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terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Mercearias Finas 138



A saudade também tem vocação natalícia, mesmo que a não queiramos convocar ou ter por perto.
Iniciei-me na Mosca, em finais de 1968, ali para as bandas de Santa Apolónia. No bar da instituição militar quotidiana, era a única aguardente velha que havia e, democraticamente, era apreciada pelos cabos, sargentos, milicianos mesmo que requintados, e até mesmo pelo major Gaspar, que comandava o departamento, com o seu fino bigode à Errol Flynn e algum, morigerado, liberalismo marcial.
Depois dos cafés, os cálices eram bem pequenos, para não prejudicar a actividade produzida pelos serviços de informação e segurança, que se albergavam nas quatro paredes da instituição. E os milicianos, já muito pouco afectos à fé e muito menos ao regime, e, alguns deles, até confessos marxistas, que trabalhavam as FTI's e outros documentos, muitos deles provindos das (ex-)Colónias,  e que precisavam de lucidez bastante para elaborarem os semanais PERINTRANSREP,s (há dois Pedros, um pintor e outro ex-ministro que, se lerem este poste, sabem destas siglas aberrantes...). Naquela amálgama de gente, era flagrante e notório que o regime estava já minado por dentro.


No meio deste albergue espanhol, eu era um dos mais inocentes. Foi por essa altura que comecei a ler Le Nouvel Observateur, que o Martins, marxista confesso, assinava, consubstanciando, assim, teórica e ideologicamente, a minha ainda frágil cor política. Mas apanhei-lhe, também, o gosto, à Mosca. Ainda a fui comprando, depois de integrar a vida civil e enquanto a  José Maria da Fonseca a foi produzindo, estagiada que era passando pelos cascos envelhecidos e sabendo ao Moscatel de Azeitão, no travo macio posterior, prolongado.



Depois, acabou-se, deixei de a ver nas gôndolas das grandes superfícies, por meados dos anos 80, embora ela já viesse do longínquo ano de 1937. Provavelmente a aguardente moscatel teria deixado de ser moda, no consumo, e a empresa a tivesse deixado cair no esquecimento e sair do seu rol de produtos.
Anteontem, porém, voltei a vê-la, ressuscitada, e não resisti. Embora mais cara (cerca de 17 euros), era tão boa como outrora, que já a provei, nos seus 37º harmoniosos, e posso dar testemunho do aroma e do seu fino sabor a Moscatel...

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Mercearias Finas 97


Quando algumas mulheres começam a azedar nessa altura da vida, ao contrário, este clarete Camarate (de José Maria da Fonseca), com 46 anos, enfraquecido embora, mantinha  um equilíbrio assombroso para a idade. E um gosto de outras eras.
Esta colheita de 1969, com 12º, de Azeitão ("O vinho de Azeitão não é vinho, é vinhão."), de uvas prováveis da casta Castelão, tinha-o eu provado em 1980, pela penúltima vez, em S. João do Estoril, no mês de Junho, num jantar improvisado. Na altura - lembro-me - achei-o um pouco delgado. Também eu era mais jovem...
Assim, resolvi, algo céptico em relação ao conteúdo, dar a estocada final na derradeira garrafa que ainda restava, na garrafeira. Há dias, limpei-lhe o pó e, durante 36 horas, deixei-a de pé, cortando apenas o metal do gargalo encapsulado. Humedeci, na altura, a parte superior da rolha e deixei secar. Abri-o, depois, decantei-o e deixei o clarete a repousar.
Ontem, foi o esplendor, que dá a idade de um vinho de nobre linhagem.

sábado, 17 de abril de 2010

Mercearias Finas 6




O vinho foi por acaso. Não lhe gostava do nome: "Egoísta". O mesmo que o Casino do Estoril produz, em revista literária. Mas foi ele (o vinho) que me colheu, numa média-superfície destas novas igrejas ou catedrais de consumo. É nelas que, nas manhãs de domingo, os subúrbios, em vez irem à missa, vão às compras e se despejam em massas contínuas, ávidas, com a fome de séculos do campesinato pobre que a C. E. E. promoveu, ilusória e temporariamente. E de lá saem com os carros atulhados de sumos, cerveja, etc. Mas voltando ao "Egoísta" de 2005, tinto. O preço era jeitoso, mesmo para mim, que não sou grande apreciador de vinhos alentejanos tintos. Eu explico: sempre me dei mal com a casta de uvas "castelão" (ou periquita) - sabedoria de alguns anos de experiência feita: cai-me mal. E os vinhos tintos "alentejões" têm, muitas vezes, castelão ou periquita, este último nome tomado de uma quinta ("Quinta da Periquita"), na margem sul do Tejo, próxima de Azeitão. Que pertenceu a José Maria da Fonseca. Ora, este cavalheiro trouxe, em tempos já antigos, duma viagem que fez a França, alguns bacelos de Bordéus (castelão francês, também lhe chamam) e plantou-os na Quinta da Periquita. A casta é e foi generosa para com o viticultor. E, como era resistente e pródiga, cresceu, proliferou. Os vizinhos pediram-lhe cepas e ele, também generoso, foi dando. E a casta castelão (francês) foi inundando as Terras do Sado, o Ribatejo e o Alentejo. Em abono da justiça e verdade, os vinhos lotados com castelão, e mesmo os monocasta, são sempre sápidos e gulosos. Mas chega quanto a vinho tinto e castas de uvas.

Passemos a queijos de pasta mole, amanteigados, e de ovelha. Num pequeno supermercado, aqui à beira, enamorei-me, à primeira vista, dum queijo de Fornos de Algodres, de aspecto pejado e pródigo que me olhava da vitrine frigorífica, com os seus olhinhos interiores, pequenos e matreiros. Pesadinho, carote, mas não muito...Não resisti. E fiz bem. Em casa, casei-o, ao almoço, na sexta-feira, com o tal "Egoísta" do Alentejo. E foi casamento perfeito (vide Clássicos Sá da Costa) como o do Diogo de Paiva de Andrada. Quem me acompanhou, concorda. Eu recomendo. Vivamente.