Segunda-feira, 28 de Maio de 2012

Évora e o Cicioso


Sempre gostei de monografias, sobretudo, quando o tema é do meu agrado. Já o expliquei, aqui, no Blogue, principalmente, por causa da pequena história. Por outro lado, Évora é uma das minhas preferidas cidades portuguesas. Há ainda um outro aspecto que me fez comprar este livro de José Manuel Queimado, editado no ano quente de 1975. Que é a toponímia eborense, curiosa e interessante: Travessa dos Beguinos, Rua do Tinhoso, e por aí fora, porque os alentejanos têm uma imaginação prodigiosa para nomes e alcunhas.
Saí um pouco defraudado das explicações de nomes, no livro. Um dos que mais me intrigava, era o da Rua do Cicioso, bem comprida e não muito larga. Ora, segundo a monografia, a origem do nome virá de João Mendes Cicioso, eborense que foi vereador, comerciante e procurador às Côrtes. Terá vivido durante os reinados de D. Afonso V, D. João II e D. Manuel I, e chegou a ser preso, talvez por especular com o preço e venda de trigo. Pouco mais acrescenta a monografia, sobre o homem.
Consultado o Dicionário de Morais, este informa que "cicioso" é um "indivíduo que tem o defeito de falar ciciando (ou sussurrando)". Prefiro imaginar, por isso, como já fazia antes de ler este livro que o João Mendes era um comerciante de "falinhas mansas", ou que falava "achim", ou tipo "sopinha de letras"...o que é muito mais interessante, convenhamos.

A propósito do Festival de Cannes


A notícia, em "Le Nouvel Observateur", vem recheada de ironia, a propósito da apresentação, em Cannes, do novo filme-documentário "Serment de Toubrouk", de Bernard-Henri Lévy (1948), filósofo francês, de origem judaica, nascido na Argélia. A referida película é, no dizer da revista, um documento de auto-glorificação do seu próprio autor, através de filmagens efectuadas na Líbia, por altura da recente revolução, em que Lévy tomou parte e apoiou. O filme é referido como "documentário lírico" e o filósofo francês apelidado de "guerrilheiro caviar".
A cereja em cima do bolo, quanto a mim, é uma afirmação atribuída a Michel Audiard, que diz: "Um filósofo que anda vai sempre mais longe do que dois comentadores políticos, sentados..."

Schubert/ Richter/ Fischer-Dieskau

Não tivesse falecido há poucos dias atrás, e Dietrich Fischer-Dieskau teria completado, hoje, 87 anos.

Um bom exemplo - Manuel de Oliveira


Embora se soubesse, a notícia vem, hoje, documentada no jornal Público. Com 103 anos, Manuel de Oliveira continua a filmar. Desta vez por encomenda de Guimarães, Capital Europeia da Cultura, o cineasta prepara uma curta metragem que tem como cenário o Centro Histórico, com duração de 20 minutos.

Processo (2)


A frase de Rui Tavares, no jornal Público de hoje, resume, concretamente, a situação que todos conhecemos e vemos, com escândalo: "...o jogo está neste momento tão viciado que a justiça se tornou uma simples ferramenta de execução e reforço das desigualdades. ..." E, depois são citados 3 exemplos mais do que comprovativos da vergonha que é, hoje e de uma forma quase total, a Justiça, em Portugal. Seguem:
a) "O Tribunal da Relação de Lisboa condenou o advogado Ricardo Sá Fernandes por este ter gravado e denunciado uma tentativa de corrupção e de ter colaborado com as autoridades na investigação da mesma, dando assim mais protecção ao corruptor do que à descoberta da verdade."
b) "Um tribunal ordenou que o movimento Precários Inflexíveis apagasse, no seu blogue, comentários que denunciavam práticas ilegais de recrutamento e utilização de mão de obra porque a empresa em questão se sentiu «atingida na sua honra». O tribunal não quis averiguar se os factos relatados por pessoas que diziam ter sido vigarizadas por esta empresa eram reais ou não."
c) O terceiro exemplo prende-se com um ministro deste governo e as dúbias, promíscuas trocas de informação que terá havido com um ex-elemento das Secretas, que aí deteve o cargo de nº 2. Além de outras acções vergonhosas que lembram os processos pidescos de antigamente.

Obviamente, parece-me que chega.

Processo (1)


Se o infeliz utente não tiver, ou tiver perdido o seu Médico de Família, o procedimento a levar a cabo, é mais ou menos este:
a) Dirige-se ao Centro de Saúde, em que se integra, e faz uma inscrição; ser-lhe-á marcada a data de uma consulta para cerca de um mês e meio depois - dando-lhe um papelinho comprovativo. Informam-no, na altura, para que no dia aprazado chegue um pouco antes das 8h00 da manhã, para efectuar uma reinscrição.
b) No dia aprazado, o utente chega 15 minutos antes, mas já há cerca de 40 companheiros, aguardando, no vestíbulo de entrada e na rua, em fila desordenada. Metade terá mais de 60 anos, mas há apenas um banco de madeira com quatro, sentados. Dois ou três folheiam o jornal que compraram, alguns contemplam os azulejos do séc. XVIII, nas paredes, que representam movimentadas cenas de caça (veados, javalis, lobos...) da época. É preciso dizer que este Centro de Saúde está instalado num velho palácio lisboeta que já conheceu melhores dias...
c) Dois minutos antes das 8h00, um Segurança fardado desce as escadas, com um rolo numerado nas mãos. Outro Segurança acompanha-o, na rectaguarda - talvez seja guarda-costas... Os utentes aproximam-se, nervosamente, como pombas a quem vai ser dado milho ou migalhas de pão. Recebem, então, os papelinhos afortunados.
d) Na posse do precioso número, o utente sobe as escadas e dirige-se para a Secretaria a fim de efectuar a nova inscrição. Mas o computador não pega e o burocrata, atrás do balcão, começa a impacientar-se, enquanto o utente espera, calado e resignado. Finalmente, cerca de 5 minutos depois, o computador começa a trabalhar e a inscrição é feita. Mais um papelinho, pedem-lhe 5,00 euros e revelam ao paciente o misterioso nome do médico que o irá atender mas...só 5 horas, depois, ou seja, às 13h00. E dizem-lhe para chegar um bocadinho antes. Vamos a ver...como diz o cego.

Domingo, 27 de Maio de 2012

Bibliófagos


Recentemente comprei mais um livro incompleto. Mais propriamente um fragmento de um Flos Sanctorum, do Frei Diogo do Rosário. Sem portada, nem cólofon, ingressará na "lista de espera" dos doentes a aguardar um diagnóstico precoce quanto à paternidade. Neste caso, da paternidade da impressão.
Juntamente com o volume encadernado, embora incompleto, veio uma pastinha com outros fólios e, desgraçadamente, com folhas cortadas, obra de um bibliófago feroz. 


Normalmente, associam-se à ideia de bibliófagos aqueles bichinhos que atacam os livros. Como os animais são seres desprovidos de cultura e pensamento, ainda podemos aceitar semelhante façanha cega à procura do alimento no papel, embora nos cause uma tristeza profunda olhar para as galerias furadas do tamanho do bicho.
Quanto à espécie humana que ataca os livros, à procura do alimento monetário fácil, o assunto muda de figura. Esta espécie de bibliófagos causa-me uma repulsa profunda.
Com efeito, ficam as imagens para acusar o assassino !

Post de HMJ

Uma Galeria a meu gosto (2)


Desta vez, totalmente feminina, e muito bem representada: Virginia Woolf, Katherine Mansfield e Françoise Sagan.

Quase noite


Há um fogo ao longe, na margem do rio, que parece Turner. O friozinho do começa da noite não distrai o melro invisível que, mesmo assim canta, como que se afogueado. E as andorinhas volteiam num bailado inacabado, mas perfeito. O azul vai desmaiando de cor, entregando-se pouco ao pouco ao escuro do sossego, enquanto eu ouço Codax numa voz fresca, inesperada. Olhando o rio, mesmo que sem as ondas do mar de Vigo.

Música e Poesia XLVI : Martim Codax

O Paraíso reinventado, ou confundir o desejo com a realidade


Era uma vez...
Daqui a muitos anos, quando já nenhum de nós for vivo, a Galiza amiga voltará a reunir-se com o Portucalense condado, e tudo voltará ao início. Biblicamente, ao princípio voltará a ser o verbo.
Rosalía, comovida, terá longos diálogos com o bom do velho Sá, em Amares. Julio Camba vai cozinhar a 4 mãos com Couto Viana e a irmã do poeta, cantarolando entretanto, há-de ir descascando as batatas. Os pimentos Padrón vão alinhar, gulosos, na mesa de Assis Pacheco e Camilo José Cela, e não haverá esquerda nem direita, mas apenas fraternidade. Até Fraga Iribarne, emocionado mas convivial, há-de partilhar um bom cozido à portuguesa, com Santos da Cunha e com Rui Rio que, bastante menos economicista e, embora liberal, vai apoiar a Cultura, com generosidade e alegria.
A troika será uma infâmia impossível e a moeda não terá circulação, nem será precisa. Poderão trocar-se diospiros por cebolas, ou chouriços por um frango, intermediados por um sorriso amigo, leal e confiante. Martim Codax há-de dizer um poema, acompanhado por adufes, flautas e sacabuxas harmoniosas. Afonso X irá presidir, e o neto Dinis, ainda criança, vai bater palmas, entusiasmado. Acídulo e fresco, um Albariño das Rias baxas refrescará as gargantas. E a noite virá de mansinho para não estragar a alegria do reencontro fraterno e sem fronteiras. E outros países virão juntar-se à festa, trazendo wurst, krakauer, camembert, tokay, pesto...eu sei lá!, para partilhar entre si.

Os dois jacarandás


Nunca tinha dado por eles, ali. Mas vale a pena descer a Av. D. João V, só para os ver. Pouco antes de virar para o Largo do Rato, à direita, é uma aleluia de azúis e violetas, em dois copadíssimos e celestes jacarandás. Nem esperaram por Junho, e estão muito mais densos do que a foto, neste poste, deixa supor. Plenos de floração e beleza cromática. Há mais, depois, ao longo das ruas da Escola Politécnica e D.Pedro V, mas não são tão bonitos, nem tão densos.

De Tunes, para Columbano


Da cidade africana, em 11/12/1926, escrevia Manuel Teixeira Gomes (1862-1941), dizendo:
"...Pela vida fora pouco me tem atormentado a saudade, sentimento que, afinal, não é exclusivo de portugueses mas ao qual o português, mais choramingas que os outros povos, se pega como se fosse a guitarra. O presente sempre me trouxe entretido e enlevado e, se dele desviava o pensamento, era para prever e fantasiar o que seriam os encantos do futuro. Sinto-me morrendo lentamente com esta constante evocação do passado; demasiado me comprazo em olhar para trás: é a impotência de quem nada tem já a criar. No dia em que se me acabar a curiosidade do futuro, (que mais não seja do dia seguinte) e eu não tiver olhos, nem pensamento, senão para o passado, estará consumada a minha verdadeira morte, e não serei mais do que um cadáver ambulante...Como vê não estou hoje nos meus dias cor-de-rosa! ..."

Nota: Manuel Teixeira Gomes nasceu em 27 de Maio de 1862. Exactamente, há 150 anos.

Sábado, 26 de Maio de 2012

Para agradecer aos que se lembraram


Quando a 21 de Maio passado, alguém, estimado, me perguntou se eu me tinha esquecido do "amigo Dürer", eu respondi que não. Mas que, como já havia muito de Albrecht Dürer (1471-1528) no Blogue, preferia lembrar o Douanier Rousseau que também nascera no mesmo dia do mês, embora num ano diferente.
Ora, hoje, entre várias coisas que me vieram à mão, surgiu também a reprodução de uma gravura do Pintor alemão, que ele fizera em 1513, intitulada "Cavaleiro, Morte e Diabo" que dizem ser inspirada pelo Salmo 23 do rei David. E que não é muito frequente ver-se. A Christie's leiloou um exemplar, em Dezembro de 1985. E, em Hamburgo, no ano de 2007, apareceu outra à venda - que não sei se seria a mesma.
Aqui fica, em imagem, a encimar o poste.

Revivalismo Ligeiro LXXIII : Chico Buarque e Nara Leão

Açúcar


Começa a canção de Chico Buarque, assim:

Com açúcar, com afecto fiz seu doce predilecto
p'ra você parar em casa, qual quê...

Mas nem tudo são rosas e doçura na história da cana sacarina e do açúcar, planta autóctone da Nova Guiné, que se foi espalhando pelo mundo, sobretudo, a partir do séc. XVI: Madeira, Brasil, Barbados, Cuba...
Domesticada pelos espanhóis, cultivada em larga escala pelos portugueses (o açúcar produzido na ilha da Madeira e enviado para a Flandres era pago, parcialmente, por pintura flamenga...), plantada pelos ingleses nas Índias Ocidentais (Jamaica, Barbados) e produzido o açúcar através de tecnologia holandesa, a cana sacarina foi também responsável, indirectamente, por enormes levas de escravos africanos, para trabalharem no Novo Mundo.
Reverso da medalha: pela sua excessiva utilização nos alimentos, em grande parte dos países ricos, hoje, um em cada quatro dos seus habitantes é considerado obeso, clinicamente.

Favoritos LXV



Aqui a predilecção vai toda para a singularidade do quadro, embora o Pintor seja de estima.
Philippe de Champaigne nasceu na Flandres, a 26 de Maio de 1602, e foi um retratista de mérito. Pintou, pelo menos, dois retratos do Cardeal Richelieu, um dos quais bastante original por figurar o retratado sob 3 perspectivas (não sei se há pinturas anteriores, semelhantes). Muito embora por uma razão prática e pragmática: o quadro foi enviado para Itália, a fim de servir de modelo ao escultor Francesco Mocchi, para o artista fazer um busto de Richelieu. 
Philippe de Champaigne morreu em 1674.

Divagações 25


Havia cravos e rosas, do quintal, que enfeitavam a mesa. Os morangos vinham de fora. Muito pequenos, rústicos, num cesto de vime, que tinha retorno à procedência afectuosa da lembrança.
As festas foram sempre muito raras, numa expressão sóbria de alegria, que reinava em casa. E nem os telegramas eram precisos. Nessa correria dos anos mais tenros, a estrada era bem larga e comprida, para que alguém fizesse falta.
A ternura, em si, era uma esperança.

Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

A Vergonha da Europa



Felizmente, têm surgido algumas vozes da cultura, tanto no panorama nacional como europeu, na defesa da Cultura, da História e da Ética, contribuindo para a elevação do pensamento e em confronto com o lugar comum do discurso financeiro e económico sem rumo nem saída.
Reproduz-se, sem tradução, o recente poema de Günter Grass, noticiado pelo jornal DIE ZEIT e publicado, na íntegra, pelo SÜDDEUTSCHE ZEITUNG. 

O título sugestivo revela, sobretudo, o sentimento profundo dos cidadãos europeus que não se identificam nem com a ignorância nem com a sobranceria relativamente ao berço da Cultura Europeia. 

Post de HMJ

Luís Miguel Cintra : as palavras justas

Eu sei que as visitas ao Arpose, em média, só se demoram cerca de 3 minutos. É a "Mad Rush" de que Philip Glass fala, e de que fez música. Mas para quem goste de pensar ou reflectir, recomendo vivamente este vídeo, e que o veja até ao fim. Que diabo!, já estamos em fim-de-semana, e há mais tempo livre...

Para despertar

Alcunhas e cognomes


Um cognome acaba, muitas vezes, por historicamente marcar um carácter, para a posteridade, muito embora não seja exacto ou não corresponda à maneira de ser do assim nomeado. Tudo depende da perspectiva de quem o alcunhou. O nosso rei D. Pedro I é um bom exemplo deste facto, até por lhe serem aplicados 2 cognomes, opostos: o cru, ou o justiceiro - consoante o ponto de vista que se possa ter das suas acções humanas. Também a católica rainha inglesa Maria I foi apelidada de "bloody (sanguinária)" pelos britânicos que, entretanto e maioritariamente, se tornaram protestantes. Tivessem eles mantido a religião católica e, se calhar, o cognome da rainha teria sido: piedosa...
O imperador do Sacro-Império germânico Frederico I (1122?-1190) tem ligado ao seu nome o apelido de "Barbarossa", que não é verdadeiro. Segundo testemunhos coevos, a barba do imperador era loura, bem como o cabelo, e não ruiva ou roxa... A alcunha foi-lhe posta, já postumamente, pelos seus adversários italianos, para sugerir um temperamento colérico - que ele não tinha, apesar de ter sido um valente guerreiro. Terá passado grande parte da sua vida, não em palácios, mas em tendas de campanha de batalhas. Também fez Cruzadas. Mas tinha, ao que parece, uma índole equilibrada e um modo sereno. Dando fé aos seus contemporâneos era um "homem bem parecido, de altura média, nariz proporcionado e dentes brancos".

AdagiárioXCIII


Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo.

Os Fariseus


O jornal Expresso online titula, hoje: "Pingo Doce: produtores pagam a fatura do 1º de maio".
Seguem-se declarações de João Paulo Girbal, presidente da Centromarca - Associação Portuguesa de Empresas de Produtos de Marca, prestadas numa entrevista à TSF, dizendo que o PD começou a "negociar" com os produtores um abaixamento de preços entre os 2% e os 3,5%, nas compras. Forma encapotada, segundo J. P. Girbal, de pagar "as promoções" caridosas do 1º de Maio de 2012, à carenciada população lusa.
Entretanto a Autoridade da Concorrência, recebido oportunamente o relatório da A. S. A. E., do alto da sua torre de marfim, aos costumes não disse ainda nada... Mas que grandes cómicos. Ou Tartufos, como lhes chamava Moliére. Acabo com Fernando Assis Pacheco: "Não posso com tanta ironia..."

De Eugénio de Andrade, "To a Green God"


Trazia consigo a graça
das fontes, quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens, quando desce.

Andava como quem passa,
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.

Nota: este poema está incluído no livro "As Mãos e os Frutos" (1945-1948). Na sua extrema simplicidade e no seu poderoso movimento rítimico, é, para mim, um dos grandes poemas de Eugénio de Andrade. E de toda a poesia portuguesa.

A expressão dos sentimentos, segundo Valéry


Um pouco na corrente pessoana da frase "Todas as cartas de amor são...", Paul Valéry (1871-1945) aborda o tema, mas cria uma alternativa. Passemos a transcrever, traduzindo, a ideia:
"A expressão do sentimento verdadeiro é sempre banal. Quanto mais se é verdadeiro, mais se é banal. Porque é preciso procurar não o ser.
Sempre que um ser é verdadeiramente inculto, ou se o sentimento é demasiado forte para nos fazer soçobrar na banalidade, até à lembrança do que convém vulgarmente à circunstância, então, este tactear cego pela linguagem pode levar, por acaso, até palavras que poderão ser belas."

O costume (para variar) : aí vão mais 3...


1. Indicação, via search words do visitante: "marnal testival de enrugo riadas" (sic).
Pista de consulta dada pelo Google: "Memória 39 : Francisco Quevedo y Villegas", de 15/9/2010. 
(Comentário: é o que se poderá chamar uma resposta "pelas vogais" e muito fonética...)
2. Search words da visita: "o significado de hollande teresa de sousa".
Resposta esclarecedora do Google: poste do Arpose - "Alguns arabismos", colocado a 3/5/2012.
(Comentário: eis um casamento de inconveniência...)
3. Indicação do cibernauta para pesquisa: "propaganda de cigarrilha du murrie".
Solução dada pelo Google: "Brahms/ Baremboim/ Du Pré"., de 2 de Fevereiro de 2011.
(Foi pena que o Google não se lembrasse de indicar algum poste, aqui no Blogue, sobre batatas a murro...)

Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

Händel/ Kempff/ Idil Biret

Aquilino, Brito Camacho e Aljustrel


Eu já não lia Aquilino, há muito. Mas, ignorante que sou dos grandes vultos da República (1910/1925), tirante Teófilo Braga, Teixeira Gomes e pouco mais, encetei, há dias, um livro a duas mãos: Brito Camacho (1943?), por Ferreira de Mira e Aquilino Ribeiro. O primeiro traçando o perfil do homem público, Aquilino fazendo o retrato do homem de letras, que Brito Camacho também foi.
A frescura da escrita do Mestre vem logo à tona. Ora leia-se de Aquilino Ribeiro, embora ajudado por citação popular, esta pitoresca descrição de Aljustrel, terra natal de Brito Camacho, num pequeno excerto:
"...Aljustrel é vila populosa, anterior à fundação do reino, situada no fundo dum alguidar sem profundidade, picada a campina de leves acumulações como lago beliscado pelo vento. A terra ali não ondula por vagas longas e roleiras como no Alto Alentejo, os acidentes, pequenos encrespamentos do solo, sucedendo-se uns à espalda dos outros fora de linha e ordenação. Ouvi dizer a um cabreiro: «Quando o mundo se fêz mundo, isto era uma caçoila de papas a ferver. Arrefeceu de repente e ficou com estes borbotões coalhados.»..."

Paridades


A paridade homens/mulheres, nos governos de esquerda é, normalmente, um ponto de honra, senão for uma medida politicamente correcta, nos tempos que correm. Guterres aproximou-se, por cá, Zapatero observou-a, em Espanha. Agora, foi a vez de François Hollande que fez o fifty-fifty exacto: 17 ministros e 17 ministras - num equilíbrio absoluto.
Mas não deixou de comentar para os mais próximos: "Le plus compliqué avec un tel principe, ce n'est pas de trouver des femmes mais d'écarter des hommes compétents" (ou seja: O mais complicado neste princípio, não é encontrar mulheres, mas o descartar de homens competentes).