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quinta-feira, 9 de julho de 2020

Idiotismos 47


Não sei se é verdade, como li algures, que alargar o nosso léxico vocabular prolonga também o nosso horizonte mental e cultural. Talvez. Mas é indiscutível que, qualquer idioma, tem palavras moribundas ou já mortas e outras acabadas de nascer, que foram criadas para suprir e nomear novas coisas e competências inexistentes anteriormente.
Da recente leitura de A Ilha de São Tomé nos Séculos XV e XVI (1989), deparei-me com três palavras que desconhecia. Tomei nota. Eram elas:

1. Gatos-de-algália.
2. Arrátel folforinho.
3. Cagunchos (dos ditos açúcares).

Depois, fui ao Morais, para me documentar. Não tive grande sorte... Mas, através de outras fontes, consegui informar-me dos significados, razoavelmente. E aqui ficam as conclusões sobre os termos:

1. Civeta africana, mamífero.
2. Medida usada para pesar especiarias.
3. Remanescentes das canas de açúcar, depois de tratadas.

P. S. : naturalmente, a imagem que encima o poste é a de um gato-de-algália.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Filatelia CXXXV


Se o uso de sobrecargas em emissões filatélicas se destina, normalmente, a  actualizar ou dar conta de alterações institucionais em países ou nos próprios selos, as sobretaxas são usadas, muitas vezes, para suprir franquias que se esgotaram nos correios, de forma inesperada. Neste capítulo, os territórios de S. Tomé e Príncipe foram talvez a ex-colónia portuguesa onde mais sobretaxas foram usadas sobre emissões filatélicas anteriores.
Comecemos, então, pelo princípio. Por volta de 1890, apareceu por S. Tomé um cidadão inglês, de nome Burt, que resolveu comprar, nos correios da colónia, 2.500 selos da taxa de 5 réis, da emissão de D. Luís, de 1887, reproduzida, integralmente, na imagem inicial do poste. Não se sabe se o fez por gula filatélica, se para efeitos de especulação posterior. Nem sequer o que terá sido feito dessa enorme quantidade de selos.
Perante a emergência, logo Joaquim Augusto da Silva, administrador dos correios santomenses, oficiou ao Governador-geral no sentido de proceder à sobretaxa de alguns selos de 10 réis (mais tarde, de 20 réis e outros) da referida emissão de D. Luís, para substituir a taxa quase em falta. A sugestão foi aceite, superiormente.


Alguém, não satisfeito, e provavelmente com intuitos fraudulentos terá procedido de forma clandestina (?) à alteração das sobrecargas através de erros. Assim resultaram sobretaxas em posição invertida, duplas e outras variantes (como se pode ver na segunda imagem). E que, hoje, estão cotadas por altos preços quer em catálogos nacionais, quer internacionais.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Para uma bibliografia exaustiva de Jorge de Sena


Este pequeno texto (4 páginas) de Jorge de Sena (1919-1978), escrito, tinha ele somente 24 anos, será um dos iniciais, se não o primeiro, a aparecer impresso numa publicação com alguma difusão nacional.
De Outubro de 1937 a Fevereiro de 1938, Sena integrou, como cadete da Escola Naval, a tripulação do navio-escola Sagres, que o levou a um périplo pelas (então) colónias portuguesas de África.



É, seguramente, dessa viagem marítima que o Poeta de Fidelidade veio a retirar os tópicos principais para o seu texto A Ilha que perdeu o Equador que viria a publicar mais tarde (Maio de 1944), no número 125 da revista O Mundo Português. Recordações de infância, ligeiras efabulações e a Ilha de S. Tomé constituem a base deste texto juvenil de Jorge de Sena.
E que penso não constar da bibliografia oficial e conhecida do Poeta, cujo centenário de nascimento este ano se comemora.


sábado, 19 de janeiro de 2019

Filatelia CXXVI


A colecção de selos pode ter patamares muito diversos e especializações que o tempo vai permitindo, consoante o filatelista for, ou não, aprofundando os seus conhecimentos e as oportunidades surgirem, ao longo da sua vida. Desde que o interesse e a curiosidade se mantenham, ao longo dos anos.
Numa fase inicial, qualquer coleccionador procura livrar-se dos selos repetidos, trocando-os por outros, que não possua. É a forma prática de aumentar o seu conjunto, naturalmente.


No entanto, a fase clássica (até 1900) aconselha a conservação, na colecção, desses exemplares mais antigos. As irregularidades de fabrico, as variedades de cunho, os eventuais erros de impressão eram ainda frequentes nesse período do selo postal. Por isso, é vantajoso e útil, com a ajuda de bibliografia filatélica especializada, comparar esses exemplares clássicos, para averiguar as possíveis diferenças e anomalias de impressão.

Em 1979, tive oportunidade de comprar num sabedor e probo comerciante filatélico lisboeta, Adelino Cardoso, já falecido, uma extensíssima colecção de selos da ex-colónia de S. Tomé e Príncipe. Conjunto que pertencera a um diplomata português, que nos representara em Londres, nos anos 40. Esses selos, incluindo vários erros, tinham sido adquiridos, maioritariamente, na célebre casa Stanley Gibbons. Durante o PREC, e após a morte do Embaixador, a colecção fora vendida para Espanha, mas veio a ser readquirida por outro comerciante luso-espanhol, um pouco mais tarde, que, por sua vez, a revendera ao sr. Adelino Cardoso.
Deixo em imagem uma dupla do selo nº 145 (Catálogo Mundifil - 2015), com sobretaxa, em que o selo da esquerda apresenta as variantes do algarismo 5 (da sobretaxa) fendido, bem como de bandeira curta, o que o valoriza 4 vezes mais (100 euros) do que o seu congénere normal (25 euros), à direita.
Os selos da segunda e terceira imagens pertenceram à especializada colecção do referido diplomata português, que foi embaixador na Inglaterra.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Filatelia CXXII (... e alguma História...)


No período logo após a descolonização africana, e sobretudo nos anos 60, o mundo assistiu a várias tentativas de secessão de partes do território dos jovens países independentes. As mais  importantes terão sido o Katanga (de 1960 a 1963), no ex-Congo Belga, e o Biafra, no sudeste da antiga Nigéria inglesa. Estes surtos independentistas decorriam de mapas feitos, principalmente no séc. XIX, a régua e esquadro (a exemplo do mapa Sykes-Picot de 1916, no tocante à Palestina. E de que ainda hoje a região se ressente, negativamente...), no sossego de gabinetes dos governos europeus, que não levavam em linha de conta as diferenças de etnias, religiões e culturas dos povos africanos. Mas também da cobiça de companhias multinacionais desejosas de se reapropriarem das matérias primas do continente negro, num dissimulado neo-colonialismo de interesses.



Um dos casos mais trágicos terá sido a secessão do Biafra, encabeçada pelo general Ojukwu (1933-2011), da etnia ibo, mas que foi discretamente incentivada pela companhia francesa de petróleos Elf Aquitaine. Mas também apoiada por vários países europeus e africanos, de supremacia branca, como a França, Espanha, Portugal, Noruega, pela Rodésia e África do Sul. Esta secessão era também vista com simpatia pelo Vaticano e pelo papa Paulo VI. A guerra civil durou de 30 de Maio de 1967 a Janeiro de 1970. A tragédia foi de consideráveis proporções, com a morte de milhares de crianças à fome, apesar das ajudas de várias instituições internacionais.
O Biafra chegou a cunhar moeda e emitir selos próprios, de que damos conta da primeira e terceira séries. Bem como reproduzimos os respectivos Envelopes do Primeiro Dia. Por curiosidade, posso informar que o apoio do governo português ao Biafra se dava a partir das ilhas de S. Tomé e Príncipe.

domingo, 6 de março de 2016

Filatelia CXI (e algumas memórias avulsas...)


São sempre muito raras as folhas completas dos selos clássicos portugueses, bem como as das ex-colónias. Esta, que ora se apresenta em imagem, do selo de 50 réis (azul), pertence à segunda emissão (1881-85) dos selos de tipo Corôa, das ilhas de S. Tomé e Príncipe. Com os seus 28 selos e em muito bom estado, foi comprada em 1978, num afável e sabedor comerciante filatélico, que tinha escritório na Baixa de Lisboa. Creio que nascera em Óbidos, morava no Algueirão, e já faleceu. Dava pelo nome de Adelino Cardoso, era muito culto, coleccionava primeiras edições de Eça de Queiroz e tinha quase toda a obra de Miguel Torga, autografada.
Voltemos ao início. Uma folha inteira de um exemplar filatélico (neste caso, o nº 14 de S. Tomé e Príncipe, pelo catálogo Ateneu/Afinsa) permite um estudo mais detalhado e, sobretudo, verificar as variedades e a sua localização em folha. Consegui detectar 6 variantes do cunho I, a que a folha pertence, e no denteado 12 1/2. Por informação de Adelino Cardoso, esta folha de selos de S. Tomé e Príncipe, teria pertencido à valiosa colecção do 5º Duque de Palmela, Domingos de Sousa e Holstein Beck (1897-1969), que tinha sido embaixador na Grã-Bretanha. Parte dos selos teriam sido comprados em Londres, na conhecida firma filatélica Stanley Gibbons.
A colecção (ou parte dela) foi, depois, por alturas de 1975, vendida pela família Holstein, em Espanha. Parte dela, posteriormente, terá sido recomprada por um comerciante luso-espanhol, que a revendeu, já residualmente, a Adelino Cardoso. E, foi deste modo, que esta folha íntegra de selos de 50 réis, de S. Tomé e Príncipe, me chegou às mãos...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Miscelânea sobre comprimento e distância


1. Hoje, e pela primeira vez, alguém da República de S. Tomé e Príncipe veio visitar o Blogue. Vinha em busca do "sermão dos pássaros" (search words) e esteve a consultar (e ouvir?) o poste sobre a obra musical para piano: "Sermão de S. Francisco de Assis aos pássaros" (1862-63), de Liszt, interpretada pela húngara Etelka Freund. O poste é acrescido da pintura homónima, de Giotto.
Confesso que não fico totalmente indiferente às visitas das ex-colónias portuguesas, coisa que será estranha e irrelevante para as gerações posteriores à minha - o que é natural. De algum modo, há sempre alguma relação associada a esses recentes países. Uns porque lá combateram, outros porque lá tiveram família...
De todas as ex-colónias, apenas da Guiné-Bissau nunca ninguém visitou o Arpose. Mas o campeão de visitas é, seguramente, Cabo Verde, país que, por várias razões, muito admiro.
2. Quando eu era jovem, disseram-me que a palavra " ininterruptamente" era a mais longa (17 letras) da língua portuguesa, e nunca mais o esqueci. Embora não tenha a certeza dessa verdade. Nessa altura, também, o normal em nomes próprios era terem de 3 a 6 palavras. Muito raramente, tinham apenas 2, e algumas vezes 7 - era o máximo, em regra. Já mais tarde, nos Registos Civis, só aceitavam que os recém-nascidos fossem averbados com o máximo de 6 palavras, no nome. Haveria porventura algumas excepções justificadas...
Pois hoje, deparei no jornal, com uma notícia no obituário de uma falecida que possuía nada menos do que (incluindo o "dona") 24 palavras! O nome completo acabava por ocupar tanto espaço quase como o resto da notícia. É obra.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Filatelia XIII : selos clássicos falsificados


Desde cedo que os selos clássicos portugueses mereceram a atenção dos falsificadores. Os internacionais mais conhecidos foram Sperati e Fournier, mas este último apenas reproduziu selos tipo Coroa para as colónias portuguesas. Que se distinguem, entre outros pormenores, pelas muito mais largas margens entre a moldura do desenho no selo e o denteado.
Por vezes, os carimbos eram também falsificados. É o caso dos dois selos, na 1ª linha da imagem, falsificados de D. Maria II ( de 5 e 50 reis), de impressão e reprodução grosseiras. Destes e do selo de D. Pedro V (2ª linha) não se conhecem os autores falsários.
Na 3ª linha da imagem podem ver-se três falsificações Fournier, do tipo Coroa, e da ex-colónia de S. Tomé e Príncipe, cuja reprodução, sendo boa, se denuncia pelas margens muito maiores do que as dos selos originais.
P. S.: para ms.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Filatelia VII : Colónias


Singularmente e, ao contrário de outros países europeus, em monarquia (Bélgica, Holanda, Inglaterra...), que representaram os seus reis nas primeiras séries das suas colónias, Portugal usou apenas a Coroa ( desenho de Augusto Fernando Gerard) como símbolo e não a figura do rei D. Luís. Embora, posteriormente, os réis portugueses viessem a aparecer representados nos selos. As primeiras colónias a ter selos próprios foram: Angola (1870-77), S. Tomé e Príncipe (1870-77) e a Índia Portuguesa, logo a seguir - 1871.
Os primeiros selos da Índia Portuguesa são muito rudimentares e artesanais. São chamados nativos porque os meios utilizados, no seu fabrico, eram exclusivamente locais, de início. Estão representados na última fila da imagem que encima o poste. O desenho foi feito pelo engenheiro José Frederico d'Assa Castel-Branco e a execução dos selos teve o ferreiro Gouvinda Zó, como autor. Os restantes selos, de S. Tomé e Príncipe - na imagem - são comuns, praticamente, no desenho da Coroa, às restantes colónias portuguesas.