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segunda-feira, 13 de junho de 2011

Divagações 8


A lua faz-se redonda, a pouco e pouco, e a luz de Junho ainda cresce, arredando a noite para mais tarde.
A velhice vai abatendo as defesas do rigor, quase regressa às emoções da infância, mas também aqui há uma benevolência amável da memória, na procura da felicidade. Os tercetos ficaram sempre na gaveta, porque os achei infelizes, canhestros, demasiado sentimentais.
Mas partir é sempre limitar e reduzir. A cidade que fora minha, já não é. E os regressos são obrigações apenas, que se cumprem a custo. Ou em piloto-automático. Mesmo em Agosto, que era o mês da aventura, junto ao mar, outrora. Mas quando sobram horas e já não há casa que nos acolha, cresce um desconforto imenso pelo lado mais íntimo da tarde, em volta do jardim deserto da cidade vazia. Onde eu brincara, tanta vez, ao longe.
Rumoreja a água sobre o pequeno lago, e qualquer banco serve, porque não há gente, nem os carros passam. O jornal está lido, o cemitério visitado, a campa, florida. No bolso há uma chave, um pouco enferrujada e inútil, que atiro para a água. E, gradualmente, desatinadas, as palavras vêm à tona, para serem escritas:
Fecho a porta de casa sobre a última
noite e trago a chave sem saber
a quem a dar.

Nem mesmo estas
palavras têm sentido: alguém
as irá ler como eu as disse?