sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Revivalismo Ligeiro CCXXXVI



Criada por Chico Buarque em 1973, a canção Cálice foi proibida durante parte da Ditadura militar brasileira. Só tendo sido registada e difundida em disco no ano de 1978 - faz agora 40 anos.
Será que vai ser de novo proibida?...

Humor negro (11)


Perante a perspectiva cinzenta do futuro do Brasil, vem à colação o célebre dito do falecido cantor Tim Maia (1942-1998), que dizia:

"Este país não pode dar certo. Aqui prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme, traficante se vicia, e pobre é de direita."


agradecimentos a H. N., pela lembrança oportuna.

Duas maneiras de ver a coisa, ou o bom gosto inteligente do Youtube


Quem pensa que domina a net e quejandos, desiluda-se. Ela e eles pretendem é orientar-nos. Impondo-nos publicidade pirosa, cultura da corrente dominante, infantilidades básicas, divertimentos pimba, músicas foleiras, nomeadamente, americanas.
Recentemente, e por aqui, nos vídeos de alguma música clássica do Youtube, nos primeiros acordes musicais, aparecia uma legenda publicitando um remédio para o tratamento de calos. Bom gosto, realmente... ainda se fosse em vídeos de música para dançar...
Mas o que acho ainda mais interessante, e altamente democrático, é que, para além de o Youtube andar todo desenculatrado, os seus algoritmos estão a funcionar de forma absolutamente destrambelhada e caótica.
Para já, um aspecto que eu considero quase insultuoso: nos últimos tempos, o Youtube resolveu recomendar-me, insistentemente, uma rubrica e temática infantil, que dá pelo nome de: Gaming for you, que em português à Google traduziram por Jogos para você.
De imediato, eu clico para eliminar estas frioleiras parvas, e logo aparece o refrão mecânico e algorítmico, gentil:

Got it. We'll tune your recommendations.
Ou (em português)
Ok. Ajustaremos as suas recomendações.

Ora, basta eu, passadas 2 ou 3 horas, voltar a abrir o Youtube, para de novo me aparecerem os Jogos para você, recomendados com a inocente candura dos atrasados mentais, dos desmemoriados e autistas. E, isto, recorrentemente...
Irra, que é bruto!

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Citações CCCLXXII


Interpretação é a vingança do intelecto sobre a arte.

Susan Sontag (1933-2004), in Against Interpretation (1964).

Curiosidades 70


Quantas vezes um rosto humano nos faz lembrar os traços e feições de um animal, num zoomorfismo insólito e despropositado!?...
Na Primária, lembro-me de um colega, José Emílio, a quem puseram a alcunha de Rata, pelas semelhanças que apresentava, com a dita. E outro, já no Liceu, que começaram a apelidar de Fuinha. O dicionário regista esta palavra, aliás, além do animal, com o significado de : muito magro. Em romances policiais, já a vi, para melhor caracterizar o vilão, escrita : "com cara de fuinha"...
Charles Le Brun (1619-1690), primeiro pintor régio francês, que Luís XIV elevou ao cargo, foi, porém, mais longe.


Levou à prática, com uma série de esquissos apropriados, essa similitude entre seres humanos e animais, deixando-nos um repositório notável de desenhos que, provavelmente, inspiraram La Fontaine nas suas fábulas bem conhecidas.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Intervenção, em tempos de cólera



Surpreendo-me que, nestes tempos conturbados, a canção de intervenção, tão frequente na segunda metade do século XX, quase tenha desaparecido do panorama musical...
Com tantos dutertres, erdogans  no poder, e bolsonaros à beira de o tomar, estranho esta dormência de cantautores, decerto refastelados no conforto e tranquilidade de não agitar as ondas.
Não sei se o Chico brasileiro editou alguma canção, como nos seus velhos tempos, interventiva, mas Barbra Streisand, felizmente, rompeu esta pesada cortina de silêncio cúmplice.
E a canção, que o meu amigo AVP teve a gentileza de me enviar, é lindíssima. Embora as imagens do vídeo - parece-me - pudessem ter sido melhores. Mas, e como diz o povo: o bom é inimigo do óptimo.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Decálogo


Palavras a evitar. Absolutamente:

1. Adorei!
2. Devastado.
3. Deslumbrou.
4. Assumir.
5. Arrasar.
6. Trump.
7. Lenha (= Cavaco).
8. mãezinha (= Caxineiro).
9. Blogues literários.
10. Amei! (salvo em circunstâncias muito especiais.)

Uma fotografia, de vez em quando... (112)


Profundamente marcada pela babel desencontrada de uma Londres caótica, mas resistente, da II Grande Guerra, a obra fotográfica do inglês George Rodger (1908-1995) parece centrar-se, depois, entre a Europa e a África, ainda primitiva e colonial.

Inicialmente, trabalhou na Marinha Mercante com o intuito de conhecer o mundo, mas cedo começou a fotografar os aspectos mais significativos de tudo aquilo que via. Colaborou com a Time e a Life e, em 1947, integrou a Agência Magnum, como sócio-fundador, a convite expresso de Robert Capa.

Melhor do que as palavras, as fotos de George Rodger falam por si.

Safra de 2018


Já estão a curtir...
Menor do que a colheita de 2017, em que a oliveirinha da varanda a Sul bateu o seu recorde, produzindo 115 azeitonas, este ano de 2018, talvez pela muita chuva e pouco sol, só nos deu 56, mas bem anafadas. E de amadurecimento irregular, como se pode ver pelas cores: verdes e pretas.
Assim, dá para imaginar as incertezas e agruras da agricultura a sério e real. Mas nós ficámos satisfeitos e contentes com a nossa safra doméstica e outrabandista.
E aqui deixo o registo das colheitas de anos passados:
2015 - 28 azeitonas.
2016 - 49 azeitonas.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Comic Relief 144


O imediatismo emocional traz sempre destas coisas. Bem como o corporativismo, a pressa, o amiguismo, intencional ou não, a falta de sentido crítico português. E a dificuldade de nos distanciarmos do presente, na espuma e salsugem nublada dos dias... De escolhermos e de pensarmos.

com grato reconhecimento a AVP. 

Da política estrangeira à portuguesa, excepcionalmente


Raramente, mudarmos de camisola nos traz dividendos. Embora a neutralidade militante possa grangear, aos que a praticam, uma pretensa multidão de amigos... Que não deixam de ser, numa nomenclatura rigorosa e objectiva, apenas conhecidos, próximos. Neste particular, há que sermos realistas.
Não é por se adaptarem aos tempos que jornais e revistas aumentam as tiragens. Esses golpes de rins, muito frequentes, hoje em dia, em vez de trazerem novos clientes e assinantes, fazem é perder uma boa parte dos leitores antigos. O jornal Público e L'Obs., em França, ilustram bons exemplos disso.
Na política, o mesmo vem acontecendo, sobretudo nos partidos mais importantes, que adaptando-se, oportunisticamente, aos novos tempos, vão omitindo o seu ADN original e a sua ideologia de base. O eleitor acaba, mais tarde ou mais cedo, por não perdoar.
Blair, Schröder, Hollande foram no fundo os coveiros dos seus partidos socialistas. Como a própria CSU (irmã gémea da CDU, na Alemanha), da Baviera, confirmou, ontem, também a sua erosão, nas eleições da Länder. Ou o mísero resultado do SPD germânico, ultrapassado até pela AfD, neo-nazi.
Não tenho dúvidas que, se o PS português ainda fosse chefiado por António José Seguro, o socialismo ter-se-ia esboroado, irremediavelmente, no espectro partidário nacional. Que era, no fundo, aquilo que a Direita portuguesa gostaria que tivesse acontecido.

Prokofiev / Gavrilov

domingo, 14 de outubro de 2018

Mercearias Finas 134


É sempre triste, o primeiro sinal de um desamor.
Provavelmente, o vinho branco, e verde, que me acompanha há mais tempo é o Casal Garcia. Quanto ao tinto seguramente é o Grão Vasco, do Dão. Que integrou a carteira da Sogrape, nos últimos anos. Mudaram-lhe o rótulo, já por duas vezes, para pior. E, mais grave, para mim, trocaram no lote a casta Jaen, pelo Alfrocheiro. Da antiguidade, perdeu a raça e o ADN, desapareceu-lhe a elegância que caracterizava os vinhos do Dão. Mas eu lá o ia bebendo, para celebrar ao menos o passado.
Provei, neste Domingo, a colheita de 2016: é para esquecer.
Tem a rudeza áspera dos piores vinhos de Trás-os-Montes, que não do Douro, evidentemente. É deselegante, de todo. E, sendo do Dão (?), é dos piores vinhos tintos da região que bebi, ultimamente.
Mudem lá de enólogo, que é o que se faz, no futebol, quando os treinadores não são capazes!

Das consequências do Leslie...


Não se diga que António Costa não é hábil. Aproveitou a passagem do Leslie, como alibi, para varrer 4 ministros 4 (ou 5?). Perante o estupor assustado da população portuguesa e a inoperância adivinhadora dos comentadores televisivos do costume. 
Eh, real!

Dos géneros e suas idiossincrasias


Francamente, não sei se a atenção se pode, por vezes, confundir com a concentração, no ser humano.
Mas não há dúvida que há, nesta fotografia de finais dos anos 50, uma atitude feminina e outra, masculina, qualquer delas pronunciada e diferente. Da concentração de Miller e Olivier, e da atenção de Marilyn e Vivien, os sexos falam por si.
A cada um, a sua interpretação - é o desafio que, aqui, deixo...

Bibliofilia 165


Rodeado de vicissitudes várias, O Hyssope, um dos primeiros, senão o primeiro poema herói-cómico português, mas seguramente o mais célebre, terá sido escrito, provavelmente, entre 1764 e 1767, em Elvas, por António Diniz da Cruz e Silva (1731-1799), no período em que lá exerceu as funções de juiz. Fundador da Arcádia Lusitana, em que adoptou o pseudónimo de Elpino Nonacriense, Cruz e Silva foi um dos seus maiores dinamizadores.
Várias versões manuscritas de O Hyssope circularam, entre particulares, até vir a ser editado, já postumamente (Cruz e Silva faleceu no Rio de Janeiro, em 5 de Outubro de 1799), no ano de 1802. Para evitar problemas com a Censura, o livro tinha como local de edição Londres, muito embora tivesse sido impresso, realmente, em Paris.


Tratando, com humor discreto, de um litígio burocrático e ritualista entre dignitários eclesiásticos elvenses e porque beliscava ou ridicularizava a Igreja, o livro foi apreendido, a mando de Pina Manique, sendo por isso raro. Com a instalação de Junot, em Lisboa, aproveitando um período de maior liberdade, o livreiro Rolland fez imprimir a segunda edição de O Hyssope, em 1808. Mas com a retirada de Junot, em Setembro de 1808, a obra foi de novo retirada do mercado, e também se tornou rara. As 3ª e a 4ª edições saíram em Paris.
Até 1910, o general F. A. Martins de Carvalho, na obra As edições do "Hyssope" (1921), regista a publicação, de nada menos, de 24 edições. O Poema Herói-cómico era muito apreciado e popular ( e, hoje, alguém o lê?).
Longamente desejada, por mim, consegui comprar, afortunadamente, aquela segunda edição, através do último Boletim Bibliográfico, na Livraria Olisipo. Dei pelo exemplar 30 euros, com a melhor das vontades e grande satisfação.

sábado, 13 de outubro de 2018

Impromptu (37)



Para esconjurar e afastar o Leslie... este impromptu.

A cegueira no turismo


O restaurante, nas Avenidas Novas, mantém-se em gestão familiar, como há cinquenta anos atrás, quando na zona morei, ainda estudante. Modesto e de preços justos, quanto à qualidade da cozinha e à generosidade das doses. Tradicional, atende sobretudo clientela de meia idade que por lá habita ou trabalha. Mas, ultimamente e quando lá vamos, temos vindo a assistir a um crescendo de comedores estrangeiros. Falantes, sobretudo, de francês e de língua inglesa.
Penso que o turismo também se faz de cheiros, como fundamentalmente é feito de olhares, de sabores, de sons que perpassam pelas ruas, até do tactear de tecidos estranhos e roupa de cama, agreste ou macia, que nos cobre, nas noites que passamos em hotéis desconhecidos. Numa miscelânea curiosa de novidades.
Há meses, vi com estranheza uma japonesa ( ou chinesa?) cega, amparada por uma companheira que a guiava, subindo a rua da Misericórdia. E achei insólito. Talvez a companheira lhe fosse contando o que via, como às crianças que, ao ouvir histórias, vão recriando a narrativa com a sua imaginação nascente.
Nessa altura, achei que seria um caso desgarrado. Há dias, porém, nesse restaurante de que falei a princípio, estávamos nós a jantar, vimos entrar 4 cegos(/as), com os (/as) respectivos (/as) acompanhantes, para nossa total surpresa. Que ocuparam tranquilamente, embora com vagar, uma mesa de 8 lugares. Creio que o grupo era inglês.
Eu seja ceguinho - como diz o povo -, se compreendo...

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Relações de proximidade


Dependendo muito dos interesses de cada ser humano, há correntes de afinidade, consideração e até mesmo afecto, que se estabelecem, duradouras e fortes, entre fregueses e fornecedores. Modistas e alfaiates, merceeiros e peixeiras de mercado, simples empregados de quiosques ou de cafés, carteiros e médicos, para citar apenas algumas profissões, podem gozar da estima dos seus clientes e despertar, neles, uma especial simpatia. Creio que a honestidade e a competência no exercício da sua própria actividade são factores imprescindíveis, pelo menos para mim, para que essa relação de cúmplice proximidade se possa vir a estabelecer. Ou a solidão cultural dos espaços que habitam, esses fregueses, a isso obrigue ou justifique...
Ginha, Guedes, Almarjão, Tarcísio, Beckmeier são nomes saudosos, do meu passado, bem como alguns outros apelidos de que nunca soube ou nem sequer decorei o nome. De livreiros e livreiros-alfarrabistas que me trazem saudades. Não sou promíscuo com facilidade, muito menos me exponho, aos primeiros contactos. Conservo, de início, uma prudente distância, porque recuar depois, é sempre mais difícil e, hoje em dia, o profissionalismo é raro, no comércio livreiro. Mas surpreendo-me, muitas vezes, com a proximidade extrovertida e a familiaridade devota e pia, com que alguns fregueses convivem com os seus fornecedores de livros. Falta de prática, conhecimento e experiência, talvez.
Exclusivo demais (quem sabe?, pela bitola actual), no meu universo, destaco apenas dois nomes: Bernardo e Rosa. Que respeito e estimo, como livreiros. O resto, é apenas a vulgaridade do costume, e de negócio...

Antecipando os dias que correm


Alguns artistas, pela preclara visão que tiveram do mundo, parecem antever as ameaças futuras que se vão perfilando no horizonte. Atentemos, por isso, nestas palavras proféticas que Albert Camus (1913-1960), ainda que com menos razões do que hoje, aplicou ao seu mundo:

A grande infelicidade do nosso tempo é que, precisamente, a política pretende fornecer-nos, ao mesmo tempo, um catecismo, uma filosofia completa e, por vezes, até uma arte de amar...

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Uma sugestão musical para a campanha eleitoral do pan (partido)...



com um envoi muito especial para a MR, com os seus " Os meus franceses".

Produtos Nacionais 24


Sobre as excelências da Arquitectura portuguesa, os Pritzker falam por si (Siza Vieira, em 1992, Souto Moura, em 2011).
E até a BBC o reconheceu ao dar destaque, em The World's Most Extraordinary Homes, à Casa da Gateira, da  Camarim Arquitectos (Porto).
A notícia colhi-a em Le Monde, na sua edição de 21/9/2018. Que a imprensa portuguesa anda mais ocupada com as frioleiras do costume...


Regionalismos ilhavenses (5)


Prosseguindo a temática, desta vez com expressões ilhavenses começadas por e:

1. É muito rico: tem um pote e um penico - desvalorização da pretensa riqueza de alguém.
2. Em pincras - nas pontas dos pés.
3. Encanteirar as pipas - dispor as pipas nos seus suportes para receber o vinho.
4. Encharrucar / Incharrucar - açambarcar, encher, comer muito.
5. Encingadinha - pessoa muito humilde, pobretana, desprezível.
6. Enflochada - franzido, amarrotado, que não está liso.
7. Engrauzido / Ingrauzido - alimento pouco cozido.
8. Esforniqueiro / Esforniquento - criança que mexe em tudo, que quer tudo à sua moda.
9. Esgaibotado - afugentado, que anda sem rumo, ao deus-dará.
10. Eufa - elfa; rego que a charrua deixa aberto para ser tapado pela próxima leiva.

Nota: a imagem do postal, que encima este poste, foi usada como capa da obra "Palabras co bento no leba", de Domingos Freire Cardoso, que temos vindo a usar, seleccionadamente, neste temática.

Citações CCCLXXI


Os limites da minha linguagem definem as fronteiras do meu mundo.

Ludwig Wittgenstein (1889-1951), in Tratactus Logico-Philosophicus (1922).

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Últimas aquisições (7)


Tenho paciência bastante para, tranquilamente, esperar que, de autores recentes e modernos, as suas obras venham a aparecer nos alfarrabistas, embora usadas. Do processo, excluo por impaciência pessoal, apenas Steiner, Sebald, Magris e Manguel - e é tudo, creio. Que gosto de ler, mal sejam editados, em Portugal.
O resto, é uma questão de tempo e o preço, normalmente, compensa bem a espera. Tirando Los Sueños (Espasa-Calpe, 1952), de Quevedo, que aposentado na "salgadeira" (H. N. dixit), me custou apenas 1 euro, dei pelos outros 4 livros, que comprei ontem, aquilo que daria, pouco mais ou menos, por um deles, novo.


Vou assim também averiguar das excelências da escrita de Philip Roth (1933-2018), que muita gente incensa, e de quem nunca li nada.
Um único problema subsiste: em que lugar irei eu arrumar estes 4 livros, depois de lidos, quando a casa já está superpovoada e pejada deles?

Uma dedicatória


Com Francisco de Aldana, J. Ramón Jiménez, Antonio Machado e Gamoneda, Francisco de Quevedo y Villegas (1580-1645) é um dos meus 5 poetas espanhóis preferidos. Amigo e confrade do nosso Francisco Manuel de Melo, é ainda mais atrevido na sátira, polifacetado e, talvez, melhor poeta. E um conceptista de fino recorte literário.



Um prefácio pode ser fastidioso, uma dedicatória, simplesmente, banal, na sua louvaminha bajuladora e servil. Esta dedicatória(-prefácio) de Los Sueños, de Quevedo, é, pelo menos, singular e original. Procurei traduzi-la, embora de forma livre, respeitando a intenção do Autor.
Assim, segue:

Dedicatória
A nenhuma pessoa de todas quantas Deus criou no mundo

Tendo considerado que todos dedicam os seus livros com dois fins, que raras vezes se repartem: o primeiro, para que tal pessoa ajude às despesas da impressão com a sua bendita esmola; o outro, para que apoie a obra contra os detractores; e considerando, por eu ter sido detractor ou murmurador durante muitos anos, que isso de pouco serve senão para despertar a compaixão por quem é visado: do néscio, que se persuade que os mal-dizentes têm autoridade, e do presumido, que paga com o seu dinheiro esta lisonja, decidi-me a escrevê-la a trouxe-mouxe e a dedicá-la às pessoas tontas e loucas, suceda o que vier a suceder. Quem o (livro) comprar e resmungar, antes de mais diz mal de si, porque gastou mal o seu dinheiro, e não do autor que o fez gastar mal. E digam e façam o que quiserem os Mecenas, porque como nunca os vi a andar à pancada com os murmuradores, sobre si digo ou não digo que os vejo muito apagados no apoio e desmentidos de todas as calúnias que fazem aos seus protegidos, sem terem em conta o dolo do livro, e prefiro atrever-me a enganar-me. Façam todos  o que quiserem do meu livro, pois eu já disse o que queria dizer de todos. Adeus, Mecenas, que aqui me despeço da dedicatória.
                                                                                                                                Eu.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Ideias fixas 18


Será que os blogues que não permitem comentários pertencem a administradores autocráticos? Ou apenas a gestores surdos?
O que, neste último caso, se concilia muito bem com alguns dos nossos visitantes que, insistemente, nos frequentam, sem deixar a mínima palavra de comentário. São os mudos da net...

Matinal


Sol e sombra, como nas arenas...
O ainda nocturno repousante das casas e a vivacidade inicial da luz, que se anuncia.
Prosaicamente, poderia dizer-se, com humor amanhecido, que um ovo estrelado se prepara, para um pequeno almoço muito british..:-)

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Osmose (97)


Parece-me que nunca, como hoje, foi tão difícil optar, inteiramente, por um único lado. Olhamos para o que aconteceu em Las Vegas, ou pelo que está acontecendo em Brasília; pelo que ocorreu em Tancos, infantil e inexplicavelmente. Tomar posição, deixa-nos divididos e a tentação é de nos ficarmos pelo conforto de um cinzento neutral que não nos obrigue, claramente, a uma decisão absoluta sobre os factos concretos. Há que ser realista, no entanto: o cinzento tem, ainda, várias tonalidades.
O se e o mas encontram abrigo neste enovelado desarrumo de espírito a que o próprio tempo parece associar-se, em conformidade. Porque se anuncia, para esta semana, chuva e cinzento, com a entrada triunfante do Outono. O estado do mundo dá vontade de hibernarmos, para só virmos a acordar na Primavera. Como se isso fosse possível... E tudo voltasse a ser claro e róseo, lógico e racional, humanamente acertado com as nossas mais íntimas convicções. De justiça e bom senso.

domingo, 7 de outubro de 2018

Moinhos, jogos e brinquedos infantis


Cada vez gosto mais das coisas simples da terra. A começar por monografias, pela arte rústica (evito o povera, académico...), na sua autenticidade, o sabor auditivo das expressões regionalistas, os usos e costumes ancestrais que vão desaparecendo pelo alastrar das manchas suburbanas e pelo ermamento do interior português.
Há quem se aperceba deste meu gosto, com atenção amável e cúmplice. Como foi o caso do meu amigo AVP, que resolveu oferecer-me Os Moinhos e os Moleiros do Rio Guadiana (Edições Colibri, 2018), de Luís Silva, e Arca de Cangalhadas (Museu de Silgueiros, 2018), de António Lopes Pires. Ambos de âmbito etnográfico, regional.
O primeiro dos livros aborda, de forma especializada, as características dos 119 moinhos que bordejam o Guadiana (110, em Portugal, e 9 em Espanha). O segundo, de contos despretenciosos, usa-os no sentido de dar a conhecer jogos infantis, já pouco praticados, e brinquedos de rústica manufactura, que fizeram a alegria de crianças de antanho...
Leituras agradabilíssimas, que aqui venho agradecer a AVP.