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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Recomendado : setenta e sete - correspondência de Teixeira Gomes


Nestas cartas e postais endereçados a João de Barros (1881-1960), palpita movimento e vida. Melhor diria, alegria e raiva de viver. A correspondência, que vai de 1919 a Julho de 1941, poucos meses antes da morte de Manuel Teixeira Gomes (1860-1941), nunca é monótona, mas de leitura agradabilíssima.
Impressões de viagens, descrições paisagísticas lindamente escritas, opiniões políticas e cortes na casaca, com apreciações por vezes acerbas e duras sobre alguns políticos da época e escritores coevos e confrades, a correspondência inclui também textos de ficção-realidade de grande beleza. De que eu destacaria uma descrição de um Copejo algarvio, de grande realismo, à altura dos textos de Raul Brandão e Paul Valéry, sobre o mesmo tema.
Altamente recomendável a leitura deste livro, com um interessante prefácio da jornalista Manuela de Azevedo (1911-2017), só é pena que a obra tenha tido pouca divulgação. Aqui estou, porém, a fazer a minha parte, lembrando-a...

os maiores agradecimentos a H. N..

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Da Janela do Aposento 47: Moldar o pensamento único



No caso em apreço, não vale a pena fazer uma declaração de interesse prévia, porque nunca participei, de uma forma consciente e assumida, na terrífica engrenagem dos exames nacionais. Sujeitei-me, consequentemente, ao estatuto menor da docência, i.e., não leccionar a matéria do 12º Ano. O que para alguns era a “cereja em cima do bolo”, o último ano sempre o considerei um tempo perdido para o essencial, a saber, o de contribuir para pensar, com autonomia, saber e empenho.

Convenhamos que, há muito tempo, os exames nacionais, introduzidos com o argumento de peso de tornar a avaliação final mais objectiva, contribuem para treinar criaturas a reproduzirem determinados chavões. Basta olhar para os chamados “cenários de resposta”, que os alunos são instigados a “encornar”, para perceber o enquadramento formal e ideológico dos correctores, reduzindo as respostas ao “grau zero da escrita”.

Ora, o que o mais tosco estudante de Línguas e Literaturas devia ter apreendido na sua passagem pela Universidade é o facto de qualquer língua constituir um sistema de combinação inifinita – graças aos seus criadores – o que faz com que nenhum texto, tanto sobre matérias exactas como de literatura, seja idêntico. Felizmente, e em louvor da LÍNGUA !

Olhando, pois, para a deriva dos exames nacionais que, vergonhosamente, enriquecem determinadas editoras, publicando reproduções de exames oficiais anteriores a preços exorbitantes, fica a tristeza e a revolta profundas perante tanta falta de seriedade, brio profissional e sentido democrático na defesa da língua e da literatura.

Como não faz parte do meu universo desejar “sorte” aos examinandos, porque considero que uma prova, qualquer que ela seja, se destina a avaliar um quadro de referências linguísticas, literárias, culturais e sociais, construído paulatinamente e que nos permita, com autonomia, pensar a vida e o mundo que nos rodeia, resta-me a apreensão perante mais uma amputação de cidadania, implícita nos exames nacionais que se avizinham.

Portanto, o ressurgimento das sebentas, no ensino universitário, não me espanta. É a consequência lógica de um “bom caminho” que a educação está a traçar. E que ele seja, de preferência, em Inglês, a bem da internacionalização !

Post de HMJ

sábado, 18 de janeiro de 2014

Da Janela do Aposento 42: Em louvor da nossa linguagem



[para consulta em: BNP, purl.pt 120, ex. incompleto]

No meio de consultas várias somos, por vezes, obrigados a "sair da direita estrada", metendo-nos por "semideiros escusos", como dizia Fernão Lopes. Foi o que me aconteceu hoje.
Entrei pelos "semideiros" das Gramáticas e demorei-me, sobretudo nas duas primeiras. A de Fernão de Oliveira, de 1536, na imagem acima e, de seguida, na de João de Barros, na edição de 1540, impressa por Luís Rodrigues. 


[para consulta em: BNP, purl.pt. 12148]

Não resisti, pois, a reproduzir o início da Grammatica da Lingua Portuguesa, de João de Barros, porque reencontrei essa magnífica imagem do "iogo de enxedrez" para explicar a existência das duas classes, nome e verbo, comparando-as a dois reis. Aliás, o meu gosto pela leitura de Gramáticas reside, essencialmente, no prazer de encontrar métodos e formas diferentes para explicar a mesma matéria.
Confesso, no entanto, que prefiro as gramáticas antigas, porque têm o mérito de se cingir ao essencial, deixando para os especialistas o acessório.
Assim, da minha "janela do aposento" já posso olhar, distanciada, para uma deriva linguística com que pretendem encher a cabeça das pobres criaturas.
É pena que ninguém lhes fale da existência de dois reis, o nome e o verbo, "comque o nósso intendimento reçebe as mais das cousas" !

Post de HMJ

domingo, 8 de maio de 2011

Leituras Antigas XXXII : Clássicos para crianças


Leitores de hoje foram-no, ontem, na maior parte dos casos, também (ainda crianças ou adolescentes), leitores destas adaptações de grandes obras clássicas, publicadas pela Livraria Sá da Costa. As novelizações ou adaptações em prosa foram feitas por António Sérgio, Aquilino Ribeiro, João de Barros e Marques Braga. As capas e ilustrações nas páginas interiores pertenciam a Alberto de Sousa, Emérico Nunes, Martins Barata, J. Pedro Barata, e eram muito sugestivas. Os livros começaram a ser publicados nos anos 40 do século passado, mas ainda hoje são reeditados pela Sá da Costa, onde se podem comprar. Eram um óptimo veículo intermédio para uma criança, quando já adulto, vir a interessar-se e aceder aos textos clássicos originais.