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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Esquecidos (16)

 

Penso que a obra de João Guimarães Rosa (1908-1967), por cá, esteja relativamente esquecida e esgotada, embora já tivesse tido, em tempos, alguns fiéis leitores, daqueles que valorizam a riqueza lexical dos textos de ficção. Quero crer e espero que, no Brasil, o grande escritor de Cordisburgo continue a ser lido e estudado, como merece.



Repeguei, há dias, em Tutaméia (1967), como às vezes faço, pois é dos livros de Rosa de que mais gosto, e fui reler os "Prefácios", donde resolvi transcrever alguns pequenos excertos, para o relembrar, por aqui, e ao seu sentido de humor:

- O ar é o que não se vê, fora e dentro das pessoas.
- O avestruz é uma girafa; só o que tem é um passarinho.
- Entre Abel e Caim, pulou-se um irmão começado por B.
- Se viemos do nada, é claro que vamos para o tudo.
- O livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber.

sábado, 8 de julho de 2023

Mais 4 "greguerías" zoológicas de J. G. R.

 

1. O porco-espinho: espalitou-se.
2. As focas beijam-se inundadamente.
3. A zebra se coça contra uma árvore, tão de leve, que nem uma listra se apaga.
4. Seu leque gagueja: o pavão arremia, às vezes, como o gato no amor.

João Guimarães Rosa (1908-1967), in Ave, Palavra (pgs. 67/70).

domingo, 18 de junho de 2023

2 fragmentos de Guimarães Rosa



Estes dois fragmentos de Guimarães Rosa (1908-1967), que vou referir, fazem-me lembrar as greguerías de Gómez de la Serna (1888-1963). No fundo, eu diria que seriam conclusões de pensar o mundo e o real à luz da sensibilidade, com alguma dose de ingenuidade pueril e humor, prevalecentes.
As citações foram retiradas do livro Ave, Palavra (1985), que comprei recentemente à Livraria Lumiére.
Aqui vão os fragmentos:

"A coruja não agoura: o que ela faz é saber os segredos da noite.
...
Os corvos, tantamente cabeçudos, xingam o crasso amanhã com arregritos." (pgs. 194/5)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Carta de J. Guimarães Rosa para Óscar Lopes

Desconheço se esta carta, do singular romancista brasileiro Guimarães Rosa (1908-1967) para o professor e historiador de literatura Óscar Lopes (1917-2013), está inédita. Quem me poderia elucidar, já não pertence ao número dos vivos - o meu grande amigo António de Almeida Mattos (1944-2020).

Provavelmente, a fotocópia da missiva destinava-se a ser usada no Jornal Letras & Letras, do Porto, em algum dossiê sobre o professor universitário, e que este a teria facultado ao meu amigo António. Que, dentro de um envelope, que já me estava endereçado, o meu Amigo não me chegou a enviar. Foi a Isabel, a quem agradeço, que, encontrando-a, ma fez chegar.



Nota pessoal: resta-me acrescentar o interesse da carta. E, lateralmente, lembrar as amenas relações que existiram entre o António e o Professor Óscar Lopes. O que ajuda a explicar que eu tenha a oportunidade de publicar, no Arpose, este documento.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Manoel de Barros (1916-2014)

Uma das grandes singularidades do poeta brasileiro Manoel de Barros, tal como Guimarães Rosa (1908-1967), seu amigo, é que conseguia insubordinar as palavras da língua portuguesa, de forma a criar, nos seus poemas, virtualidades insuspeitadas, mas extremamente originais e novas. Para o caso, um poema seu: 



11

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.

Nesse ponto sou abastado.

Palavras que me aceitam como sou - eu não

aceito.

Não aguento ser apenas um sujeito que abre

portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que

compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,

que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.

Perdoai.

Mas eu preciso ser Outros.

Eu penso renovar o homem usando borboletas.


Manoel de Barros, in Retrato do Artista quando Coisa (1998).

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Superlativos


Às vezes, embora habituado aos abusos da linguagem, à leviandade e excessos sentimentais expressos em palavras que, hoje, já quase nada significam (o verbo amar, nomeadamente, anda todo esfarrapado), à força de serem mal usadas, ainda me surpreendo com o desatino e ligeireza de alguns sujeitos. Ontem, por exemplo, um plumitivo, que escreve por aí e tem algum nome na praça, ao referir a morte de Rubem Fonseca (1925-2020) caracterizava-o como o "maior escritor brasileiro do século XX". Por muito que eu preze o falecido, então qual será o valor de Graciliano Ramos ou Guimarães Rosa, de Drummond ou Cecília Meireles, para não falar de outros?
Tento na língua, não faz mal a ninguém!

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Divagações 154


Há autores com que nos cruzámos por um feliz acaso (Karl Kraus), escritores que, amigavelmente, nos indicaram (Guimarães Rosa), certeiros, outros ainda que vieram ter connosco, como se fossem de família, emigrantes de longes terras (W. G. Sebald).
Nem será pelo estilo, sardónico demais em Kraus, trabalhoso de descodificar, muitas vezes, em Rosa, plácido de territórios nas páginas calmas de Sebald, mas alguma coisa, em todos eles, me aproxima e atrai, intimamente. A começar, pelo modo de sentir ou de reflectir.
Que na leitura acompanho, paralelamente.

Nota pessoal: considero A Descrição da Infelicidade como o mais ambicioso e difícil de leitura, dos 7 livros que já li de W. G. Sebald. Aqui fica a nota preventiva...

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

O lugar de João Guimarães Rosa


Desarranjar a língua tem as suas virtualidades novas, a quem lê. Cria outras aberturas ao real, através de junções, à partida, incompatíveis de palavras que não se adaptam de todo ao discurso clássico ou normal de todos os dias. Tal como acontece em poesia. Na poesia maior, evidentemente.

A releitura de Grande Sertão : Veredas (1956), de João Guimarães Rosa (1908-1967) tem vindo a reforçar a ideia que eu já tinha da grande qualidade da sua prosa, sem esquecer todavia que o romancista brasileiro não será muito conhecido e apreciado em Portugal. Atente-se, porém, na riqueza sugestiva da sua prosa, por este breve excerto:

"... Como deu uma moça, no Barreiro-Novo, essa desistiu um dia de comer e só bebendo por dia três gotas de água de pia benta, em redor dela começaram milagres. Mas o delegado-regional chegou, trouxe praças, determinou o desbando do povo, baldearam a moça para o hospício de dôidos, na capital, diz-se que lá ela foi cativa de comer, por armagem de sonda. Tinham o direito? Estava certo? Meio modo, acho que foi bom. Aquilo não era o que em minha crença eu prezava. Porque num estalo de tempo, já tinham surgido vindo milhares desses, para pedir cura, os doentes condenados: lázaros de lepra, aleijados por horríveis formas, feridentos, os cegos mais sem gestos, loucos acorrentados, idiotas, héticos e hidrópicos, de tudo: criaturas que fediam. Senhor enxergasse aquilo, o senhor desanimava. Se tinha um grande nojo. ..."

( Grande Sertão : Veredas, pg. 48)

O livro (460 páginas) é um longo monólogo animado do jagunço Riobaldo que conta as suas perpécias e deambulações a um ouvinte não-interveniente. Três personagens ( Compadre Quelemém de Góis, Diadorim e o chefe do bando, Medeiro Vaz) têm destaque principal na narrativa, em que cada parágrafo funciona quase como um pequeno conto.
Para além de uma efabulação prodigiosa, com momentos próximos da prosa poética, o romance é pródigo em criação e re-recriação de palavras, mas também num léxico abundante de variedades botânicas e zoológicas brasileiras.
Em suma e na minha opinião, uma das obras maiores, em língua portuguesa, de todo o século XX.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Recomendado : oitenta


Não serei pioneiro, neste particular encómio. Já muita gente e vários blogues elogiaram esta Livraria da Travessa, na rua da Escola Politécnica, nº 46 (Lisboa), que abriu recentemente. Limito-me a confirmar a sua qualidade e diversidade dos livros à venda, em espaço de bom gosto e agradável. De origem brasileira, a empresa parece europeia de alma e conteúdo.
Eu levava dois nomes, debaixo da língua: João Guimarães Rosa e E. M. Cioran. Deste último escritor romeno-francês, trouxe Entretiens (2012), da Gallimard. Quanto a Rosa, havia apenas Sagarana, que eu já tinha. E, pela empregada da livraria, soube de um pormenor caricato: por força legal ou disposições da família (ela não sabia qual), as obras de Guimarães Rosa estão proibidas de serem vendidas fora do Brasil. O mesmo acontece com os livros de J. C. de Melo Neto. Que disparate!
A Livraria da Travessa não tem culpa desta bizantinice brasuca, por isso recomendo uma visita, vivamente.


sexta-feira, 26 de abril de 2019

Da riqueza e das dificuldades da língua portuguesa


Comecei a ler Aquilino já tarde. Creio que pelos idos de 70. Mas já me habituara a identificá-lo pelas capas sóbrias das suas obras, editadas pela Bertrand. Na Póvoa e por Agosto, costumava ver um advogado, frente ao mar e reclinado na sua cadeira de lona, absorto em leituras aquilinianas; o pai do meu amigo Chico, que era médico, também não dispensava, nas férias balneares, o seu Aquilino, repimpado frente ao Atlântico poveiro.
Quando me iniciei nas leituras aquilinianas não estranhei muito o seu vocabulário luxuriante. Já frequentava Guimarães Rosa, nessa altura, bem como o minhoto Tomaz de Figueiredo, para não falar de Camilo, que caprichava em usar as palavras exactas. O transmontano, médico também, João de Araújo Correia, veio mais tarde à minha mão. Também ele purista, terrunho, rico em aplicar tesouros e termos quase esquecidos em tudo aquilo que escrevia.
Há dias, comprei mais um livro dele, de contos (23) curtos, distribuidos por 97 páginas. Usado custou-me apenas 2,50 euros. Pequena monta para tanta riqueza lexical. Logo, nas duas primeiras e breves narrativas, me deparei com 6 estranhas palavras de que só conhecia, por vaga ideia, três delas. Que aqui deixo:
1. lambisqueira
2. galhipo
3. madrigueira
4. estriga
5. prear
6. calipígia.
Tenho grandes dúvidas que as novas gerações sejam atraídas para estas leituras, que lhes serviriam de enriquecimento notório da sua limitada língua portuguesa que, resumidamente, praticam. Sempre frenéticos e à procura de qualquer novidade estridente, estas antiqualhas devem parecer-lhes odiosas. Mas, com isso, estarão cada vez mais condenadas aos grunhos quotidianos do costume. E é pena!

para a Maria Franco, que é fã de Araújo Correia, com estima.

sábado, 30 de março de 2019

Aforismos, apesar de tudo


Sou levado a pensar que João Guimarães Rosa (1908-1967) era um homem sujeito a premonições. Algumas obsessões e medos íntimos. Andou meses, temeroso, a adiar a sua entronização como membro da Academia Brasileira de Letras, até que consentiu em marcar uma data (16/11/1967), para a cerimónia. Três dias depois (19/11), morreu em sua casa, vítima de enfarte de miocárdio.
O seu último texto, originalíssimo como toda a sua obra, foi o discurso da sua tomada de posse.
Desse texto longo, retirei alguns extractos que mais parecem aforismos. E aqui ficam:

Duvidemos, isto, dos que o não souberam compreender, a traça não pode com a alfazema.
...
O afeto propõe fortes e miúdas reminiscências.
...
De onde fura a fonte? Diga-se: valor.
O altamente impessoal, quer dizer, o personalíssimo profundo.
...
Tudo, pela metade, é verdade. Os extremos já de si sempre se tocam, antes que tese e antítese se proponham.
...
Da sensibilidade e inteligência tem-se sempre de pagar ingrato preço.
...
As pessoas não morrem, ficam encantadas.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Como íamos transcrevendo...


A prosa de Graciliano Ramos (1892-1953) é seca. Melhor dizendo, enxuta e essencial, sem desperdícios de adorno ou rodriguinhos de estilo, para fazer batota com o leitor e o seduzir, por aspectos secundários. No fundo, prosa honesta de homem sério.
Com Machado de Assis e João Guimarães Rosa ele pertence, para mim, à trindade magnífica e maior da ficção brasileira. Daí o facto de o ter escolhido, nesta temática sobre o passado-presente-futuro do País-Irmão, como ilustração exemplar daquilo que se pode vir a repetir, por lá.
Por isso, e como íamos transcrevendo:
                                                                                                                                                    
"... Agadanhavam-me e, depois de uma noite de insónia, despachavam-me para o Recife? Capricho. Certamente me forçariam a interrogatórios morosos, testemunhas diriam cobras e lagartos, afinal me chegaria uma condenação de vulto. Sem dúvida. Quais seriam os meus crimes? Não havia reparado nos enxertos em 1935 arrumados na constituição. Num deles iria embrulhar-me. A conjectura de que me largariam ao cabo de dois ou três dias, por falta de provas, sumiu-se. Aquela transferência anunciava demora.
Em frente de mim, os cotovelos na mesa, Tavares, sonolento, bocejava com dignidade bovina. Nenhuma aparência de cão de guarda: um boi. De espaço a espaço mugia uma questão, a que eu respondia por monossílabos, afirmando ou negando com a cabeça. Voltei ao carro de primeira classe, diligenciei entreter-me com as divagações do meu companheiro. Não conseguia, porém, dispensar-lhe atenção: mudo e chocho, isento de curiosidade, andava aos saltos no tempo, brocas agudas verrumando-me o interior. ..."


Graciliano Ramos, in Memórias do Cárcere (pgs. 39/40).                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       
                                              
                                                                                                                                                                                                                              

terça-feira, 19 de julho de 2016

Da leitura (14)


Ao seu romance Grande Sertão: Veredas (1956) chamou João Guimarães Rosa (1908-1967) "autobiografia irracional". Mas ele não destoa, de um modo geral, do registo da sua restante obra. A toda ela preside um tratamento onírico (poético?) da linguagem, onde o léxico antigo se mescla no regional, estrangeirismos sabiamente aportuguesados, convocando reminiscências sensoriais, sabedoria popular, mas também científica, num discurso que muitas vezes se assemelha ao piloto automático do surrealismo.
Por alguns aspectos os seus livros lembram-me, também, dois antigos escritores portugueses: Jorge Ferreira de Vasconcelos (1515?-1585) e, um pouco menos, Francisco Manuel de Melo (1608-1666). Nas Comédias do primeiro são frequentes os bordões de linguagem, normalmente, provérbios que o escritor utiliza num encadeamento vertiginoso em que é difícil distinguir o que são as palavras do autor e a sabedoria ancestral e popular. Idêntico processo se verifica em algumas obras do poeta seiscentista.
Voltando a Guimarães Rosa, de que releio Grande Sertão: Veredas. É manifesto o uso de adágios, existentes, ou criados para o efeito da função de máximas, que asseguram (numa espécie de suspension of disbelief) ou fortificam o decurso da narração que é um prolongado contar de história, quase monólogo, saborosíssimo, aliás. Por aqui deixo 4 pequenos exemplos das primeiras páginas:
- "...quem mói no asp'ro, não fantasêia. ..." (pg. 11)
- "Sua alta opinião compõe minha valia." (pg. 11)
- "...passarinho que se debruça - o voo já está pronto!" (pg. 13)
- "Sou só um sertanejo, nessas altas ideias navego mal!" (pg. 14).

sábado, 30 de janeiro de 2016

Da leitura (9)


Esta fase da minha vida, no que diz respeito a leituras, tem-se caracterizado por um grande fastio em relação à ficção. Para ser exacto, no entanto, terei de dizer que encetei, há dias, com agrado a novela O Cisne Negro (Estúdios Cor, 1957), de Thomas Mann. Não sei se o interesse se irá manter até ao fim, veremos.
Alberto Manguel, em Uma História da Curiosidade (Tinta da China, 2015), usa, para itinerário dos seus discursos capitulares, passagens de A Divina Comédia, de Dante. O livro parece-me irregular: capítulos interessantes alternam com outros menos agradáveis, talvez demasiado prosaicos, eruditos e com abundantes citações. Num dos capítulos, de que gostei particularmente, o escritor argentino fala de um professor (Lerner) que teve um efeito benéfico e influência grande, no aconselhamento de obras e autores que ainda hoje o fascinam. Vou transcrever uma pequena parte desse capítulo:
"...Quando somos adolescentes, somos únicos; quando crescemos, percebemos que o ser singular é, na verdade, um mosaico composto por outros seres que, em maior ou menor medida, nos definem. Reconhecer essas identidades espelhadas ou aprendidas é uma das consolações da velhice: saber que certas pessoas há muito transformadas em pó continuam a viver em nós, tal como nós viveremos em alguém cuja existência talvez nem conheçamos. Compreendo agora com 66 anos, que Lerner é um desses seres imortais. ..." (pg. 61)

Ao longo da minha vida, tive também pessoas que me aconselharam livros e leituras. Recordo duas, especialmente. A primeira foi um professor de Inglês, de nome Fabião, no meu 4º ano de Liceu, que me abriu caminho para Somerset Maugham, aconselhando-me a ler The Moon and Sixpence. Vim a encontrá-lo mais tarde, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde era leitor de neerlandês. O segundo conselheiro foi Eugénio de Andrade que me recomendou João Guimarães Rosa, na altura da minha ida para a tropa. E, porque falava muito de Juan Ramón Jiménez, acabei por vir a ler, também, o poeta do Moguer, com grande entusiasmo. São três autores recomendados que ainda hoje me dão prazer de leitura.


domingo, 20 de abril de 2014

Arte e estados de alma


Dizia Pessoa que a metafísica era uma consequência de estar mal disposto; e eu acrescentaria que uma forte constipação em nada contribui para o optimismo humano.
Que tom, ou atmosfera, ressuma das grandes obras de arte? Não, decerto, o da felicidade, embora por vezes o ver e o ler, por um certo mimetismo de experiências, tenham quase o sabor grato do encontro, onde, se não há alegria, ao menos se pode respirar e retirar tranquilidade, num equilíbrio paralelo de entendimento entre os humanos.
Quando saturado de leituras, faço uma pausa, é quase sempre por Simenon que recomeço. E, tirando dois ou três romances, os seus livros têm habitualmente um pano de fundo sombrio, um determinismo fatal, donde raras personagens se libertam. Mas, para mim, estas leituras funcionam como um antídoto - libertam as minhas defesas naturais. Tal como as reflexões pessimistas de Cioran.
Nem a poesia é a arte da alegria. A menos, que de versinhos se trate, ou quadras populares postas a circular por almas cândidas e leves. Mas tenho de conceder que há pinturas que me fazem feliz: algum Dufy, Renoir, Matisse... Da claridade da escrita de Yourcenar à ingenuidade sem culpa de algumas personagens de Guimarães Rosa - quanto à prosa - há que ir por aí...

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Dois Amigos


Há dias, descobri com agrado que Manoel de Barros (1916), insuficientemente conhecido e grande poeta brasileiro, fora grande amigo de João Guimarães Rosa (1908-1967). Sabê-lo, no entanto, foi como se uma evidência, para mim. Porque há neles, uma comum inocência humilde, mas forte, de querer decifrar o mundo, por outras palavras. Ou por o querer dar a conhecer, ao leitor, por palavras novas, mesmo que inventadas para se ajustarem melhor a misteriosas realidades. Um, pela poesia, o outro por uma prosa, tantas vezes, poética.
A simplicidade é, muitas vezes, desvalorizada; mas será bom pensar que ela só acontece através da sabedoria da experiência, e pela ousadia de repensar tudo de novo. Ou noutra perspectiva diferente da que aprendemos de forma automática e que, inconscientemente, nos parece inata e verdadeira, em absoluto. Só assim a Arte, seja qual for a sua expressão, consegue avançar por novos caminhos. Em literatura, através da reconquista de velhas palavras que deixámos de usar, ou que usamos, todos os dias, de forma adormecida e mecânica.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Idiotismos 22


Anteontem, MR, em comentário ao poste "Arte e especulação", referiu a expressão tuta e meia e, logo a seguir, perguntava-se: "De onde virá esta expressão?" Ora, eu também não sabia, e pus-me a caminho... Comecei por procurar no "Tutaméia", de Guimarães Rosa, a ver se o grande escritor brasileiro a explicava. Realmente, a páginas 166, ele dá o seu significado pessoal, assim: "nonada, baga, ninha, inânias, ossos-de-borboleta, quiquiriqui, mexinflório, chorumela, nica, quase-nada." Ora, isso eu sabia, embora resumidamente. Mas cadê a origem?
Pois fui encontrá-la no Dicionário de Houaiss: "uma macuta e meia, por assimilação, macuta deu matuta; por hiplologia, uma macuta reduziu-se a uma tuta;..." Resta acrescentar que "macuta" era uma moeda africana, de cobre, com pouco valor.
Quod erat demonstrandum...

para MR.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Umas quase greguerías, de João Guimarães Rosa


A mesma prodigiosa imaginação, sentido de humor, domínio de palavras, inteligência que assistia a Ramón Gómez de la Serna, na criação das suas greguerías, podemos encontrá-los nos postulados do final do primeiro prefácio de "Tutaméia" (1967), de João Guimarães Rosa (1908-1967). Dos vários, escolhi 5:

- Os dedos são anéis ausentes?
- O ar é o que não se vê, fora e dentro das pessoas.
- Entre Abel e Caim, pulou-se um irmão começado por B.
- Há uma rubra ou azul impossibilidade no roxo.
- Se viemos do nada, é claro que vamos para o tudo.

sábado, 22 de junho de 2013

Reler J. Guimarães Rosa (1908-1967)


"...-Ora, ora a vida do pobre é: beber, briga e repariga... A gente viaja padecendo, pois é, pois. Tiro o menos por você, Surupita: para você tudo não parecia tão diabo e tão bôbo. P'ra você, passar fome e sêde não é nada, você arreséste a tudo que quer. Mas você aprova comigo: só quando se está com mulher é que a gente sente mesmo que está lorde, com todos os perdões... Que é que se está vivendo, mesmo. Afora isso, tudo é poeira e palha, casca miúda. A gente vai indo, caçoando e questionando, agenciando, bazofiando, tendo mêdo, compra isto, vende aquilo... Como que na gente deram corda. Homem não se pertence. Mas, um chegou, viu mulher, acabou-se o pior. Começa tudo, se tem nova coragem..."
(...)
"...De relongo de reouvir e repensar, Soropita extravagava. Sim escorregava, somenos em si - voltava ao quarto com a rapariga inventada: as sobras de um sonho. Mais falavam de Doralda, se festejavam. A rapariguinha estava ali, em ponta de rua, felizinha de prêsa, queria mesmo ser quenga, andorinha revoando dentro de casa, tinha de receber todos os homens, ao que vinha, obrigada a frete, podia rejeitar nenhum... - «Até estou cansadinha, Bem...» E se despendurava de abraço, flauteira, rebeijando. Rapariga pertencida de todos... Ao ver, àquele negro Iládio, goruguto, medonho... Até o almíscar, ardido, dêsse, devia de estar revertendo por ali, não sendo o que aquela menina gastava em si um rio lindo de bom perfume... Ela tãozinha de bonita, simples delicada, branquinha uma princesa - e aceitando o prêto Iládio, membrudo, franchão, possanço... Ah, êsse cautério! - Soropita se confrangia.  ..."

João Guimarães Rosa, in Dão-Lalalão (pgs. 36 e 39).

sábado, 1 de junho de 2013

Três andamentos, com glosa final


1. Era uma vez um menino que nasceu cego para as coisas da terra. Só via o mar e o que nele havia. Sabia caminhos nas águas, carreirinhos. Dizia: a luz nasce do mar e não dos astros. A claridade lhe chegava do azul, ainda molhada e, depois, flutuarejava nos céus. (...)
2. De tanto esperar o amor, ele acabou por amar a espera. Era Horácio, de olhos inodoros, vida acanhada e sonhos aguados. Tímido e desencorpado, ele era um subexistente. Os outros arrumavam-se com as namoradas. Horácio não, solteirava em estado de deserto sensual. (...)
3. Eu estava cheio de um desses cansaços que nos pesam mais que o corpo. Cansado de ter raça, cansado de ter nome. Estava cansado de ser. Que repouso concedermo-nos nestas alturas senão darmos feriado à existência? E era o que eu estava a dar seguimento naquele dia, fugindo-me do mundo, dando pausa ao pensamento. (...)

Este último Prémio Camões que, merecidamente, galardoou a obra  do moçambicano Mia Couto (1955), como que me sabe a celebração póstuma de Guimarães Rosa (1908-1967). Porque, queiramos ou não, é esse arquétipo que é convocado, embora num registo pessoal e africano. Mia Couto não deixa de ser um filho directo e dilecto do grande escritor brasileiro de Cordisburgo.

Nota: as transcrições são retiradas da obra "Cronicando" (Ndjira, 2008), de Mia Couto.