Um nevoeiro branco, mas opaco, toma conta do rio na manhã dominical. O Sol é um halo pressentido que transfigura a paisagem como nalgumas telas de Sequeira. É aí que me vem à colação um poema de Fernando Echevarría (1929):
Inverno de nevoeiro.
O pulso nele faz frio
e purga-lhe o pensamento,
de repente tão antigo.
A espuma sobe por dentro
desse relógio marítimo
cuja cota conta o tempo
da língua a colher o ofício
e a música. O silêncio
sossega à beira do ritmo.
Irá nevar? Nos pinheiros
a densidão do moliço
pensa pássaros de inverno,
imóveis, pois luz e ninhos
apenumbram a penugem
da língua que toma conta
de se enrodilharem nuvens
no vulto denso da copa.
A poesia de Echevarría quase nos conta uma história. Se a quisermos ouvir (ler) com minuciosa atenção. Sinestesias discretas irradiam dos seus versos. Acompanham e mimetizam a paisagem. Pensam-na por dentro.








