quinta-feira, 22 de junho de 2017

Genomas


As classificações, científicas ou literárias, regionais ou universais, são meramente indicativas, para os humanos melhor perceberem os conteúdos e as eventuais afinidades, em boa parte dos casos.
O sangue não é, à partida, um ADN absoluto de pertença e herança. A contiguidade e o meio ambiente de convívio têm sempre uma influência maior e decisiva na formação dos seres humanos.
Só a memória, se agradável, no e do passado, pode servir, algumas vezes, de verdadeiro elo de afecto residual ou permanente, para religar este fiozinho humano que se prolonga, de geração em geração, às vezes, intermitentemente. E quase por milagre.


P.S.: desprovido,  que sou, de uma formação científica bastante, de que falava C. P. Snow, peço que me desculpem qualquer impropriedade mais gritante, no texto acima.

Chick Corea : "Song for Sally"

quarta-feira, 21 de junho de 2017

O (mau) jornalismo, ainda


Se um raio que cai sobre uma árvore, durante uma tempestade seca,  pode provocar fogos de uma dimensão inimaginável, uma notícia incendiária pode também causar, seguramente, sobre criaturas menos informadas, mais sensíveis ou incultas, um movimento de reacção incontrolável, muitas vezes, de natureza política.
Quando, em 1963, estive pela primeira vez na R. F. A., tomei conhecimento de um jornal, de grande tiragem, intitulado: Bild. Os alemães esclarecidos diziam, com alguma sorridente ironia, que, quando se pegava nesse jornal, pelas pontas superiores das páginas, escorria, quase sempre, muito sangue...  
Hoje, ao contemplarmos com alguma atenção os mídia portugueses teremos de concluir, com alguma preocupação e pessimismo, que uma boa parte dos nossos jornalistas (?) procuram, sobretudo, a exclamação, a tragédia, o sangue, procurando excedê-los pelas descrições exageradas de um vocabulário paupérrimo. E servidos por um gesticular excessivo e expressões faciais de um mau actor de segunda classe.
Mesmo que para isso, e sem cruzar informações (regra básica de um bom profissional), dêem crédito ao mais rasteiro boato, para, empolgadamente, noticiarem desastres. Parece ser esse o seu único objectivo fátuo e festivo. E não a simples, mas correcta, verdade.

Aditamento (à temática: jornalismo)


Para avaliar o tipo de jornalismo indigente que se vem fazendo em Portugal, basta lembrar a inventona, ontem, da "queda de avião Canadair, perto de Ouzenda", que circulou pela quase totalidade dos canais televisivos, durante mais de três horas. Até vir a ser desmentida, categórica e oficialmente, pela autoridade de combate aos fogos, no briefing das 19h00.
Quem disse que, em Portugal, não havia fake news?

Citações CCCXVII


Cada editor de jornal deve o seu tributo ao diabo.

Jean de La Fontaine (1621-1695).

terça-feira, 20 de junho de 2017

O grau zero do jornalismo


Há sempre quem, de forma despudorada, se aproveite da tragédia dos outros, para daí tirar dividendos ou benefício. Mostrando, num exibicionismo vergonhoso disfarçado de compaixão, as imagens da desgraça. Já nos bastavam essas moles humanas indiferenciadas e imitativas que, desde a morte de Diana, e cacofonicamente, se apressam, de tempos a tempos, a encher de campos de flores, velinhas votivas e mensagens infantis, ou "je suis charlie", os locais, as ruas e as praças dos massacres e tragédias.
Mas sempre se esperava que, ao menos os jornalistas, soubessem respeitar condignamente o luto dos outros e os corpos insepultos. Pois nem isso aconteceu, agora, com a tragédia de Pedrógão Grande. Até uma senhora - curiosamente, também ela vítima de uma infelicidade pessoal, há poucos anos - da TVI, se pavoneou, escandalosamente, em reportagem, ao lado de um cadáver. Outros jornalistas de televisão imitaram este macabro espectáculo miserável, do ponto de vista humano. Chegamos, efectivamente, ao grau zero do jornalismo.

(Chamo a atenção para a exemplar crónica de António Guerreiro, sobre este assunto, publicada no jornal Público de hoje, e intitulada: As vítimas dos incêndios e da televisão. )


Curiosidades 64


Do bíblico Sansão a "The Rape of the Lock", de Alexander Pope (1688-1744), passando pelos Sikhs, da Índia, que ainda hoje respeitam o seu Kes ritual de não cortar o cabelo, envolvendo-o nos seus turbantes característicos, os apêndices capilares foram sempre objecto de particular atenção, ou de fetichismo exagerado, para alguns.
Creio que, por motivos publicitários, The Beatles, em Dezembro de 1964, raparam as suas longas crinas que eram a sua marca de água visual. Ora, alguém terá conservado essas madeixas de cabelo devidamente etiquetadas com o nome dos seus ex-possuidores, momentaneamente rapados nesse final do ano, e como se pode ver, na fotografia abaixo.



Muito recentemente, essas madeixas foram postas em leilão, no site da Catawiki. As madeixas de George Harrison e Ringo Starr foram vendidas, em conjunto, por 5.200 euros. O cabelo de Paul McCartney foi o grande campeão, e atingiu 2.700 euros, enquanto a madeixa, que fora de John Lennon, apenas conseguiu chegar aos 1.225 euros... Quem diria?!

segunda-feira, 19 de junho de 2017

J. S. Bach / T. Koopman

Os tempos do Tempo


O tempo que decorre, pessoal, e o tempo que demora (objectivo) são matérias distintas.
Às vezes temos pressa, e o tempo não se compadece de nós, mantendo o seu vagar; outras vezes, gostaríamos que ele se demorasse um pouco mais, durasse, se não eternamente, que nos viesse a acompanhar, generoso e benevolente, num ritmo comum.
Para nos sentirmos, simplesmente, bem.


para a Hanna, recém-chegada.

A solidária culpa


É normal, expectável, pavloviano, demasiado previsível  e humano que, perante uma tragédia, usemos as duas mãos em sentidos bem distintos. Uma, em sinal inequívoco e consternado de solidariedade humana; da outra mão, usamos apenas o dedo indicador, para  acusar com ira.
Numa configuração que parece derivar, em última instância, do pecado original da culpa, e numa tentativa primitiva de a branquear, através da denúncia do Outro, tentando colocar-nos do lado dos inocentes.
Sem tentar criar uma imaginária terceira via, ou absolver-me, eu creio que vale a pena reflectirmos sobre umas palavras singelas, mas certeiras, que J. P. P.  intercalou, hoje, na sua crónica do jornal Público. Assim:
"... A primeira coisa a dizer é que há certas calamidades naturais que não têm controlo. De todo. Não gostamos de admitir isso, porque afecta a nossa noção de superioridade humana sobre a natureza, mas não é assim. De todo. ..." 

( E se tiverem paciência de ler toda esta crónica, Natureza, homem, obra, vida ou morte, repito, paciência, e oportunidade, talvez possam avaliar melhor a tragédia. Com menos emotividade e imediatismo primitivo. Ainda que isso pouco possa adiantar, pela quantidade de vidas ceifadas, em Pedrógão Grande.)

domingo, 18 de junho de 2017

Algumas considerações de Scorsese sobre o Cinema como Arte


O antepenúltimo TLS (nº 5957) dedica a sua temática semanal e as suas primeiras oito páginas ao Cinema. A razão desta escolha reside - julgo eu - na pertinência de um depoimento (Illuminations), a abrir, do realizador norte-americano Martin Scorsese (1942), escrito de propósito e a convite do director do jornal literário inglês (Stig Abell). Com o objectivo de responder a uma recensão crítica, publicada anteriormente no TLS, e não inteiramente favorável, sobre o seu último filme "Silence", baseado numa novela do escritor japonês Shusaku Endo. O texto de Scorsese pretende, sobretudo, defender a profissão do filmmaker como Arte, independentemente dos meios utilizados.



O realizador, referindo quatro imagens emblemáticas de outros tantos filmes e realizadores (o carrinho de bebé pelas escadas de Odessa, de Eisenstein; a maré de sangue jorrando, em Shining, de Kubrick...), chama a atenção para a memória redutora destas imagens, que podem fazer esquecer que há um antes e um depois, nos trabalhos de filmagem. Como se, de uma ópera, fixássemos apenas uma ária, embora cheia de beleza, em detrimento da obra no seu conjunto. E Scorsese acrescenta:
"Anos e anos, cresci habituado a ver o cinema desvalorizado como arte, por uma série de razões: ser contaminado por considerações comerciais; não poder ser arte porque, na sua realização, há demasiadas pessoas envolvidas; ser inferior a outras artes porque «não deixa nada para a imaginação» e simplesmente captura, só por algum tempo, e por feitiço (spell) o olhar do espectador (no fundo, o mesmo - nunca referido - que acontece com o teatro, a dança ou a ópera que requerem, também, intermitentes momentos da atenção interior, mais acentuados, no tempo.)..."

sábado, 17 de junho de 2017

Gabriel Yared / Haim Shapira

Nota pessoal: este é o 26º vídeo com interpretações ao piano executadas por  Haim Shapira (1963), que incluo no Arpose.
Uma grande empatia minha com os temas escolhidos e interpretados por este professor universitário de Matemática que, nos tempos livres, toca piano de ouvido, levou-me a contactá-lo, pessoalmente, para lhe agradecer. Vim assim a saber que ele tem também um livro traduzido e publicado em Portugal: "A felicidade e outras pequenas grandes coisas" (Pergaminho, 2017). Este contacto - devo dizê-lo - foi agradável e proveitoso, para mim.
Acresce-me informar que esta pequena peça musical se baseia na banda sonora de Gabriel Yared , para o conhecido filme O Paciente Inglês (1996), de Anthony Minghella.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Os adoradores do Sol e os tuque-tuques


É vê-los, com pele de lagosta, em acarneiradas filas intermináveis, para visitar os Jerónimos, salivando ao Sol, em bichas serpenteando, para comer pastéis de Belém, ou acotovelando-se, como sardinhas em lata, para promíscua e trepidantemente, irem suando e sacolejando no 28, ou subirem no elevador de Sta. Justa, na simplória epifania dos simples e alumbrados.
Porque todos aceitaram, numa maciça inexistência  de vontade própria, o mesmo itinerário proposto pelas agências de viagem ou, em raríssimos casos, leram pela mesma cartilha de lugares comuns, a visitar, obedientemente.
Serão 20 milhões - dizem - os turistas, neste ano da graça de 2017, em Portugal. Em breve, nem a mais ínfima cidade de província escapará a estas hordas barulhentas em trajes quase menores, que hão-de alastrar, irremediavelmente, por todo o país, quando Lisboa e o Porto estiverem saturados e superlotados, e já não couber mais gentinha. E, depois, ainda temos de suportar os tuque-tuques de múltiplas empresas unipessoais, (disfarçadas de modernas startups, subsidiadas pelo crédito mal parado e antecipado (oh! bolha!..) de bancos muito ousados e amigos) , na sua chinfrineira perigosa pelas ruelas da cidade.



Com a sua habitual elegância, António Guerreiro aborda esta epidemia, pelo abstracto e erudito, na sua crónica semanal, hoje, na ípsilon do jornal Público. Da pequena citação, que vou fazer, aconselharia os nossos Edis-mores, das principais cidades portuguesas, a pespegá-la, bem visível e em várias línguas, no 28 e nos Jerónimos, bem como nos locais, sempre os mesmos, visitados pelos suspeitos do costume. Ora aqui vai a citação:
"É por isso muito plausível que possamos saborear em Hamburgo o melhor pastel de nata de sempre, e comamos a melhor pizza italiana em Berlim, num restaurante turco. Para partir, já não precisamos de sair; esta é a conclusão a que temos de chegar, sobretudo quando vivemos numa cidade com grande densidade de turismo."


Uma última alternativa, caso esta gente seja iletrada ou teimosa, seria metê-los à força num barco, com rumo aos Farilhões, ou em direcção às Desertas, para irem ver as cagarras. Para o caso, tanto faz. Porque eles vão continuar a ser felizes e a contar aos amigos estas surpreendentes excursões. Depois das férias, para os enciumar. É assim que a bolha continua a crescer, num boca a boca de litania progressiva. Até um dia, que oxalá não seja demasiado funesto!...

Bibliofilia 154


Em observação ligeira, embora diversificada, tenho verificado que, nos lugares nobres e mais frequentados de Lisboa, os restaurantes têm vindo a aumentar os seus preços, significativamente. Penso que devido ao aumento brutal do turismo, mas também a alguma estabilização política e económica, registada no último ano, em Portugal. Bem como, por outros motivos certamente, o mercado do livro usado e antigo tem sofrido alterações de preços, no sentido ascendente. Para não falar dos preços dos livros novos...

Todos temos fraquezas. Todos temos alguns livros que, de há muito, gostaríamos de possuir na nossa biblioteca, mas o seu preço, demasiado alto, ou a sua raridade não no-lo tem permitido. Confesso que existem 4 ou 5 títulos que eu ambicionava ter, porém, já não estão, na sua maioria, ao alcance da minha limitada bolsa e disponibidades. Por outro lado, os alfarrabistas têm, também, os seus fetiches. É sabido, por exemplo, que as primeiras edições de Camilo são, normalmente, mais caras no Porto, do que em Lisboa...

Recebi, há alguns dias atrás, o Boletim Bibliográfico 57, da Livraria Luís Burnay, com um rico acervo de manuscritos (Garrett, Botto, D. Carlos, Herculano, Pascoaes, Vieira da Silva...), que integra ainda alguns outros lotes interessantes, de que destacaria:


38  - Catálogo da Biblioteca de Victor d'Avila Perez, em 6 volumes (1939-41)............... 38 euros.
116 - Menino, Pero - Livro de Falcoaria (1931).......................................................... 50 euros.
304 - Álbum do "Cavaleiro Andante" (BD), completo (1954-1963) ..............................  800 euros.

Tenho, na minha biblioteca, exemplares dos dois primeiros lotes, em bom estado, e que comprei, em finais do século passado, respectivamente, por: Esc. 4.500$00 e 2.200$00, num alfarrabista de Lisboa.


Ora, à luz desta realidade, os preços destes dois lotes referidos, no presente Boletim Bibliográfico, parecem-me relativamente desajustado ou, pelo menos, desproporcionados, entre si.
A menos que a procura se tenha grandemente invertido, nos últimos anos. O que me parece muito pouco provável...

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Impromptu (32)


A pulverização dos partidos (ditos, clássicos), vista pelo olhar acerado de Plantu, no jornal Le Monde.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Do rifoneiro castelhano (13)


1. Asno de muchos, lobos le comen.
(Asno de muitos, lobos o comem.)

2. Al amigo y al caballo, no apretallo.
(Ao amigo e ao cavalo, não há que apertá-lo.)

3. Al loco y al aire, darle calle.
(Ao louco e ao ar, é dar-lhes espaço.)

4. Agua de por san Juan, quita viño y no da pan.
(Água por S. João (24), perde o vinho e não dá pão.)

terça-feira, 13 de junho de 2017

Música e Poesia LXVIII

"...cavalgam zebras,
voam duendes,
atiram pedras,
arrancam dentes..."

Quando ouvi, cantadas, estas palavras, na voz bem timbrada de José Afonso (1929-1987), da balada Senhor Poeta (1962), identifiquei-as de imediato como sendo de um dos primeiros livros de António Barahona da Fonseca (1939). Mas havia, ao longo desta balada coimbrã, outros versos que não consegui atribuir. Só anos mais tarde vim a saber que tinham vindo de outro poeta: Manuel Alegre (1936). A balada era, pois, uma miscelânea de dois poetas que, José Afonso tinha articulado, sabiamente, sobre diferentes poemas.

Ontem, à tarde, comprei usada uma antologia de poesia brasileira, publicada em 1951, seleccionada por Fernando Ferreira de Loanda (1924-2002), poeta nascido em Angola, mas naturalizado brasileiro. Ao folheá-la encontrei, na página 76, uma Canção Vai-e-Vem, do poeta do Rio Grande do Sul, Paulo Armando (1918). Assim:

Em rosa clara te vi,
Rosa morta te deixei.
Em rosa clara algum dia,
Te verei.

Na lua vinda te fiz,
Lua finda te entreguei.
Eras ela ou te seria,
Saberei.

Em noite larga te ardi,
Madrugada te apaguei.
No retorno que te viva,
Te amarei.

Ora, eu já conhecia estes versos. Mas sempre pensei serem palavras rimadas que José Afonso compôs para uma sua balada. Afinal, eram de um obscuro (para mim) poeta brasileiro. E o título (Canção do Vai...e do Vem) fora, talvez um pouco à revelia, ligeiramente alterado pelo Cantor português, em 1963. Mais uma vez, também, José Afonso intercalou o poema original (e muito bonito), com versos de outro alguém, que eu não consegui identificar. E a balada resulta!
Tive de concluir que, quando são de qualidade, os cantores acabam por fazer suas as palavras dos outros, que são poetas, enriquecendo-as, algumas vezes, pelo poder misterioso e inefável que a música e a voz humana, na sua cambiante múltipla de sensações, lhes pode dar...


para MR, em inesperada geminação, de origem diversa.

Uma fotografia, de vez em quando (97)


A revista L'Obs. chama-lhe um "homem simples da fotografia". Mas, para mim, o francês Bernard Plossu, nascido a 25 de Fevereiro de 1945, na Indochina francesa, é mais do que isso e nos seus instantâneos parece haver, quase sempre, uma tentação de infinito, seja ele raso e terreno, ou aéreo.
Devoto, não totalmente ortodoxo, mas sempre atento às virtualidades maiores do preto e branco, Plossu foi amigo e conviveu com Henry Miller, Ginsberg e Joan Baez, e na sua juventude, foi hippie como mandavam as boas regras da vida alternativa de liberdade.
Entre muitas outras instituições museológicas, a sua obra está representada no Centre Pompidou (Paris).



Presentemente, tem em Toulon (França), uma exposição de parte da sua obra, no Hôtel des Arts, até 18/6/2017, sob o nome de L'Heure Immobile.
Esta última fotografia, em imagem final, é de 1965, e foi intitulado por Plossu de "Sur la route d'Acapulco". Tendo sido captada nas suas deambulações pelo México.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

Philip Glass / Dublin Guitar Quartet : de "Mishima"

Mercearias Finas 123


As hortênsias, no terraço, estavam um esplendor, mas os tímidos jarros, embora pequenos e encaracolados de feição, não se ficavam atrás, e alindaram com lirismo sóbrio a mesa. O Frei Gigante, que é um vinho branco esplêndido e estava no frigorífico, veio dos Açores para, picaroto, nobre e insular, nos acompanhar, condignamente. Com o seu raro Terrantez, o Verdelho e o Arinto islenho, de sabor seco e vulcânico, mas oloroso. Do congelador, a tempo de estabilizar, tirámos, manhãzinha cedo, o alaranjado Lavagante, já descascado e cheio de minúsculas ovas róseas, que nos esperavam, há uns dias, pacientemente. As gambas vieram do Mercado da Ribeira, da banca pródiga da Teresa, sempre atenciosa a aviar. Ah!, os pepinos e a cebola da salada vieram de Constância, por mão amiga. A alface e o tomate eram, também, da 24 de Julho - bem frescos. As bananas eram da Madeira e, embora na sua habitual pequenez maneirinha, trouxeram o seu paradisíaco rescendor.
E, assim, se compoz, gastronomicamente, um feliz almoço, ontem, no passado Domingo de Junho.

domingo, 11 de junho de 2017

Apontamento 102: Imperativos de cidadania




Relativamente aos meus “posts” anteriores, de 7. e 8. de Junho de 2017, sobre a ocupação inadequada de um espaço público nobre e recém-recuperado, transmiti, como é meu hábito, as minhas preocupações, dúvidas e reclamações às entidades municipais correspondentes.

Da resposta que recebi, da parte da Presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia, e por ser reincidente em “palanfrórios” que em nada dignificam uma postura política democrática, sem abusar dos “pobrezinhos” para justificar opções ocultas, transcrevo o seguinte:

1 – Destinatários

"Inicialmente o mesmo estava previsto para o Miradouro de São Pedro de Alcântara, tal como nos anos anteriores, no entanto, devido às obras de recuperação a decorrer no espaço, tornou-se necessária a alteração de local. A nova localização do arraial foi acordada entre a Câmara Municipal de Lisboa e a Junta de Freguesia da Misericórdia, sendo a mesma transferida para o Largo do Corpo Santo.

A Freguesia da Misericórdia possui uma forte tradição no que diz respeito aos festejos dos Santos Populares, sendo por isso esta, por excelência, a época do ano escolhida para a realização de convívios, encontros ou festas, que proporcionam momentos de entretenimento a muitos que, de outra forma, poderiam não ter acesso aos mesmos.

É precisamente pensando na sua população menos favorecida que o arraial licenciado pela Junta de Freguesia da Misericórdia é efetuado em estreita parceria com diversas associações e coletividades da Freguesia que prestam apoio a vários níveis aos seus moradores."

Perante este ataque “indirecto” à minha crítica e, sobretudo, não convencida da bondade dos argumentos da Senhora Presidente, senti o imperativo de cidadania e desloquei-me, hoje ao fim do dia, aos lugares citados nos dois “posts”.

A imagem acima documenta o tipo de público presente, negando o que se costuma ver de “velhinhos” no Calhariz ou até de mais novos que encontrei nas escolas públicas da redondeza. Até a mistura de línguas não dava para confundir com a “gente do Bairro” que tinha descido, como sugere a Senhora Presidente, para fazer a festa no Largo do Corpo Santo e junto ao Rio.

Convenhamos que o preçário seguinte também não dava para quem tivesse, apenas, direito a uma pensão ou rendimento remediado, porque 2,00 Euros para uma sardinha no pão é  quase“gourmet” e basta !


Dizia também a Senhora Presidente que tudo estava controlado para que o ruído não afectasse os restantes cidadãos, como se vê pela disposição legal e pública:

2 – Ruido

"Esta Autarquia encontra-se por isso sensível às queixas sucessivas de alguns residentes no local, tendo para tal, informado o promotor do evento da necessidade de cumprir escrupulosamente as condições da Licença Especial de Ruído emitida, com destaque para a não realização de concertos noturnos de domingo a quinta-feira, para o horário de abertura e encerramento do arraial e para o volume da música emitida no local, tendo sido mesmo encomendado um limitador de ruído certificado. Para que estas condições sejam cumpridas contamos com o auxílio da fiscalização da Junta de Freguesia da Misericórdia, da Câmara Municipal de Lisboa e da Polícia Municipal."

Sucede que não foi possível, devido ao ruído, entender-me com os responsáveis dos eventos, já que a Polícia Municipal não estava lá para controlar. Aliás, também tenho uma confirmação oficial da ilegalidade dos músicos frente à Brasileira, como também da presença de arrumadores “residente há anos” sem que a dita Polícia Municipal tenha qualquer intervenção para cumprir o disposto legal.

Tenho muita pena, mas a minha idade e a minha condição social já não me permite pactuar com certos “desvios” de posturas públicas duvidosas, usando até os desfavorecidos para uma agenda pobre.

Aprendi, na altura própria da juventude, a essência do IMPERATIVO CATEGÓRICO de Kant, ensinando-me que, da minha atitude cívica, quotidiana, podia depender o rumo do país.

Mais uma vez, foi esse ensinamento que me levou a sair de casa, fora de horas e de propósito, para comprovar a vacuidade dos argumentos oficiais da Junta de Freguesia da Misericórdia para invadir um espaço nobre com mais um “entretém”, como se disse antes com propriedade, para basbasques e turistas.

Post de HMJ

Pinacoteca Pessoal 125


Desenraízado lhe chamaram, por várias circunstâncias de perdas de afectos e de familiares, e pode bem aplicar-se, com alguma propriedade, ao pintor norte-americano Marsden Hartley (1877-1942), cuja ascendência era britânica. Orfão de mãe, muito cedo, foi criado pelos tios, e em 1912 viajou para a Europa (França e Alemanha). Adoptado por Gertrud Stein, no seu círculo, lá conheceu Hart Crane e outros intelectuais americanos. Mas terá sido Kandinsky a grande influência na sua pintura inicial.



Regressa aos E. U. A. pouco antes do princípio da II Grande Guerra e a sua obra começa a desenvolver-se, sobretudo, no domínio paisagístico. A propósito desta sua temática predominante, disse um crítico de arte que "Hartley não era realmente um pintor de atmosferas, mas de substância."
É de 1937, o seu magnífico Smelt Brook Falls, representado acima e que integra, hoje, o Saint Louis Art Museum.



Uma das suas últimas pinturas (1940-41), The Wave (A Vaga) pertence ao Worcester Art Museum, e revela já uma grande maturidade e originalidade artística.
No Met Breuer (Nova Iorque) está patente, até 18 de Junho próximo, uma exposição da sua obra de paisagista, com o título Marsden Hartley's Maine. Que, como o próprio nome indica, tem por tema a região dos Estados Unidos, onde o pintor viveu uma grande parte da sua vida. 

sábado, 10 de junho de 2017

Variações sobre a "Folia"* (Corelli, A. Scarlatti e Marais)

* Os compêndios dão como tendo origem portuguesa, esta dança intitulada Folia.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Citações CCCXVI


As boas raparigas vão para o céu - mas as raparigas más vão para qualquer lado.


Helen Gurley Brown (1922-2001), in The N. Y. Times (19/9/1982).



Nota: para os devidos efeitos se declara que este poste não tem nada a ver com os resultados das eleições britânicas, conhecidos hoje.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Irra!


Um pouco farto das excrecências de mau gosto do Youtube, resolvi enviar  para a instituição norte-americana, o seguinte recado para a sua dependência "Ajuda":

Agradeço, s.f.f., que deixem de me recomendar, na vossa página, vídeos de Salvador Sobral e André Rieu. Não os frequento. E também dispenso a piroseira dos Vossos anúncios.
É um erro primário pensar que: o que é bom para a América, é bom para o mundo.
Cumprimentos



P.S.: ainda não foi desta (22h34, de 8/7/2017). Os recomendados do Youtube, continuam a aconselhar-me 3 chapa zero da mainstream trumpiana. Terei de concluir que o computador de algoritmos da russo-judia Susan Wojcicki (CEO da Youtube) ainda não atingiu a eficácia moderna do Hall 9000, de Kubrick.
Mas que indigência e atraso tecnológico, dona Susan!...

Socorro !


Perante mais esta invasão de barracas, tapando todo o trabalho de abertura do espaço com vista para rio, só apetece gritar por socorro.

Numa zona onde existem, em cada esquina, casas, casinhas de comes e bebes e quejandos, era necessário obstruir os bancos com estes monos, espalhando o lixo pelo passeio nobre junto ao rio ?

De regresso a casa, só me lembrei que os responsáveis destes atentados ao bom gosto devem ser todos filhos do Barraqueiro.

Post de HMJ

Um notável trocadilho, ou uma brevíssima história


Christian Ivaldi (1938), polifacetado pianista francês, muito conceituado pelo trabalho desenvolvido, é um homem discreto, humilde da sua arte, mas inteligente.
Conta-se que, ao ser apresentado a alguém, provavelmente colega de profissão e que ele muito prezava, terá dito: "Não lhe aperto a mão, porque a minha está cheia de notas falsas."

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Épocas de Piroseira


As festas populares, tanto na Capital como no resto do país, costumam propagar o que há de mais medíocre e feio, tentando confundir piroseira com cultura popular.

Assim, mesmo as zonas nobres, vistas como recentes emblemas de recuperação do espaço público, regridem, de forma abissal, ao mais "kitsch", acanhado e barulhento. Nada disso tem ligação com cultura ou música, porque o popular não se confunde com barulho, nem com "pastiche".

De facto, não se entende a ocupação do espaço público, em qualquer altura do ano e sobretudo nesta época, com este tipo de barracas ao gosto mais foleiro de basbaques e turistas.


Post de HMJ

terça-feira, 6 de junho de 2017

Os brandos costumes


Somos levados, com o tempo e, às vezes, permissivamente, a tudo desculpar e a arranjar explicações (os psicólogos, sobretudo, e os vizinhos) até para os crimes mais indesculpáveis. É conhecida a expressão portuguesa, numa discussão acesa e violenta, em que um dos intervenientes grita para o povo em redor: "Agarrem-me, se não eu mato-o!"
Mas não deixa de ser agradável saber que Portugal é considerado e classificado como o 3º país "mais pacífico do mundo". Depois da Islândia e da Nova Zelândia que até está nos nossos antípodas geográficos. Valha-nos isso! E esqueçamos, por momentos, a justiça de Fafe...

Sergei Rachmaninov