A brilhante notícia vem no jornal Público de hoje, sob os nomes (jornalistas?) de Gustavo Zeitel e Carolina Mendes, mas também aparece no online do Observador. A informação reporta-se aos desmandos dos manifestantes que invadiram o Palácio do Planato, em Brasília, danificando, de forma irremediável nalguns casos, património nacional brasileiro, nomeadamente um relógio que pertencera a D. João VI (1767-1826).
Só que o texto refere que este relógio fora oferecido ao rei português pelo monarca francês Luís XIV (1638-1715).
É aquilo que se poderia chamar um regresso ao futuro, pela bacoquice destes plumitivos de meia tijela...
A páginas 118 de Casa Grande e Senzala, obra de Gilberto Freyre, pode ler-se:
"O século da descoberta da América - o XV - e os dois imediatos, de colonização intensa, foram por toda a Europa época de grande rebaixamento nos padrões de higiene. Em princípios do século XIX - informa um cronista alemão citado por Lowie - ainda se encontravam pessoas na Alemanha que em toda a sua vida não se lembravam de ter tomado banho uma única vez. Os franceses não se achavam, a esse respeito, em condições superiores às dos seus vizinhos. Ao contrário. O autor de Primitive Society recorda que a elegante rainha Margarida de Navarra passava uma semana inteira sem lavar as mãos; que o rei Luís XIV quando lavava as suas era com um pouco de álcool perfumado, uns borrifos apenas; que um manual francês de etiqueta do século XVII aconselhava o leitor a lavar as mãos uma vez por dia e o rosto quase com a mesma frequência; que outro manual, do século anterior, advertia os jovens da nobreza a não assoarem o nariz à mesa com a mão que estivesse segurando o pedaço de carne; que em 1530 Erasmo considerava decente assoar-se a pessoa a dedo, uma vez que esfregasse imediatamente com a sola do sapato o catarro que caisse no chão; que um tratado de 1539 trazia receitas contra piolhos, provavelmente comuns em grande parte da Europa."
Do Bloc-Notes V (pg. 147), traduzindo, reproduzo um pequeno excerto de François Mauriac:
"«Senhor Marechal, não se é mais feliz, na nossa idade.» Foi esta a única objecção do idoso Luís XIV ao velho marechal de Villeroy que acabava de ser vencido e perder tudo em Ramillies."
"... um passeio no Bois (Paris) para despertar os músculos das noitadas de requinte onde o Jacinto tem brilhado de cabelos brancos apesar de não compreender o Picasso de Versailles para num passeio histórico ver os frangos bezuntados de Luiz XIV e o cheiro..."
Ruben A., in Páginas III (Coimbra Editora, 1956).
Nota pessoal: a torrencial capacidade de associação da escrita de Ruben A. (1920-1975) não deixa de registar inúmeros pormenores. Alguns saborosos, como este dos pequenos frangos, muito apreciados por Luis XIV, que os comia à mão, dispensando o garfo. Predecessor do nosso D. João VI que raramente saía sem levar as algibeiras atafulhadas de frangaínhos assados para seu sustento, durante as excursões...
Ao princípio era a colher. Mas é possível que tivesse sido a escudela que foi gradualmente adaptada, feita de madeira, a um uso unipessoal. Depois, a faca com seu duplo uso de arma e talher. Finalmente, e há cerca de pouco mais de três séculos, se começou a usar o garfo, que demorou tempo, até ser consensual e aceite por todos. O rei de França, Luís XIV (1638-1715), desaprovava o seu uso - Rossellini, no seu magistral "A tomada do poder por Luís XIV", dá-nos um pequeno apontamento desse facto, no filme.
E, com isto, a nossa dentição se foi adaptando, com o tempo, a estas ferramentas e ajudas exteriores que vieram facilitar as nossas refeições. Se, a princípio, os nossos maxilares coincidiam, como ainda hoje, os dos chimpanzés, pouco a pouco, no homem, o maxilar superior ganhou prevalência sobre o inferior. E os dentes incisivos deixaram de ter a importância fundamental que tinham no homo sapiens.
É destes aspectos curiosos que nos fala Bee Wilson, no seu interessante "Consider the Fork".
Quatro gatos sonolentos e ociosos ocupam outros tantos telhados predilectos, numa ignorância egocêntrica, uns dos outros. Cuidam-se, no seu bem-estar instintivo.
Enquanto o "Alfred", de Thomas Arne, vai rodando e trotando, alegremente, ao fim da tarde, o som alacre dos metais fala-me da caça, cujo cenário, na minha infância, muito ao contrário, se rodeava de sigilo e silêncio, passos medidos e cautos, na manhã mal desperta afogada em neblina e orvalho. Mas agora andam-nos a caçar a felicidade, a alegria, o simples viver. E o Poder sempre ignorou, olimpicamente, os outros. E a sua modesta forma de catar, no mais leve indício e pela luz do dia, os mais pequenos sinais de esperança.
O rei Luís XIV, de França, dispunha de 171 cães de caça. E, a seu uso próprio, 26 cavalos de qualidade. Três para as cerimónias, cinco para puxar o seu coche e ainda mais 18 para a caça, propriamente dita - talvez fosse feliz. Os esbirros de hoje são os cães de ontem. Caçam-nos a pouca felicidade que ainda resta. E, ao pensar nisto, não consigo abrir uma janela tranquila para a noite...
Mal amado ou esquecido, o Moscatel de Setúbal é pouco lembrado. E os que apreciam este generoso, optam muitas vezes pelo "muscat" duriense que Favaios costuma engarrafar em pequenas botelhas como se fora Martini ou Cinzano, para ser bebido como aperitivo. A região demarcada do Moscatel de Setúbal fez, há pouco, 100 anos, porque o decreto da sua criação foi despachado em 1907, autenticado por D. Manuel II e publicado em 1908. Mas o vinho já era apreciado, há muito, fora de portas, e Luis XIV não o dispensava nas suas festas de Versailles (José A. Salvador dixit).
Mas o que me apraz, hoje, destacar é que, muito recentemente (17 e 18 de Julho de 2011), numa prova internacional realizada em Paris, para apreciar "Muscat" de vários países, o Moscatel de Setúbal - Reserva de 2002 - da Casa Ermelinda Freitas foi considerado o Moscatel melhor do mundo e ganhou a medalha de ouro do concurso. É uma honra para a Adega de Fernando Pó que também orgulha Portugal ou, no mínimo, todos os enófilos portugueses. Evoé!
É um azul cinzento, com áreas deslavadas, que cobre a outra margem. As andorinhas dispersam-se em voos erráticos, um pouco tolos, baixos sobre o rio. Talvez prenunciando a chuva ou procurando, à tona da água, os raros insectos que lhes dão sustento. As nuvens correm para Sul, pelo céu pardo, e um casal de pombas, de um castanho sujo, namora-se revolteando na mansarda, em frente.
Soube, hoje, também a origem da palavra mansarda (ou águas-furtadas): vem do nome do seu inventor, Francisco Mansart que, durante o reinado de Luís XIV, as terá começado a construir.
E começou, agora, a chover sobre as mansardas de Lisboa. As andorinhas desapareceram de todo, o cinzento azulado vai-se intensificando com a aproximação da noite.
"A Tomada do Poder por Luís XIV" (1966), de Roberto Rossellini, é um dos meus filmes favoritos, e dos mais emblemáticos na demonstração linear das estratégias para a conquista do Poder. Rossellini assentou essa exemplificação em três aspectos principais: proximidade, modas, rituais de etiqueta. A estratégia de Luís XIV (1638-1715) define-se em 3 pontos muito simples :
1. O rei aproxima de si os inimigos e rivais, e, de uma forma geral, a nobreza francesa, para melhor os condicionar e controlar.
2. Cria a obsessão pela variedade, quase diária, de novas indumentárias que obrigam a nobreza a acompanhar as novas modas da Corte.
3. Elabora uma série de rituais e regras de etiqueta sofisticados e complexos que têm por objectivo, sobretudo, a glorificação da figura do Rei.
Para conseguir o 1º objectivo diminui os impostos à nobreza que vive na Corte. Os fidalgos acorrem a Paris para terem mais benefícios. Com as modas sucessivas e a etiqueta obriga a nobreza a um exercício diário de frivolidades que a ocupa, distrai e absorve, de tal forma, que as intrigas e conspirações contra o Poder real, praticamente, deixam de existir.
É isto que Roberto Rossellini demonstra, no seu filme "A Tomada do Poder por Luís XIV", de forma muito simples, mas magistral.