sábado, 15 de maio de 2021

Divagações 169


A acumulação imprevista de jornais de referência, policiais diversos de terceira e quarta ordem, alguns livros de qualidade para ler, duas revistas temáticas e mais alguns bizegres fazem-me sentir como se fosse um novo-rico da cultura. Não sou, apenas coincidiram factos felizes num celeiro recheado...


P.S.: por razões que seria ocioso explicar, mas que se devem a operações caprichosas do Google, este poste antigo, veio a ser repetido aqui. Marcanices tecnológicas parvas...

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Filatelia CXLIII



A meio termo entre livro de arte, este número particulamente, e classificador enriquecido e temático, estes volumes dos CTT reuniam com gosto estético e textos de qualidade, séries emitidas anteriormente, com assuntos definidos, tratados por especialistas na matéria. Não creio que tivessem muita procura, porque até na Alemanha, nos Flohmärkte, encontrei à venda alguns e até comprei dois em bom estado. Usados, creio que se podem adquirir, hoje em dia, por entre 20 e 40 euros. 




O livro (Outubro de 1990) contendo, em blocos filatélicos, 18 selos dedicados à pintura portuguesa do século XX (Pomar, Dacosta, Nadir, Guimarães, Vespeira...) é acompanhado por um sucinto mas elucidativo estudo de José-Augusto França (1922) sobre o tema proposto. A obra teve uma tiragem de 15.000 exemplares, numerados.

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Lembrete 82

 


Ia deixando passar a saída da Electra da Primavera de 2021... mas dei por ela hoje, e comprei-a, na Livraria da Travessa. O dossiê principal é sobre a Curiosidade. Que pode bem ser uma temática fascinante.



quarta-feira, 12 de maio de 2021

terça-feira, 11 de maio de 2021

Memória 138

 


É uma fotografia icónica que reúne os fundadores da importante revista Seara Nova. Lá estão Raul Proença, Aquilino Ribeiro, Jaime Cortesão, Raul Brandão, entre outros. Passa este ano o centenário do seu número inicial, posto à venda a 15 de Outubro de 1921. O meu primeiro exemplar comprado é de 1964 (nº 1430). Pedrada no charco, em tempos de ditadura, a revista abordava, subtilmente, temas políticos, literários e cultura, de uma forma geral. E teve sempre um conjunto notável de colaboradores.



segunda-feira, 10 de maio de 2021

Pinacoteca Pessoal 174

 


Tentado inicialmente pelo impressionismo e pelo expressionismo, o pintor belga Paul Delvaux (1897-1994) viria a integrar mais tarde, em definitivo, a escola do surrealismo, também partilhada pelo seu compatriota coevo René Magritte, que integrava, de algum modo, um certo tipo de humor, nas suas obras. Delvaux introduz algumas notas de subtil dramatismo, mas também mistério que me fazem lembrar alguns quadros de Giorgio Chirico.



Uma visita a Itália, em 1939, deixou marcas na sua estética e também em cenários arquitectónicos que, por vezes, surpreendemos nas suas telas. Concluímos a reprodução de pinturas de Delvaux com As fases da Lua (1942) e A Retirada (1973). Afectado por problemas de visão, o artista deixou de pintar em 1986.




domingo, 9 de maio de 2021

Citações CDLXV

 


O homem é o único animal que ri e que chora; pois é o único ser vivo que é confrontado com a diferença entre aquilo que são as coisas, e aquilo que elas deveriam ser.

William Hazlitt (1778-1830), in On Wit and Humour (1818).

Mercearias Finas 169

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Da leitura 43

 


De há uns tempos a esta parte, em relação a leituras de livros policiais, como tenho muitos e para não me perder, no final de os ler, na primeira página em branco escrevo, a lápis, a data em que terminei a sua leitura. Acabei hoje, entretanto, o II tomo de Bloc-notes (dos 5 que adquiri, em boa hora, através da Livraria Lumière, do Porto), de François Mauriac (1885-1970), volume que tinha principiado a ler a 19/3/21, conforme apontamento. Foram 49 dias (fiz também pequenas leituras paralelas) para 546 páginas (índice onomástico incluído), o que me pareceu um bom ritmo. E que se deve também à qualidade da escrita do romancista francês, que aborda sobretudo assuntos políticos (De Gaulle e a guerra da Argélia, principalmente), literários, pessoais e culturais. Irei iniciar, em breve, o tomo III (imagem de capa, acima). Antes de o fazer, vou transcrever uma passagem, muito singular (e desta vez vai no original...), da página 463, em que Mauriac divaga sobre a idade. Assim:

"La vieillesse? La cinquantaine, que vous avez atteinte, marque le moment où on l'aborde, il est vrai, et où peut-être on en souffre le plus. Voici le temps de ne plus être aimé et d'aimer encore. A partir de là, il faudra beaucoup marcher avant de pénétrer dans la région glacée où il n'y a plus rien à attendre de personne, plus rien même à donner. Quel désert! Oui, un désert, si pressé que nous soyons d'amis et de parents. Qui est aimé à cette age, ce qui s'appelle aimé? Et pourtant ce qui ne meurt pas, quand on en a été possedé au sortir de l'enfance, c'est précisément ce qui embrase cette admirable préface de Sartre: une tendresse avide, une tendresse irritée mais toujours jeune et vivante, et qui a échappé au temps, et qui (je le crois de tout mon esprit et de tout mon coeur) lui survivra."

Mikhail Glinka (1804-1857)

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Luis Rosales (Granada, 1910-1992)



Lo que no se recuerda


Para voltarmos a ser felizes, era

apenas necessário o puro acerto

de lembrar... Procurávamos

no coração essa nossa memória.

Talvez não tenha história a alegria.

Olhando-nos bem dentro

calávamos os dois. Teus olhos eram

como um rebanho quieto

que acalma o seu temor à sombra

dum álamo... O silêncio pode

mais que o esforço. Entardecia

para sempre no céu.

Não podemos voltar a recordá-lo.

A brisa era no mar cego menino.



Luis Rosales (Granada, 1910-1992) in Rimas.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Uma fotografia, de vez em quando...(147)



Apesar do seu ar circunspecto e alheado, o fotógrafo alemão Friedrich Seidenstücker (1882-1966) era um homem com grande capacidade de observação e com um enorme sentido de humor. Gostava de apanhar os seus modelos desprevenidos e foi um cronista admirável do quotidiano de Berlim, sobretudo nos anos 20 e 30 do século passado. Estes apanhados de gente e animais a dormir ilustram bem a originalidade da sua obra. 





segunda-feira, 3 de maio de 2021

Humor Negro 16

François Miterrand (1916-1996) era um grande apreciador de pequenas histórias (para além da História), de ironias subtis, de casos insólitos, que se divertia a contar aos amigos e próximos. É dele, contado a Franz-Olivier  Giesbert (Le Vieil Homme et la Mort,* Gallimard, 1996, pg. 128), o seguinte episódio relacionando o romancista católico François Mauriac com o recém-falecido, também escritor, André Gide.



Ora, segundo Miterrand, logo após a morte de Gide, Mauriac teria recebido um telegrama com os seguintes dizeres, que passo a traduzir: "Não há inferno. Podes estar descansado. Avisa o Claudel. (Assinado: André Gide.)"

* obrigado, H. N.

domingo, 2 de maio de 2021

sábado, 1 de maio de 2021

Bibliofilia 187



Não sendo embora do meu grupo de poetas mais próximos, ou mais familiares, sempre me intrigou que Jorge de Sena não tivesse incluído nas suas Líricas Portuguesas - 3ª série (Portugália Editora, 1958), o nome e uma selecção de poemas de Natália Correia (1923-1993), escritora já suficientemente conhecida e publicada, por essa altura. E que viria a editar quase duas dezenas de livros de poesia, até à sua morte.



No próprio ano da publicação (1966) foi-me oferecido um exemplar de O Vinho e a Lira, numa edição bonita de Fernando Ribeiro de Mello. O livro foi, pouco depois, apreendido pela Censura, pelo que não é muito frequente aparecer à venda. A Livraria Manuel Ferreira (Porto) vendeu um por 75 euros e a Castro e Silva (Lisboa) tinha outro à venda, por 80 euros. Como não mais foi reeditado, aproveito para lembrar que O Vinho e a Lira, no próximo dia 7/5/2021, sexta-feira, será republicado pelo jornal Público, e acompanha o diário ao preço de 6,90 euros. Será uma boa oportunidade para o adquirir...

Adagiário CCCXXII

 


 O rocim em Maio, se faz cavalo.


sexta-feira, 30 de abril de 2021

Natureza viva



No ano passado a natureza foi-nos madrasta. Nenhum dos limoeiros produziu frutos e a oliveira, a sul, diminuiu grandemente a sua safra, a que estávamos habituados. A própria Amaryllis (também chamada Açucena), tão pontual pela Primavera, se negou a florir. Atentamente, HMJ corrigiu-lhe a terra e alargou-lhe o vaso. Este ano, as coisas parecem correr de feição: a Amaryllis, num dos rebentos produziu trigémeas, e promete, noutro segmente, produzir mais duas flores esplendorosas. É obra!

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Divagações 170



Por desfastio, colhi das estantes da sala o De Olhos Abertos, livro de Marguerite Yourcenar (1903-1987), e logo, ao reler as primeiras frases da escritora, a empatia  e o interesse se me reacenderam. Raramente, isto me acontece. Três exemplos me vêm ao espírito, de desencontros notórios, de autores ainda que estimáveis, mas cujos textos se me tornam enfadonhos e cuja leitura, quase sempre, não consigo acabar. São eles: Guilherme de Oliveira Martins que, no JL, escreve com alguma frequência; no mesmo jornal cultural e na Revista do Expresso, as crónicas de Gonçalo M. Tavares cujas glosas literárias me cansam imenso. E, finalmente, os textos no jornal Público, do político António Barreto, que, por princípio, nunca diz ou escreve nada de novo...

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Um CD por mês (24)



Não sendo  Johannes Brahms (1833-1897) um dos meus compositores preferidos, guardo uma especial estima pelas suas voluptuosas Danças Húngaras com que tomei contacto, pela primeira vez, em 1963, na Alemanha. Acontece que comprei, no Kaufhof de Bona, um simplório e banal single, em saldo, por 40 pf. (?), que continha as primeiras 6 danças, executadas pela Orquestra da Ópera de Viena, dirigida pelo maestro Hans Swarowsky (1899-1975). Ouvi dezenas de vezes este single, sempre com renovado prazer. 



E, durante muito tempo, estive convencido que Brahams só compusera seis danças húngaras. Só mais tarde, por volta de 1985, é que descobri que, pelo menos, existiam 21 danças, ao comprar um CD da TMI, com a gravação dessas obras musicais, pelo maestro Alfred Scholz (1926-1999).

domingo, 25 de abril de 2021

Em tempo e como referência

A atmosfera nacional não permite celebrar na euforia o quarto aniversário da Revolução. Os povos não apreciam, aliás, as festas que eles próprios não concebem como expressão da sua alegria, força, vitalidade e autocelebração. Não há festejos de encomenda, nem celebrações ritmadas pelo acaso do calendário. Nas vésperas deste quarto aniversário, a Esquerda portuguesa não tem o direito de se enganar, nem de inimigo nem de alegria.

Eduardo Lourenço (1923-2020), in O Complexo de Marx (1979), pg. 180.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Do Livro



É no dia provável do nascimento de William Shakespeare (1564-1616) que se convencionou celebrar o Dia Mundial do Livro. Mais concretamente, 23 de Abril (de 1616) terá sido, no entanto e com mais certeza, a data de morte do conhecido dramaturgo inglês.



Para ilustrar a efeméride resolvi dar imagem, em livro, do vetusto e vimaranense foral manuelino de 1517, em edição fac-similada de 1989, da Sociedade Martins Sarmento, edição primorosa que foi patrocinada pela extinta Livraria Oito Séculos, de Guimarães.


grato reconhecimento a H. N., que permitiu tal facto.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Recomendado : noventa



Creio que todos concordaremos que o JL já teve melhores dias. Graficamente, em textos, na qualidade dos seus colaboradores. Mas este último número dedica o seu dossiê ao soneto, como forma literária - uma boa lembrança sem dúvida, ao recordar também Sá de Miranda, como seu introdutor em Portugal. Claro que ao recomendar o jornal literário, eu terei de passar por cima de algumas bacoquices parolas que denunciam um certo terceiromundismo cultural. Como, por exemplo, este subtítulo pindérico, a propósito da poesia do poeta do Neiva: "E há uma reescrita em devir, com a sua reactivação artística no contexto performativo da música pop e rock" (pg. 7).

melhores agradecimentos a MR, pela dica amiga.

Citações CDLXIV

 


O gosto exclusivo pela novidade denuncia uma degenerescência do espírito crítico, porque nada é mais difícil de avaliar do que a novidade de uma obra.

Paul Valéry (1871-1945).

terça-feira, 20 de abril de 2021

Continentes e conteúdos, em sequência diversa

 


Brinquedos, bonecas russas ou peças simplesmente decorativas, as matrioskas são quase sempre de madeira e contém, em si, na maioria das vezes, 5, 6 ou 7 réplicas mais pequenas. Pintadas e envernizadas, têm, no entanto, um ar rígido e formal, por serem feitas do mesmo pedaço de madeira e terem pernas e braços unidos ao corpo.



Dependendo da perspectiva de quem vê, a Europa, segundo continente mais pequeno do Mundo, pode bem parecer uma emanação ou península da Ásia. A divisão destes 2 continentes é uma mera questão geográfica ou formal. Mas também a Europa segrega, entre outras, a Península Ibérica. E Portugal contém, em si, a península de Setúbal. Para não falarmos de Tróia...




Apenas o sono consegue vencer a dor. Pelo próprio cansaço do corpo.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

O SNS, no seu melhor


Já o sabíamos de há muito, em questões de eficiência, a ovelha negra do SNS é o sector administrativo e burocrático: ocioso, inútil-palavroso e, muitas vezes, tiranete. Sublinhe-se que as colaboradoras, embora telefonem, raramente atendem chamadas do exterior ou de potenciais pacientes.
O centro de vacinação, para o Covid 19, foi instalado no amplo espaço do Picadeiro do antigo Colégio dos Nobres, à Escola Politécnica, que foi adaptado com tendas, cadeiras, bem como enfermeiros e pessoal especializado. Este Centro abarca os habitantes das freguesias de Sto. António, Misericórdia e Estrela.
Tudo bem organizado e profissional. Tive a sorte de me calhar a versão Pfizer, da vacina. E pouco antes das 17h00, uma menina (que não se esquecia de dizer que era oferta da Câmara de Lisboa) oferecia, aos vacinados em recobro e vacinandos, um saquinho com embalagens de água lisa, bolachas de água e sal e uma maçã Gala. 
Chamei-lhe o kit Medina...

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Citações CDLXIII

 


Interpretar é empobrecer, diminuir a imagem do mundo - substituí-lo por um mundo fictício de «significações».

Susan Sontag (1933-2004).

terça-feira, 13 de abril de 2021

Coincidências



Não sem grande surpresa, verifiquei recentemente que os escritores franceses eram os mais premiados do Nobel da literatura. Nada menos  de 15 autores, de 1901 até hoje, ultrapassando os norte-americanos (12) e os de língua inglesa (11). Há dias, li em Le Monde, também, este título significativo: Albert Camus, toujours aussi contemporain en ces temps de pandemie. A propósito da recente procura intensificada do seu romance La Peste, de 1947. Contemplando a convergência inesperada, acabei de ler ontem, de François Mauriac (1885-1970), no seu Bloc-notes II (pg. 366), uma referência à morte imprevista de Camus (4/1/1960), que vou passar a transcrever, traduzindo:



Uma chamada telefónica: Albert Camus (1913-1960) morreu. Algumas polémicas por altura da Libertação, aliás cortezes, e não tivemos outros contactos. A emoção que sinto dá-me melhor a medida do que ele representava para mim: o homem que terá ajudado toda uma geração a tomar consciência do seu destino. O absurdo deste mundo de crematórios alemães e de purgas estalinistas, que ele terá denunciado em nome de uma justiça cuja paixão estava nele próprio - sem que nunca tenha consentido dar-lhe um Nome, um Rosto a esta paixão, a esse amor.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Espaço e dinheiro



A ocupação progressiva do espaço doméstico pelos livros é uma das preocupações maiores dos bibliófilos. E até, muitas vezes, dos simples amantes de livros. Ainda assim me tenho surpreendido pela rapidez frequente com que se desfazem muitas bibliotecas, através de leilões ou nos alfarrabistas, logo após a morte dos seus donos. Falta de espaço ou partilhas explicam, normalmente, a celeridade da venda dos livros, muitas vezes sem que se atenda a dedicatórias íntimas ou afectuosas, que morrem também no papel e por si.



Este livro em imagens, editado (Sextante Editora) em 2009, por Mário Soares (1924-2017), e oferecido, com dedicatória manuscrita, ao também político Manuel José Homem de Melo (1930-2019), que foi director do jornal A Capital, de algum modo corrobora o que eu disse atrás. Mal se passaram 2 anos para que ele mudasse de mãos, através de um conhecido alfarrabista de Lisboa. À guisa de conclusão, posso dizer que HMJ gostou muito de ler a obra. O que me faz pensar que eu também o vou ler com prazer. 


cordiais agradecimentos a H. N.