sábado, 21 de outubro de 2017

Um provérbio inglês


Birds of a feather, flock together.

(Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és.)

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Últimas aquisições


Eu nunca tinha ido à Foyles, em Charing Cross. E W. H. Auden era um motivo maior.
Mas Emily Dickinson também colhe as minhas preferências. Colhia-a na British Library.
E o livro sobre Matisse, de Alastair Sooke, veio da Royal Academy of Arts, quando visitei a exposição Matisse in the Studio, em muito boa hora.


Stacey Kent / Kazuro Ishiguro

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Não há 2 sem 3


Com a velha e soberana ironia inglesa, o último TLS (nº 5976) afirma que, hoje em dia, é mais difícil um escritor ganhar um Grammy, do que um letrista ser premiado com o Nobel da Literatura.
Em apoio desta conclusão fascinante, refere Patrick Modiano que escreveu cantigas para Françoise Hardy e Lucy Hope, e o cantautor Dylan que também escreveu para meio mundo e para si próprio. O último Nobel da Literatura, Kazuo Ishiguro quase conseguiu um Grammy com as 4 canções que compôs para o álbum de Stacey Kent (Breakfast on the Morning Tram), mas não chegou lá...
Mas não falhou o Nobel da Literatura, este ano.
Que Jacques Brel e Leonard Cohen lhes perdoem!

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Algures a Noroeste do Hyde Park


O dominical mercado de artesanato dos anos 80 sumiu-se, reduzido a dois pintores de Domingo, com telas desinspiradas de um surrealismo ingénuo e cores berrantes. Não mais poderei comprar os unicórnios simpáticos e os crocodilos ameaçadores, que lá adquiri nos anos 70/80, a um barrista talentoso, que os expunha no murete de Bayswater Road. Saudoso, contemplei o nº 100, da extensa avenida, onde sir John Barrie (1860-1937), no início do séc. XX, imaginou a saga de Peter Pan.
Inverness Terrace continua pacífica, mas pejada de carros e cheia de sacos de lixo em volta dos candeeiros altos. E Queensway está mais barulhenta, luminosa em néons comerciais de lojas e restaurantes, de supermercados e cafés. O Royal Mail, agora privatizado, ao fundo, perto do Whiteleys (restaurado por fora, continua decadente, por dentro), com atendimento indiano (?), estava sujo e desarrumado de interiores. E muito mais caro: um postal para a Europa precisa de um selo de 1,17 libras, para seguir viagem. Que desaforo!
Só o Hyde Park é que continua um encanto. Com os seus esquilos, bandos de corvos* e patos selvagens. Haja Deus! e sua Majestade britânica, que continua a chefiar essa insólita igreja anglicana e insular.
Nem tudo se perdeu, felizmente...

* Aprendi, há dias, que a um grupo de corvos, se pode chamar a murder of crows, desde finais do séc. XV. Aqui fica, em partilha amiga, para amigos e estimadas visitas, que cá venham.

sábado, 14 de outubro de 2017

Interlúdio 61


Não tenho a menor dúvida. A frase que mais ouvi, nestes últimos dias londrinos, mas com exemplar pronúncia oxfordiana, foi: Mind the gap!

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Elgar / Barenboim / Du Pré

É a terceira vez que o Arpose acolhe o magnífico Concerto para Violoncelo do inglês Edward Elgar (1857-1934), composto em 1919. Só que, desta vez, em versão integral, dirigido por Daniel Barenboim (1942), com uma interpretação primorosa de Jacqueline du Pré (1945-1987).
Com uma duração de pouco mais de meia hora, é para se ir ouvindo...

P.S.: é possível que o Arpose entre de férias por alguns dias. Postar sempre, também cansa.

Agendas


À comunicação social portuguesa saiu a sorte grande, embora por falta de organização e metodologia profissional e jornalística, ande por aí como uma barata tonta, sem saber a quem há-de dar prioridade e atenção. Não bastava a Catalunha. Eis que lhe chegam a Filosofia e a Justiça, geminadas e em simultâneo, mais a temática fluvial em contraponto com a hagiográfica, pelas bandas da Buenos Aires partidária. 
Coitados dos nossos pobres tontos plumitivos, que mal conseguem dar conta do recado. E da fartura que lhes caiu no colo... 

Nota: admito o lado críptico deste poste. Aconselho a leitura das etiquetas, para esclarecimento.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Memorabília útil


Não há nada como o papel, em vez do digital, para dar consistência aos percursos. E o mais recente destes mapas tem mais de 30 anos... Mas já lá estavam Bayswater, Picadilly, Queensway, a Tate.

Leilão


Mais um leilão de livros, manuscritos, e não só, promovido pela Livraria Olisipo, no Palácio da Independência (às Portas de Sto. Antão), nos próximos dias 16 e 17 de Outubro de 2017.
Do acervo, rico em obras raras, nomeadamente, de poesia, destaco os seguintes lotes e estimativas:

368 . Manuel da Fonseca - a 1ª ed. de Seara de Vento (1958), com dedicatória a João Vilaret. Com previsão de venda entre 75/150 euros.
410 . Almeida Garrett - Viagens na Minha Terra, na sua edição original (1846), em 2 volumes, com uma estimativa de 150/300 euros.
632 . Francisco Manuel de Melo - Cartas Familiares (Roma, 1664), entre 300 e 600 euros.
744 . Fernando Pessoa - Mensagem. Primeira edição (Lisboa, 1935), enriquecida com dedicatória do Poeta ao pintor Eduardo Malta. Com uma previsão de venda entre 6.000 e 10.000 euros.

Considerações posteriores e a propósito: não destaquei os livros acima referidos por serem caros, mas por serem obras fundamentais e essenciais da literatura portuguesa. Neste leilão, há livros bastante mais baratos e até alguns volumes de Herberto Helder - normalmente caro - com preços justos.
Abre hoje a Feira de Frankfurt, com a presença paternal do Júpiter francês e da Mutti germânica. As recomendações de compra, quanto a livros saídos ou a sair, na imprensa vendida e especializada (?), são abaixo de cão. Anda tudo pelo light e pelo chinelo...
Deus nos valha! Que falta nos fazem o Marcel Ranicki!, apesar de reaccionário. Para não falar do honesto Gaspar Simões, para aconselhar a gentalha que compra tudo o que lhe recomendam, sem qualquer critério crítico. E se guia pelos best-sellers dos jornais manhosos portugueses...

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Glosa 10


Hoje, no jornal Público, Rui Tavares dedica, a propósito da Catalunha, o seu texto de crónica à singularidade de Portugal ser o único (?) país europeu de fronteiras definidas, desde longe, e sem quaisquer tentações de derivas centrífugas, dentro do seu território.
Realmente, foi bom termo-nos arrumado em 1249, através das últimas conquistas de praças algarvias (Faro, Loulé, Albufeira...), por parte do nosso único rei bígamo, D. Afonso III (1210-1279). Mas não devemos esquecer o sábio D. Afonso X, de Leão e Castela, que, generosamente e num gesto de avô babado, desistiu das pretensões ao Reino dos Algarves, a favor do jovem príncipe D. Dinis, seu neto. Pelo tratado de Badajoz, em 1267.
Ora, imagine-se que D. Afonso X não tivesse tido esse rasgo de generosidade familiar... Ou, até mesmo, que algum Filipe castelhano e futuro se lembrasse de reclamar da defenestração abusiva do colaboracionista Miguel de Vasconcelos, nos idos de 1640... Lá tinhamos o caldo entornado.
Por agora, mais vale esquecer Olivença, assim como a pouco lembrada tomada de Madrid e Salamanca, pelo nosso valoroso Marquês das Minas, em 1706. Mais vale ficarmos calados e aconchegados neste nosso pequenino rectângulo peninsular, quase milenar e sossegado...


domingo, 8 de outubro de 2017

Divagações 126


As relações entre os seres humanos poderiam ser simples, lineares e claras. Nem sempre o são. Complicam-se com os afectos, o dinheiro, a emulação profissional, as redes de poder. Um homem sozinho pode ser mais forte do que um homem acompanhado: porque não tem de partilhar e acertar as decisões em conjunto, por um só diapasão, a que nem sempre se dá por inteiro.
Se não subscrevo a afirmação de Sartre que o inferno são os outros, também não advogo, ingenuamente, a tranquila paz solitária do ermita, sujeita a alumbramentos celestiais despidos da mais dura e crua realidade. Porque há o sal grosso que faz parte da vida, e que nos faz agarrar, embora com angústia, e talvez suor e sangue, ao cerne amoroso de viver, na esperança de dias melhores.

Filatelia CXX


Tal como para Portugal, também para a Inglaterra, a Marinha sempre teve grande importância. Quer a Mercante, quer a de Guerra. Sobretudo, enquanto foram impérios... Mas a temática Navios tem espaço considerável na filatelia de ambos os países, ainda hoje.
Em 1985, tive ocasião de visitar, em Greenwich, o clipper (navio à vela, com andamento veloz) Cutty Sark, que se encontra em doca seca, no Museu Marítimo da cidade. Com interiores lindíssimos, em madeira trabalhada, foi um dos últimos veleiros do chá. Fazendo carreira entre a China e a Inglaterra.
Mas, com o advento dos navios a vapor e a abertura do Canal do Suez, os veleiros perderam importância neste comércio e o Cutty Sark foi vendido, em 1895, à firma portuguesa Joaquim Antunes Ferreira & Companhia, por 1.250 libras esterlinas. Tendo sido construído, na Escócia, em 1869, o veleiro conservou-se em mãos portuguesas até cerca dos anos 30, voltando, depois, a ser comprado pela Grã-Bretanha, restaurado e colocado no Museu de Greenwich, em 1954.


Em 1969, pelo seu centenário, os Correios ingleses emitiram uma série de 6 selos, em que consta (terceiro selo à direita, na segunda linha da imagem) o famoso Cutty Sark, luso-britânico. Que sofreu ainda 2 incêndios, na doca seca, em 2007 e 2012, mas que já se encontra restaurado. Por mera curiosidade, lembro que o clipper deu nome a uma famosa marca de whisky.


para MR, no seu Prosimetron, que lhe apetecia, hoje, andar de barco...

Um ditado português muito pouco urbano...


Mulher que sempre ri, homem que sempre chora e mancebo cortês, merda para todos três.

sábado, 7 de outubro de 2017

Uns pozinhos de alegria...

Miscelânea descentrada


Levei cerca de uma hora a ler um hebdomadário e um diário, saídos hoje, ainda frescos.

Haverá alguém que imagine o Prémio Nobel a ser atribuído a John Le Carré? Creio que não.

Premeia-se por contraste, para tomar posição. Veja-se o da Paz, ou a deslocação do Sabadell...

Sempre Verão, também cansa. Porque conheço algumas pessoas que aspiram a ver a chuva, de casa.

Os 2 jornais, que li, recomendam quase só vinhos de 9 a 30 e tal euros. Para quem?

Recordo que, nas Cooperativas do Douro, as uvas se estavam a pagar a menos de 1 euro, o quilo.

No "Expresso", há dois encartes, grossos, sobre Angola. Vingança do chinês, ou subserviência lusa?

Vou reler o último livro de Gastão Cruz (Existência) para arejar a vista e mudar de alma.

Que, como dizia um poeta inglês: a esperança terá de ir para outras coisas.

Até porque Londres e o seu hipotético nevoeiro não me vão, seguramente, mudar a vida.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Formar o gosto


Há dívidas que nunca mais se pagam. E eu tenho uma delas para com Óscar Lopes (1917-2013).
Não tanto pelos livros que publicou, de que se destaca a História da Literatura Portuguesa, mas sobretudo pelo seu magistério crítico que, ao longo dos anos, foi exercendo, às terças-feiras, no suplemento literário Cultura e Arte, de "O Comércio do Porto".
Pelas suas recensões semanais fui apurando o meu sentido crítico, aprendendo a separar o trigo do joio literário, a melhor compreender a prosa e a poesia portuguesa, que, então, se ia publicando. A agudeza das suas sínteses, a fina intuição que não excluía o afecto (o texto à morte de Mário Sacramento, é um magnífico exemplo de amizade), deixaram marcas na minha memória.
Conheci-o pessoalmente já tarde, por intermédio do nosso comum amigo António, num dia atribulado de lançamento de um livro, em Lisboa. Era a simplicidade em pessoa, apesar da sua imensa sabedoria.
Aqui o quero lembrar, 4 dias depois da passagem do centenário do seu nascimento. Com gratidão.


Do que fui lendo por aí... (13)


Por uma daquelas razões singulares, ou coincidência frutuosa, encontro-me a ler, em locais diferentes, dois diários da mesma época (1939-1945), escritos por dois intelectuais (Gide e Jünger), em França. Se nas notas do ocupante alemão predomina uma atmosfera de tranquilidade, apenas interrompida por alguns sonhos perturbantes, que ele descreve ao pormenor, nas palavras sobre o dia a dia do francês ocupado (Gide) perpassa uma fina angústia que o leva a abordar circunstâncias dramáticas do passado (curiosamente, ainda hoje actuais), sobre a liberdade. Vou assim dar a palavra ao escritor francês, em dois pequenos extractos:


"... Os judeus, também, de oprimidos se transformaram em opressores, como sucede, parece que necessariamente, logo que as convicções religiosas contam com o apoio do poder - digamos ,simplesmente, se têm poder. ..."
...
"... Texto da excomunhão pronunciada contra Spinoza, a 2 de Julho de 1656: «Que ele seja amaldiçoado dia e noite... Que Deus não possa nunca perdoar-lhe. Ordenamos que ninguém tenha comércio com ele, por palavra ou por escrito, que nunca ninguém lhe dê mostras de amizade, dele se aproxime ou habite sob o mesmo tecto, que ninguém leia nenhuma obra escrita ou composta por ele."
...


André Gide (1869-1951), in Journal - 1939-1949 (Pléiade. 1955).

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Os sentidos do Nobel


Parece que a Academia Sueca voltou a privilegiar o olhar, em detrimento do ouvir.

Uma preciosidade...

... que, 107 anos depois, ainda vai funcionando...

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Há quase 50 anos...


Não imagino como o governo do sr. Macron tenciona comemorar, no próximo ano, o meio século das movimentações estudantis e operárias de Maio de 1968, em Paris. Mas há datas que são sempre difíceis de tentar contornar, rasurar ou não referir. Emmanuel Macron (1977) estará, com certeza, à vontade, porque, como ainda não era nascido não se deve lembrar dessas convulsões pelas ruas de Paris... 



Daniel Cohn-Bendit (1945), hoje, tranquilo reformado do Parlamento Europeu, que foi figura cimeira e carismática nessa época, fará certamente algumas declarações solenes e importantes sobre a efeméride. Talvez aproveite até a oportunidade (quem sabe?) para lançar algum livro de memórias. Quanto a Jean-Luc Mélenchon (1951), que, dada a tenra idade, teve um papel menor, não deve porém ficar calado...
Mas o que resta dessa época de som e fúria, nas páginas cépticas da História, são sobretudo alguns slogans pitorescos, como: "É proibido proibir", "A ortografia é um mandarinato", "A sociedade é uma flor carnívora"; ou esse saboroso diálogo, que reproduzo acima, entre Cohn-Bendit e o ministro francês da Juventude, na altura.
Tudo o resto acabou por se esfumar no tempo e nas viradeiras sucessivas da história contemporânea francesa.
Que De Gaulle repouse em paz!

Uma fotografia, de vez em quando... (93)


Incondicional fervoroso do preto e branco, o fotógrafo finlandês Pentti Sammallahti (1950) tem, presentemente, no Pôle Photographique, de Estraburgo, uma ampla exposição da sua obra. A mostra estará patente ao público até 26 de Novembro de 2017.
O seu motivo mais frequente são os animais, em plena liberdade. Mas o seu enquadramento não exclui os grandes espaços abertos e uma estética linear e despojada de qualquer rodriguinho decorativo. Em que a beleza simples ganha todo o horizonte, numa harmonia perfeita e singular.


Revistas Regionais


Estas publicações de índole regional reservam-nos, muitas vezes, curiosidades e boas surpresas. Recentemente, adquiri o primeiro número dos Estudos de Castelo Branco, de que já possuía  o número 25, de 1 de Janeiro de 1968. Quer um, quer outro contêm colaborações de qualidade que se distribuem pela História, Epistolografia, Literatura, Tradições e Costumes,  etc..



A minha maior surpresa foi ter encontrado no primeiro número (de 8 de Junho de 1961), dois colaboradores que ultrapassaram, pela sua actividade, o âmbito regional. Trata-se de Maria Alberta Menéres (1930) e do seu ex-marido E. M. de Melo e Castro (1932). A primeira colaborou com 3 poemas (inéditos?), de que reproduzo um deles.
E. M. de Melo e Castro subscreve um pequeno ensaio sobre poesia, de que transcrevo o início.



Mas não se esgota, na colaboração destes dois conhecidos poetas, o interesse destes Estudos de Castelo Branco, recheados de artigos e textos de muito boa qualidade e com inegável interesse geral.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Pinacoteca Pessoal 129


Aos que nos estão mais próximos, muitas vezes, nem damos por eles.
E eu nunca me lembrei de  incluir o artista francês nesta pessoal temática de Pintura.
Henri Matisse (1869-1954), a quem eu me referia,  dizia que um quadro era uma lenta deliberação.
Os vários retratos da sua filha Marguerite têm atenuantes compreensivas e afectuosas para as suas  experiências e a justificação da sua reflectida tirada, até pelo acompanhamento das diversas idades da sua descendente. Mas penso que ele se referia a cada um dos quadros, em si, fosse qual fosse o motivo que desse origem ao acto da criação.



No entanto, os cerca de 50 esquissos, que fez, sobre a italiana Laurette (ou Lorette), para além das várias telas que a têm como motivo, comprovam indiscutivelmente a sua afirmação, de experiência feita. Na elaboração pictórica de um mesmo rosto, através das suas múltiplas perspectivas. E também idades e momentos próprios. Do pintor e do modelo.
Não disse o crítico de arte Andrew Forge (1923-2002):... porque uma paisagem por Van Gogh ou uma natureza morta são também um auto-retrato ?



Informa-nos o TLS (nº 5972) que, na Royal Academy of Arts (Londres), estará patente uma exposição de Henri Matisse, até 12 de Novembro de 2017, subordinada ao tema: Matisse in the Studio. Apesar do preço de ingresso ser exorbitante (17 libras inglesas), penso que não irei perdê-la...



Nota: o retrato de Matisse, que encima este poste é da autoria do seu amigo André Derain (1880-1954).  

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O desforço


Creio que o nosso espírito democrático ainda é uma criança e julgo também que uma boa parte dos nossos políticos reage, normalmente, após uma vitória ou derrota, ao nível chinelístico do futebol. É certo que eu não tenho grandes ilusões sobre as qualidades filosóficas dos portugueses, mas tenho sempre a expectativa de que, um dia, sejamos capazes de raciocinar sobre a realidade, com alguma, mínima, isenção. Provavelmente, já não será no meu tempo de vida, mas faço votos para que não demore muito a atingirmos a maturidade democrática. Assim, gostaria de não ter presenciado:

1. O independente que ganhou a Câmara do Porto, no momento de vitória, ter feito um discurso de desforço na melhor esteira cavaquista. Esperava-se outra elegância de um Tio tripeiro. Embora eu saiba  também que não há só Tios, no Sul... 

2. Que os clarividentes eleitores de Oeiras tenham dado razão à máxima: O crime compensa.

3. Depois de tanta fidelidade canina, o pafunço-mor não merecia a deserção dos rangéis, do bochechudo de barba por fazer do jornal Público, nem sequer a estocada final do Gand'a Nóia, na televisão. Embora seja normal os ratos deixarem o navio, antes deste se afundar por completo.


P. S. : Já agora, limpem-me os outdoors, antes que venha a chuva! Não justificam a memória futura!

Curiosidades 66


É conhecida a atenção e o respeito que, normalmente, os ingleses têm pelos animais, sobretudo pelos de estimação. Mas também há fenómenos colectivos de muito difícil explicação, projectados por circunstâncias, talvez, de pânico colectivo ou de contaminação psicológica, quase irracional.
O penúltimo TLS (nº 5973) refere que, na primeira semana da II Grande Guerra, em 1939, sobretudo em Londres, houve um massacre, através da eutanásia provocada pelos donos, de cerca de 400.000 cães e gatos, o que representava 1/4 da população destes animais domésticos, na capital inglesa.



O facto não se deveu a nenhuma disposição legal do governo da altura e também nem sequer tinham ainda começado os horrores dos bombardeamentos nazis da Blitzkrieg. O mistério desta acção colectiva dos londrinos persiste. Em sentido contrário, contavam-se os casos do embaixador alemão Ribbentrop que, ao deixar a Inglaterra, abandonou o seu cão, e do embaixador inglês Neville Henderson que, ao abandonar Berlim, trouxe consigo o seu cão Hippy, de estimação - tendo sido destacado o facto, elogiosamente, na imprensa britânica da época, até pelo contraste.



O massacre dos cães e gatos londrinos, de que falámos acima, embora assistido por elas, não contou com a aceitação das autoridades veterinárias britânicas, que se limitaram a um acompanhamento caridoso, para que esses animais domésticos não sofressem com a eutanásia. E sabe-se que muitos dos animais sobreviventes foram, posteriormente, uma ajuda preciosa na descoberta dos seus donos, soterrados após os bombardeamentos, sendo até alguns deles condecorados, depois.

domingo, 1 de outubro de 2017

Els Segadors

Estou sobretudo contra os métodos repressivos de Madrid que dificultaram a expressão livre dos catalães se pronunciarem democraticamente, em referendo. Ao contrário dos escoceses que se puderam exprimir livremente, para não referir o Kosovo ou a separação da República Checa, da Eslováquia... Na Europa, aparentemente democrática, não se imaginava esta musculada repressão sobre a Catalunha.
Além disso, Els Segadors é um hino lindíssimo, vibrante e emotivo.

Citações CCCXXVII


O meu rosto parece um bolo de casamento que foi abandonado à chuva.

W. H. Auden (1907-1973), citado por Humphrey Carpenter, in W. H. Auden (1981).

Barbara Arens (1960) : exercício para a mão esquerda...

Adagiário CCLXX : Outubro (8)


1. Todo o mês volta outra vez.
2. Outubro quente, traz o diabo no ventre.
3. Por Santa Iria (20), pega nos bois e semeia.
4. Por S. Simão e S. Judas (28), colhidas são as uvas.

sábado, 30 de setembro de 2017

Adivinhas e folhetos de J. D. R. da Costa


Soube viver, ao que parece, este Josino Leiriense, poeta arcádico, de seu nome completo: José Daniel Rodrigues da Costa (1757-1832). Sobretudo por se ter acolhido a altos patrocínios, como o do Intendente Pina Manique. Mas escrevia e publicava muito, coisas menores é certo, mas divertidas. Que se vendiam bem pelo Rossio e pelas Portas de Sto. Antão, em forma de folhetos de cordel. Além disso, teve acesas polémicas com Bocage, que talvez não lhe perdoasse a índole conservadora.
Bem gostaria eu de saber quem lhe compraria as publicações: talvez escriturários e comerciantes, alguns poetas menores, mestre-escolas, média burguesia letrada, provavelmente, a pequena fidalguia ociosa...



Deste Barco da Carreira dos Tolos, em 12 fascículos mensais, adquiri 9, ficando a faltar-me o I, VI e VII (respectivamente, dos meses de Janeiro, Junho e Julho), que não os havia no alfarrabista. São da segunda (?) edição, de 1820, pois a original foi publicada em 1803. O magano do José Daniel usava de alguns pequenos truques para manter acesa a curiosidade e fidelidade dos leitores. No final de cada folheto, por exemplo, punha uma adivinha, cuja solução só era fornecida no folheto do mês seguinte...


Em relação a esta última adivinha, posso informar que a resposta era: Sepultura.
Também fiquei a saber, pelos folhetos, que machacaz era, na altura, um indivíduo corpulento, mas desajeitado; por vezes, finório, espertalhão. Quanto à expressão andar à donata, não lhe consegui descobrir o significado. Estes idiotismos, populares decerto, nem sempre tiveram seguimento de vida, no tempo.


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Recomendado : setenta e um


Herberto Helder (1930-2015) terá guardado apenas 2 cartas, das que Ramos Rosa (1924-2013) lhe enviara. Este conservou, se não todas, uma grande parte da correspondência que H. H. lhe remetera. Algumas destas missivas constam da Colóquio-Letras (nº 196), saída recentemente.
Não me parece que a importância delas sobreleve o interesse de uma carta que Herberto Helder dirigiu a Eugénio de Andrade (1923-2005), e que eu arquivei no Arpose, em 22/11/15 (Herberto / Eugénio), mas, para quem se interessa por Poesia, vale a pena ler esta correspondência.
Por isso a recomendo.

Alguns regionalismos albicastrenses (1)


1. Acarcoujado - dobrado, inclinado.
2. Aconapado - muito remendado.
3. A de-rabo - atrás de.
4. Agostadouros - pastos de Verão, dos restolhos.
5. Aldeagas - homem muito falador.
6. Alonso* - parvo.


* também conheço, do Minho, este regionalismo, com o mesmo significado.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

terça-feira, 26 de setembro de 2017

De Francisco Manuel de Melo, sobre os catalães


Parcial, na altura, sem dúvida, Francisco Manuel de Melo (1608-1666) participou na contenção da insurreição da Catalunha, no lado da corte de Madrid. A opção de Filipe IV (III, de Portugal) foi pela Catalunha, em detrimento de combater a insubordinação, quase simultânea, em Portugal. O que, de algum modo, contribuíu para que a revolta em Lisboa, em Dezembro de 1640, tivesse sucesso.
Sobre os catalães, escreveu no seu Movimientos, Separacion y Guerra de Cataluña (1645), o poeta Melodino, as seguintes palavras:

...Son los catalanes por la mayor parte hombres de durísimo natural; sus palabras pocas, á que parece les inclina tambien su proprio lenguage, cuyas cláusulas y dicciones son brevísimas; en las injurias muestran gran sentimiento, y por eso son inclinados á venganza; estiman mucho su honor y su palabra; no menos su exencion, por lo que entre las mas naciones de España son amantes de su libertad. ...

Infância


Para o bem e para o mal, a infância é um território contido. A que emprestamos, quase sempre, no presente, uma idealização passada de liberdade feliz. Esquecemos os interditos, as limitações impostas de cima (adultos), os afagos incómodos suportados com desagrado esquivo, os desejos insatisfeitos, os horários bem marcados do sono e do comer, dos trabalhos de casa e do brincar, e um tédio fininho, sem esse nome definido ainda...
Pelos meus anos mais tenros há, desde sempre, um oásis de histórias que, primeiro me leram, e depois eu li. Um soldadinho de chumbo, uma princesa de sapatos de ferro que não podia deixar de dançar até cair exausta, as aflições de um par de crianças perdidas na floresta. Nem sempre as histórias eram edificantes ou felizes, mas exercitavam a imaginação no sentido da superação das adversidades e na esperança de que tudo se viesse a resolver a bem.
Não sei por quanto tempo a literatura infantil continuará a ser para as editoras uma actividade temática rentável, ou a leitura um aspecto importante de formação humana. Talvez outras formas vão ocupando o espaço que os livros ocuparam, com outro movimento, outra acção, menos tédio trabalhoso, junto das crianças.
Uma amiga, que tinha ido com os netos ao Oceanário, em Lisboa, contou-nos que viu um jovenzinho, de 4 a 5 anos, especado junto do vidro dum dos grandes aquários, passar o dedo, como se fosse sobre um tablet, sobre a montra-visor, para que o peixe, na sua frente, passasse e outros viessem animar o ambiente...

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Osmose 89


Todo o grande poema tem uma segunda leitura: à tona, se tivermos pressa, outra, de águas profundas.
Há que nos abandonarmos ao mergulho da sensação, quando o poema tem densidade, às associações mais íntimas, descomandadas. Indo para além da leitura, num ascenso, também, que exclui o racional.
René Char aconselhava aos poetas autênticos que suprimissem o primeiro verso do poema original. E o último. Julgo que de forma a perder-se o fio da meada de uma rotina discursiva e banal.
Mas tudo depende daquele início de graça que nos é dado. Que sendo obscuro, pode ser divino na sua humanidade irrepetível, e prontamente esquecido. Como nos sonhos.

Um pequeno poema de René Char (1907-1988)


Tréma de l'Émondeur
Trema do Mondador


Porque o sol fazia de pavão por sobre o muro
em vez de se passear pelo dorso da árvore.

domingo, 24 de setembro de 2017

Da Janela do Aposento 67: Luz e Sombra




Num dia NEGRO, como hoje, em que o poderoso provincianismo, IGNORANTE, alemão e a matriz liberal dos pafunços nacionais ganharam mais uma batalha na tentativa de transformar a Europa numa coutada do liberalismo, aberto aos pistoleiros e vendedores de banha da cobra, só me resta, como sempre, a esperança na educação e elevação do pensamento.

Ciente da herança cultural recebida por uma edução assente na promoção social do conhecimento, não me oponho a novos métodos de ensino. No entanto, continuo a pensar que andamos a dar pouca importância às tais “basesinhas” de que se falava a propósito da educação do Eusebiozinho n’Os Maias, numa tentativa de ganhar a batalha sobre o avanço do obscurantismo.

A preocupação, tola e recente, de não “encher” a cabecinha dos “meninos” com tralha do passado, histórico-literária, faz com que a ausência de ocupação e a negação do preenchimento espiritual com assuntos de qualidade passe a ser disponível para pasto mais aberrante, vazio e nocivo.

Oxalá que o dia de hoje seja de profunda reflexão para evitar males maiores.


Não valerá a pena falar da vergonha e do desencanto profundo perante o resultado das eleições de hoje na Alemanha, fruto  da minha aversão ao provincianismo espiritual germânico, embora defensora ilimitada da salutar vida campestre. Basta lembrar que sempre julguei, com a antecipação devida, o efeito nocivo do provincianismo bacoco, vazio e culturalmente deprimente da chanceler alemã, que, infelizmente, continua sem assumir as suas responsabilidades, tal como os pafunços nacionais, pela deriva nacionalista.

Revivalismo Ligeiro CCLXXII

Bibliofilia 157


Para quem, embora por breves anos, teve que se submeter ao RDM, as suas exigências legislativas não deixavam, nalguns aspectos, de ter alguns pormenores ritualistas, insólitos e caricatos. Em pleno séc. XIX, ainda dele constava a obrigatoriedade, por exemplo, dos sargentos saberem ler e escrever, porque, na altura, muitos dos fidalgos, em postos superiores, eram analfabetos...
Creio que o mais recente Regulamento de Disciplina Militar foi actualizado em 2009.
E, se hoje nos servimos da prata da casa, no que à organização das forças armadas diz respeito, não podemos esquecer o genovês Micer Manuel Passanha ou Pessanha que, no tempo do rei D. Dinis, veio reorganizar a nossa Marinha. Ou o alemão Conde de Schaumbourg Lippe (1724-1777) que dotou o Exército português do que julgo ter sido, em 1763, o seu primeiro RDM, escrito.



De há muito que eu ambicionava possuir este Regulamento para o Exercicio, e Disciplina dos Regimentos de Infantaria..., do Conde de Lippe. Só que era livro sempre muito disputado, e que saía caro, em leilões. E tinha preços muito altos, em alfarrabistas, que excediam o valor da minha curiosidade marcial. Sendo que a figura do Conde Reinante me fosse simpática, mais não fora por ter dado o nome à famosa Sopa de Lipes ou Condelipas (José Quitério dixit), no Algarve, por muito ele a apreciar. Feita à base de Conquilhas, talvez da Ria Formosa.



Pois saíu barata a feira, afortunadamente. Que o livro, tirante a encadernação desgastada, que HMJ prontamente restaurou, é de papel encorpado e tem o miolo impecável. Dei por ele 18 euros, que foram muito bem empregues. E não sendo da primeira edição, permite-me consultar o RDM, na perfeição, cá por casa. Agora, desportivamente, e que já não estou sujeito, há muito, à servidão militar...

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Glosa 9, ou a obesidade e a rasura


Olhando, despreocupadamente, para as estantes da minha biblioteca observo que, no linear da ficção portuguesa, o maior volume de lombada pertence a Os Maias, de Eça de Queiroz. Na ficção estrangeira, a maior largura cabe a Guerra e Paz, de Tolstoi, indiscutivelmente, bem mais extenso do que o romance de Eça.
O jornal Le Monde (15/9/2017) dedica ao tema dos livros-tijolos, um artigo de Éric  Loret, a propósito da reentrada de Outubro, em que as editoras anunciam, para a nova temporada, romances de 700, 900, e mesmo um recordista, Alan Moore, com as 1.264 páginas, com o seu romance Jérusalem
O suplemento literário do jornal francês admite que, na prática, os romances e obras de ficção têm vindo a crescer, na Europa. E que essa extensão se poderá dever à escrita em computador, que permite rasurar, com facilidade, e emendar sem trabalho os originais dos autores, sem o penoso sacrifício antigo da reescrita.
Por outro lado, ao ver nos transportes públicos estes calhamaços imensos a serem lidos por tantos leitores, pergunto-me se estas leituras não serão feitas com leviana sub-atenção. À tona. Mecanicamente, como quem reza e, simultaneamente, vai pensando noutras coisas... Numa ligeireza a que muitas dessas obras se prestam.

Moritz Moszkowski / Jorge Bolet : "No Outono"


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Dos mínimos


Nunca me incomodou comer num restaurante atascado, desde que tivesse boa cozinha e o serviço fosse conveniente. Como também nunca realcei excessivamente as refeições tomadas em restaurantes de luxo, se também cumprissem esse desiderato, com a qualidade correspondente à sua categoria.
Nunca fui grande entusiasta da minimalista nouvelle cuisine que, no entanto, do ponto de vista estético, dá boas imagens em hebdomadários e revistas finas da especialidade. E faz a glória efémera de alguns chefs muito celebrados. Mas também nunca procurei restaurantes farta-brutos, para saciar a minha gula. No meio, acho que está a virtude. E se durante alguns anos, por motivos profissionais, me tive que habituar ao come-em-pé, infelizmente, não tenho porém qualquer problema - como muito boa gente tem - em comer sozinho. Saboreio melhor, talvez, e vou pensando, entretanto...
Não gosto de pouco espaço entre mesas. Não gosto de pedir o sal duas vezes. Lembro-me sempre que um prato que conste da ementa do dia, não deve demorar mais do que 20 minutos a chegar à mesa. E que um restaurante, minimamente competente, deve ter um empregado para cada 7 mesas. Ora, isto, até em alguns restaurantes ambiciosos é, muitas vezes, esquecido. Será em nome da tal produtividade?

Citações CCCXXVI


"...comer uvas é como beber vinho em pílulas."

João Portugal Ramos (produtor e enólogo), à revista Visão (24/8/17).

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

As palavras do dia (31)


Francisco Louçã (1956), no jornal Público de hoje, chama-lhes "gerigonçólogos", eu preferia chamar-lhes: minudentes, ou qualquer coisa assim parecida.
São jornalistas e comentadores que, pouco ou nada tendo a dizer, se prendem a aspectos formais, secundários e decorativos, para ornamentar as suas palestras vazias, em jornais e televisões. Conheço vários.
Iria jurar que nasceram e se fizeram homenzinhos durante o consulado cavaquista. Começaram a desenvolver-se interpretando, quais adivinhos ou pitonisas, uns discursos presidenciais que não tinham nada para interpretar, porque eram de uma chateza lhana e total. Assim cresceram eles, os minudentes jornalistas e comentadores da nossa praça...
Vou transcrever uma pequena parte do texto de Louçã, mas aconselho a sua leitura integral, porque é uma das crónicas mais bem esgalhadas deste nosso político e conselheiro de Estado. Aqui vai, então:

...Calhou-nos portanto a sorte de ter de viver com esta casta especial, especializadíssima, que é dos peritos em decifrar o tom de voz, a catadura, a posição da mão, o andar, a cor da roupa e até, em desespero de causa, a palavra desta gente que arrombou a porta do palácio. São os "geringonçólogos". ...