigas da cidade de Guimarães, nesta época do ano. O vídeo apresentado, de pouca qualidade, aliás, dará uma pálida ideia do que é o cortejo do Pinheiro.