quinta-feira, 18 de julho de 2019

Retratos (24)



Esguio, muito seco de carnes, pele muito branca, o que nele mais surpreendia era o aperto de mão musculado e forte vindo de uma tão aparente fragilidade corporal. 
Naquela vilória desengraçada e repetida, encontrá-lo era um oásis de frescura, no meio das minhas deambulações profissionais desinteressantes. E o prólogo apetecido de dez dedos de conversa estimulante. Bancário reformado, viúvo, pertencera à tertúlia lisboeta de José Marinho, era um ledor compulsivo e os seus diálogos tinham quase sempre um pendor filosofante.
Ele no início dos seus 80, eu a entrar nos sessenta, apesar da diferença de idades, fizémo-nos amigos leais, porque nos entendíamos facilmente. Trocámos muitas ideias e livros, mas há mais de 5 anos que o não vejo. O mais provável é já ter falecido, seguindo talvez o seu amigo Luís Amaro que lhe morava perto e de quem me falava muitas vezes.
O que eu não posso esquecer é que referindo-lhe eu, esmorecido, as leituras de Cícero (De Senectute) e Simone de Beauvoir (La Vieillesse), nos preparatórios para a velhice, J. Braga me tivesse oferecido, alguns dias depois, os Comentarios sobre la Vejez..., de Blanco Soler. Que foi, até hoje, o melhor livro que li sobre o assunto. E que conservo, religiosamente.
E já que falei de coisas santas, e a ele, que era crente, lhe desejo daqui a tranquilidade filosofante, lá, no assento etéreo, para onde provavelmente subiu.

Revivalismo Ligeiro CCXXXV



Ocasião, também, para rever, num breve flash, a saudosa beleza de Ursula Andress...

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Citações CDX


Os problemas do mundo, possivelmente, não podem ser resolvidos por cépticos ou cínicos, cujos horizontes estão limitados pelas realidades mais óbvias. Precisamos de pessoas que saibam sonhar com coisas que nunca existiram.

John F. Kennedy (1917-1963).

Uma fotografia, de vez em quando... (129)


A qualidade do trabalho do flamengo Harry Gruyaert (1941) desde cedo foi reconhecida, com a atribuição do Kodak Prize, em 1976, e a sua integração na Agência Magnum, no ano de 1981.
Nascido em Antuérpia, o mar sempre foi elemento e cenário preponderante nas suas fotografias, mesmo quando das suas peregrinações pela Irlanda, Coreia, Ilha de Ré ou Espanha.
A sua obra tem agora (de 21 de Junho a 18 de Agosto) a consagração de uma ampla exposição em Bordéus, intitulada Rivages.

Das praias quase desertas às personagens de costas e longínquas ressuma uma espécie de silêncio e melancolia que as instala numa intemporalidade definitiva. Ainda que os locais denunciem uma época, como por exemplo na foto do Hotel das Termas de Ostende (1988), ou uma actividade concreta de pesca no oceano, Mar da Irlanda, que Harry Gruyaert fixou no já longínquo ano de 1970.


terça-feira, 16 de julho de 2019

Osmose 107


As afinidades criam-se, muitas vezes, de sobreposições, ainda que ténues. Um gesto que reconhecemos também nosso, uma palavra que nos irmana pelo significado distinto e próprio, um gosto partilhado intimamente, um desprezo oculto que aflora simultâneo, geminado e natural, depois de expresso.
É assim, ainda que cada vez mais raro com o passar dos anos, que reconhecemos a fisionomia de um amigo possível. E a hipótese, nem sempre concretizável, de uma relação para sempre. Embora possa ter demorado muito, até o vazio ter reconhecido uma presença real de ocupação merecida.

Filatelia CXXXI


É imprevisível saber à partida ou aquando da emissão de um selo qual será o acolhimento posterior que ele virá a ter por parte dos coleccionadores. O apreço ou o interesse que despertará nos filatelistas.
Mas posso afirmar, com alguma segurança, que a estampilha detentora do número 43, no catálogo da Stanley Gibbons, e que foi produzida a partir de 1864, com a efígie da rainha Victoria, é das mais populares e coleccionadas pelos filatelistas avançados da Grã-Bretanha. Conhecem-se-lhe 154 cunhos emitidos, entre os números 71 e 225 (este último, sendo o mais raro e caro), com omissão dos algarismos  75, 77, 126 e 128, que surgiam em posição vertical em ambos os arabescos laterais ( o da imagem pertence ao cunho 208, como pode ver-se). Para além disso, o selo de 1 pence tinha nos quatro cantos, com fundo branco, 4 letras alfabéticas variáveis, de forma a evitar falsificações.


Duas cores predominaram (rose-red e lake-red), ao longo das várias emissões deste selo do Royal Mail. Se conjugarmos o número de cunhos com as cores e as letras alfabéticas, nos cantos, deparámo-nos com uma quantidade apreciável de variedades, para além dos erros de impressão, que eram frequentes nos primeiros selos de qualquer país e constituem variantes sempre muito procuradas e, normalmente, valiosas. Se, aos coleccionadores principiantes, bastará ter um selo usado ou novo, ao filatelista mais avançado interessará conseguir um exemplar de cada cunho emitido. Ou mesmo - proeza dificílima de atingir - obter um conjunto completo das letras, nos cantos.
A minha tentativa não ultrapassou a ambição de tentar ter um selo de cada cunho, usado. Consegui apenas 108 cunhos, faltando-me, por isso, 46. Encerro este poste filatélico com a imagem de uma folha (das mais completas) da minha colecção, no que diz respeito a este selo inglês (S. G. 43).


Jacopo Peri (1561-1633)

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Humor negro (14)



Provérbio ou ditado, quer seja citação de Chamfort ou de Voltaire, como alguns pretendem, esta pequena BD ou cartoon, bem poderia ter como legenda, por acerba ironia, a conhecida frase: Les beaux esprits se rencontrent. Ou, à portuguesa e noutra perspectiva, o adágio: "Quem espera sempre alcança."

Desencontros


A menina da caixa do pequeno supermercado citadino, loura por adopção e bem tratada, embora um tanto ou quanto perliquitetes, após passar o terceiro artigo pelo visor da caixa, perguntou-me:
- É só, meu amigo?
Era ainda manhã cedo e eu não estava predisposto para tanto afecto. Retorqui-lhe:
- Mas eu não a conheço de lado nenhum: é a primeira vez que a vejo. Um amigo demora anos a fazer!...
E ao recolher o troco, ainda acrescentei:
- Tem que ser mais rigorosa com a língua.
Mas não deixei de ficar com o resto da manhã estragada.
Embora ela me tivesse pedido desculpa.

domingo, 14 de julho de 2019

Novidades


Embora tenha perdido a Partex, por venda a uma empresa oriental, em Junho passado, a Fundação Gulbenkian vai ganhar 8.000 m2 de novas áreas verdes e com o prolongamento do CAM. O projecto é do arquitecto japonês Kengo Kuma (1954).

Terceiras vias


Tenho a convicção enraízada de que grande parte das traduções que lemos, em Portugal, durante o século XX, de obras de escritores russos, foram feitas directamente das versões francesas. Duvido que houvesse muitos tradutores portugueses, por essa altura, que dominassem a línguas eslava. O mesmo se poderia talvez dizer de obras originais chinesas e japonesas que, provavelmente, foram vertidas, já em segunda mão, de traduções inglesas. Raramente as editoras portuguesas tinham a franqueza de informar, no entanto, os leitores desse aspecto que, hoje, me parece ter alguma importância e que seria uma forma de honestidade intelectual.
Lembrei-me disto ao tomar conhecimento que Yukio Mishima (1925-1970), sendo um anglófilo conhecido, nunca facilitou nem permitiu que os seus romances fossem, em primeira mão, traduzidos para outra língua que não fosse a inglesa. E assim aconteceu até há bem pouco tempo: todas as obras publicadas em França, do escritor japonês, eram traduzidas do inglês. Só recentemente, e após a morte da sua viúva, que continuou a respeitar a vontade dele, apareceu em francês uma obra de Mishima traduzida do original. Trata-se de um dos seus primeiros livros, Confession d'un Masque (1949), que foi editado agora pela Gallimard, em tradução de Dominique Palmé, feita directamente do japonês.

Citações CDIX


Nunca se deve discutir à mesa, porque aquele que não tem fome leva sempre a melhor.

Richard Whately (1787-1863).

sábado, 13 de julho de 2019

Em consequência do "rol"



Corrija-se, por uma questão de rigor, uma data, interrogada no poste anterior. O filme Aldeia da Roupa Branca foi realizado em 1938 e estreado no Cinema Tivoli, em Janeiro de 1939. O realizador Chianca de Garcia (1898-1983) teve colaboração, no argumento, de José Gomes Ferreira e Ramada Curto. A canção homónima, em que a palavra rol surge várias vezes, tem autoria de Raul Ferrão e Raul Portela. E aqui fica, na voz fresca de Beatriz Costa (1907-1996).

Róis


Rol, ou lista, queria eu dizer, se me referisse ao singular da palavra que serve para título deste poste. Francesismo que já Beatriz Costa usava numa canção ("... que a freguesa deu ao rol...") de um filme, Aldeia da Roupa Branca, dos anos 40 (?).
As listas servem bem os pressupostas da Silly Season, são ligeiras, permitem discordâncias, mas são também inclusivas e servem propósitos alargados de preferências. E lembram coisas e pessoas, para quem as quiser revisitar. Deparei-me com 2 róis, ultimamente.
Um do Expresso, elegendo 50 figuras influentes portuguesas, que não vou discutir. Outro rol, ou lista, saído de Le Monde, abordava 100 romances importantes do século XX. Relação que me pareceu muito mais exclusiva, parcial e ligeira. Desses, tinha eu lido apenas 16 obras.
A ausência de Camus pareceu-me uma injustiça clamorosa, sobretudo quando incluíram, no rol, Sartre (Les Mots) e, sobretudo, Françoise Sagan (Bonjour tristesse). Mas perdoei a Le Monde por ter repescado, em contrapartida, um grande romance dos anos 70 que devia estar esquecido de muita gente: Mars (1975), de Fritz Zorn (1944-1976).
Para alguma coisa havia de servir a silly season...

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Panteísmo e política, uma miscelânea a despropósito


Anda por aí um partido, sem ideologia que eu saiba, oportunista e vago de ideais, mas que aproveitou bem o nicho português da causa, que estava vago, para conquistar terreno e eleitores nessa amálgama  de gente lusa que faz manifestações por tudo e por nada e segue, fanaticamente, aquela adolescente sueca e autista, que é filha de boas famílias e se arrisca, com grandes probabilidades, ao Nobel da Paz (depois de Dylan, na Literatura, o que é que poderemos esperar?).
Bem fez o nosso simpático e realista Jerónimo que pôs Os Verdes com dono e a render, ao empurrar a estridente Heloísa para a difícil conquista de Leiria, nas próximas legislativas. Esse partido, pioneiro em terras lusas, nunca foi capaz de ganhar espaço nem implantar bandeira efectiva nas questões do Ambiente. Veio assim um Silva de nenhures, um pouco bronco e limitado no pensamento, primário e populista nos discursos, a ocupar o  terreno vago, com a sua tenda de acampamento verde. Burro não é ele, mas gosta de animais.
Embora, se calhar, nunca tivesse lido Baruch Spinoza, nem seja particularmente panteísta...
Mas passemos a outro assunto, em sequência.
Tenho para mim, embora sem fundamentos de absoluto rigor, que o panteísmo teve, desde há muito, como pioneiros europeus e terrenos de eleição a Grã-Bretanha e os Antigos Estados Alemães. A mera agricultura e subsistência subiu neles cedo à prática idealista de uma filosofia e de uma exigência de vida e respeito pela Natureza. Adiante.


Ora, uma nossa amiga, que vive numa pequena aldeia nas proximidades de Colónia, encontrou na rua, quase ainda implume e caída do ninho, uma pequena pega (-rabuda? pernilonga?) piando, abandonada.
E, embora essas aves tenham associada uma certa má fama de ladras e destruidoras de ninhos e ovos alheios, logo a recolheu caridosamente e a levou para casa, onde já tinha duas pombas. Uma de asa quebrada, outra, de pata partida, assim fazendo jus ao intrínseco sentimento panteísta dos lídimos alemães. Só que agora tem um trabalho acrescido todas as duas horas, porque as pegas são muito vorazes e esta está a crescer (normalmente, chegam ao comprimento de cerca de 45 centímetros). E a nossa amiga, pontualmente, tem que lhe dar de comer ou ela reclama, de forma estridente...



Forever (Is As Long As It Lasts) - Jon Secada

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Lembrete 68


É normalmente breve a vida das revistas (literárias, artísticas...) em Portugal. A menos que tenham um mecenas, por trás (Colóquio, Gulbenkian). Ou algum patrocinador que tenha alguns bens de fortuna, para delapidar (O Tempo e o Modo, António Alçada Baptista).
Não sei se é o caso desta Granta, portuguesa, que é editada pela Tinta da China. E que tem boas colaborações, bem como cuidado aspecto gráfico. Em imagem, o número 3, saído recentemente (Maio 2019), que já folheei e me agradou. Ofereceram-ma, gentilmente. E só não a recomendo, porque ainda a não li.


Uma fotografia, de vez em quando... (128)


Talvez a citação, no alto da parede, do lado direito, resulte de um pessimismo ontológico ou de uma dúvida realista, antecipando um futuro. O presente registado e retratado permite, no entanto, algum optimismo de expectativas. Quanto a leituras, ainda que académicas...

Pinacoteca Pessoal 152


Não sendo excessivamente celebrado como pintor de primeira água, o inglês (Lionel) Maurice de Sausmarez (1915-1969) tem no entanto uma obra reconhecida por todos, como pedagogo, no domínio das Belas Artes. Foi professor na Universidade de Leeds e, mais tarde, na Byam Shaw School of Arts (Kensington, Londres). A sua obra pictórica não é extensa, nem muito inovadora, mas é de boa qualidade.


Foi grande amigo dos pintores Peter Sledge e Bridget Ryley (1931), esta última uma das mais importantes artistas da Op Art inglesa. Com eles viajou e viveu, episodicamente em Itália e na França, o que talvez explique alguma influência residual do Cubismo nas obras iniciais de Maurice de Sausmarez.


Quase exclusivamente figurativo, o seu legado inclui algumas notáveis naturezas mortas, de que eu gostaria de destacar o quadro Dead Tree.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Divagações 150


Tenho para mim, embora conceda que de forma excessivamente simplista, que o progresso, numa família portuguesa, se pode medir pelos níveis de educação atingidos ao longo das gerações. Um esquema simples poderá ajudar a perceber melhor esta minha ideia, exemplificada por 3 gerações. Assim:

1. Avô - trabalhador rural, assalariado: analfabeto ou com instrução primária.
2. Pai - empregado por conta de outrém, pequeno empresário : curso dos liceus ou comercial e industrial.
3. Filho - profissão liberal, professor, industrial...: curso médio ou superior universitário.

Este elevador social - como hoje se costuma dizer - permitiria uma progressão social e cultural dos cidadãos. Bem como do seu bem estar económico e da sua própria liberdade.
Dito isto, resta-me acrescentar que não sou inteiramente inclusivo e que concordo com o número clausus, a nível universitário. Por isso também não estou de acordo com o título generalizante do artigo de Rui Tavares, que aparece, hoje, na última página do jornal Público.
A meritocracia é para mim um ponto essencial para aceder aos últimos graus de instrução. Mas acrescento que, a exemplo do mundo anglo-saxónico, respeito por igual o profissionalismo e competência de um bom electricista, como a qualidade de um catedrático competente.

Händel / Dumaux

Expectativas


Nem sempre, e à primeira vista, o TLS me permite alimentar grandes expectativas de leituras. Mas o último (nº 6066), que ontem adquiri, abriu-me logo o apetite. A imediata empatia com a capa de Darren Smith e o nome de John Updike (1932-2009) despertaram-me a atenção. Talvez venha a ser o ponto de partida para eu ir reler o grande romancista norte-americano. Embora Claire Lowdon se precate, ao duvidar que os seus temas possam ainda agradar à juventude. A  abordagem, simultânea e comparada, com Bellow, Mailer e Roth não deixa de ter interesse, mas revelar alguns riscos.
Mas este TLS traz ainda artigos desenvolvidos focando as obras de Graham Greene (The Comedians), Virginia Woolf e Scott Fitzgerald, o que me permite supor vir a ter uma semana de boas leituras. Tudo autores que conheço razoavelmente e de que gosto, desde há muito.

Catálogos e enumerações


Confesso-me um leitor interessado por bibliografias, catálogos de leilões, por listas enumerando produtos culturais diversificados. Sobretudo, se essas relações vêm enriquecidas de notas apropriadas, ilustrando a descrição e qualidade dos objectos através de um aparato crítico elucidativo. A enumeração pura e simples deixa-me quase sempre insatisfeito pela aridez que, muitas vezes, se assemelha a um balanço ou inventário burocrático de um armazém comercial, anódino.


Foi, por isso, que com agradável surpresa vim a descobrir, por entre os meus CD arrumados, um inesperado catálogo de edições de música erudita que a FNAC produziu, em anos recuados, e que eu guardei, pela qualidade desse pequeno livro de publicidade nobre. A selecção inclui 258 obras gravadas de música erudita, capa com reprodução de um quadro de Amadeu Souza-Cardozo, e colaboração de Rui Vieira Nery. Bem como um glossário musical, biografias de compositores e apreciação crítica das gravações.
Ainda bem que o guardei!

terça-feira, 9 de julho de 2019

Para que conste


Uma preciosidade roída pelo tempo... De que o desleixo e a incúria se fizeram amigos.

Impromptu (45)


À falta de melhor assunto, ou na ausência deles, nas redes sociais não se tem falado de outra coisa, senão de um artigo de uma bonifrate, aqui há dias, no jornal Público.
Por que é que eu não hei-de juntar-me à corrente dominante, para não destoar da mob?

Dmitri Shostakovich : Tango, ou Foxtrot?

Algaravias (12, e último)


Tenho a ideia que, das antigas províncias portuguesas, as nortenhas (Minho e Trás-os-Montes) são as mais ricas em regionalismos locais, bem como uma parte das Beiras, o Alentejo e o Algarve. Todas elas integraram já as respectivas temáticas, aqui no Arpose.
Por hoje, se finalizam os regionalismos algarvios, recolhidos e seleccionados da obra Dicionário do Falar Algarvio do Falar Algarvio, de Eduardo Brazão Gonçalves, como se seguem.

1. Umbigada - extremidade do aparelho urinário dos animais, especialmente referido a suínos e bovinos.
2. Untura - sova.
3. Vairinha - mulher irrequieta, leviana, de pouco assento.
4. Veranilho - tempo quente e seco de curta duração, especialmente o verão de S. Martinho.
5. Vergalheira - aparelho genital dos machos corpulentos, como cavalos, bois, etc.
6. Xaraval - grande quantidade.
7. Zambareta - desequilibradamente.
8. Zangarilho ou Zingarilho - indivíduo muito alto.
9. Zaro - diz-se de uma variedade de figos redondos e pardos.
10. Zurreira - fumarada.


segunda-feira, 8 de julho de 2019

Do que fui lendo por aí... 29


Eu creio que só teremos a ganhar, se nos dispusermos a reler Camões e se, antecipada e humildemente, fizermos acompanhar essa leitura de uma prévia abordagem a alguns dos muitos ensaios que Jorge de Sena dedicou, com labor abnegado, ao nosso grande épico.
Far-se-á assim uma leitura mais proveitosa de Camões, madura e enriquecida, que nos permitirá, por cotejo, verificar também a insignificância daquilo que, sob o nome de poesia, se vai publicando, copiosamente, em livro, nestes nossos dias de "apagada e vil tristeza" literária.


domingo, 7 de julho de 2019

Júbilo


Congratulo-me profundamente com a nomeação para o Património Mundial (Unesco) de três instituições portuguesas, mas não posso deixar de destacar, pessoalmente, o Museu Machado de Castro (Coimbra), que visitei há pouco tempo e que me surpreendeu, quer pela adequação perfeita dos espaços, quer pelo riquíssimo acervo.

Uma palavra especial para o criptopórtico romano pela sua singularidade imponente, apesar de subterrâneo. Mas, sobretudo, pela qualidade da estatuária que o Museu conserva. De obras belíssimas de João de Ruão, os apóstolos da Última Ceia em terracota, de Filipe Hodart, Mestre Pero e Nicolau Chanterenne, entre outros.
Nem que seja pelo prémio recente, o Museu Machado de Castro é merecedor de uma atenta visita.


Prémios literários


Raramente a atribuição de prémios é consensual, muito especialmente, os galardões literários. Mas também as recusas despertam polémica - estou a lembrar-me de Jean-Paul Sartre e Herberto Helder, por exemplo, que devem estar na memória de muita gente.
A imagem que encima este poste reproduz, parcialmente, a carta enviada a Marcel Proust (1871-1922), a comunicar-lhe a atribuição do Prémio Goncourt, em 10 de Dezembro de 1919, pela sua obra À l'ombre des jeunes filles en fleurs. Ora, este prémio foi dos que mais polémica causou.
O concorrente mais chegado de Proust, ao Prémio Goncourt, era Roland Dorgelès (Les croix de bois) que estivera nas trincheiras, e estava-se no rescaldo da I Grande Guerra, em que Proust não tomara parte. Este, obtivera 6 votos, enquanto Dorgelès só conseguira 4, do júri Goncourt.
Mas Proust foi muito atacado, sobretudo na imprensa e no Bulletin de l'Association générale des mutilés de la guerre. Chamaram-lhe snob e burguês. Em La Revue de Paris, a propósito da extensão do livro, Fernand Vandérem falou de "éléphantiforme". Um jornal referiu: "Proustitution"...
Hoje, a obra de Marcel Proust, no entanto, é consensual e ele pode continuar a dormir descansado.