sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Ficções


É ponto assente, na opinião da crítica inglesa, que, a partir da I Grande Guerra e, com muito maior intensidade, a partir do final da II G. G., o cenário da ficção britânica passou a ser mais citadino, quando, anteriormente, tinha um predomínio campestre. A transumância das populações para as cidades, com a Revolução Industrial, foi apenas o início de um processo, que a ficção, e até mesmo a poesia, acompanharam de perto.



Em Portugal, Eça foi sobretudo um ficcionista de cidade, se exceptuarmos A Ilustre Casa de Ramires e o híbrido A Cidade e as Serras, mas quase toda a ficção camiliana é situadamente campestre, como grande parte da literatura portuguesa anterior. O Neo-realismo privilegiou largamente os campos (Redol, Manuel da Fonseca) e as zonas ribeirinhas ( Soeiro Pereira Gomes e Loureiro Botas) e, que me lembre, apenas Tavares Rodrigues e Namora (na sua segunda fase) se atreveram a devassar as ruas mais escuras e escusas da cidade. Ainda hoje, no entanto, Rentes de Carvalho e Riço Direitinho encenam as suas ficções campestres, em algumas obras.


Embora eu frequente, pouco e mal, a ficção portuguesa de agora, julgo que os cenários são, maioritariamente, citadinos. Passou o tempo de Aquilino, embora o Mestre tenha situado alguns dos seus romances em Lisboa. Como, de algum modo, Miguéis, mais cosmopolita, porém. A obra de Carlos de Oliveira divide-se, ambivalente. Mas, para os novos escritores, o cenário é urbano, até porque são, na maioria, citadinos os seus leitores e a vivência de ambos. E o regresso da alguns vegans aos campos e à natureza, bem como a fruste troca da cidade pelo campo, de alguns jovens casais idealistas, não irá alterar o cenário das ficções portuguesas - creio eu.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Bibliofilia 156


Mais conhecido pelo pseudónimo de Tinop, João Pinto de Carvalho (1858-1936) foi um ilustre olisipógrafo, autor também de uma celebrada História do Fado (1903). Os três volumes de Lisboa de Outrora (1938/9), obra póstuma, foram coligidos e revistos por Gustavo de Matos Sequeira e Luiz de Macedo, seus companheiros também olisipógrafos, numa edição promovida pelo grupo "Amigos de Lisboa". No final do passado mês de Julho, e no meu livreiro-alfarrabista de referência, adquiri, em bom estado, os 3 volumes por 22,00 euros. A obra, não sendo rara, completa não é muito frequente aparecer à venda.



Em Maio de 2014, a Livraria Luis Burnay, em leilão e sob o lote 77, apresentava a obra completa para venda, com uma estimativa prevista de 50/100 euros. Enquanto que, posteriormente, a Livraria Histórica e Ultramarina (rua de S. Bento, em Lisboa) anunciava a mesma obra a 75,00 euros. E, mais recentemente ainda, a AbeBooks propunha a sua venda por US $ 72,77. Para quem não quiser gastar dinheiro, submetendo-se às leis do mercado do livro usado, posso informar que a BNP tem esta obra de Tinop digitalizada, podendo ser consultada em qualquer altura.



Quanto ao conteúdo de Lisboa de Outrora, eu diria que o seu estilo é ramalhudo, um tanto ou quanto barroco, de vocabulário luxuriante, por vezes pernóstico, até. O que perturba talvez a fluidez da leitura, mas a pequena história, os casos pitorescos narrados e os retratos realistas de Herculano, Pinheiro Chagas, Eça, Ramalho Ortigão, Bulhão Pato e tantos outros habitantes dessa Lisboa de outrora, recompensam muito bem qualquer leitor que se habilite a folhear e ler esta obra interessante.

Ioan Scarlatescu (1872-1922)

Livro raro?


De uma informal conversa  do novel ficcionista com a Revista Estante (FNAC), fiquei a saber que ele não frequenta alfarrabistas. Está no seu pleníssimo direito, evidentemente. Mas diz que tem uma obra particularmente rara na sua biblioteca: um D. Quixote de La Mancha, dos anos 60, escrito em espanhol.
Mais de 350 anos depois da edição original (1605-1615) do livro de Cervantes, em castelhano, que edição será esta, assim rara? Fac-similada? Luxuosamente ilustrada, e por quem? Com tiragem numerada de poucos exemplares?
Fiquei curiosíssimo...

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A oliveira da varanda a Sul


Estão assim, já ligeiramente gorduchas para a idade e altura do ano... Lá para Outubro, hão-de ser curtidas com domésticos cuidados.
São cerca de 70, as azeitonas, difíceis de contar, por entre o emaranhado das folhas verdes, na varanda a Sul. E, provavelmente, 2017 será um ano recorde, na produção, porque o máximo da safra tinha sido de 49, no ano passado. 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Feitios


Respondo, quase sempre, aos comentários dos meus estimados visitantes activos, embora isso não conste do Livro de Estilo do Arpose. E faço-o, muitas vezes, logo que me apercebo de um novo comentário, e imediatamente. Porque qualquer diálogo arrefece, normalmente, se os silêncios se eternizam na conversa. Perdem sabor, ganham bolor... Dir-se-ia que é uma questão de impaciência, da minha parte. Não é.
Mas percebo que as pessoas, ainda na vida activa, nem sempre tenham tempo para dialogar. E demorem horas e horas, e dias a responder. Ou, até, nem sequer re-comentem. E até admito que há comentários que não mereçam ou nem sequer tenham resposta.
Ora, no fundo, parece-me que é tudo uma mera questão de tempo ou de feitio.

Eugeniana, mínima


A revista Colóquio, propriedade da Fundação Gulbenkian e que, de 1959 até 1970, abarcava conjuntamente temas de Artes e de Literatura, em 1971, cindiu-se em duas, de modo a privilegiar melhor uma vocação mais especializada. Este primeiro número da Colóquio-Letras, saido em Março, inclui, entre outras colaborações, 2 poemas de Eugénio de Andrade (1923-2005), acompanhados de um desenho de Dordio Gomes (1890-1976).


Não sendo dos seus poemas maiores, na minha modesta opinião, Eugénio de Andrade viria a inclui-los nas reedições (aumentadas) da obra Mar de Setembro que fora, inicialmente, publicada em 1961 e, sucessivamente, reeditada. Em 1990, o livro contava já 8 edições.
Contrariamente ao que lhe era habitual, o Poeta manteve, passados 19 anos, a versão original do poema "Alba", que aparecera na Colóquio. Quanto a "Tema e variações em tom menor", veio a reduzir-lhe o título para "Variações em tom menor", e apenas substituiu, no último verso um substantivo: morte pura por chama pura.
Assim ficou a versão definitiva.

Em sequência, intermitente...

Pinacoteca Pessoal 127


Dizem-no precursor de Lucian Freud, mas o pintor inglês Stanley Spencer (1891-1959) também não rejeitou inteiramente o legado dos pré-rafaelitas, muito embora tivesse seguido um caminho muito próprio. A evolução da sua obra pode ser avaliado pelos dois auto-retratos (em imagens, aqui) que pintou. O primeiro, de 1914, e o segundo no seu último ano de vida (1959).



Grande parte dos seus quadros privilegia representações do humano colectivo, mas a inspiração bíblica foi também traduzida numa actualização bem sucedida e original, como pode ver-se no tríptico Ressurreição, acabado em 1927, e que eu considero uma das suas obras mais interessantes e exemplares, apesar da reprodução, em imagem, não ser das melhores...



segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Divagações 124


É Claudio Magris (1939) que, no seu Alfabetos, fala de Praga como uma "cidade literária", no seu conceito mais restrito. Mas, no sentido amplo, por ordem de importância, e sobretudo no século XX, a sagrada trilogia de Veneza, Trieste e Praga foi um must de distinção de alguns escritores e poetas que se prezavam de o ser. Este fascínio, porventura estranho, contagiou muitos leitores e viajantes. Actual e infelizmente, no entanto, Veneza está condenada, principalmente, ao turismo democrático e popularucho, tendo perdido grande parte da sua população residente.
Também para pintores e para os amadores de pintura, no século XX, foram lugares míticos: Florença, a Provença, Paris e, depois, sucessivamente, Londres, Berlim, S. Francisco...
A tudo isto - creio - anda também associado algum snobismo intelectualóide, simultaneamente parolo, de alguns que se julgam ungidos do favor, graça e pertença a uma casta de eleitos e que, com alguma frequência, citam ou referem essas "cidades literárias" ou artísticas, pour épater le bourgeois. Visconti, como realizador e com dois dos seus filmes ("Senso", de 1954, e "Morte em Veneza", de 1971), também ajudou imenso à criação desses mitos, no caso particular, sobre esta cidade italiana do Adriático.
Se Joyce está ligado a Trieste, o seu nome leva-me sempre a Dublin. A Praga, chamava Kafka a sua "Mãezinha". E até acredito que Thomas Mann e Eugénio de Andrade tivessem falado de Veneza sinceramente, com verdadeiro afecto e profunda impressão, mas duvido que esse facto actue, hoje, nos seus leitores como se de um deslumbramento maravilhoso se tratasse, desencadeando, neles, um transe de hipnótico encantamento e atracção.

Truncagem


A Agatha com a Christie. Por Pereira de Castanha, nas próximas Autárquicas. Entre o policial e a música pimba.

Citações CCCXXII


O luxo é uma questão de dinheiro. A elegância, uma questão de educação.

Sacha Guitry (1885-1957).

domingo, 13 de agosto de 2017

Mercearias Finas 125


Quase todos anos, espontâneas, por Agosto, florescem as beldroegas, na floreira das sardinheiras da varanda a Leste. Oferenda generosa da Natureza ou, mais realisticamente, fruto, trazido pelo vento, ou por algum pardalito que, em aflição, ali se tivesse aliviado, deixando algumas sementes, que vieram a germinar na terra desocupada e limpa de vegetação.
Sopa de pobres, enriquecida, por quem pode, de alguns primores que lhe dão mais gosto: queijinhos frescos daqueles rústicos e bons, ovos amarelíssimos na gema de galinhas de campo criadas à solta, e uma cabeça inteira daqueles alhos pequenos, terrunhos e nacionais. Cebolas e batata, cortadas em rodelas finas. As fatias de pão, para acompanhar, convém que sejam do melhor. Assim se faz uma sopa substancial e saborosa.
De nome científico, a planta: Portulaca aleracea, assim mesmo.
Ora, para este caldinho rústico, o único trabalho estrénuo é ter que separar as folhas tenras dos talos suculentos das beldroegas. E isto demora o seu tempo, se for feito como deve ser. Mas a debulha compensa.



Em nome da simplicidade, abriu-se um Dão branco Monástico 2016, da UCB, com 12º e sem pretensões de maior. Não fora, talvez, um ligeiro excesso de Malvasia-Fina no lote, que o adamou demasiado, e teria sido o acompanhante perfeito. Mesmo assim, não desmereceu. Isto, de escolher o vinho certo e ajustado a uma refeição, tem muito que se lhe diga...



Após cerca 25 minutos de cozedura da sopa de beldroegas, e cortado o pão escuro de centeio, a refeição estava pronta. De tão substancial, que era, dispensámos a sobremesa. Para o ano há mais, se a Natureza quiser fazer-nos o obséquio...

Ferré, torrencial como quase sempre: Words, Words, Words...

Agora, que a guerra de palavras entre Ocidente e Oriente sobe de tom. Agora que um pequeno gesto tresloucado pode provocar um cataclismo de proporções inimagináveis. Agora, em que até a Rússia e a China fazem o papel de moderados e sensatos, apelando à calma e à diplomacia... Agora.

Impressionismos, do outro lado...


Este Sol de incêndios, que nos abrasa. E que parece não ter fim, toldando o céu de fumos pesados.

sábado, 12 de agosto de 2017

Comércio contaminado


Dos comerciantes, tenho uma confiança inabalável nos ingleses. Comprei, na Grã-Bretanha, várias coisas, directamente ou pelo correio, e também vendi - nenhuma razão de queixa, valha a verdade! Bem como confio nos comerciantes alemães.
Dos nossos comerciantes nacionais, assim, assim. 
Hoje, El Pais noticia, em título: Immovilizados 20 toneladas de huevo liquido contaminado con fipronil en Bizcaia. A mercadoria fraudulenta, segundo o jornal espanhol, provinha de França. Devo dizer que fiquei surpreendido, até porque sobre os comerciantes gauleses eu não tenho uma opinião muito fundamentada. E ovos, são ovos.
Não será que os donos dos aviários holandeses foram a França para expedir a mercadoria pecaminosa para os pobrezinhos dos sub-europeus do Sul, para evitar o prejuízo financeiro?
É que, pela minha experiência, sobre a ética dos comerciantes holandeses eu não tenho muita fé...

Dispersas e matinais


Se os relvados ainda estão verdes, graças à rega matinal mecânica, já apresentam, porém, grandes peladas acastanhadas pela falta de chuva. As flores dos aloendros, mal nascem, ficam logo meladas e definham, sem crescer. E, à volta das pobres oliveiras centenárias, o solo está juncado de azeitonas ainda verdes e raquíticas. Uma dor de alma!
A falta de água provoca uma acentuada luta pela sobrevivência do mundo da natureza.
Formigas endiabradas e vorazes esburgavam a carcaça de uma carocha pequena e negra, já morta.
No Mercado, as bancas de peixe tinham clientes, mas o talho estava vazio e às moscas.
A D. Irene tinha o seu lugar cheio de fruta e como lhe esgotamos os figos lampos ainda verdes, lançou, popular e críptica, o seu provérbio: "Na minha casa há mulher, na da vizinha envergonhei-me."
Não fora eu ter lido, há dias, uma nota de Leite de Vasconcelos sobre ditados portugueses, e ficaria preocupado e curioso, com o dito da D. Irene. Dizia o linguista e etnólogo português que nem sempre os adágios têm conceitos sábios ou claros. É necessário é que tenham rima. Seja ela disparatada ou erudita...

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Françoise Hardy : L'Amitié

As primeiras amizades


O reencontro com velhos amigos de infância é, quase sempre, uma epifania. Emocional, sobretudo.
Porque alguns deles ficaram-se pela encruzilhada. Outros, ainda, seguiram caminhos, que não os nossos, e alguns muros se foram criando entre nós. Apesar de eles saberem, de cor, a nossa mais íntima biografia.
Por essa razão, estes reencontros afectuosos podem estar ameaçados de melancolia. Ao menos, de um dos lados.

Retro (94)


Palavras, para quê? - como referia um célebre anúncio português de finais dos anos 50.
Mas destaque-se a qualidade gráfica de 2 dos cartazes, pese embora a moralizadora mensagem que aparece também, se exceptuarmos a legenda totalmente sintética que identifica as máquinas de costura Oliva, de fabrico português, que rivalizaram com as célebres Singer, alemãs.
Pena que não se consiga saber o nome dos designers nacionais que criaram estas belas imagens, de que eu excluiria o anúncio às Bolachas Triunfo, que me parece excessivamente pobrezinho e canhestro...



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Do rifoneiro castelhano (15)


1. Lo que no lleva Cristo, lo lleva el fisco.
(O que não leva Cristo, leva-o o fisco.)

2. Más vale dedo de juez que palmo de abogado.
(Mais vale dedo de juiz que palmo de advogado.)

3. Ni villa sin aldea, ni puta sin alcahueta.
(Nem vila sem aldeia, nem puta sem alcoviteira.)

4. Uñas de gato y cara de beato.
(Unhas de gato e cara de beato.)

5. Viejo por no poder y el mozo por no saber, quedase la moza sin lo que puedes entender.
(Velho por não poder e rapaz por não saber, e fica-se a moça sem aquilo que podeis perceber.)

6. No se acuerda la suegra que fue nora.
(Não se lembra a sogra que foi nora.)

7. Dios sea loado, el pan comido, y el curral cajado.
(Deus seja louvado, o pão comido, e o curral estercado.)


Nota pessoal: vai hoje mais comprida a temática dos provérbios espanhóis, e será o último poste por estes tempos mais próximos, certamente, do rifoneiro castelhano.
Deste itinerário, em que fui traduzindo 63 ditados do adagiário do país vizinho, ficou-me a certeza de que os seus rifões são mais atrevidos do que os nossos. Apesar da sua graça intrínseca, evitei incluir alguns que ultrapassavam o limite dos bons costumes...

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Ligações, convergências e divergências


Como em tudo na vida, as ligações fazem-se, muitas vezes, pela proximidade. Se primeiro se namora na rua de uma mesma vila ou cidade, e, depois, na escola, acaba por se casar pela faculdade ou com uma colega de emprego, mais tarde. Mas, às vezes, também há fadas casamenteiras... E encontros de acaso que, mais raramente, acabam por selar destinos para a vida. Como também pode vir a haver divergências insanáveis e separações definitivas...
Com os blogues passa-se quase a mesma coisa: de um centro irradiante passa a haver núcleos convergentes de frequência que se inter-visitam e comentam, entre si, criando relações amistosas ou de conhecimento amigável, que vão estimulando a actividade dos autores. Depois, há também a entrada de intrusos desconhecidos, nestes círculos ou grupos quase familiares. Alguns acertam, outros vêm ao engano...
Lembrei-me disto porque, hoje, quer o Arpose, quer o Palavras Daqui e Dali, da Isabel, receberam de uma jovem (?) catalã um mesmo comentário-convite, ipsis verbis, para visitarem o seu blogue. Que é de poesia...

Philip Glass / Dublin Guitar Quartet

Da repartição dos dias


À manhã convêm as coisas simples, mais lineares. A menos que os sonhos se prolonguem e impregnem as primeiras horas de imagens, teias e interrogações que não saberemos, de todo, deslindar.
Guardemos as acções para as tardes, o frenesi se o houver, a entrada pelos diversos mundos dos outros, donde nem sempre saímos lavados ou esclarecidos de realidade. É o recolher da vida.
Para a noite, a pousada tranquilidade se recomenda. O voltar a nós, classificando as experiências, deitando fora o lixo. Rearrumando bem as gavetas da memória. A música também pode ajudar.
Infância, maturidade, velhice, em suma.

De Manoel de Barros (Brasil, 1916-2014)


VII

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função
de um verbo, ela delira.
E pois.
Em poesia é a voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Fait divers


Saúde-se e registe-se, com agrado, a primeira e única visita, até hoje, da Presidência da República ao Arpose. Que se dirigiu a um poste antigo, de 20/12/2012, intitulado: Da cor isabel, a história. O facto, honroso e invulgar, ocorreu hoje, precisamente às 15:31:11 hrs.. Só por modéstia, não intitulei este poste de: Visita Presidencial.

Revivalismo Ligeiro CCLXIX

Para mais um dia de Sol, pleno...

Do que fui lendo por aí... (11)


Ritmo de escrita ágil, muito bem documentado, sério, não deixando de o ser pela narração de um ou outro pormenor pitoresco e irónico que João Bénard da Costa (1935-2009) intercala, com espírito bem humorado, nestas páginas sobre a história do cinema português, desde o seu início até 1990. O livro saíu em meados de 1991, para acompanhar a Europália, editado pela IN-CM.
Na capa, em vinheta ao fundo, a reprodução da tela Labirinto, de Pedro Chorão, pertença do C.AM. .
Só para aguçar o apetite de leitura, aqui deixo referida uma citação do cineasta Leitão de Barros (1896-1967), que Bénard da Costa reproduz, sobre as virtualidades do povo português. Assim: "...levava sobre outros povos uma vantagenzinha apreciável: conhecemo-nos uns aos outros, de gingeira, há oito séculos! E graças a Deus damo-nos mal" (pg. 51).

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Turismo e literatura


Em 1959, a colecção 3 abelhas, das edições Europa-América, editou um livro do escritor grego (?) André Kedros (1917-1999) com um título que, por muito sugestivo, eu jamais esqueci: O navio dentro da cidade. Nunca o li no entanto, mas o título ficou-me para sempre na memória.


Agora, que os turistas por ar, terra e mar nos invadem o território, para além do que seria razoável, eu lembro-me de Guerra Junqueiro (1850-1923), um dos poetas preferidos na minha juventude, e do seu poema Os Pobrezinhos. Que me apetece, decididamente, plagiar, alterando só algumas palavras:

Passam em bandos, em alcateias
pelas cidades, pelas aldeias...

Como tornar-se iletrado e analfabeto em curso intensivo do Google e quejandos, na Net

Quando reabro, aqui no Arpose, o recentemente postado vídeo dos R. E. M. (At my most beautiful) surge-me, quase invariavelmente, logo no primeiro minuto da audição, ao fundo, um rectângulo impertinente e publicitário. De algum modo, já estou habituado, porque os marcanos aproveitam tudo para ganhar dinheiro...
Mas desta vez, excederam-se. O título é exemplar: Problemas De Próstrata - assim mesmo! E o resto do anúncio não destoa deste português reles, inicial.
Deve ser, em linguagem de ervilhaca, de que falava Camões, na sua carta da Índia, algum remédio para tratar dos Prós... Está muito bem.
E não pensem que isto tem a ver com o A. O.. Quando muito, é mais uma das traduções hilariantes do inefável Google, em conúbio foleiro com o Youtube. Para ganhar dinheiro, sem olhar a meios.

Idiotismos 41


É comum dizer-se, na invernosa estação, popularmente, que: está um frio de rachar! Ou, socorrendo-nos de Eça, pelo Verão: está um calor de ananases. Em tempos, vi referido algures, por alguém, que o sítio mais quente da Terra (África?) é denominado por: a Fornalha de Deus, apropriadamente, por certo...
Quem estudou inglês, deve lembrar-se da exótica expressão it rains cats and dogs (Chovem cães e gatos), para exprimir uma chuvada torrencial. O clima é uma fonte inesgotável de metáforas, por onde a imaginação humana se exercitou, sobretudo na definição de casos extremos que, ciclicamente, costumam afectar as pessoas e os animais.
Num dos últimos Le Monde (28/7/2017), a crónica de Muriel Gilbert é, toda ela, dedicada a estas expressões idiomáticas que são usadas por todo este nosso mundo. Desde o Soleil de Plomb (Sol de Chumbo) ao Froid de Canard (Frio de Pato), franceses, passando pelo Transpirer des Carottes (Transpirar Cenouras), que os gauleses têm um vasto repertório...
Mas também os italianos, sob um calor excessivo, lhe chamam um Sol de partir as pedras (un sole che spacca le pietre) e, no Languedoc, para referirem uma forte chuvada, costumam usar a expressão: chover patas de burros (plou de cambas d'ase). E, para acabar com animais, também, há que referir os habitantes da Baviera que, no rigor do Inverno dizem que "está um frio de porco!", idiotismo que eu não compreendi inteiramente... Porque, nisto de maldizeres, quanto ao tempo frio, os franceses levam a palma, por exemplo, referindo (desculpe-me, o pio leitor!): un froid à geler un pet (um frio capaz de gelar um peido). 

domingo, 6 de agosto de 2017

O poder do riso


Já tenho visto beatas e crentíssimas feministas rir às gargalhadas, depois de ouvirem uma anedota machista, ao extremo. Há por aqui alguma coisa que me desconsola, talvez pela incoerência. Ou pela ligeireza de alma que denuncia a fraqueza dessas convicções. Vou ser benevolente: a força do humor é enorme.

Uma fotografia, de vez em quando... (90)


A sua objectiva fixou, preferencialmente, o colectivo em detrimento do retrato individual. E as crianças, na sua irreverência natural, em prejuízo das poses estudadas dos adultos. Não era um purista do preto e branco, como os grandes fotógrafos de vocação, mas quase só usou a cor quando, nos anos 60, abandonou a Inglaterra para viajar pela Grécia e pela Espanha. Falei de Roger Mayne (1929-2014) que, aqui, quis recordar, através de três fotografias. A primeira das quais é um auto-retrato, de quando era ainda jovem. 



sábado, 5 de agosto de 2017

Paisagem com aves


Não tenho visto muitos pássaros, este Verão.
Mas no sexto andar, com terraço, do prédio em frente, 8 ou 9 pombas, jovens, costumam pousar, quase todos os fins de tarde, desde a Primavera. E parecem divertir-se saltitando do telhado para o murete e do murete para o telhado, alternadamente. O andar está devoluto, certamente, e as pombas sabem-no ou pressentem. Não creio que lá façam ninho. Julgo antes que o local funciona, para elas, como uma espécie de parque infantil com autonomia plena.
Cerca das 20h30, as pombas juvenis desamparam o lugar. Pouco depois, ao alto, passa uma última gaivota solitária, de Leste para Oeste. Em direcção ao mar. Quando não chega, pontual, acendo ainda uma cigarrilha, na varanda, expectante, como se aguardasse o raio verde de que fala Júlio Verne.
Lá vem ela!
Vai quase cheia, a lua...

Interlúdio 60

Dedicado aos esquerdinos, mas às azaradas, também...

Prece, propósito, ou um bom princípio


Deus me dê o comentário justo (quando o faço) e sincero (quando o recebo).

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Deambulações simplórias sobre o Figurativo e o Abstracto


Dizem que o olhar de um observador, perante uma página ou uma tela, desliza, natural e inconscientemente, para o lado direito do objecto em questão, em detrimento do lado esquerdo da folha ou do quadro.
Um mero amador de pintura, não muito habituado a frequentar museus ou exposições, creio eu que tenderá, em grande parte dos casos, a privilegiar obras figurativas, em prejuízo de pinturas abstractas. Talvez porque aquelas lhe dizem alguma coisa...
A pintura abstracta suscitará, porventura, interrogações a nível racional; a pintura figurativa actuará mais a nivel sensorial ou da emoção, sobretudo, nas grandes massas humanas, que a possam frequentar, ainda que episodicamente. As artes ao serviço dos regimes da U. R. S. S. ou da Revolução Chinesa tinham, na sua função figurativa, um propósito político objectivo. Como a censura nazi, sobre aquilo que denominaram arte degenerada, tinha um fim estratégico. A formatação das sociedades, que hoje tanto é desejada pelo Poder, e aplicada, faz-se, sobretudo, no sentido da criação de clones abúlicos e acríticos, para que deixem de pensar, e se transformem apenas em animais emocionais. O que vai de encontro àquela velha frase das criaturas sensíveis, tantas vezes ouvida: Nem quero pensar!...
Pelo meio destas divagações maniqueístas, há que afirmar que, mesmo nos pintores actuais e/ou mais recentes, a expressão artística nem sempre é totalmente definida. Muitas vezes, há uma hesitação profunda, quando não constante, entre o figurativo e o abstracto.


Boris Vian

4 fragmentos (nem todos polémicos) de Boris Vian (1920-1959)


Os artigos de fundo não sobem à superfície.
...
As lojas das floristas nunca têm portadas de ferro. Ninguém quer roubar flores.
...
O tempo perdido é o tempo em que estamos à mercê dos outros.
...
Se Deus se fez homem para ter autoridade sobre a terra, é evidente que ele se deu conta de que um homem acaba por ser mesmo uma coisa séria.


Boris Vian, in En Verve - mots, propos, aphorismes (Horay, 2002).

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Curiosidades 65


Erva aromática de sabor inconfundível, os coentros são, na minha opinião, imprescindíveis na confecção de entradas de ameijoas ou conquilhas e até em alguns pratos de carne. São também uma mais valia no tempero de algumas saladas. A planta teria vindo do Oriente, daí também ser chamada salsa da China, mas o seu uso e cultivo propagou-se, sobretudo, na bacia mediterrânica onde, inicialmente, teria sido utilizada na gastronomia da Grécia e da Itália.
Tal como o louro, há quem a considere perigosa para a saúde, e até venenosa, factor que não é confirmado, ao que parece (senão em grandes quantidades), pela comunidade científica. Seja como for, um artigo sobre os coentros, num dos últimos TLS, provocou acesa discussão e inúmeras cartas ao director deste jornal literário inglês, em que as opiniões se dividiam. Tenho acompanhado esta polémica com alguma atenção. Compensadora, aliás.
Uma das últimas cartas ao director, referia o árabe Yahya ibn-Awwam al-Ishbili (este apelido final significava: o Sevilhano) que, tendo-se dedicado à Agricultura, viveu nessa cidade de Espanha, nos finais do séc. XII. Este árabe escreveu um livro, Kitab el-Filaha ( Livro de Agricultura), em que refere que se "se plantarem os testículos de um bode na terra e os regarem, em breve, crescerão coentros onde não tinham sido semeadas quaisquer sementes."
Curioso, não é? Embora pouco credível...

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Gentilezas da democracia


A notícia vem no jornal Público de hoje.
E eu não faço a menor ideia do que os médicos e anestesistas pensarão deste reality show previsível e futuro, que vai ser permitido e obrigatório a partir do fim do ano de 2017.
Insere-se, aliás, neste exibicionismo despudorado que enxameia as redes sociais e os programas pimbas da televisão mais rasca. Ou no metralhar feroz e acrítico das selfies que o turismo pindérico popularizou pelas ruas da cidade, constantemente.
E será que também se poderão tirar fotografias, nesses blocos operatórios? Só nos faltava mais esta...

Gaetano Donizetti (1797-1848)

Citações CCCXXI


Um autor sonha-se muito mais do que verdadeiramente se confessa.

Noël Arnaud (1919-2003), in Boris Vian en verve (2002).

Recuperado de um moleskine (27)


O homem foi despejando a biografia sucinta, por telemóvel, em voz não muito alta, mas o suficiente para o ouvirmos, todos, na sala de espera do consultório. Reformado de uma companhia de seguros, o António V. queria saber se lhe teriam descontada, na fonte, e do subsídio de férias, duplamente, a pensão de alimentos que vinha pagando à filha, de forma iníqua, nos últimos anos (a filha já teria 41 anos...). E o homem reafirmava que não conseguia anular a situação, por causa dos problemas burocráticos que se iam levantando, um atrás do outro. Não cheguei a perceber se, as respostas que recebeu, o deixaram tranquilizado... Depois, ainda fez outro telefonema por causa de umas obras a ajustar numa casa dele, no Funchalinho. Que descreveu detalhada e exaustivamente.
Chamaram-no, entretanto, para a consulta. Levantou-se penosamente e, com a ajuda de duas canadianas, encaminhou-se, muito lentamente, com o corpo quase em ângulo recto, para o consultório. Os 5 metros da distância demoraram cerca de 10 minutos a serem percorridos. Não fiquei indiferente a esta pequena via sacra.
Meia hora depois, fomos nós chamados pelo médico, que era nosso amigo. Não resisti a falar-lhe do António V.. Ele deu uma gargalhada, e disse: "Não liguem, o homem é um fantasista! E tem um filho, sim, mas nenhuma filha..."
Será que os telefonemas que ele fez, existiram mesmo? Ou os diálogos terão sido apenas mais uma ficção compulsiva?

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Fraquezas líquidas


Com o bicentenário da morte de Jane Austen (1775-1817), os mínimos detalhes da sua vida têm sido estudados e devassados, pelos ingleses. Foi assim que se veio a saber que a bebida preferida da romancista era a Porter, um tipo de cerveja preta muito popular no século XVIII e XIX. Que ainda hoje se fabrica na Grã-Bretanha. O nome por que é conhecida essa cerveja é uma espécie de homenagem aos trabalhadores portuários ingleses.
Dos beberrões ingleses, reza a história recente de Albufeira (Algarve), por lá terem provocado desacatos, por várias vezes, tendo sido necessário chamar a polícia para os conter e manter na ordem. Mas não só os britânicos e nem só as classes baixas. Até os políticos se entregam, por vezes, a excessos alcoólicos. Todos devemos estar lembrados das prestações televisivas deprimentes de Yeltsin, Aznar e Sarkozy. Para não falar de um ex-ministro português de Economia que, na Assembleia da República, começou a debitar, depois do almoço (provavelmente bem regado), parvoíces e banalidades infantis, para surpresa de todos...
Voltando à Inglaterra. Lembremo-nos que Winston Churchill não passava um dia sem consumir 5 ou 6 whiskies, mais uns 3 ou 4 brandies. Em dias especiais, não dispensava o seu favorito champanhe  francês Pol Roger, para comemorar. Terá consumido, ao longo da sua vida, milhares de garrafas.
Recentemente, o jornalista britânico Ben Wright publicou um livro (Order, Order: The rise and fall of political drinking), em que conta algumas cenas idílicas e edificantes sobre o tema. Refere, por exemplo, que o primeiro-ministro Harold Wilson (1916-1995) considerava Roy Jenkins (Finanças) um dos seus melhores ministros, mas só "até às 7 da tarde". Mais caricata, terá sido, no entanto, a prestação de um ministo do gabinete de Macmillan, numa visita oficial ao Peru. George Brown (1914-1985), após a refeição, insistiu em dançar com uma figura, elegantemente vestida de púrpura. Acontece que a orquestra tocava, na altura, o hino nacional peruano, e a personagem era, nada mais nada menos, que o arcebispo de Lima, capital do Peru...

Adagiário CCLXVI : Agosto (8)


1. Agosto, frio no rosto.
2. Nem em Agosto caminhar, nem em Dezembro passear.
3. Pelo S. Lourenço (10), os nabais nem nados, nem no lenço.
4. Por Santa Maria de Agosto (15), repasta a vaca um pouco.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Jeanne Moreau


De Losey, Eva, realizado por Truffaut, Jules et Jim, ou La Notte, em que foi dirigida por Antonioni, bastariam para a inscrever, indelevelmente, na história do cinema. Acrescem aqueles lábios estranhos, dissonantes, a lembrar a sofreguidão dos peixes. Ou de viver...
Jeanne Moreau (1928-2017) deixou de existir.
Com música de Pascal Comelade, lembrêmo-la, nalgumas cenas de La Notte, de Antonioni, em que contracena com Marcello Mastroiani.