sexta-feira, 22 de março de 2019

G. F. Händel / Orlinsky / Wachner

Gulbenkian


Há quem confie na providência divina... Quem desconfie e, como antigamente, deixe pios legados eternos de missas a serem rezadas pela sua alma e em desconto dos pecados. Os homens práticos e ricos, hoje em dia, deixam fundações. Para tratar da saúde dos seus semelhantes, menos abonados em dinheiro. Para os elevar do seu nível rasteiro e para que fruam de uma cultura mais vasta e cosmopolita. Normalmente, dão a essas fundações o seu nome, na perpétua ânsia de eternidade que é a vaidade (perdoável) de cada ser humano.
De Calouste Gulbenkian (1869-1955), passam 150 anos, amanhã, sobre o seu nascimento. Ele que foi o outro, o grande e eterno ministro da Cultura, em  Portugal...

Uma fotografia, de vez em quando... (121)


Fritz Henle, nascido em 1909, na cidade de Dortmund (Alemanha), veio a falecer nas Ilhas Virgens (E. U. A.) no ano de 1993. Alguém o classificou como o último grande fotojornalista clássico freelancer e, na verdade, em 1936, ele foi contratado para a Time-Life, tendo também trabalhado para a revista Fortune.


Chamaram-lhe Mr. Rollei, pelo uso intenso que deu à sua Rolleiflex, ao longo da sua vida de fotógrafo, fixando cenas sociais, grupos e ilustrando acontecimentos, para as revistas norte-americanas. São também de destacar alguns bons retratos que fez. Entre outros, de Pablo Casals, do pintor Georges Braque e de Frida Kahlo.


quinta-feira, 21 de março de 2019

Passeios Outrabandistas 3: Recantos no Jardim dos Zagalos



Junto ao Pomar, do outro lado do Solar, ainda há uns recantos engraçados, como este poço também com azulejos.


É a mão que nos indica o caminho para o poço, para alem de uns ditos na placa ao lado.


Por fim, um dos placards com explicações sobre a zona e o próprio Solar. Aliás, na página electrónica da Câmara de Almada há mais informações, assim como o horário de abertura.

Post de HMJ

Pois façamos-lhe o gosto, que hoje é dia d'Ela...


a Heitor da Silveira *

Ceia não a papareis;
Contudo, por que não minta,
Pera beber achareis,
Não Caparica, mas tinta,
E mil coisas que papeis.
E vós torceis o focinho
Com esta anfibologia?
Pois sabei que a Poesia
Vos dá aqui tinta por vinho
E papéis por iguaria.

Luís de Camões (1524?-1580).


* de um banquete dado, na Índia, por Camões aos seus amigos. A que se seguiu um certame poético... E não há nada como o bom humor camoneano, para não levar as coisas demasiado a sério. Mesmo estas comemorações um pouco forçadas. Neste caso, pela Unesco, que até merece a nossa consideração.
Em tempo, Caparica já foi zona de bom vinho, e até Francisco Manuel de Melo o louvava.

Aqui ao pé


Continuo a gostar de falar de Portugal. Dividido entre o anglófilo de espírito e a germanofilia ordenada e atraente da classificação, o meu coração balança. Mas não os troco por este amor desordenado e íntimo pelas coisas nacionais. Por que o hei-de trocar por paixões assolapadas longínquas, ou por anunciar, pasmado, exposições, colóquios e manifestações culturais que não me estão ao pé de visitar? Terrunho, sim, mas não saloio deslumbrado...
Nunca me considerei garganta do Império, ou acrítico quanto ao que se passa em Portugal. Mesmo assim temos quanto nos basta, não vale a pena servirmos de propagandistas cegos de terras estranhas.
Pedro Barroso é que tem razão. Ainda ontem fui a Évora e vim de lá de alma lavada.

Bibliofilia 172.


Foi aqui, há mais de 40 anos, que assisti ao primeiro leilão de livros, em Lisboa.
O local foi-se chamando, ao longo dos tempos, Alto da Cotovia (século XVII), Praça da Patriarcal da Queimada (século XVIII), depois de um incêndio provocado, em 1769, na então Sé Nova lisboeta; para finalmente se fixar naquilo que é hoje, apesar da República, a Praça e o Jardim do Príncipe Real, a partir de finais do século XIX, com o seu gigantesco cedro centenário.
Esse leilão de livros, de que falei acima, foi promovido por Arnaldo Henriques de Oliveira, livreiro alfarrabista bem conhecido, para vender a biblioteca do coronel António da Cunha Osório Pedroso, em Maio/Junho de 1976, em espaço alugado, para o efeito, à que era então a Liga dos Amigos dos Hospitais, situada na Praça do Príncipe Real, nº 3.


Apontamentos, tomados na altura, permitem-me identificar algumas das obras que arrematei e respectivos preços que dei por elas. Assim:

Lote 4533 - História da Poesia Portuguesa do Séc. XX, J. Gaspar Simões (ENP)... Esc. 460$00.
Lote 4724 - A Velhice do Padre Eterno (Porto, 1885 - 1ªed.), Guerra Junqueiro..... Esc. 126$50.
Lote 4937 - Maximes, de La Rochefoucauld (Paris) ............................................... Esc. 345$00.


Este leilão de livros integrava-se na actividade periódica da Livraria Antiquária do Calhariz, que é hoje dirigida por José Manuel Rodrigues e que também leva a efeito almoedas, mas que, normal e ultimamente,  se realizavam, pelo menos até há pouco, na Casa da Imprensa, na rua da Horta Seca, ao Chiado.

quarta-feira, 20 de março de 2019

terça-feira, 19 de março de 2019

Passeios outrabandistas 2: Azulejos no Solar dos Zagalos



Então, a pedido das nossas leitoras, aqui vão mais impressões do nosso passeio. A imagem acima, com o jogo da cabra cega, corresponde a um dos panéis espalhados pelo jardim.


Eu gosto especialmente destes pequenos azulejos que se escondem por detrás de um enorme tronco de uma árvore. Temos que nos baixar perante a força da natureza para passar ou nos sentar nos bancos por debaixo do painel.


E é assim que descobrimos o conjunto perfeito.


O segundo para a despedida !

Post de HMJ

Contrastes

O património artístico é visto através de perspectivas muito diversificadas, consoante a cultura, a ideologia talvez, o meio social ou a ignorância de quem tem o poder para decidir sobre ele. Ainda não há muito tempo, um matarruano agente de cultura português facilitou a saída e venda para o estrangeiro de um quadro de  Carlo Crivelli (1430?-1495), cujas obras são escassas e raras... O governo, a que este pesado escritor policial e comentador desportivo pertencia, pouco tempo depois, também esteve para vender, na Inglaterra, um acervo considerável de telas de Miró, não fora a opinião pública esclarecida portuguesa se ter levantado em peso. Felizmente, esse acervo, que fora pertença do malfadado BPN, está hoje à guarda de Serralves (Porto), enriquecendo assim o património artístico nacional.



Na segunda metade do século XVIII (1773), a imperatriz Catarina II (1729-1796), a Grande, acolheu, mecenaticamente, na Rússia o enciclopedista Diderot (1713-1784), e como este tivesse dificuldades financeiras adquiriu, para o património do seu país, a biblioteca integral do escritor francês. Um pouco mais tarde, após a morte de Voltaire (1694-1778), a mesma Czarina veio a comprar a  biblioteca, na íntegra (cerca de 7.000 volumes), desse notável francês. Estes livros ainda hoje podem ser consultados em S. Petersburgo, com o interesse e curiosidade de muitas destas obras terem anotações manuscritas do próprio Voltaire.




Em sentido contrário, em relação à Rússia, e benefício directo para Portugal, por circunstâncias felizes do tempo e da fortuna, temos o caso da célebre escultura Diana, obra prima de Jean-Antoine Houdon (1741-1828), que hoje integra o especioso acervo do Museu Gulbenkian, em Lisboa.
Em 1930, o governo russo da altura, pressionado por grande escassez de divisas e dificuldades financeiras, resolveu desfazer-se de algumas jóias preciosas do seu património artístico. E, sigilosamente, o sr. Gulbenkian (1869-1955) aproveitou esta magnífica oportunidade para enriquecer a sua colecção de Arte.




Entre espíritos rurais e mentalidades esclarecidas, assim se pode ver a qualidade e a diferença de perspectivas, em relação à importância que cada um atribui à arte e cultura patrimoniais.
E é assim também que um país ganha ou perde...






Um ex-libris


Não sou muito dado a marcar a posse dos livros que compro. Na juventude, sim, apunha-lhes o nome e o ano de aquisisição. Mas esses sinais sempre têm virtualidades: marcam uma história e um percurso.
O ex-libris em presença vinha aposto à obra Nationality in History and Politics (Londres, 1944), do sociólogo e historiador austríaco Frederick Hertz (1878-1964), livro que comprei, usado, em 2018.
O anterior possuidor da obra terá sido, muito provavelmente e por isso, o olisipógrafo autor de Lisboa Seiscentista - Fernando Castelo Branco (1926).

segunda-feira, 18 de março de 2019

Passeios outrabandistas 1: Solar dos Zagalos




Ora, em começando o bom tempo, retomamos os nossos passeios, desta vez na outra banda.



Já conhecia o Solar dos Zagalos, assim como o seu jardim. Desta vez aproveitei a belíssima ideia de instalar um serviço público – o Espaço Cidadão – no Solar.


Com efeito, a pessoa trata da pragmática ao mesmo tempo que enche o olhar e a alma.

Post de HMJ

Fauré / Rostropovich / Dedukhin

A propósito da génese de "Les Demoiselles d'Avignon", de Picasso, por ele próprio


Como em tudo, há pioneiros e seguidores ou imitadores. Os que criam, imaginam ou inventam, e os que copiam, vão atrás e se sentem fascinados em acompanhar. Muitas vezes por moda e mimetismo, simplesmente. Sem se interrogarem, quanto às razões e fundamentos.
A etnografia e culturas não europeias começaram a ganhar visibilidade e importância a partir dos anos 30/40 do século passado, aquando de várias exposições (coloniais) multiculturais promovidas pelos países colonizadores, em diversas capitais da Europa.
Demorou tempo (1995), até que fosse completamente consensual a afirmação do presidente francês Jacques Chirac (1932), coleccionador avançado e sabedor de arte africana, ao dizer: Não há hierarquia entre as artes, como não há hieraquias entre os povos. Cada povo tem a sua mensagem particular a legar ao mundo... que pode enriquecer a humanidade e contribuir com a sua parte de beleza e verdade.
Quase 100 anos antes (1907), Picasso tinha chegado às mesmas conclusões - era um pioneiro. Depois de visitar o Museu de Etnografia, no Trocadero. Vale a pena transcrever as suas palavras que explicam, de algum modo, a génese da sua obra Les Demoiselles d'Avignon, inspirada pelas máscaras africanas que viu. Seguem-se, traduzidas de forma livre, as palavras de Picasso. Assim:

Quando fui ao Trocadero, desagradou-me. A feira da ladra. Os cheiros. Eu estava sozinho e queria sair dali. Mas não consegui. Fiquei e fui ficando. Compreendi alguma coisa importante: alguma coisa me estava a acontecer, estava mesmo?
As máscaras não eram como os outros tipos de esculturas.  De forma nenhuma. Eram objectos mágicos... Compreendi qual era o objectivo delas, para os Negros... todos os fetiches eram usados para a mesma coisa. Eram armas. Para auxiliar o povo a libertar-se dos espíritos, para se tornarem independentes. Ferramentas. Se dermos forma aos espíritos, tornamo-nos livres deles. Os espíritos, o inconsciente (e nunca será demais falar dele), a emoção, é tudo o mesmo. Percebi então porque era pintor. Completamente sozinho naquele terrível museu, as máscaras, as bonecas dos peles-vermelhas, os manequins empoeirados. "Les Demoiselles d'Avignon" devem ter vindo ter comigo, nesse dia, mas nem todas, por causa das suas formas; porque foi essa a minha primeira tela de exorcismo - sim, em absoluto!

Paris é uma festa?!


Só por ironia ou humor negro, nos podemos lembrar de um título célebre de Hemingway, para caracterizar o que se vai passando, todos os fins-de-semana, na capital francesa. Entretanto, aquele que alguns detractores chamaram, na altura da eleição, o idiota útil e que ele auto-transformou em Júpiter, talvez por ser do signo do Sagitário, parece ter sido completamente ultrapassado pelos acontecimentos. Ou incapaz de lhes pôr termo.

Mas não deixo de ficar profundamente surpreendido com o silêncio de chumbo com que os nossos afrancesados nacionais se têm comportado em relação à situação francesa actual. Parece que não se passa nada por lá, de anormal. Para não falar dos comentadores políticos, nos meios de comunicação portugueses, que fingem ignorar os acontecimentos ou titubear umas hesitações que nada significam de concreto.
Ou já tudo passou à história e à banalidade do dia a dia?


Porque será?

domingo, 17 de março de 2019

Citações CCCXCV


O tédio tem a sua expressão social no domingo.


Arthur Schopenhauer (1788-1860), citado por Roland Barthes, in O grão da voz (pg. 334).

Rodrigo Leão, para o entardecer deste Domingo

Pinacoteca Pessoal 148


Descendente, pelo lado paterno, de uma família russa, John Robert Cozens (1752-1797) nasceu e faleceu em Londres. Foi com o pai, que também era pintor, que aprendeu os rudimentos iniciais da sua profissão. E foi como paisagista que se distinguiu, temática que constitui quase exclusivamente a sua obra.

Alguns historiadores de Arte consideram que terá influenciado Turner e Constable, sendo que este último pintor inglês o admirava, considerando-o o maior paisagista de sempre. Cozens deslocou-se, pelo menos, duas vezes ao continente europeu, tendo pintado alguns quadros com motivos paisagísticos da Suíça e de Itália.

A quietude melancólica e o lirismo suave dos seus quadros, não fariam prever o desequilíbrio nervoso que o atingiu nos três últimos anos da sua vida.
J. R. Cozens está representado em vários museus britânicos e no Rijksmuseum de Amesterdão.


sábado, 16 de março de 2019

De Sophia para Ruben A.


Carta a Ruben A.


Que tenhas morrido é ainda uma notícia
Desencontrada e longínqua e não a entendo bem
Quando - pela última vez - bateste à porta e te sentaste à mesa

Trazias contigo como sempre alvoroço e início
Tudo se passou em planos e projectos
E ninguém poderia pensar em despedida

Mas sempre trouxeste contigo o desconexo
De um viver que nos funda e nos renega
- Poderei procurar o reencontro verso a verso
E buscar - como oferta - a infância antiga

A casa enorme vermelha e desmedida
Com seus átrios de pasmo e ressonância
O mundo dos adultos nos cercava
E dos jardins subia a transbordância
De redodendros dálias e camélias
De frutos roseirais musgos e tílias

As tílias eram como catedrais
Percorridas por brisas vagabundas
As rosas eram vermelhas e profundas
E o mar quebrava ao longe entre os pinhais

Morangos e muguet e cerejeiras
Enormes ramos batendo nas janelas
Havia o vaguear tardes inteiras
E a mão roçando pelas folhas de heras
Havia o ar brilhante e perfumado
Saturado de apelos e de esperas

Desgarrada era a voz das primaveras

Buscarei como oferta a infância antiga
Que mesmo tão distante e tão perdida
Guarda em si a semente que renasce
                                                                      
                                                          Junho de 1976


Sophia Andresen, in O Nome das Coisas (1977).


Curiosidades 72


Com frequência nos admirámos com as escoltas presidenciais, em algumas visitas ao estrangeiro. Sobretudo pelo número dos acompanhantes que são justificados pelos mais diversos motivos, que vão desde os comerciais aos culturais, entre os mais importantes.
Ora, as régias personagens de antigamente, em visitas, também não as faziam por menos. Em Janeiro de 1729, o nosso D. João V (1689-1750) encontrou-se, no Caia, com Filipe V (1683-1746) de Espanha, que trazia consigo um séquito de 16.000 pessoas.


O encontro destinava-se à troca, com vista aos futuros casamentos, dos filhos mais velhos, futuros reis e rainhas, na sucessão dos tronos de Portugal e de Espanha. No nosso caso, de D. José (1714-1777) e de Mariana Vitória (1718-1781), pelo lado castelhano, ambos ainda adolescentes.
Não sendo tão numeroso, o séquito português compreendia, no entanto, nada menos do que 222 cozinheiros e cerca de 1.000 criados de cavalariças!
Quanto aos meios de transporte, informa-nos Caetano Beirão (1892-1968), no seu livro Cartas da rainha D. Mariana Vitória (Empresa Nacional de Publicidade, 1936), dos seguintes números:
- 10 coches.
- 8 berlindas.
- 29 estufas.*
- 141 seges.
- 7 galeras.
- 12 carros.
Não se diga, por isso, que os nossos PR exageram no número dos seus acompanhantes, quando fazem visitas ao estrangeiro. Afinal, eles cabem todos apenas num avião da TAP, normalmente. Sempre se poupa alguma coisa, nas despesas de deslocação...

* pequeno coche antigo, de muitas vidraças e dois assentos.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Revivalismo Ligeiro CCXXVI

Ideias fixas 49


Somos amadores de paróquia rural em muitas coisas. Actores de muito pouca qualidade, ou de telenovela ronceira. Raramente chegamos ao desempenho profissional.
Repare-se, por exemplo, nas greves de fome à portuguesa, ou nos arrufos dos grupos privados de Saúde com a ADSE, e no tempo que duraram...
É por isso que, na Europa, muitos países não nos levam a sério. Justificadamente.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Memória 129


Em país de poetas, há muitos destes vates esquecidos que, pela minha bitola, são de segunda ou terceira linha e que as histórias da literatura, mais rigorosas e/ou resumidas, nem sequer registam no seu Cânone. Com os múltiplos versejadores, hoje incensados, vai acontecer o mesmo, dentro de 40 ou 50 anos - é a lei do Tempo.
Assim acontece com José Simões Dias (1844-1899), considerado por alguns como um romântico tardio, que teve algum nome e importância enquanto vivo mas que, actualmente, nem sequer os universitários de Humanidades devem conhecer, e que dedicou a Camões, esta singela quadra, a propósito de uma página de Os Lusíadas:

Se um dia o velho enfermo do occidente
Quiser saber se ainda é vivo ou não,
Poise sobre este livro a mão tremente,
E sentirá bater um coração!

Simões Dias, que era de família modesta e frequentou o Seminário, veio a ter uma vida amorosa pouco feliz. Também enveredou pela política e foi deputado bem sucedido. A sua obra poética está inteira nestas Peninsulares (em imagem, acima) que, à data da sua morte, já contava 5 edições.
O que muito pouca gente saberá, decerto, é que se lhe deve o nosso actual "Dia de Camões" ( e das Comunidades), que ele propôs para 10 de Junho, e como membro do Parlamento, na altura, fez votar, em 1879, como então denominado "dia de gala nacional".
Mesmo que só por isso bem merece ser lembrado...

Retro (103)



Prosseguindo a senda do Arpose, para contrariar a corrente dominante da net portuguesa que privilegia temas estrangeiros, com enorme entusiasmo ou cândido enternecimento provinciano, aqui fica este vídeo de Mário Ferreira, riquíssimo em iconografia, que nos transmite o ambiente do 1900 nacional.
São cerca de 17 minutos para quem disponha de tempo, paciência e vontade.
Lá aparece o Aterro lisboeta e a Livraria Lello (Porto) em foto muito singular, crianças esfarrapadas e mulheres embiocadas, profissões hoje em desuso, tipos populares, alguns anúncios (Somatose, por exemplo) de exterior, muito singelos e ingénuos, uma rara fotografia do Hospital de Sto. António, no Porto. E tocantes instantâneos de grupos familiares. Um mundo desaparecido, enfim...
Bom proveito, a quem o mereça!...

Algaravias (4)


Do Algarve, recordo com particular apreço Lagos, a Praia da Falésia e Vila Real de Santo António. Os areais circunvizinhos de Monte Gordo e os camaleões da sua mata, que eu julguei não haver em Portugal, até ver alguns rapazes a vendê-los pelas ruas, encavalitados nos seus ombros.
Destes regionalismos algarvios seguintes, começados por d e e, é que eu não conhecia nenhum...

1. Dar as inaiças - diz-se quando uma criança tem uma birra e bate com os pés no chão.
2. Desentòvada - mulher que não se arranja, desmazelada.
3. Despacha-recados - pessoa que ouve aqui e conta além; alcoviteira.
4. Divertir águas - urinar.
5. Dornilha - tigela de madeira em que se faz o gaspacho.
6. Embeque - empecilho, estorvo, obstáculo.
7. Empelochar - inchar; criar pressão.
8. Engrúmio - raquítico; enfezado.
9. Esgravulha - pessoa irrequieta, desassossegada.
10. Estronfar - ensarilhar; confundir; dizer uma coisa pela outra.

terça-feira, 12 de março de 2019

Comic Relief (149)


Com alguma frequência, o jornal Público vem acompanhado de suplementos publicitários, em papel de maior ou menor qualidade, com grafismo de mais pobre ou mais luxuriante bom gosto. A estética das ilustrações varia muito, e claro que depende, fundamentalmente, das personagens retratadas. Com regularidade, aparecem autarcas anónimos que se aperaltam todos, com o fato de ver a deus, para a foto do seu momento de glória.
No suplemento de hoje (Business), a capa deve ter sido trocada, inadvertidamente. Porque a beleza nédia da capa aplicar-se-ia muito melhor a um suplemento que glorificasse, exclusivamente, e/ou tivesse por temática as excelências de qualquer gastronomia regional...

Citações CCCXCIV


A nossa existência não é senão um breve intervalo de luz por entre duas eternidades de trevas.


Vladimir Nabokov (1899-1977), in Speak, Memory (1951).

VIANNA DA MOTTA (1868-1948) - BARCAROLA No 1, in A Minor, OP. 1

Adagiário CCXCIII



Mais valem alimpaduras na minha eira que o trigo de tulha alheia.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Desabafo (44)


Assisto, com alguma tristeza ontológica, à subserviência portuguesa a tudo o que é estrangeiro.
Basta passar por alguns blogues, para ver a pouquíssima atenção que dedicam a coisas nacionais.
Há por aqui, evidentemente, terceiromundismo mental, talvez vergonha à terrinha que os viu nascer e prosápia de mostrar, aos outros, que são viajados e cultos. Mas, isso, nota-se à légua, porque é mero ornamento balofo.
Tenho que ir a Pinhel, um dia destes!...