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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Osmose 113


Se houvesse além, havias de já ter dito alguma coisa, depois de arrumares as tuas roupas, livros e  outros pertences, ao chegares. Sempre foste mais arrumado que eu - lembro-me bem. Excepto no final dos teus dias, já mais complicados.
Mas tenho imensa dificuldade em situar-te, agora. Saiba embora que estás nalgum lado: mas qual o espaço eleito, o cenário preferido para te recordar? A Norte ou a Sul? A Foz húmida dos últimos dias ou a Caparica, ainda quase juvenil e luminosa dos antigos Verões despreocupados e dos Agostos imensos encantados e alegres, povoados de crianças que eram nossas?
Sei, porém, que é em mim, no presente, que te hei-de encontrar.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

De Auden para Yeats





In Memory of W. B. Yeats
(d. Jan. 1939)

I

Morreu quando o inverno agonizava,
Os regatos estavam gelados, os aeroportos quase desertos,
E a própria neve desfigurava as estátuas pelas ruas;
Até o mercúrio se contraía pela boca do dia moribundo
E todos os instrumentos convergiam de frio, concordavam
Que o dia da sua morte era um negro, gélido dia.

Para longe da sua doença
Os lobos desapareceram no denso mais verde das florestas,
O rústico rio selvagem nem sequer foi atraído para os cais
Mais amenos; e as bocas mais gentis e discretas
Souberam poupar os seus poemas à morte do poeta.

Embora para ele tivesse sido, com efeito, a última tarde,
Um entardecer de freiras e rumores;
Todas as regiões do seu corpo revoltadas,
As praças da sua alma, de repente, despovoadas
E o silêncio invadiu todos os subúrbios;
A energia mais íntima do sentimento apagou-se. Ficou a dos outros

Seguidores. Agora ele está espalhado por centenas de lugares
E sente-se obrigado a ser gentil com os desconhecidos
Para encontrar a felicidade por entre estranhos tecidos
E ser castigado por códigos novos e alheios
De um outro vocabulário de homem falecido
Alterado pelas regras dos sobreviventes.

Mas no que vier a ser importante ou ruído de amanhã
Quando os corretores rugirem como feras pela Bolsa,
E os pobres tiverem sofrido tudo aquilo para que estão fadados,
E todos nas celas de cada um se convencerem da sua liberdade,
Alguns poucos milhares hão-de pensar na importância deste dia
Como quando alguém se apercebe no dia em que fez algo extraordinário,
Aquilo, no fundo, em que os instrumentos metereológicos concordaram
Que o dia da sua morte foi extremamente escuro e muito frio.

II

Eras tão ignorante quanto nós, mas o teu dom foi sobreviver a tudo:
À paróquia das senhoras finas, à física decadência;
A ti próprio. A loucura da Irlanda feriu-te bem fundo de poesia.
Agora a Irlanda tem outra loucura bem como o seu tempo tranquilo,
Pois a poesia não faz acontecer já nada de novo: sobrevive
No vale onde é feita e por onde os executivos
Não querem entrar, e desliza em direcção ao sul
De quintas isoladas e sentimentos diligentes,
Ingénuas cidades em que acreditamos e onde morremos;
Apenas sobrevive uma forma de ser, uma única boca.

III

Terra!, recebe este honrado hóspede:
William Yeats veio para repousar.
Deixa que o barco aporte
Despido de toda a sua poesia.

No escuro pesadelo
Todos os cães da Europa ladram
E as nações existentes aguardam,
Cada uma sequestrada no seu ódio;

A desgraça intelectual
Vai-se reflectindo em cada face,
E mares de misericórdia aí ficam
Fechados e gelados no olhar.

Segue, poeta, vai além
Até ao fim da noite,
Com a tua voz enfim liberta
Convence-nos ao júbilo.

Com o cultivo de um verso
Constrói o destino da vinha,
Contra o insucesso humano
Num êxtase de angústia;

Pelos ermos do coração
Deixa que rompa a ferida da fonte,
Pela prisão de cada dia
Ensina o homem livre a celebrar.


W. H. Auden


( versão portuguesa, feita em memória de A. de A. M.)

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Arquivo morto


Nem todas as histórias infantis são para crianças. Lembro-me de, em tenros anos, ter lido algumas que me deixaram uma desagradável impressão. Creio que uma delas tinha por título A Princesa dos sapatos de ferro, ou qualquer coisa assim parecida... Não me lembro, porém, do nome do autor. Mas recordo que o conto tinha ilustrações de Augusto Gomes.
Este pequeno trecho de Ilse Losa (1913-2006) foi mandado para o extinto JL&L, em 1989, através do meu amigo A. de A. M., acompanhado de um post-it, a ele endereçado, como se pode ver na imagem. Não sei se chegou a ser publicado, ou se está inédito, mas também me parece que é uma história para adultos e menos para crianças.



com agradecimentos a A. de A. M..

domingo, 25 de agosto de 2019

Mercearias Finas 149


De conservador que sou, de vez em quando, dou-me a inovações para "desmanchar a regra" (A. de A. M.) e destruir o tédio ou o fastio, se existirem. De sobremesas, que me lembre, já vou em três criações originais, mas não registei patente.
Até tarde na vida, sempre pensei que a tríade marmelada (de fabrico caseiro), queijo flamengo (dos Açores, de preferência) e banana (das pequeninas da Madeira, se for possível) era uma sobremesa, por tradição, doméstica e banal, até que a vi constar de ementas de pensões e restaurantes modestos, sobretudo do Norte.
Em casa, e no Inverno, fui subindo a parada. O flamengo passou a Castelões, primeiro. Depois, havendo desafogo e matéria prima, deu lugar a Queijo da Serra - um luxo!
De há 2 ou 3 anos a esta parte, criei uma nova combinação, eliminando a banana porém: marmelada e queijo Roquefort. E não é que funciona - e bem - talvez pelo contraste?!
Para acompanhar, sugiro um branco Terras do Sado ou Regional Lisboa, lotados com Arinto e Fernão Pires, tirando a garrafa do frigorífico 1 hora antes, para estar simplesmente fresco.
Um bom almoço de Domingo - são os meus votos.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Mercearias Finas 146


Vai hoje a temática do poste, maioritariamente, em transcrição do livro Uma História Saborosa do Mundo (Casa das Letras, 2008), até porque, em matéria gastronómica, de Coimbra e Viseu não trouxe recordações de maior. Para lá de uma merenda ajantarada de convívio ameníssimo, em casa de um grande amigo que já não via há muito.
Actualmente, é difícil imaginarmos a preciosidade que representavam as especiarias para os nossos avoengos de quinhentos. Elas foram também, por motivos de comércio, uma das razões dos descobrimentos e fizeram algumas fortunas, sobretudo entre os nobres e alguns navegadores.
Mas o melhor será dar a palavra a Kenneth F. Kiple (1939), através de um pequeno excerto da página 134 da sua obra, acima referida.
Assim:

As cidades portuárias, como Lisboa, Londres, Dublin e Amesterdão enriqueceram com o comércio das especiarias, tal como cidades continentais como Constância, Augsburgo e Nuremberga. Todavia, as especiarias orientais, com inúmeros intermediários a subirem os preços ao longo do percurso, tornaram-se demasiado caras mesmo para os ricos. Um documento alemão de 1393 indica que meio quilo de noz-moscada valia sete vacas gordas e meio quilo de gengibre dava para comprar uma ovelha. A gente do povo, excluída do mercado das especiarias exóticas, tinha de se contentar com as plantas amargas regionais. Entre as mais adequadas, contavam-se os cominhos (Carum carvi), a genciana (género Gentiana), o zimbro (Juniperus communis) e o rábano picante (Armoracia rusticana).

com agradecimentos, dúplices, a A. de A. M. e a A. J. R. M. M.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Os mecanismos de substituição


Admito que não tenha sido por acaso que se convencionou, para hoje, celebrar-se o Dia dos Irmãos que, ontem no jornal Público e em crónica, Guilherme d'Oliveira Martins, afectuosamente, lembrou. Cair a data, no signo dos Gémeos, terá alguma razão de ser. Embora se a crismássemos de Dia da Fraternidade, a opção talvez fosse mais ampla. Até porque há quem não tenha tido irmãos.
A exemplo de Ulisses, o homérico homem dos mil ardis, quem os não tem, pode sempre inventá-los. Ou escolhê-los, que ainda será melhor. Foi o que fiz, desprovido que fui, por sangue, de fraternas presenças. Duas figuras humanas, com o tempo, foram crescendo a meu lado e ganhando o meu afecto crescente e natural, talvez por íntima afinidade e delicada proximidade de sentimentos. Cabe-me, por isso, lembrá-las com ternura. A Fernanda, que irei rever, hoje, e o António, que sempre, memorialmente, me acompanha.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Sensibilidades


Em recente questionário-entrevista, a um semanário, o musicólogo Rui Vieira Nery (1957), à pergunta : "Um músico pode não ser um artista?", respondeu: "Um verdadeiro músico é sempre, por definição, um artista. Mas depois, claro, há os outros..."
Se o exercício profissional de uma actividade pressupõe alguma coisa de mecânico e automático,  rotineiro enfim, impessoal e neutro, até determinada altura, na minha vida, eu imaginava que os cultores de algumas funções artísticas eram dotados de uma especial sensibilidade.
Até que um dia, questionei o meu amigo António - que fora compagnon de route de uma orquestra do Norte - sobre a especial sensibilidade dos músicos. Respondeu-me, mais ou menos, assim: Não te iludas, uma boa parte são uns burgessos!...
Na verdade, eu tinha-me esquecido da forma como Fellini os vira e tratara em "Ensaio da orquestra" (1978)...

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Outro lado


Felizmente que as camisas havaianas berrantes, os chanatos chineses de plástico rasca e os calções desengonçados, que deixam à mostra as pernas branquelas e anémicas dos turistas aos molhos, não chegaram ainda a Canide, a Lavadores, nem sequer à Afurada. Os turistas pack-chapa-zero ficam-se pela Lello e pela torre dos Clérigos, e por aí se babam de pasmo incontinente e fotos sucessivas.
Deixaram-nos os areais limpos e o azul cobalto das águas, o silêncio maravilhoso da paisagem natural e o conforto de os olharmos, tranquilamente.
E, depois, com quatro sardinhas a cada um, uns nacos de broa e um branco da casa, fresquinho, na esplanada da tasca modesta, só ouvíamos falar português. Com moderação e sem selfies...
Ainda há outros mundos, felizmente, não poluidos de todo.

para A. de A. M., com grato reconhecimento, e em memória.

sábado, 22 de setembro de 2018

Memória 124


O Stencil teve grande uso e voga até, pelo menos, meados dos anos 90. Mais barato que as fotocópias, na altura, e de fácil reprodução em quantidade, fazia as vezes de jornal político clandestino para as organizações de extrema-esquerda e maoístas, principalmente. Mas também era usado como arma de arremesso e denúncia anónima de instituições laicas.


É o caso deste O Escândalo das Letras (EoL), de Abril de 1989, que se destinava a incomodar a nossa república literária, ou beliscar, mordaz, alguns bonzos ou figuras instaladas em certas instituições literárias. Com 12 páginas stencilizadas, este pasquim interessante, é hoje, certamente, um documento raro. Não haverá, por aí, muitos exemplares sobreviventes que possam vir a ser consultados.


Por essa razão, aqui deixo algumas imagens do exemplar nº 0, para se fazer a ideia de uma época e das motivações, efémeras, que o justificaram, na sua origem panfletária.

com envoi fraterno para A. de A. M..

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Retro (98)


Quase todos os conflitos bélicos, a partir do século XX, foram acompanhados, por parte dos governos envolvidos, de propaganda justificativa das razões que legitimavam as guerras. Essa propaganda poderia ser radiofónica, assumir a forma de cartazes, publicações escritas distribuídas gratuitamente aos cidadãos (e em países amigos e aliados) ou, em tempos mais recentes, ocupar espaços de antena televisivos.
E se as imagens, a partir da II Grande Guerra, tiveram uma importância preponderante, na I Grande Guerra eram os folhetos escritos a forma mais usada para ganhar as consciências, sobretudo das classes mais cultas e letradas.


Alguns se hão-de lembrar de dois ou três slogans estadonovistas, difundidos constantemente nos microfones da antiga E. N.. Um, de meados dos anos 50: Os sinos da velha Goa e as bombardas de Diu serão sempre portugueses, para reagrupar os nacionais em defesa do ex-Estado da Índia. O outro, no início dos anos 60, acompanhado de música marcial, que entoava em estribilho o Angola é nossa!
Os chamados Campos de Concentração foram criação original do Império Britânico, na África do Sul, aquando da guerra anglo-boer (1899-1902), destinando-se ao acantonamento, em espaço restrito, das populações de colonos de origem holandesa.


Não deixa por isso de ser irónico que, destes 4 folhetos ingleses (seguramente, destinados a Portugal), em imagem, um deles se ocupe a verberar, em 1916, Os Horrores de Wittenberg, sobre as condições desumanas dos prisioneiros britânicos em território alemão, durante a I Grande Guerra. Chamo ainda a atenção para o folheto A Perspectiva da Guerra, que foi subscrito, em 1915, pelo célebre criador de Sherlock Holmes -  Arthur Conan Doyle. O opúsculo destinava-se, principalmente, a justificar a Expedição dos Dardanelos, tentando desvalorizar a derrota e as muitas mortes de soldados britânicos (cerca de 100.000) por que se saldou.


grato reconhecimento a A. de A. M., que me facultou o uso destas interessantes publicações.





quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Recomendado : setenta e dois - Óscar Lopes


Lançada no mês passado de Outubro, em homenagem a Óscar Lopes (1917-2013), pela passagem do centenário do seu nascimento, esta fotobiografia (Óscar Lopes - retrato de rosto), orientada por Manuela Espírito Santo, sob o patrocínio da Câmara de Matosinhos, é um documento precioso. Não só pela copiosa iconografia, mas também pela correspondência de e para Óscar Lopes, reproduzida. E pelos testemunhos muito diversos e importantes, aí inseridos.

agradecimentos fraternos a A. de A. M..

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Formar o gosto


Há dívidas que nunca mais se pagam. E eu tenho uma delas para com Óscar Lopes (1917-2013).
Não tanto pelos livros que publicou, de que se destaca a História da Literatura Portuguesa, mas sobretudo pelo seu magistério crítico que, ao longo dos anos, foi exercendo, às terças-feiras, no suplemento literário Cultura e Arte, de "O Comércio do Porto".
Pelas suas recensões semanais fui apurando o meu sentido crítico, aprendendo a separar o trigo do joio literário, a melhor compreender a prosa e a poesia portuguesa, que, então, se ia publicando. A agudeza das suas sínteses, a fina intuição que não excluía o afecto (o texto à morte de Mário Sacramento, é um magnífico exemplo de amizade), deixaram marcas na minha memória.
Conheci-o pessoalmente já tarde, por intermédio do nosso comum amigo António, num dia atribulado de lançamento de um livro, em Lisboa. Era a simplicidade em pessoa, apesar da sua imensa sabedoria.
Aqui o quero lembrar, 4 dias depois da passagem do centenário do seu nascimento. Com gratidão.


segunda-feira, 22 de maio de 2017

Arquivos, espólios, cartas, fotografias, recortes...


Nem sempre os espólios passam de ser vivo para ser vivo. Naturalmente, a trasladação passa de pessoas desaparecidas para sobreviventes ou herdeiros, ou, noutros casos, para instituições capazes de cuidar desses papéis, de forma técnica e apropriada. Essas heranças dão-se, muitas vezes, por razões de espaço a ganhar, em casas particulares sem grandes dimensões, nem capacidade de armazenamento físico. Noutras ocasiões, os donos desses espólios, por questões práticas, resolvem doar em vida ou vender, a instituições culturais ou regionais, o excedente supérfluo para poderem conservar o essencial, em sua casa.
Passei, recentemente, cerca de 4 dias a desbastar cerca de uma centena de envelopes, que me tinham sido confiados ad eternum, por um Amigo. E, isto, porque eu próprio também estava a necessitar de espaço em minha casa. Ordenado alfabeticamente, o espólio tinha servido de suporte a uma publicação cultural que, já há largos anos, tinha deixado de existir. Nos envelopes, havia de tudo: fotocópias, cartas, recortes de jornais, revistas, fotografias, cartões de visita, C. V., bibliografias... Uma grande parte documental perdera, entretanto e completamente, a actualidade e/ou interesse do que fora, em tempos (15/30 anos, atrás), acontecimento notabilíssimo. A lei do tempo que, como disse Yourcenar, é um grande escultor.
De tudo isso conservei apenas cerca de um quinto do acervo inicial.

para A. de A. M., afectuosamente.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Idiotismos 36


Na rubrica Idiotismos (nº 7, de 5/12/2012), abordei a expressão cortar na casaca. Por essa altura, e por associação de ideias, em parceria com um amigo, tentámos descobrir, também, a origem e razão da expressão virar a casaca que, de uma forma geral, se aplicava a pessoas que se adaptavam a novos tempos, mudando de opinião, partido e modos de ser, para melhor aproveitarem e se servirem de novas conjunturas políticas. João Abel Manta (1928), muito inspiradamente, pouco depois do 25 de Abril, num cartoon muito sugestivo (em imagem, a encimar este poste), exemplificou de forma humorística, os viracasacas, oportunistas que, tendo servido o antigo regime com devoção, se tentavam integrar, disfarçadamente, na nova ordem democrática.
Mas nem o meu amigo nem eu, nessa altura, conseguimos deslindar o mistério da origem do virar a casaca. Recentemente, porém, no livro Origem de várias locuções, adágios, anexins, etc. (Elvas, 1928), de António Thomaz Pires (1850-1913), preto no branco, tudo era explicado claramente. Acontece que Carlos Manuel (1562-1630), duque de Sabóia, tinha um carácter dúplice e oportunista, que o fazia apoiar ora a Espanha, ora a França, na guerra em que os dois países andavam envolvidos. Consoante os benefícios que, daí, poderia colher. E para não ter que mandar fazer duas fardas de cores diferentes (branca, cor da França, e vermelha de Espanha) mandou fazer um casaco branco por um lado e vermelho, do outro. Podendo assim igualmente servir dos dois lados, e ambos os países inimigos, conforme fosse a ocasião e opção escolhida. Assim se começou a usar a expressão: virar a casaca.

para A. de A. M., afectuosamente.

domingo, 10 de julho de 2016

Como lhe havemos de chamar?


Comic Relief?...
Instantâneo colhido a Sul, por A. de A. M., a quem agradeço.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

No reino dos Algarves


Do Algarve, província portuguesa que não aprecio particularmente, guardo no entanto boas recordações de Lagos e de Vila Real de Santo António. Lagos não se descaracterizou demasiado e o seu "D. Sebastião", de Cutileiro, é das esculturas portuguesas que mais gosto e que nunca me canso de rever. Quanto a Vila Real de Santo António, o seu geométrico traçado pombalino ordenou-a para sempre (?) em patamares até ao rio, de uma forma estética admirável. Onde me sinto bem.
Faço por esquecer Faro e o desordenado Portimão, que me parecem um Cacém ou Reboleira, mais cosmopolita. Dizem que foram os Patos Bravos que estragaram a paisagem algarvia. Talvez.
Mas agora, segundo notícias visuais do meu amigo A. de A. M., parece que um escultor português também contribuiu com um mamarracho de pedra mármore para desfear a zona ribeirinha da Vila Real do Sul. E nada menos que o mesmo escultor do magnífico "D. Sebastião", de Lagos - pois é, o mesmo João Cutileiro (1936). Ele há horas infelizes...
Esta senhora, poetisa ao que dizem, chamava-se Lutgarda Guimarães de Caires (1873-1935) e há-de vir a assombrar (para sempre?) as margens de Vila Real de Santo António. Juntando-se ao Sá Carneiro guilhotinado do Areeiro (Lisboa) e ao Bispo do Porto, anão de pernas curtas, no Jardim da Cordoaria. Fica completo, assim, o trio de horrores da escultura portuguesa moderna...


com agradecimentos a A. de A. M..

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Ideias fixas 5


Será talvez a pedra no pântano...
Às vezes, vale a pena comprar uma polémica. Outras, acontece entrarmos nela sem querer. Há dias, por um mero equívoco, indirectamente e por gmail, comprei uma - inútil, como quase todas, no resultado final. Mas pode ser salutar, no entretanto: vem sobressaltar-nos a vida, faz-nos respirar melhor, agita as águas mansas da pasmaceira, da existência cumpridora e ordenada. E incomoda o outro que, religiosa ou politicamente, só diz coisas correctas e bonitas, esperando obter o aplauso geral ou o silêncio cúmplice. Como diz o meu amigo António: desmanchar a regra; porque uma bem-pensância é sempre um estorvo na vida que se deve combater, nicar, para o pôr a pensar noutros comprimentos de onda, que não sejam os dos manequins da rua dos Fanqueiros...

sábado, 7 de maio de 2016

Retro (84)


A façanha, de intuitos publicitários, teve lugar em 1917. O pequeno filme mudo, de 8m37, realizado por Raul de Caldevilla, pertence ao acervo da Cinemateca Portuguesa. Os improváveis alpinistas eram de origem galega e chamavam-se José e Miguel Puertullano. O apelido comum indicia que eram parentes. A Torre dos Clérigos tem 76 metros de altura. A sua escalada destinava-se a fazer propaganda de uma marca de bolachas portuense.
No filme começamos por ver o industrial, fabricante das ditas bolachas, a ajustar o contrato com os dois galegos. O acontecimento foi devidamente publicitado e, por isso, presenciado por centenas (?) de portuenses curiosos. Ao que parece, os dois alpinistas, depois de chegarem ao topo da Torre dos Clérigos e de fazerem algumas cabriolas para excitarem a turbamulta, atiraram cá para baixo vários papelinhos de publicidade sobre as ditas bolachas. Como se pode ver no final do filme...

agradecimentos a A. de A. M..

sábado, 30 de abril de 2016

Uma fotografia, de vez em quando (81)


As fotografias antigas, mesmo que de uma antiguidade recente, têm uma espécie de autoridade sobre nós. Ou fascínio, porque as cores são outras, o ritmo das figuras é quase sempre mais tranquilo, e acabam por nos dar uma imagem fixa e precisa de um tempo que não vivemos. Para além disso, poderá haver a qualidade estética do instantâneo e a capacidade técnica do fotógrafo, mas sobre isso eu não gostaria de falar, agora...
Ainda da Lituânia, o meu amigo António teve a gentileza de me mandar, a mim que raramente lhe escrevo, um postal com uma foto de Algimantas Kuncius (1939). Sobre a praia de Palanga (em 1966) que, diz-me também o meu Amigo, é muito bonita. Pouco consegui apurar sobre o fotógrafo lituano. Mas posso imaginar que Palanga é para Kuncius aquilo que a Póvoa de Varzim é, ainda hoje, para mim. Uma espécie de oásis da infância e adolescência, que é o tempo essencial donde os sonhos e mitos costumam nascer para o resto da vida. Mesmo nos homens mais empedernidos.
Ainda sobre a foto abaixo, o António chamou-me a atenção sobre as parecenças do fumador da esquerda com o nosso anterior PR, de má memória. Era um bónus dispensável, mas aqui fica exarado, para que conste Boliqueime na etiqueta do poste...


abraço muito grato a A. de A. M..

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Idiotismos 35


Expressões há que já nem damos por elas, de tanto as usarmos no dia a dia, outras que se foram desapropriando do tempo, e é com surpresa que as vamos encontrar nos clássicos, sob a pátina respeitável dos séculos. Outras ainda que, de súbito, nos interrogam a meio de uma conversa, perguntando-nos a nós mesmos a sua origem e razão. 
Ao ver tanta ave pelos céus e campos alentejanos, dei-me a pensar que até os pássaros têm o seu destino traçado, de nascença. Às águias e às gaivotas, ou mesmo às cegonhas, ninguém as caça e mata para comer. Outro tanto não acontece às perdizes que nos caíram no goto, como prato de eleição, ou aos tordos, infelizes, que os caçadores perseguem incansavelmente.
No meio destas variações, gastronómicas ou não, se estabelecem também oposições curiosas. Se cair no goto significa engraçarmos com, ou gostarmos de, a expressão entrou-me no goto pode ser uma aflição, porque nos engasgamos e podemos sufocar, já que goto é a forma popular de glote, que é o local da faringe com a função de saída e entrada do ar nos brônquios e pulmões.

Nota complementar: a primeira vez que a expressão cair no goto aparece, em literatura, data de 1555, na Comédia "Eufrosina", de Jorge Ferreira de Vasconcelos. Herculano utilizou-a também em "O Monge de Cister" (1848), bem como Camilo no romance "Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado" (1863).

agradecimentos a A. de A. M., pela colaboração e ajuda.