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sábado, 30 de março de 2019

Profissão assistida


Já Nicolau Tolentino se queixava de ter que aturar meninos, na sua profissão de mestre-escola, para sobreviver economicamente e poder ter algum tempo, ainda livre, para dedicar ao seu prazer maior que era escrever poesia. Esquecia ou, melhor, omitia que o vício do jogo lhe consumia uma boa parte dos rendimentos auferidos... Melhor sorte teve José Daniel Rodrigues da Costa, seu contemporâneo, que conseguiu viver do que escrevia e publicava, mas teve que trabalhar muito e deixar obra larga.
Que isto da poesia não é boa enxada, nem lucrativa, pelo menos, em Portugal.
De prosas viveu Camilo, mas teve que se esgadanhar a escrevê-las. E se não fossem os bens e rendimentos da Dª. Ana Plácido, provavelmente, ainda teria vivido pior. Eça também se queixava muito, apesar de escritor de sucesso e diplomata em exercício, que não seria mau ofício quanto a salário, decerto. No século XX, só me lembro de Ferreira de Castro e Agustina terem vivido da pena. Cesariny, só quando se desdobrou em pintor, é que teve um crescente desafogo na bolsa. E foi pela pintura que enriqueceu.
Li em Le Monde, recente, que são raríssimos, em França, os escritores que não têm uma segunda profissão, para poderem sobreviver. Lá como cá, seguramente.
E dos novos lusos publicistas? De tão fraca laia e escrita de água chilra? Viverão de biscates e croquetes de vernissages? É que muitos deles nem sequer chegam à mediocridade rentável de Houellebecq, que lá vai vivendo, em França, do que escreve. Tem, por ele, a sorte dos seus leitores não serem muito exigentes. E o sentido crítico, em grande parte deste mundo, andar pelas ruas da amargura.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Archibald MacLeish : Ars Poetica



Archibald MacLeish (1892-1982) é um poeta americano muito estimado. Para além de ter sido, como bibliotecário, o grande reorganizador da Biblioteca do Congresso, exerceu cargos políticos, na área da Cultura, nos mandatos do Presidente Franklin D. Roosevelt. Viveu em Paris, entre 1923 e 1928, tendo convivido com Hemingway, Scott Fitzgerald, Picasso. Dramaturgo e, sobretudo, poeta, é autor do bem conhecido poema americano "Ars Poetica" que iremos traduzir, em seguida.

Um poema devia ser palpável e mudo
Como um fruto redondo,

Calado
Como velhos medalhões ao toque do polegar,

Silencioso como a pedra gasta na moldura
Das janelas onde o musgo rompeu -

Um poema devia ser sem palavras
Como o voo das aves

*

Um poema devia estar imóvel no tempo
Assim como a lua vai subindo,

Deixando, tal como a lua desprende ramo a ramo
As árvores entrelaçadas pela noite,

Como a lua deixa para trás as folhas
De Inverno, memória por memória, na alma -

Um poema devia estar imóvel no tempo
Assim como a lua vai subindo

*

Um poema devia ser igual
À inverdade

Por toda a história do sofrimento
Uma porta vazia à entrada, uma folha de ácer

Por amor
O inclinar das ervas e duas luzes sobre o mar -

Um poema não devia querer
Dizer, mas simplesmente ser.