terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Cotações no mercado


Se há escritores que não perdem, após a morte, a sua popularidade e cujas obras se vão continuando a imprimir e vender, como os livros de Simenon, por exemplo, outros há em que a crítica começa logo a questionar a qualidade da sua ficção, a seguir ao falecimento do autor, como foi o caso de John Updike. Ou mesmo em vida, como parece estar a acontecer, agora, com a avaliação que se tem feito  das últimas obras de J. M. Coetzee.
Na Inglaterra, a perda de interesse pela obra de Françoise Sagan (1935-2004) tem sido progressiva (o TLS regista-a) e raros, dos seus livros, têm sido reeditados, encontrando-se esgotados na sua maioria, talvez porque esse clima fluído e leve da ficção da escritora francesa, que lembra a atmosfera cinematográfica de um Rohmer ou de um Truffaut dos anos 60/70 ( certeiro, oTLS dixit), se tenha perdido para sempre, nos dias de hoje.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Duas reflexões ou estratégias de defesa


1.
Com a gente do Sul aprendi que a ternura tem que ser protegida com dureza e que a dor não nos pode paralisar.

Luis Sepúlveda, in As Rosas de Atacama (pg. 131).

2.
A ironia é uma atitude defensiva que deve permitir-se a quem se aventura a navegar no elemento movediço das formas humanas, com a consciência nítida da própria impossibilidade de distinguir os corpos das sombras.

Antonino Pagliaro, in A Vida do Sinal (pg. 4).

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Simetria a Sul...


... vista de baixo.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Ultimas aquisições (21)


Não são livros recentes, mas são 2 obras de qualidade. E digo-o, porque já os comecei a ler. O livro de Sebald não deixa de ser desconcertante: uma ficção em forma de poema percorrendo três temas, um dos quais sobre o pintor Matthaeus Grünewald (1470?-1530?). Quanto à obra de Luis Sepúlveda, fez-me acreditar que, hoje, ainda é possível escrever de forma comprometida, sem que, por isso, a ficção perca a beleza e a qualidade.

Osmose 113


Se houvesse além, havias de já ter dito alguma coisa, depois de arrumares as tuas roupas, livros e  outros pertences, ao chegares. Sempre foste mais arrumado que eu - lembro-me bem. Excepto no final dos teus dias, já mais complicados.
Mas tenho imensa dificuldade em situar-te, agora. Saiba embora que estás nalgum lado: mas qual o espaço eleito, o cenário preferido para te recordar? A Norte ou a Sul? A Foz húmida dos últimos dias ou a Caparica, ainda quase juvenil e luminosa dos antigos Verões despreocupados e dos Agostos imensos encantados e alegres, povoados de crianças que eram nossas?
Sei, porém, que é em mim, no presente, que te hei-de encontrar.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Apontamento 130: Instrução




Pese embora o aumento da escolaridade obrigatória, constata-se uma degradação acentuada no que se refere a uma instrução básica, ferramenta essencial para uma realização pessoal digna desse nome.

A minha constatação, não sendo recente, encaminhou-me, desde sempre, para obras com o tema genérico da “ensinança”, desde os “espelhos dos príncipes”, “tratados sobre a educação dos nobres” até aos “vademecuns” como o acima reproduzido.

Confesso que sempre aprendi imenso. Do livrinho de Francisco José Freire, e recordando um verso de Luís de Camões, sobre o seu “discreto secretário”, ficamos, pois, a saber que uma das principais perfeições do secretário é, como não podia deixar de o ser, a “observância do segredo”.

Passando das qualidades às imperfeições, não deixei de reparar nos defeitos da prolixidade, sobretudo olhando ao panorama que nos rodeia no quotidiano.

Assim, explica o autor o defeito da prolixidade: “Chamo prolixidade a huma certa vastidão, e grandeza de Cartas, que dizendo pouco em muitas palavras, causa fastio a quem lê. Livra-se por tanto o Secretario de amplificações, digressões, e de outras semelhantes, e fastidiosas locuções. Fuja de multiplicidade de textos, e authoridades: e busque sempre ser breve, com tanto que naõ tire a energia ao conceito, de que usa na sua Carta.”

Sublinhei, portanto, os conselhos de superior sabedoria do autor, muito recomendáveis a escrevinhadores actuais, aduzindo que ele associa a prolixidade à “escuridade no dizer” e, claro está, à ignorância“, quão grande defeito seja em hum Secretário.”

Post de HMJ

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Em tirocínio para máxima


O futebol é o divã psicanalista dos pobrezinhos mentais. Deus o conserve - assim se evita muita violência doméstica inútil e uma enorme despesa clínica.

Citações CDXXVII


Quanto menos ideias as pessoas têm para expressar, mais elas falam alto.

François de Mauriac (!885-1970), in Le Feu sur la terre.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Adagiário CCCVII


Gato que nunca comeu azeite, quando o come, se lambuza.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Exposição


Até 29 de Fevereiro de 2020, na Cisterna / Galeria de Arte (R. António Mª. Cardoso, nº 27, Lisboa), encontra-se aberta uma exposição de fotografia de Álvaro Rosendo (1960), em que será difícil não encontrar instantâneos dos mais conhecidos nomes dos anos 80 e 90, portugueses. De Maria João Pires a Cabrita Reis, de Al Berto a Sérgio Godinho, e muitos outros, num conjunto a que o fotógrafo deu o nome de Aos meus amores 2.0.

Desabafo (53)


Segundo notícias recentes, os médico pretendem ter o mesmo ordenado que os juízes. Concordo.
A formação académica é tão exigente nos juízes como nos clínicos. Possivelmente, até mais, nestes últimos. Por outro lado, na minha vida, precisei muito mais de médicos do que de magistrados. E se um médico faz uma asneira, está feito e até pode ser irradiado pela Ordem. A um juiz, nada lhe acontece, por muitos erros e asneiras que faça. E andam por aí montanhas de exemplos...
Finalmente, os meritíssimos, na sua grande maioria, são lerdos e, normalmente, tiranetes à portuguesa..

Recomendado : oitenta e três


A recomendação é porventura tardia, porque este Dicionário Sentimental do Vinho (Casa das Letras), de Bernard Pivot (1935), saíu em 2007 e, provavelmente, será difícil, hoje, ainda o encontrar à venda nas livrarias. Acontece que a obra me foi oferecida há pouco e só agora a  estou a ler.
Grande divulgador cultural francês (Lire, Apostrophes...), o autor tem uma escrita elegante e animada, além de fornecer variadíssimos informes úteis sobre enologia, sobretudo gaulesa. Fiquei, por exemplo, a saber que o conceituado néctar Châteauneuf-du-Pape, que eu julgava existir apenas tinto, tem também a sua versão em vinho branco.
Recomenda-se, abertamente, este livro!

agradecimentos cordiais a H. N..

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Memória 133



Das minha cantoras de ópera preferidas, Mirella Freni (1935-2020), uma semana depois de falar dela, aqui no Arpose ( Um CD por mês 10 [3/2/20]), pela última vez, faleceu em Modena (Itália), cidade onde nascera.
Recordámo-la, agora, numa ária de ópera de W. A. Mozart.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Pinacoteca Pessoal 161


Alemão de origem judia, o pintor Felix Nussbaum (1904-1944) chegou a ter grande sucesso público nos anos 20 e início dos 30 do século passado, até que a ascensão do nazismo, em 1933, determinou a sua fuga, com a mulher, pela Itália, Bélgica e França. Vindo a ser preso pelas autoridades de Vichy.


A fase inicial da sua obra, entre o expressionismo e o surrealismo, parece incorporar ténues influências de Chagall e Chirico, para gradualmente vir a assumir uma personalidade própria que culmina na tensão dramática dos seus últimos quadros, pintados no campo de concentração de Auschwitz, onde veio a ser assassinado em Agosto de 1944.



O auto-retrato, em imagem inicial, é de 1943 e representa o pintor exibindo o seu bilhete de identidade de judeu. A penúltima tela (Triunfo da Morte) e a final, com uma cena de Auschwitz, são quadros pintados no último ano da sua vida (1944).

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Palavras de anteontem


Viriato Soromenho-Marques (1957) em clarividente entrevista, ao jornal Público, em 9/2/2020.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Da leitura 35


A expressão dos sentimentos ( e emoções ), em conversas correntes e escritos do dia a dia, assume por vezes a transgressão da ignorância, a boçal incapacidade e impropriedade verbal, bem como, muitas vezes, o exagero próprio de quem não tem, nem terá nunca, a noção do grau e da medida.
De A Montanha Mágica (1924), de Thomas Mann (1875-1955), é conhecida  a clássica , brilhante e intensa, mas simples declaração de amor do romance, que diz: "Tu és o tu da minha vida." Inultrapassável por lapidar, ainda hoje, no meu entender.
Quanto à amizade, eu creio que foi Michel de Montaigne (1533-1592) que, em relação ao seu afecto por Étienne de La Boétie (1530-1563), melhor soube expressar, em os Essais (1595), o sentido e valor do seu sentimento (Parce que c'était lui, parce que c'était moi), e de forma linear. Mais uma vez, inultrapassável.
Para melhor contextualizar a expressão, passo a traduzir o parágrafo em que ela se integra:
"...aquilo a que chamamos habitualmente amigos e amizades, não são mais do que conhecimentos e familiaridades, através das quais as nossas almas se entretém. Em amizade, que é aquilo de que falo, elas misturam-se e confundem-se uma com a outra, numa mistura tão universal, que se esbatem as costuras por onde elas mesmas se juntam. Se insistirem em me perguntar porque gosto dele, creio que poderei responder: Porque era ele, porque era eu" (I, 27, 290-291).

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Citações CDXXVI


O espaço é um corpo imaginário tal como o tempo um movimento fictício.

Paul Valéry (1871-1945), in Tel Quel.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Ainda vai a tempo


Com a qualidade a que nos habituou a BNP, para celebrar o centenário do nascimento de Jorge de Sena (1919-1978), apresenta-nos uma magnífica mostra alusiva, até 29 de Fevereiro de 2020.


Composta por bibliografia de e sobre o Escritor, correspondência e um acervo iconográfico notável.
A não perder, absolutamente.

Registe-se...


... com agrado que o último Le Monde des Livres (31/1/2020) dedica a sua primeira página à tradução francesa do livro de Mia Couto (1955), "Les Sables de l'Empereur" (As Areias do Imperador). Com uma recensão crítica muito favorável, de Gladys Marivat.
A versão francesa do romance foi trabalhada por Elisabeth Monteiro Rodrigues, e saiu com a chancela da editora Métailié.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Bibliofilia 143


A bibliofilia escora-se, mais tarde ou mais cedo, em obras sólidas, quando não eruditas, que podem apoiar impressões pessoais nossas anteriores, vagas percepções, informações avulsas, mas também gostos e convicções que se vão tendo com os anos. Acrescem a prática e os conhecimentos adquiridos. Este Manual Bibliographico... elaborado por Ricardo Pinto de Mattos, funcionário da Biblioteca Pública do Porto, mas revisto e prefaciado por Camilo, é uma fonte rica de informações diversas, e até preços, de livros pouco frequentes e importantes.
No prefácio, Camilo aproveita para fazer o panegírico de outro grande conhecedor e bibliófilo nacional, a quem muito se deve - Inocêncio Francisco da Silva.


Esta obra conceituada de consulta editada pela Livraria Portuense, em 1878, adquiri-a usada ao livreiro Tarcísio Trindade, por volta de 1990, por Esc. 7.800$00, numa altura em que os livros de referência ou pouco frequentes tinham valor seguro, estável, quando não crescente. O volume (584 páginas) pertencera, como se pode ver pelo ex-libris, a Sebastião Alberto Centeno Fragoso, que foi médico e publicista, bem como foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem Militar de Santiago de Espada, em 1946. E o livro está bem encadernado.


Exprimi, ainda não há muito tempo, a ideia e convicção, aqui pelo Arpose, que o livro usado, exceptuando obras raras, tem vindo a baixar de preço, de forma concreta e sustentada. Foi por isso que não me surpreendi excessivamente ao constatar que a Livraria Ecléctica leva a efeito um próximo leilão Online, de 31/1 a a 6/2/2020, em que esta obra de referência tinha uma base de licitação de 11 euros, quando, aqui há 4 ou 5 anos, dificilmente os lances, sobre este título de bibliografia, se iniciavam por menos de 50...

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Curiosidades 78


Dificilmente haverá capa de disco mais célebre e conhecida do que a do LP de The Beatles, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, de 1967, que pela sua original qualidade ganhou um Grammy em 1968. O sucesso resultou de uma estreita colaboração da artista pop norte-americana Jann Haworth (1942) com o seu marido inglês Peter Blake (1932) que ainda hoje passa, para muitos, como único autor deste trabalho muito bem sucedido.
A imagem compreende, para além da banda inglesa (em duplicado), um total de 58 personalidades célebres mundiais (4 gurus indianos, incluídos). The Beatles sugeriram 12 nomes e, entre outros, Hitler e Jesus Cristo (sugestões de John Lennon) que foram excluídos das hipóteses aventadas. Tendo constatado a ausência de figuras femininas, Jann e Peter resolveram  incluir, à última da hora, Mae West, Shirley Temple, Marilyn Monroe, Marlene Dietrich e Diana Dors. Aparece ainda, à beira desta última actriz, uma antiga fotografia da avó de Jann Haworth.


Numa reformulação actualizada, a artista norte-americana em colaboração com a filha, Liberty Blake, produziu, em 2016, um novo trabalho, desta vez apenas com personalidades femininas, intitulado Work in Progress, para a cidade de Salt Lake City, justificando que "o artista deve ver sempre o mundo em termos alternativos."
Entre outras figuras, estão representadas Anne Frank, Agnès Varda, Diana e Michelle Obama.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Steiner


Este Inverno tem-me sido fatídico, pessoalmente. E ainda não terminou...
Acabei de saber da morte de George Steiner ( 23/4/1929 - 3/2/2020 ) que, com A. Camus e E. M. Cioran, talvez tenha sido um dos ensaístas e pensadores que mais contribuiram para a minha formação pessoal e humanística.
Muito lhe fico a dever, sobretudo neste nosso mundo actual, em que os estímulos para reflectir são cada vez menores...

Um CD por mês (10)



Talvez eu não tivesse sido o mesmo, em relação à Ópera, se não tivesse ouvido, na adolescência e na Póvoa, a voz inconfundível do tenor monegasco Alain Vanzo (1928-2002) a cantar a ária Je crois entendre encore da ópera Les Pêcheurs de Perles, de Georges Bizet (1838-1875), que me havia de encantar para sempre.
Apesar de, no canto lírico clássico, eu já me ter iniciado pelo barbeiro sevilhano de Rossini, mais estridente embora...


Em contraponto feminino mais antigo, Mirella Freni (1935) chegou logo a seguir, e Aafje Heynes (1924-2015). Fischer-Dieskau (1925-2012) veio também a  integrar as minhas preferências. Recentememente, Cecilia Bartoli (1966) ocupou um lugar destacado. E, como não podia deixar de ser, Maria Callas terá sempre um lugar cativo (1923-1977).


Da EMI Classics, estes registos são de 1954 (Norma), remasterizado em 1997, e da ópera de Gluck (1957), aperfeiçoado em gravação de 1998.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

De Auden para Yeats





In Memory of W. B. Yeats
(d. Jan. 1939)

I

Morreu quando o inverno agonizava,
Os regatos estavam gelados, os aeroportos quase desertos,
E a própria neve desfigurava as estátuas pelas ruas;
Até o mercúrio se contraía pela boca do dia moribundo
E todos os instrumentos convergiam de frio, concordavam
Que o dia da sua morte era um negro, gélido dia.

Para longe da sua doença
Os lobos desapareceram no denso mais verde das florestas,
O rústico rio selvagem nem sequer foi atraído para os cais
Mais amenos; e as bocas mais gentis e discretas
Souberam poupar os seus poemas à morte do poeta.

Embora para ele tivesse sido, com efeito, a última tarde,
Um entardecer de freiras e rumores;
Todas as regiões do seu corpo revoltadas,
As praças da sua alma, de repente, despovoadas
E o silêncio invadiu todos os subúrbios;
A energia mais íntima do sentimento apagou-se. Ficou a dos outros

Seguidores. Agora ele está espalhado por centenas de lugares
E sente-se obrigado a ser gentil com os desconhecidos
Para encontrar a felicidade por entre estranhos tecidos
E ser castigado por códigos novos e alheios
De um outro vocabulário de homem falecido
Alterado pelas regras dos sobreviventes.

Mas no que vier a ser importante ou ruído de amanhã
Quando os corretores rugirem como feras pela Bolsa,
E os pobres tiverem sofrido tudo aquilo para que estão fadados,
E todos nas celas de cada um se convencerem da sua liberdade,
Alguns poucos milhares hão-de pensar na importância deste dia
Como quando alguém se apercebe no dia em que fez algo extraordinário,
Aquilo, no fundo, em que os instrumentos metereológicos concordaram
Que o dia da sua morte foi extremamente escuro e muito frio.

II

Eras tão ignorante quanto nós, mas o teu dom foi sobreviver a tudo:
À paróquia das senhoras finas, à física decadência;
A ti próprio. A loucura da Irlanda feriu-te bem fundo de poesia.
Agora a Irlanda tem outra loucura bem como o seu tempo tranquilo,
Pois a poesia não faz acontecer já nada de novo: sobrevive
No vale onde é feita e por onde os executivos
Não querem entrar, e desliza em direcção ao sul
De quintas isoladas e sentimentos diligentes,
Ingénuas cidades em que acreditamos e onde morremos;
Apenas sobrevive uma forma de ser, uma única boca.

III

Terra!, recebe este honrado hóspede:
William Yeats veio para repousar.
Deixa que o barco aporte
Despido de toda a sua poesia.

No escuro pesadelo
Todos os cães da Europa ladram
E as nações existentes aguardam,
Cada uma sequestrada no seu ódio;

A desgraça intelectual
Vai-se reflectindo em cada face,
E mares de misericórdia aí ficam
Fechados e gelados no olhar.

Segue, poeta, vai além
Até ao fim da noite,
Com a tua voz enfim liberta
Convence-nos ao júbilo.

Com o cultivo de um verso
Constrói o destino da vinha,
Contra o insucesso humano
Num êxtase de angústia;

Pelos ermos do coração
Deixa que rompa a ferida da fonte,
Pela prisão de cada dia
Ensina o homem livre a celebrar.


W. H. Auden


( versão portuguesa, feita em memória de A. de A. M.)

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Adagiário CCCVI


Cão lírico ladra à Lua, cão filósofo abocanha o melhor osso.