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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Apontamento 130: Instrução




Pese embora o aumento da escolaridade obrigatória, constata-se uma degradação acentuada no que se refere a uma instrução básica, ferramenta essencial para uma realização pessoal digna desse nome.

A minha constatação, não sendo recente, encaminhou-me, desde sempre, para obras com o tema genérico da “ensinança”, desde os “espelhos dos príncipes”, “tratados sobre a educação dos nobres” até aos “vademecuns” como o acima reproduzido.

Confesso que sempre aprendi imenso. Do livrinho de Francisco José Freire, e recordando um verso de Luís de Camões, sobre o seu “discreto secretário”, ficamos, pois, a saber que uma das principais perfeições do secretário é, como não podia deixar de o ser, a “observância do segredo”.

Passando das qualidades às imperfeições, não deixei de reparar nos defeitos da prolixidade, sobretudo olhando ao panorama que nos rodeia no quotidiano.

Assim, explica o autor o defeito da prolixidade: “Chamo prolixidade a huma certa vastidão, e grandeza de Cartas, que dizendo pouco em muitas palavras, causa fastio a quem lê. Livra-se por tanto o Secretario de amplificações, digressões, e de outras semelhantes, e fastidiosas locuções. Fuja de multiplicidade de textos, e authoridades: e busque sempre ser breve, com tanto que naõ tire a energia ao conceito, de que usa na sua Carta.”

Sublinhei, portanto, os conselhos de superior sabedoria do autor, muito recomendáveis a escrevinhadores actuais, aduzindo que ele associa a prolixidade à “escuridade no dizer” e, claro está, à ignorância“, quão grande defeito seja em hum Secretário.”

Post de HMJ

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Bibliofilia 143


A bibliofilia escora-se, mais tarde ou mais cedo, em obras sólidas, quando não eruditas, que podem apoiar impressões pessoais nossas anteriores, vagas percepções, informações avulsas, mas também gostos e convicções que se vão tendo com os anos. Acrescem a prática e os conhecimentos adquiridos. Este Manual Bibliographico... elaborado por Ricardo Pinto de Mattos, funcionário da Biblioteca Pública do Porto, mas revisto e prefaciado por Camilo, é uma fonte rica de informações diversas, e até preços, de livros pouco frequentes e importantes.
No prefácio, Camilo aproveita para fazer o panegírico de outro grande conhecedor e bibliófilo nacional, a quem muito se deve - Inocêncio Francisco da Silva.


Esta obra conceituada de consulta editada pela Livraria Portuense, em 1878, adquiri-a usada ao livreiro Tarcísio Trindade, por volta de 1990, por Esc. 7.800$00, numa altura em que os livros de referência ou pouco frequentes tinham valor seguro, estável, quando não crescente. O volume (584 páginas) pertencera, como se pode ver pelo ex-libris, a Sebastião Alberto Centeno Fragoso, que foi médico e publicista, bem como foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem Militar de Santiago de Espada, em 1946. E o livro está bem encadernado.


Exprimi, ainda não há muito tempo, a ideia e convicção, aqui pelo Arpose, que o livro usado, exceptuando obras raras, tem vindo a baixar de preço, de forma concreta e sustentada. Foi por isso que não me surpreendi excessivamente ao constatar que a Livraria Ecléctica leva a efeito um próximo leilão Online, de 31/1 a 6/2/2020, em que esta obra de referência tinha uma base de licitação de 11 euros, quando, aqui há 4 ou 5 anos, dificilmente os lances, sobre este título de bibliografia, se iniciavam por menos de 50...

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Bibliofilia 142


Ornado o frontespício com uma singela e ingénua gravura alusiva ao tema do texto (Hospital do Mundo), este opúsculo é apenas um dos 12 folhetos, correspondente a Dezembro, que José Daniel Rodrigues da Costa (1756-1832) fez editar através da Oficina de Simão Thadeo Ferreira, todos os meses, durante o ano de 1805.


Abstemo-nos de falar do autor leiriense pelas várias vezes que, já aqui, abordámos a sua vida e obra, que foi extensa*, embora não de primeira água. Os seus trabalhos destinavam-se a leitores pouco exigentes, mas eram  um eficaz instrumento divertido de leitura. 
O folheto custou-me, desencadernado de uma miscelânea, e quase na viragem do século: Esc. 3.000$00.

* Para se ter uma ideia da prolixidade de JDRC, posso informar que João Palma Ferreira no seu trabalho "Apontamentos sobre José Daniel Rodrigues da Costa e a Fortuna da Sátira", na bibliofilia (incompleta) activa do autor, contempla 87 entradas, de 1877 a 1830. A minha biblioteca conta com 21 títulos do escritor, dois dos quais não constam dessa lista. O que perfaz 89 obras...

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Bibliofilia 141


Com mais de 25 títulos publicados, os Cadernos de Poesia, das Publicações Dom Quixote, apesar do preço (Esc. 25/ 35$00) da época e modesta apresentação tiveram elevado prestígio nos anos 60/70, e muitos dos seus números esgotaram e vieram a ser reeditados (Neruda, Carlos de Oliveira, Vinicius, O'Neill...) posteriormente.
O volume 18, de Maria Teresa Horta (Minha Senhora de Mim), foi retirado do mercado, pela Censura estadonovista e obras de Natália Correia (As Maçãs de Orestes) e de Sophia (Grades) esgotaram, atestando o interesse que a poesia feminina despertava nos leitores de então.
Não creio que as tiragens fossem pequenas, mas ainda hoje estes livrinhos têm grande procura. Alguns são até muito pouco frequentes, nos alfarrabistas, e, quando aparecem nas lojas ou em leilões da especialidade, saem caros.
Um dos casos mais sintomáticos é o volume 19, desta colecção, editado em 1971. Anotem-se, para exemplo, os três preços mais de recentes (2019) de Vocação Animal, de Herberto Helder:
- Leilão online da Olx (Agosto) : lote vendido por 50 euros.
- Na BestNet, exemplar arrematado por 100 euros.
- No próximo mês de Dezembro (4 e 5), a Livraria Olisipo (lote 310) anuncia um exemplar, com uma estimativa de venda entre 100 e 200 euros!
Donde se poderá concluir que Herberto Helder é um valor seguro, até porque nem todos os poetas que constam dos Cadernos de Poesia, da Dom Quixote, atingem este elevado preço...

domingo, 20 de outubro de 2019

Bibliofilia 141


Polémica para a época, esta Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica foi publicada, em Novembro de 1965, por Fernando Ribeiro de Mello (1941-1992), sob a chancela da editora Afrodite, com prefácio, selecção e notas de Natália Correia (1923-1993) e ilustrada por Cruzeiro Seixas (1920). A obra acabou apreendida pela Censura estadonovista e os responsáveis da edição foram julgados em tribunal. Até vir a ser reeditado, o livro saía normalmente caro em leilões, por haver poucos exemplares "sobreviventes"...

O meu exemplar comprei-o em finais dos anos 80 por Esc. 2.800$00 e tem uma dedicatória do editor Ribeiro de Mello (para Fernanda Botelho?).
Num leilão de José Manuel Rodrigues, em 1993, foi vendido outro exemplar (lote 260) por Esc. 8.500$00. Em Julho de 2006, o Boletim Bibliográfico de Luís Burnay incluía a mesma obra, brochada, sob o lote 32, ao preço de 68 euros.
Presentemente, exemplares desta primeira edição, de 1965, vendem-se bastante mais baratos.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Bibliofilia 140


Não sendo rara, esta edição de 1925 de Il Canzoniere, de Francesco Petrarca (1304-1374), impressa em Milão,  tem um aparato competente e muito completo de notas produzidas pelo filólogo e docente universitário Giuseppe Rigutini, que vieram a ser ampliadas por Michele Scherillo, também  ele especialista na matéria.


Comprado em meados dos anos 80, por valor que não anotei na altura, o livro fora bem estimado pelo anterior proprietário que o mandara encadernar dignamente a um artífice  de comprovados méritos - Frederico d'Almeida, que tinha casa aberta, em Lisboa, na rua António Mª. Cardoso, nº 31.
Ficou assim a obra bem protegida, para largos anos vindouros.


terça-feira, 17 de setembro de 2019

Idiotismos 46


Em finais dos anos 80 do século passado, tive ocasião de visitar no Gürzenich, em Colónia, uma magnífica exposição-venda de Livros Antigos, com inúmeras bancas de conhecidos alfarrabistas europeus e norte-americanos, principalmente. Do catálogo luxuoso, que pude consultar, constava apenas um livro português: Arte da Cavallaria de gineta, e estardiota, bom primor de ferrar & alveitaria... (1678), obra de António Galvão de Andrade (1613?-1689). O volume, obra-prima da impressão portuguesa, e em muito bom estado, estava precificado a 1.100 marcos alemães. Ainda hoje sai muito caro em Portugal, quer em leilões de livros, quer nos alfarrabistas.


Do longo título do volume, sobressai o termo estardiota (ou estradiota) que eu já conhecia e sempre achei exótico. Palavra que traduz uma forma própria e clássica de montar das senhoras, de lado. Hoje, creio que raramente se usa e as modernas amazonas cavalgam exactamente como os homens, com cada perna para o seu lado.
Alguns dicionários registam o termo como sendo: "arte de montar firmando-se o cavaleiro nos estribos e estendendo as pernas." Há quem anote o significado de soldado mercenário albanês, e quem dê a palavra como proveniente do italiano stradiotto (soldado).


Creio, no entanto, que cavalgar à estardiota era apanágio e privilégio de damas nobres e rainhas, que assim se faziam representar, mais femininas, compostas, e dignamente. Como a rainha Victória, em Balmoral, neste quadro de Charles Burton Barber, de 1876.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Últimas aquisições (17)


Publicação prestigiada, mostra-se em imagem a capa do primeiro fascículo (6) da segunda série de Cadernos de Poesia, editado em Lisboa no ano de 1951, sob a égide de Jorge de Sena, José-Augusto França, José Blanc de Portugal e Ruy Cinatti. O primeiro colabora neste número com 3 poemas de 1948 e 1951.


A primeira série dos Cadernos de Poesia, compreendeu 5 fascículos e foi publicada entre 1940 e 1942, inserindo poemas e artigos dos mais importantes poetas, escritores e ensaístas portugueses da época. Aquando da saída deste fascículo nº 6, todos os anteriores se encontravam esgotados.


Por curiosidade, anote-se que o preço de cada fascículo era de Esc. 5$00, como se pode ver na contracapa. Evidentemente que este fascículo, que adquiri recentemente, usado, foi mais caro. Mas, dada a sua raridade, creio que teve um preço justo, no meu alfarrabista de referência.


Nota pessoal: creio poder afirmar, com segurança, que esta Ode não foi recuperada por Jorge de Sena, posteriormente, para a sua Obra. Não consta, pelo menos, de "Poesia - 1" (Morais, Lisboa, 1961). O que permitirá concluir, talvez, que o Poeta a considerava um poema menor.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

1454


A data-título, acima, marca o ano do primeiro livro impresso no mundo - a Bíblia de Gutenberg.
Produzido em Mogúncia (Mainz - Alemanha), é conhecido, dos especialistas e bibliófilos, pela sigla B42 por a mancha tipográfica conter, em cada página, 42 linhas impressas.
A Taschen editou, recentemente, uma edição fac-similada do precioso volume, ao preço de 100 euros. Saíu também, há pouco, da autoria de Eric Marshall White, um volumoso estudo (465 páginas) sobre a história desse primeiro livro impresso da nossa civilização, com o título Editio Princeps.
Nele se referem várias curiosidades sobre a obra que terá tido uma tiragem inicial de 180 exemplares, dos quais, completos, estão referenciados e localizados 49 "sobreviventes". O ano de 1978 é considerado o annus mirabilis da Bíblia de Gutenberg, porque nessa data foram à praça, em leilão, 3 exemplares do livro, dois dos quais foram adquiridos por bibliotecas alemãs.
O preço máximo atingido pela obra foi de 5,39 milhões de dólares, em 1987. O lance final pertenceu à  universidade Keio de Tóquio que, provavelmente, é a única instituição oriental a possuir uma edição original da famosa Bíblia de Gutenberg.

Nota pessoal: consegui introduzir a imagem no poste, mas através de outro computador e de Lisboa. Será que o boiocote do inefável e marcano Google se destina só à região outrabandista?

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Bibliofilia 179 (em jeito policial...)


É uma primeira edição talvez de um livro menor de Graham Greene (1904-1991), volume a que falta o que os ingleses chamam a dust jacket (sobrecapa) original. A obra Nineteen Stories, com 232 páginas, foi publicada, em 1947, pela William Heineman Ltd. (London - Toronto). Custou-me usada, há cerca de 2/3 anos, apenas 5 euros e vi na net ofertas do mesmo livro que iam de 8,5 a 35 euros. Mas o meu exemplar está muito manuseado e a lombada encontra-se parcialmente descolada do lombo da pasta. Daí, o preço.


Alguns sinais e o estado, porém, parecem sugerir um percurso acidentado e, pelo menos, algo curioso deste volume. Sei que pertenceu, antes de mim, a uma pessoa ainda viva e conhecida que se desfez de parte da sua biblioteca, provavelmente, por questões de espaço. Essa personagem terá recebido o livro de uma familiar, de nome Diana (mãe?), que lhe apôs, manuscrito, o nome e a data, bem como o local: Lisbon, 1991. Que eventualmente o recebeu de presente de uma tal Aunt Ba, no Natal de 47, conforme dedicatória.
Ou terá havido alguém pelo meio? Talvez.


Finalmente, no verso interior da contracapa há um misterioso carimbo ostentando os dizeres: The Bookin Book Club, Kensington W. B. Terá o livro sido desviado, subrepticiamente?
Nesse caso, e como diria um detective: cherchez la femme...

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Um poeta à margem


Já aqui falei dele algumas vezes. Até porque os poetas nem sempre são seres angelicais...
Nascido na Baía (Brasil) em 1633, Gregório de Matos veio a falecer em Pernambuco, no ano de 1696. Andou por Coimbra, onde se formou em Leis e começou a poetar de forma desbragada. Regressou ao Brasil, montando banca de advogado, mas não foi muito bem sucedido no negócio de causídico. Temiam-lhe talvez a língua viperina e daí o alcunharem de Boca do Inferno.
Por razões ignoradas foi deportado para Angola, por onde (Luanda) andava "boémio, quase louco, sujo, mal vestido... de viola ao lado, tocando lundus e descantando poesias obscenas...", segundo um contemporâneo, que o conhecia.
O folheto, que dá corpo às imagens, tornou-se raro, embora tenha tido uma tiragem de 1.000 exemplares, em Novembro de 1982. É o número 15 da colecção & etc / contramargem e tem uma nota introdutória de Aníbal Fernandes.
Na altura, o livrinho (32 páginas) custou-me Esc. 100$00.


quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Mercearias Finas 148


Não vem à colação o excurso pelo almoço, que foram costeletinhas de borrego, bem apaladadas, com esparregado e batatas fritas, acompanhadas por um Chardonnay estreme e francês. Mas porque, ao arrumar uns livros, me deparei, meio escondido, com este maneirinho (12 por 17 cm.) Caderno do Refeitório, editado em 1983, pela Barca Nova Editor e com notas de Luís Filipe Coelho.


A obrinha, com 106 páginas e ilustrações de Luís Ruas, reproduz um livro publicado, em 1887, por António Macedo Mengo e dado à estampa por David Corazzi, em Lisboa, que, por sua vez, salvava da obscuridade e esquecimento, um manuscrito conventual do século XVIII (1743?).
Para imagens e traslado, escolhi matéria prima de que gosto, particularmente.



Muito embora a época da Lampreia já tenha passado - Fevereiro e Março é o seu tempo certo - e as Perdizes, com sabor silvestre e autêntico, só lá para Outubro, com a abertura da caça, é que comecem a apetecer, regadas por um tinto com uns anitos e à maneira.

domingo, 28 de julho de 2019

Bibliofilia 178


Nos meus tempos de frequentador assíduo de leilões de livros, ficou-me a lembrança de algumas figuras características, nas suas preferências apaixonadas, da singularidade de alguns comportamentos humanos, no aceso das almoedas. Se uns licitadores eram discretos, outros mostravam a sua exuberância ruidosa, outros ainda o seu mau feitio e birras. Quanto a temáticas, havia um discretíssimo licenciado em Farmácia que se abalançava, tenso, a livros quinhentistas, um general na reserva que não perdia uma camoniana, um industrial corticeiro que comprava muito e diverso, um alfarrabista sorumbático que não perdia nunca um lote de livro raro que começasse a licitar...
Quanto a camilianistas, lisboetas, nunca dei por nenhum muito importante, mas havia os que vinham do Norte, quando o leilão era significativo, como este da Soares & Mendonça, que foi organizado pelo alfarrabista portuense Manuel Ferreira. E que tem um gostoso prefácio do bibliófilo e grande jornalista Raul Rego (1913-2002), que aqui deixo em partilha, pela sua qualidade intrínseca.


Não faltavam nesta riquíssima almoeda de Fevereiro de 1968, as muito raras edições originais camilianas de A Infanta Capellista (1872) ou do célebre folheto Matricidio sem Exemplo..., (capa em imagem, abaixo) que terão feito porventura as alegrias dos afortunado arrematadores.
Não tive oportunidade de assistir a este importante leilão, porque me encontrava, em Mafra, a cumprir o serviço militar, mas vim a adquirir, mais tarde, o catálogo desta almoeda da Soares & Mendonça, por 9 euros, no meu alfarrabista de referência - em boa hora.

para MR, obviamente, e com estima.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Catálogos e enumerações


Confesso-me um leitor interessado por bibliografias, catálogos de leilões, por listas enumerando produtos culturais diversificados. Sobretudo, se essas relações vêm enriquecidas de notas apropriadas, ilustrando a descrição e qualidade dos objectos através de um aparato crítico elucidativo. A enumeração pura e simples deixa-me quase sempre insatisfeito pela aridez que, muitas vezes, se assemelha a um balanço ou inventário burocrático de um armazém comercial, anódino.


Foi, por isso, que com agradável surpresa vim a descobrir, por entre os meus CD arrumados, um inesperado catálogo de edições de música erudita que a FNAC produziu, em anos recuados, e que eu guardei, pela qualidade desse pequeno livro de publicidade nobre. A selecção inclui 258 obras gravadas de música erudita, capa com reprodução de um quadro de Amadeu Souza-Cardozo, e colaboração de Rui Vieira Nery. Bem como um glossário musical, biografias de compositores e apreciação crítica das gravações.
Ainda bem que o guardei!

terça-feira, 18 de junho de 2019

Bibliofilia 176


Por razões que não importam, veio o volume da estante dos dicionários para a minha secretária. E dei-me a folheá-lo, com gosto e proveito informativo.
Esta obra de Pierre Chompré (1698-1760), francês licenciado em Direito, foi editada, em França, no ano de 1727, pela primeira vez, e rapidamente se tornou um best-seller. Ciquenta anos depois (1777) já contava 13 edições. A primeira impressão portuguesa, traduzida provavelmente por José Pedro da Fonseca, saiu em 1779, creio. Le Dictionnaire de la Fable, medianamente erudito e útil, serviria de apoio e ilustração a oradores sagrados, poetas românticos e neo-clássicos, homens de leis e advogados, e até políticos, para os seus discursos.


A mitologia, a literatura clássica, a fábula e a história antiga são os seus motivos essenciais.
O meu exemplar, de 1836, em língua portuguesa, com encadernação de pele, mas cansada, está rabiscado na folha de rosto e tem marca de posse manuscrita na última folha em branco. O miolo e o texto estão íntegros e perfeitos, no entanto.
O livro custou-me, em meados dos anos 80, Esc. 400$00. A livraria Candelabro tinha à venda, recentemente, a primeira edição portuguesa (1779) ao preço de 75,00 euros, também encadernada.


Por curiosidade, reproduzo a marca de posse manuscrita de um dos seus últimos possuidores, que terá frequentado o Seminário de Coimbra, em 1895.

sábado, 25 de maio de 2019

Memória 131 (de uma Colecção)


Os tempos leveiros de espírito que vamos vivendo, talvez ajudem a explicar a inexistência, que eu saiba ou me lembre, actualmente, de uma colecção de ensaística com a qualidade desta da Ática, em imagem, que se prolongou por quase três décadas, em Portugal.
Mas também a Sá da Costa, a Verbo, a Editora Ulisseia tinham as suas colecções de estudos e ensaios que, não sendo propriamente académicos, ajudavam os leitores a pensar e a desenvolver o sentido estético e crítico.


Hoje, as editoras estão mais preocupadas e interessadas em promover obras de auto-ajuda, para uma população cada vez mais carecida de competências e infantilizada, biografias pífias de pivots televisivos para consumo bisbilhoteiro do populacho, ou ficções paupérrimas de publicistas que fazem da sua exposição pública o ganha pão da sua actividade mercenária. O ensaio deixou de estar na agenda da edição e também, talvez, do público leitor.


Dos ensaístas aqui representados, apenas José-Augusto França (1922) sobrevive. Mas é sempre um reencontro enriquecedor revisitar Sena, Mourão-Ferreira e Prado Coelho nas páginas memoráveis destes ensaios da Ática.


terça-feira, 23 de abril de 2019

Bibliofilia 174


Dia Mundial do Livro - dizem. E dos Direitos de Autor, que se celebram hoje, convencionalmente.
Ora, o livro mais antigo, que eu tenho na minha biblioteca, é ainda do século XV, porque a sua data de impressão é de 1600, considerado o último ano desse século, para efeitos de demarcação, no tempo.
Trata-se de Primeira Parte das Chronicas dos Reis de Portugal, de Duarte Nunes de Leão, impresso em Lisboa, por Pedro Craesbeeck. Uma primeira edição que Tarcísio Trindade (1931-2011) anotou, a lápis, de "raríssima", na sua caligrafia limpa e característica. Ao invulgar volume, falta-lhe infelizmente a folha de rosto e o índice, o que desvaloriza o livro. Mas a obra, de resto, está perfeita e íntegra de texto.
Contextualizando. Por alturas do mês de Julho, nessa época, e depois de receber o subsídio de férias, eu costumava acompanhar, minuciosamente, a entrada de livros, na rua do Alecrim, nº 44, para seleccionar uma obra mais cara e rara, a que a minha bolsa, mais bem recheada, se podia permitir. Depois, desencadeava a pergunta sacramental, que apenas uma vez por ano pronunciava: Sr. Trindade, qual é o menor preço que pode fazer a este livro?
Foi assim que adquiri, alguns dos livros mais importantes da minha biblioteca tais como as Definições e Estatutos...da Ordem de Christo (1628), também impresso por Pedro Craesbeeck, uma rara primeira edição de Rubén Dário, com dedicatória, de 1897, El Parnasso Español... (1652), de Quevedo, a edição original de Clepsydra (1920), de Camilo Pessanha, e alguns, poucos, mais.
Paguei pelas Chronicas..., em 1990, Esc. 15.000$00, ao sr. Tarcísio Trindade. O livro pertencera, anteriormente, ao advogado Abel Maria Jordão Paiva Manso, conforme ex libris. Recentemente (2017), a mesma obra, mas totalmente íntegra, estava à venda num conhecido livreiro-alfarrabista lisboeta, por 1.400 euros.
E esta é a minha história bibliográfica para o Dia Mundial do Livro que, hoje, se celebra.


segunda-feira, 22 de abril de 2019

Em sequência de Simenon, e apoio iconográfico do poste anterior


Há tendência um pouco generalizada para esquecer os roman durs de Georges Simenon (1903-1989), em benefício dos extraordinariamente populares, ainda hoje, Maigret. É entendível e fácil de perceber.
Se os polar do escritor belga estão praticamente todos traduzidos na colecção Vampiro (73 volumes) e pela Bertrand (49 livros), dos durs, só uma pequena parte foi vertida para português.
Também a Bertrand publicou alguns e na colecção Miniatura se podem encontrar (hoje, só nos alfarrabistas, claro!...) quatro títulos (n.º 42, 83, 89 e 107), que aqui vão em imagem.
Agora reparem nas magníficas capas de Bernardo Marques (1898-1962) e comparem com a indigência estética que capeia grande parte dos livros que, hoje, se publicam em Portugal...


sábado, 13 de abril de 2019

Bibliofilia 173


Em abono da verdade, devo começar por dizer que, tirando Verlaine e até ao século XX, eu nunca fui grande entusiasta da poesia francesa. Mas o século passado já me trouxe, pelo menos, dois grandes poetas franceses: Saint-John Perse e René Char, de minha frequência estimada, ainda hoje.
Quanto à história, a narração é simples, embora tenha contornos misteriosos que eu nunca descobri.
Aí pelos anos 90, sempre que eu ia à Livraria Artes e Letras (Largo Trindade Coelho, agora, nas Avenidas Novas, Lisboa), namorava e folheava, com particular atenção um volumoso lote de números da revista Po&sie, publicação prestigiada que começara a editar-se em 1977, pela mão do poeta e tradutor Michel Deguy (1930), e que era dedicada a estudos e continha poemas de escritores franceses e estrangeiros, alguns deles traduzidos (Paul Celan, Umberto Saba, Sylvia Plath...). Mas Luís Gomes precificara os exemplares muito caros para o meu gosto: 10 euros os números simples, 15, cada um dos duplos.
Ora, inesperadamente, a Livraria mudou de dono, durante cerca de um ano, passando para a direcção de Carlos Bobone, também ele livreiro-alfarrabista. Que procedeu a rearrumações e à marcação de novos preços dos livros usados, alguns muito abaixo dos antes praticados. E foi assim que eu acabei por limpar a prateleira das revistas Po&sie e, em duas abadas felizes, trouxe de lá 18 números (entre o nº 50 e o 98), ao preço de 3 euros, cada um. E que fazem parte, agora, da minha biblioteca.
Resta acrescentar que, meses depois, a Livraria Artes e Letras voltou a pertencer ao seu anterior proprietário - e aqui é que reside o mistério. No interim, no entanto, eu tinha aproveitado os saldos...


quinta-feira, 4 de abril de 2019

Valores perenes


Por indícios vários e razões muito diversificadas, de que não excluo a internet, obliquamente, tenho a convicção enraizada de que o livro antigo, usado, de uma forma geral, baixou de preço ou, pelo menos, não aumentou. Abro uma excepção para os livros raros, naturalmente, que se foram valorizando mais.
Mas, há dias, ao pagar um livro usado de Vitorino Nemésio (1901-1978), num alfarrabista, apercebi-me claramente, embora não fosse uma obra rara, que o livro não me saíra barato. HMJ, que me acompanhava, também estranhou. Concluí, assim, que há autores que não perderam valor com o tempo, nem se depreciaram no interesse que despertam...
A Forum Auctions (Londres) levou a efeito, recentemente, um leilão de livros que incluía o exemplar 66 (de uma  tiragem especial de 525), assinado pelo autor, de The Little Prince, de Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), na primeira edição da versão inglesa (1943) da conhecida obra do escritor francês. Com uma estimativa de venda entre £ 8.000 e 12.000. (Os exemplares não assinados são muito mais baratos.)
Garantidamente, Saint-Exupéry mantém a sua alta cotação...
Ou talvez, e apenas, o escritor tenha acertado na alma errante dos homens, para sempre.