segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Citações CCCIX


Ser pobre não é crime, mas ajuda muito a chegar lá.

Millôr Fernandes (Brasil, 1923-2012).

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Retro (92)


A publicidade ao tabaco é, hoje em dia, uma actividade quase clandestina ou, pelo menos, politicamente incorrecta. Mas o tema, em si, produziu belos cartazes, como estes, franceses, que aqui se reproduzem. Aquele que encima o poste é, do meu ponto de vista, esteticamente muito agradável, datando dos primeiros anos do século XX. O segundo, menos conseguido, feito por Germaine Bouret, em 1936, destinava-se a publicitar os cigarros Naja.


agradecimentos a H. N..

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Com Adoniran, por estes dias

Carnaval



Maioritariamente seremos, e quase todos, "filhos da madrugada", do desespero ou do calor intenso da noite. De uma forma de se continuar a luta vã contra o nada, a ilusão de existirmos, enquanto seres humanos, para sempre.
O carnaval, europeu, no fundo, não deixa de ser uma forma talvez mais limpa, ou asséptica, das lupercais ou saturnais. uma maneira actualizada  de abençoar o excesso, através da incontinência perdoável e da caridade cristã. Perdoe-se ao Brasil ter interpretado - talvez pela temperatura demasiado elevada - de uma forma excessivamente literal e desbragada, a Antiguidade pagã.

O grau que faz toda a diferença


Aqui, neste jornal, queremos acreditar que somos perfeitamente claros acerca do valor da verdadeira literatura, e da necessidade de a distinguir daquilo que pode constituir uma escrita bem sucedida.

Stig Abell, em editorial de The Times Literary Supplement (nº 5941).

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Filatelia CXVII


Com alguma frequência, sobretudo antigamente, e quando era exigido algum rigor na reprodução de imagem, os CTT de Portugal contratavam firmas estrangeiras para a produção de algumas séries de selos nacionais.
Creio que a primeira série filatélica a ser produzida fora da Casa da Moeda foi a do 5º Centenário do nascimento do Infante D. Henrique (1894), com desenhos de Veloso Salgado. As estampilhas foram trabalhadas na Giesecke & Devrient, de Leipzig (Alemanha). Também a Waterlow & Sons (Londres) produziu várias séries de selos para os Correios Portugueses.
No caso das Colónias, nomeadamente Angola, a notável e celebrada série das Aves* (1951) foi heliogravada pela Courvoisier, SA (Suiça), que já tinha produzido, para os Correios de Portugal continental, as emissões do Presidente Carmona (1945), Costumes Portugueses (1947) e Avis (1949), todas elas de grande apuro e qualidade gráfica.
O apetrechamento nacional foi-se entretanto aprimorando e, em 1953, a Litografia Maia (Porto) já foi capaz de produzir, também, a bela série de Animais de Angola, com grande perfeição gráfica. É essa série, na íntegra, que se reproduz em imagem, bem como alguns valores da série de Aves, de 1951.

* A série de Aves (Angola, 1951), completa, tem, actualmente, um valor de catálogo (Mundifil, 2015) de 660 e 100 euros, consoante for nova ou usada.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Das menos ouvidas, talvez por ser menos consensual...

Na passagem dos 30 anos da morte de José Afonso (1929-1987).

Dois tercetos de Roberto Juarroz, traduzidos


1
Falha-me a memória
porque recordo demasiado.
Lembro-me, por exemplo, que não fui.

...
10
As distâncias não medem o mesmo
de noite e de dia. Às vezes,
há que esperar pelo escuro.



Roberto Juarroz (1925-1995), in Poesia Vertical.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

De algumas cores, usadas por Max Jacob (1876-1944)


Dizia Maurice Vlaminck (1876-1958) do uso de cores, por parte de Max Jacob:
"Ele coloria pequenos esquissos com cores como aquelas que os miudos costumam comprar na papelaria do bairro. Para estes pequenos trabalhos, ele usava um pouco de tinta da China, o azul, o rosa, e cinza de cigarro diluida, no fundo da sua chávena, num resto de café."

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

João de Sousa Carvalho (1745-1798?)

Um novel ficcionista de sucesso


Na sua colecção de romances históricos, a Porto Editora pré-anuncia com previsível sucesso a sequência das Quinta-feiras romanceadas, de autoria do ex-PR de Boliqueime. A carneirada lusa rejubila e Trump já prometeu adquirir 500 exemplares, para oferecer aos governantes dos países amigos e a 496 empresários da construção civil estadunidenses. A Editora tripeira agradeceu. Comovida.

P.S.: aqui ficam as capas dos próximos livros, para que os analfabetos funcionais não se enganem nas compras...




agradecimentos cordiais a AVP.

Pequena história (44)


Não me será difícil, ao serem-me perguntados nomes de políticos e chefes de estado europeus, eu avançar vários de uma boa parte das nações. Exceptuando, talvez, da asséptica Suiça. Não sei, porém, se o facto deva ser considerado como positivo ou negativo.
Não me admirou, por isso, um episódio ou bronca acontecida com Valéry Giscard d'Estaing (1926), numa altura em que ele era Presidente da República Francesa. Tendo que se deslocar, de helicóptero, aos Alpes Suiços, por uma questão de cortesia, remeteu via rádio, cumprimentos ao presumível presidente da Confederação helvética, Nello Celio (1914-1995), que tinha sido seu colega, anteriormente, como ministro das Finanças suiço.
Já em França e bastante mais tarde, viria a saber que Nello Celio deixara de exercer essas funções há mais de 2 anos...

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

As Américas


Com os ventos que correm, talvez seja oportuno lembrar as clarividentes palavras do antigo Presidente do México, Porfirio Díaz (1830-1915), que afirmava:
"Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos."


domingo, 19 de fevereiro de 2017

Mercearias Finas 119


Do Braz, fulano provavelmente sulista, não ficou rasto no Bacalhau Dourado, a Norte. Mas, imprescindíveis em ambos, o peixe bem desfiado, a fresca salsa, a batata frita, em havendo paciência, palha, a cebola de fazer chorar e dois ou três dentes de alho, activos. Bom azeite é indispensável.
Porque era fim-de-semana e a posta de bacalhau não era muito generosa, HMJ decidiu enriquecer o Bacalhau à Braz com algumas gambas para lhe dar originalidade, sustância e um pouco mais de nobreza. Porque, eu próprio, em restaurantes a que vou, raramente é prato que escolha. E a razão é simples: em casa faço-o, normalmente, mais apetitoso e apaladado. E de bacalhau que não é das badanas, nem das pelangas mosqueadas...
Quanto a acompanhante, um Mula Velha, regional de Lisboa (Fernão Pires, Chardonnay, Arinto e Verdelho, que tiveram batonnage), que cumpriu a sua obrigação e se portou de feição domingueira.

P.S.: para ser justo, há que dizer que as frésias (na fotografia) lavaram o ar, com aroma divino...

Brigada Víctor Jara

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Apontamento 96: Civilidade


[Civilidade, i.e. conjunto de formalidades, observadas pelos cidadãos entre si, quando bem educados]

A ausência de regras mínimas de respeito e educação tem obrigado, infelizmente, a soluções legais questionáveis. O gesto, de respeito básico civilizado, de pedir licença, deixar passar a quem mais precisa, parece já da esfera do Código do Procedimento Administrativo, quando a instrução básica falha.

Tentar atribuir a responsabilidade deste predomínio dos “feios, porcos e maus” sobre uma convivência civilizada, assente num respeito mútuo, matizado pela idade, pelo interesse cultural, social e vivencial, a uma falha do sistema educativo já não me parece razoável, há muito tempo.

Os ventos contrários da chamada educação formal, organizaram-se, há muito, e cada vez se impõem com mais força. Só não percebe aquele que não quer ver a intenção final.

O caos, em qualquer país, provocado por uns “bites jornalísticos de momento”, interessa sobretudo àqueles que não estimam a Humanidade nem o pensamento autónomo.


[E, para bom entendedor, não digo mais sobre “cidadões”, vizinhos, turistas, hordas futebolistas completamente desprovidos de noções mínimas de civilidade.]

Post de HMJ

Hoje e ontem


O cedro, das poucas árvores que crescem na horizontal, tem uma grande longevidade. No jardim do Príncipe Real (Lisboa), fundado em meados do século XIX, e que já foi chamado de D. Pedro V e de França Borges, existe um cedro do Buçaco enorme, com cerca de 20 metros de diâmetro (na copa), que é suportado por uma armação metálica, e que tem bastante mais do que 100 anos.



Mas se dúvidas houvesse, quanto à sua provecta idade, bastaria este postal com o carimbo de 13 de Fevereiro de 1903, para dissipá-las.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Uma questão de gosto


Embora politicamente situado, nada tenho contra a Direita, desde que civilizada, consistente e pensada. Moreiras, ainda que pedreiros-livres, Pintos, mesmo que salazarentos, porque estruturados ideologicamente, são-me estimulantes. Não me provocam nem urticária, nem alergia: obrigam-me ao confronto mental e ao debate interior, no aspecto político, o que é sempre salutar no plano das ideias.
Agora, não me obriguem, hoje, quinta-feira, a ir ao CCB, acompanhar o beija-mão da coscuvilhice, estar em fila indiana para o autógrafo duma pobre personagem algarvia, que esteve 10 anos em Belém, só para aparecer momentaneamente na TV. Apoiar a sua mediocridade, num ajuste de contas mesquinho com o passado, só revelaria, da minha parte, falta de gosto e de sentido crítico para com a História. Seria, no mínimo, excessivamente doentio.
Em contraponto, preferi trazer da rua do Alecrim, hoje, do meu alfarrabista de referência, dois livros (em imagem) de homens de Direita, para ler, mas que foram ideologicamente esclarecidos, coerentes, estruturados, consistentemente, na sua prática política.
Além de que os livros estão muito bem escritos...

Antropológica

Não é bem Kusturica, mas anda lá perto...

Citações CCCVIII


A infelicidade é indecente e não nos ensina nada.

Françoise Sagan (1935-2004).

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Divagações 120


O verde é suficientemente cuidadoso para só, pouco a pouco, se tornar evidente e mais intenso, até acordarmos de todo, mais a Sul, na manhã fria. Há-de colocar-se Pinhal Novo, na geografia, que é uma forma vaga de começar uma ficção que, certamente, nem vai acabar. E a tempo de ficarem pela frente, ainda, algumas urbes ou terras pequenas, onde seria possível criar uma credível realidade. Pelo meio, pode aparecer uma ânfora enorme nos socalcos do Guadiana, de origem ou uso difícil de descortinar, dois sarmentos improváveis muito direitos, um rosto indefinido, na estrada, que pode levar a nenhures... Mas que possa enovelar pelos seus traços, alguns dias futuros.
Mais ainda: um óbito inesperado lido no jornal, pela manhã, há muitos anos atrás, num café anódino de uma rua estreita que pode ter o nome de Cicioso, Raimundo ou de algo mais nobre - para o caso, tanto faz. Há sempre que dar alguma consistência a tudo aquilo que se escreve. A menos que andemos pelo mundo, simplesmente, por ver andar os outros.
Porque, acima de tudo, há que dar nome, razão, origem a uma paisagem que passa. Mas fica na memória.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

S. Valentim


Não deixa de ser curioso, ou irónico, que quase um ano depois de coabitação, os namorados tenham tido o seu primeiro grande arrufo, precisamente, no próprio dia deles.
Os padrinhos devem estar desolados...

Marie Jaëll (1846-1925)

Recomendado : sessenta e sete


Visita guiada com Pedro Chorão (1945) e José-Luís Porfírio (1943): Sábado, 18/2/2017, às 15h30.
Quem não viu, que vá e veja.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Cores


Daí se dizer, talvez, que o azul é uma cor fria...

De Emily Dickinson, um poema traduzido


Tão pouco que fazer
que tem a erva!
Simples, verde, e alongada:
única distracção, as borboletas
e por companhia apenas
alguma abelha
 que passa.



Emily Dickinson (1830-1886)

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Do rifoneiro castelhano (9)



1. Dijo el asno al mulo: arre allá, orejudo.

    (Diz o cavalo ao burro: arreda para lá, orelhudo.)

2. Caricias de puta y convites de tabernero, siempre cuestan dinero.

    (Carícias de puta e convites de taberneiro, custam sempre dinheiro.)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Do que fui lendo por aí... (6)


"...Bem galante, e certo proverbio he aquelle dos Gregos, que dis: Da guerra a pax, da pax a abundancia, da abundancia o ocio, do ocio a malicia, da malicia a guerra. Entre qualquer destas cousas me parecia a mim entremetter-se hum bom seculo de annos, mas os Portugueses querem-se parecer com Deos, querem em poucos dias faser muito, querem que o que havia de ser seculos sejão dias, porque na segunda feira ainda estavamos na guerra, na terça na pax, na quarta na abundancia, na quinta no ocio, na sexta na malicia, e no sabbado outra ves na guerra. Senhor, aquelle que aconselha guerra para lusimento da Magestade, não ama a Magestade, ama a guerra para lusimento proprio. ..."

Fr. Alexandre da Paixão, in Monstruosidades do Tempo e da Fortuna (pg. 174).

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Pinacoteca Pessoal 121


É, no meu entender, um dos retratos mais interessantes e singulares da Tate Britain (Londres), que encerra algumas dúvidas, provavelmente eternas. Sabe-se que é uma pintura do início do século XVII, provavelmente executada para a família de Thomas Cholmondeley, entre 1601 e 1610. O seu autor, perfeccionista e algo naïf, é desconhecido. As retratadas, filhas (?) do cavalheiro inglês, eram provavelmente gémeas e, por sua vez, teriam tido filhos, pela mesma altura. Aventa-se a sua identificação como sendo, já com o apelido de casadas: Lettice Grosvenor (1585-1612) e Mary Calveley (1585?-1616).
A obsessiva simetria do retrato faz dele um caso único (julgo), digno de estudo. E apreciação.