quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Idiotismos 43


Ao que parece, no inglês norte-americano os hífens têm vindo a desaparecer, ultimamente, enquanto na Grã-Bretanha se têm mantido. O que tem provocado algumas reacções daqueles que costumam escrever para publicações dos dois países, devido às diferentes grafias.
Em Portugal o movimento, se calhar, vai em sentido inverso. Dei-me conta que o antigo regabofe, agora, para ser correcto, deve escrever-se: rega-bofe. Com hífen, portanto. Porquê, não sei, porque o facto já é anterior ao AO. Mas a palavra não deixa de ser curiosa, em si.
Entendida literalmente significaria: molhar os pulmões (bofe/bofes). Mas os dicionários registam que um rega-bofe é uma festa onde se come e bebe à farta ou, então: vida airada; mas também poderá significar folia ou divertimento em larga escala.
Pessoal ou subjectivamente, tenho rega-bofe como muito próximo do ad libitum da praxe académica coimbrã que gritado pelo chefe de trupe permitia que um infeliz caloiro fosse rapado totalmente, pelo grupo. Mas também me lembro do é fartar, vilanagem, que Álvaro Vaz de Almada, Conde de Avranches (1390-1449), pronunciou na batalha de Alfarrobeira, antes de se entregar à morte, lutando.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

A propósito de um livro de exercícios


Durante muitos anos, pensei, intuitivamente, que todos os meus amigos e conhecidos sabiam nadar e andar de bicicleta. Pareciam-me daquelas competências básicas que, nas palavras do escritor Georges Perec, se pode traduzir (Pedro Tamen) por: a vida, modo de usar. Estava redondamente enganado.
Mas também eu nunca fui muito de exercícios físicos e, nesse aspecto, encontro-me na boa companhia de Churchill.
Na disciplina liceal de Ginástica, cumpria os mínimos, mas a subida da corda ou o salto sobre o fosso, na tropa, sempre me criaram alguma angústia existencial... Não era o caso do tronco, temível para os de pequena estatura corporal, a que eu chegava com extrema facilidade por ser alto.
Para quem tem muitos livros, a existência de nichos escusos de difícil acesso e volumes em segunda fila faz esquecer, com o tempo, obras significativas ou de particular estima que, momentaneamente, vamos arrumando em prateleiras secundárias, à falta de melhor espaço.
É o caso deste O Meu Systema, de I. P. Müller (1866-1938), que me coube por herança de pessoa muito próxima. 
Numa edição da Bertrand (como sempre, manhosa, sem data de impressão...), provavelmente de finais dos anos 30, terá custado a esse meu familiar, uns módicos Esc. 8$00. E, por ele, terá aprendido os rudimentos do exercício da Ginástica Sueca (embora o autor da obra tivesse sido um oficial do exército dinamarquês), muito em moda na época. Que as fotos e imagens são bem elucidativas.


Pois, lubrificado hoje, pela matinal e salutar natação da piscina autárquica, eu consegui debruçar-me, facilmente, para o lado esquerdo da secretária, e encontrar esta preciosidade bibliográfica, na prateleira do fundo.


De que, aqui, fica um pequeno respigo iconográfico, antes que o livro regresse à estante mais térrea...

domingo, 10 de dezembro de 2017

Natal, livros, fadas, arte e pesadelos...


Por esta época, retrocedemos. Ao menos, de memória. Uma fuga ilusória para o virtual aconchego de uma infância retocada de lareiras, brinquedos, livros de fadas e afectos desaparecidos, em que o futuro parece ser apenas o passado do presente. E não será preciso citar T. S. Eliot para reunir os três tempos do Tempo, numa confluência desejada, mas irreal.


A artista britânica Su Blackwell (Sheffield, 1975), tirado o curso de Belas-Artes, tem-se dedicado, desde 2003, a recortar livros infanto-juvenis, usados, que compra em alfarrabistas, transformando-os em pequenas esculturas de papel, alusivas às histórias aí narradas. Evidentemente que as palavras acabam por ser canibalizadas pela imagem. Como antes, as árvores tinham sido canibalizadas pelos livros.



Será muito discutível este processo. Para alguns, esta destruição dos livros pode assemelhar-se a um pesadelo desrespeituoso; para outros, sobretudo nesta época natalícia, a fantasia que desperta, anula, de algum modo, o acto criminoso.
Seja como for, cada um destes livros artísticos é vendido a 5.000 libras inglesas...
Alguém quer atirar a primeira pedra?

Uma fotografia, de vez em quando... (96)


Era Eugénio de Andrade que dizia, a propósito dos nossos fascínios e obsessões, que "não se escolhe, é-se escolhido". O argentino (Pedro) Luis Raota (1934-1986), filho de camponeses pobres, teve desde cedo uma particular atracção pela fotografia.




E captou, maioritariamente a preto e branco, figuras e rostos de desfavorecidos, carecidos no viver do dia a dia, desenraízados, muitos deles ancorados na esperança transcendente de outros mundos. A sua obra teve o reconhecimento de vários prémios internacionais.



Mas a algumas das suas fotografias não faltou, também, um ou outro sinal de humor e irreverência.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Osmose 91


Há memórias que não jogam, entre si. Ou porque os intervenientes não chegam a acordo quanto a datas e pormenores, ou porque somos a única testemunha sobrevivente e já não temos ninguém que  possa certificar  o facto com rigor.
Por uma coincidência, de estatística altamente improvável, sei que eu e mais dois amigos nos encontrámos, afortunadamente, no Verão de 1973 ou 1974, em Londres, numa esquina de Picadilly Circus, por mero acaso. Como diziam os antigos cauteleiros: há horas felizes...
Eu sei que o mundo é pequeno.
Mas nem eu, nem o Carlos, nem o António, nos lembrámos de mais nada. Para além desse facto real.
Quando muito, a efabulação de um escritor poderia compor o resto, com imaginação afectuosa.
E escrever um romance. Se tivesse talento.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Os malefícios da ditadura do proletariado


Todos têm o Natal que merecem.
Até nós tivemos 10 cavacos natalícios, com os respectivos sermões de boas festas, abaixo de cão. Inofensivos, porém.
Os marcanos estão a pagá-las, também, pela sua boçalidade natural. Infelizmente, com reflexos incalculáveis para o resto do mundo.
O povo, normalmente, é burro, imediatista, inculto, sobretudo quando vota. E temos que aturar, democraticamente, os resultados daí decorrentes...
(Perdoem-me o elitismo, momentâneo.)

Divagações 128


Há prefácios que valem um livro. Outros, cujo texto principal seria esquecido completamente se não fosse o prefácio (de outro autor) que acompanhava a obra. Posfácios ou prefácios de Jorge de Sena - que raramente resistia a escrevê-los para os seus livros e traduções - são ainda hoje saborosíssimos de ler ou fontes de informação e/ou erudição preciosas para enquadramentos de história literária ou da república das letras portuguesas.
Um dos exemplos primeiros de um prefácio, que enriqueceu muito uma obra, foi escrito por Eça de Queiroz, em Bristol, em 1886, para acompanhar um livro de crónicas do seu amigo Conde de Arnoso ( o vimaranense Bernardo Pinheiro Pindela). Ainda hoje a obra Azulejos é procurada e conhecida por causa do interessante prefácio de Eça.
Outro caso, é um livro de poemas, Alma Errante (1932), do russo e judeu Eliezer Kamenezky, vago actor e boémio a viver em Lisboa que, conhecido de Fernando Pessoa, lhe pediu umas palavras de apresentação para as suas poesias, a editar. Os poemas são fracotes, mas o prefácio merece ser lido. E é por isso que o livro é conhecido, ainda hoje...
Tudo isto vem a propósito de eu ter estado, vai, não vai, para comprar, num alfarrabista, o livro de poemas Tangentes (1975), de Merícia de Lemos (1913-1996), só porque tinha um prefácio de Vitorino Nemésio.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Citações CCCXXXII


No estilo fui sóbrio, não empregando sequer um adjectivo inútil; creio que, nas obras didácticas, à seriedade da ideia deve corresponder sempre a seriedade da forma.

José Leite de Vasconcellos (1858-1941), no prefácio a Opúsculos (1886).

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Rameau / Woskowiak

Retro (97)


Têm normalmente vida breve, os programas de cinema ou teatro, servindo fugazmente uma temporada. Por razões subjectivas ou esquecimento, às vezes, acontece que sobrevivem e surpreendem quem os conservou. Foi o que aconteceu, com estes dois programas, que correspondem a espectáculos memoráveis, a que assisti, no Teatro de D. Maria II.



Referem-se a representações de grande qualidade, com um elenco de luxo. O primeiro, encarte de cartolina com 3 faces, refere-se à peça Virgínia (1985), de Edna O'Brien, e contou com um desempenho brilhante de Carmen Dolores (1924), na protagonista. O segundo é quase um livrinho, de 60 páginas, contextualizando a Mãe Coragem... (1986), de Brecht, interpretada por Eunice Muñoz (1928).
Aqui ficam as imagens, para recordar duas grandes actrizes portuguesas, felizmente, ainda vivas.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Português em destaque (11)


Olhado com desconfiança, a princípio, cá dentro e lá fora. Objecto até de alguns dichotes e insinuações malsãs, por parte dos mediocres e invejosos nacionais e estrangeiros, Mário Centeno (1966) foi construindo o seu precurso, através da solidez dos resultados e da sua competência profissional.
Foi hoje eleito presidente do Eurogrupo. Não creio que tenha sido um presente envenenado.

Oaristo sem palavras


Não tendo o fulgor emblemático de "O Beijo" (1950), de Robert Doisneau (1912-1994), esta foto, provavelmente de autoria de Brigitte Lancombe (1950), fotógrafa francesa colaboradora da Vanity Fair, Vogue e algumas outras revistas, sugere de forma discreta, pela ocultação de ambos os rostos, o afecto de um casal, na sua expressão mais simples e natural.
O instantâneo serviu de capa ao livro At the Stranger's Gate, do escritor e ensaísta Adam Gopnik (1956), que é também colaborador de The New Yorker. Foi tirada em plena lua-de-mel, mais concretamente no dia seguinte ao casamento (1981), do escritor e da sua mulher, Martha Parker. Julgo que a fotografia dispensará qualquer acrescento, que eu pudesse vir a fazer...


domingo, 3 de dezembro de 2017

Revivalismo Ligeiro CCLXXV

para MR, esta minha canção predilecta de Barbara.

Filatelia CXXI


Em vários países europeus, as direcções dos Correios nacionais costumam presentear algumas instituições ou personalidades ligadas às Comunicações, bem como filatelistas de reconhecido mérito, com encartes de bom gosto artístico que incluem os selos de emissões a emitir. E contextualizam os motivos da celebração.



Portugal não fugia à regra e os selos das ex-Colónias eram também oferecidos, em caderninhos criados para o efeito, com enquadramento histórico explicativo das razões dessas emissões de selos. A Alemanha, ainda hoje, produz esses encartes para ofertas, de elevado gosto estético.



O primeiro deles, em imagem, destinava-se a celebrar Heinrich Hoffmann (1885-1957), escritor de livros para crianças. O Struwwelpeter não deixa de lembrar o Eduardo Mãos de Tesoura, do filme de Tim Burton... O segundo (terceira imagem) encarte recorda o pioneiro da aviação germânica Otto Lilienthal (1848-1896).

sábado, 2 de dezembro de 2017

Mercearias Finas 127


Ardilosamente, alguns jornais e revistas, por esta altura do ano e sabendo as bolsas mais folgadas, vão tentando os incautos novos ricos para produtos diversos de preços excessivos ou, pelo menos, desproporcionados. Estão neste caso alguns vinhos tintos e brancos portugueses.
O Fugas, do jornal Público de hoje, por exemplo, no artigo "Dez escolhas de grandes colheitas", publicita vinhos tintos que vão de 27,50 euros (Sidónio de Sousa, Garrafeira 2011) até 90 euros (Villa Oliveira, 2014). Quanto aos brancos, o mais barato (Quinta das Bágeiras, Garrafeira 2015) fica por 17, enquanto o mais caro (Quanta Terra, 2007) atinge o preço de 35 euros.



Nem sempre o preço é sinónimo absoluto de qualidade. Na minha perspectiva, o branco alentejano Pêra Manca, não merece os 15 euros por que o põe à venda. O Herdade Grande que ronda os 7 euros, é-lhe francamente superior, em anos de boa colheita. Outro caso excelentíssimo é o Frei Gigante, picaroto, que comecei a comprar na Casa dos Açores, à volta de 7 euros (bem merecidos) e que, agora, as grandes superfícies estão a vender a cerca de 14!!! Um despautério...




Creio que o vinho tinto mais caro que comprei, até hoje, foi um Quinta da Gaivosa, do proficiente enólogo duriense Alves de Sousa. Esportulei, há uns anos, cerca de 25 euros e arrependi-me. Embora bom, o vinho, para o meu gosto era inferior ao Quinta das Caldas, do mesmo produtor. Que era, na altura, muito mais barato.



O Dão, região demarcada portuguesa minha predilecta, não tem tido até hoje o enólogo genial que merecia. Mas há alguns produtores que se aproximam, e talvez, com o tempo, lá cheguem.
Se quiserem, caros amigos e visitas, acolher a minha sugestão, não gastem mais de 10 euros, e comprem um Vinha Paz tinto, de António Canto Moniz. Que ficam muito bem servidos, para a época natalícia, que está próxima. E merece. Isto, se o peru recheado entrar na Consoada. Se, no entanto, vier a tradicional bacalhauzada para a Ceia de Natal, então, arrisquem o branco Herdade Grande, de António Lança, alentejano de quatro costados, ali da zona da Vidigueira, e soberbo na sua pujança.
E Boas Festas!

Pascal Comelade : "L'Été Indien"

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Lembrete 61


É hoje o primeiro dia para abrir a portinha nº 1 do Calendário de Advento. E, assim, vou abri-las, todos os dias até ao dia 24, recordando a lenga-lenga da infância.

Post de HMJ

Adagiário CCLXXIII : Dezembro (8)


1. Natal em casa, junto à brasa.
2. Mal vai a Portugal, se não há três cheias antes do Natal.
3. Em dia de Santa Luzia (13) onde o vento fica, de lá porfia.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Ideias fixas 11


Eu creio que já o disse por aqui: leio com algum atraso o miolo pulp fiction do jornal Expresso. Um bom amigo poupa-me aos miriagramas de lixo anunciante ou inútil que o acompanham. E não faz mal esse atraso de dias com que folheio o caderno principal e a revista que me chegam às mãos. O que lá vem, normalmente, já veio repisado noutros jornais, ou online.
Porque, tirando as crónicas divertidas e delirantes de Ana Cristina Leonardo e as bem informadas e humoradas colunas de Manuel S. Fonseca, o resto, para além do sermão dominical (embora ao sábado) e outras bugigangas, são meras ordens de serviço, muito bem compostinhas, e mera rotina entediante de escreventes núbeis ou serôdios, sem qualquer interesse de maior.
Politicamente correcto, ao pormenor, quem diria que o Expresso já foi um jornal de referência?!

Beethoven / Brendel

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O polvo, as lulas e os choquinhos


"... A escala da sua supremacia é notável, o Google controla mais de 90% do tráfego dos motores de busca na Europa e 88% na América; o Youtube, detido pela Alphabet, é o maior difusor de música no mundo; a Amazon recolhe mais do que metade dos dólares gastos online; o Facebook, tendo absorvido os competidores, tais como o Instagram e o WhatsApp, detém 77% de todo o tráfego de redes sociais, e recentemente alcançou 2 biliões de membros. Com a Apple e a Microsoft, estas são agora as 5 maiores companhias no mundo. (...) Em conjunto, elas gastam em lobbies governamentais mais do que os 5 maiores bancos ou as 5 maiores companhias petrolíferas. ..."

Samuel Earle, in TLS (November 17 2017).

Considerandos e consolação


Todos os anos, por esta altura, o TLS dedica algumas páginas a depoimentos de críticos, escritores, ensaístas e tradutores, de reconhecido mérito, para que se pronunciem sobre os melhores livros que saíram ou que eles leram durante o ano, e que consideram de maior interesse ou qualidade. Cumprindo a tradição, o penúltimo TLS (nº 5981) recolheu testemunhos de 63 personalidades muito diversas, ligadas às Letras.
E todos os anos, com alguma curiosidade, eu procuro descobrir minuciosamente se há algum nome português. É raro. E este ano não foge à regra. Indirectamente, no entanto, é referido um livro que também aborda o colonialismo português (Europe after Empire: Descolonization, society; and culture), entre outros (inglês, francês, belga e holandês) colonialismos.
O livro mais referido, pelos depoentes, é A Legacy of Spies, de John Le Carré, que eu li em tradução portuguesa e não me entusiasmou por aí além. Por outro lado, há inúmeras referências a livros do passado e autores já falecidos, como se houvesse uma fuga para trás, por desilusão com o que se publicou recentemente. Joseph Conrad, Evelyn Waugh, e até o Memorial de Santa Elena, de Las Casas, passando por Machado de Assis e Antonio Machado, merecem pareceres elogiosos, no TLS.
E, no meio disto tudo, para colmatar a lacuna portuguesa, eis que me aparece a imagem de uma obra de Joana de Vasconcelos, numa das últimas páginas do TLS!? Rejubilei. Embora fosse apenas para iconografar uma recensão a um livro que aborda o problema da religião, na Irlanda. Mesmo assim...

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Do que fui lendo por aí... 15


O que torna difícil para um poeta não dizer mentiras é que, em poesia, todos os factos e todas as crenças deixam de ser verdadeiros ou falsos para se transformarem em interessantes possibilidades. O leitor não é obrigado a partilhar as crenças expressas num poema de forma a fruí-lo. Sabendo isto, um poeta é constantemente tentado a fazer uso de uma ideia ou crença, não porque acredite que ela é verdadeira, mas porque ele vê que ela traz consigo interessantes possibilidades poéticas.

W. H. Auden, no prefácio a The Dyer's Hand (pg. 18).

Schumann / Bashmet / Mutian

René Char (1907-1988)


Quem não terá sonhado, ao vaguear pela avenida das cidades que, em vez de começar pela palavra, tudo tivesse início pelas intenções?
...
O exercício da vida, alguns combates com desfecho insolúvel mas por motivos válidos, ensinaram-me a olhar o ser humano sob um ângulo de céu cujo azul de tempestade acaba por lhe ser o mais favorável.


René Char (1907-1988), in Lettera amorosa (pgs. 30 e 38).


estas versões são, particularmente, para H. N. que, há muito, me ofereceu este lindíssimo livro.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Desabafo (30)


Dizia-me, há que tempos, um bom amigo, com sapiência e ironia, que era uma sorte um artista canastrão chegar a ser muito velho, a propósito de um ex-actor (mediocre) de teatro que inundava as telenovelas dos canais portugueses, nessa altura. E acrescentava, com bonomia: "É que a gente habitua-se..."
Porque todos temos um prazo de validade, útil e digno. Prolongá-lo e alargá-lo, em excesso, é sinónimo de cupidez ou estultícia. Mas compreendo que o vil metal fale mais alto, sobretudo em mentes que vão degenerando e perderam, de todo, o frescor e originalidade da sua juventude.
E as luzes da ribalta sempre fascinaram. Quando não cegam...

Pinacoteca Pessoal 131


Pintor de entardeceres, ou melhor, de anoiteceres brumosos e paisagens de largos horizontes, o inglês Atkinson Grimshaw (1836-1893) privilegiava nos seus quadros a proximidade dos cais, ruas nevoentas e ribeirinhas, nimbadas por uma luz crepuscular que instala, em muitas das suas obras, uma sugestão de melancolia outonal.



Tendo iniciado a sua vida profissional como mero funcionário dos Caminhos de Ferro britânicos, na esteira tradicional do pai, cedo contrariou o seu progenitor, pela forte vocação que o arrastava para a Pintura, a que veio a dedicar-se, inteiramente, até à morte.



Influenciado, a princípio, pelos Pré-rafaelitas, de pronto ganhou voz própria e estilo marcante, em tema e cores, facilmente detectáveis nas suas telas muito originais. Como poderá notar-se pela primeira imagem do quadro (Cais de Liverpool), que pertence à Tate Gallery.



Algumas das suas paisagens parecem pressagiar, embora em tom mais discreto, algumas obras recentes de Hockney. O perfeccionismo da obra de Atkinson Grimshaw despertou a admiração de Van Gogh, que a ele se referiu na correspondência ao seu irmão Theo.

domingo, 26 de novembro de 2017

Em sequência legítima...

... embora desinquietante, talvez, para esta manhã de Domingo silenciosa e calma, soalheira...

Memórias da velha e pérfida Álbion


Em 1985, era Setembro, na modulação final da minha cristalização de gosto musical - reduto que, escassamente, foi perturbado depois -, em Queensway (Londres), havia ainda uma loja de discos, fulgurante. E eu já tinha ido para além de The Beatles, e procurava as últimas gravações de Tina Turner. O meu filho mais velho andava, então pelos Kraftwerk, muito naturalmente nessa décalage salutar de gerações. Quando lá entrámos, cada um se ocupou, na altura, das "bem querias" de que falava o bom velho Sá...
Acontece que, caída ou roubada, uma nota de 20 libras saíu, sem querer, de uma das nossas algibeiras diminuindo-nos o património familiar. Foi aí que, para restabelecer o equilíbrio das finanças, mais tarde em Greenwich, eu entrei numa agência bancária para trocar escudos portugueses por libras inglesas. Em abono da verdade, essa dependência bancária tinha ainda todo o ar pomposo e respeitável da época victoriana. Mas para ser justo, foram muito mais rápidos na operação de câmbios do que, em Portugal, para trocar as divisas, antes de eu iniciar a viagem para a Inglaterra.
Imagine-se o inimaginável:  uma atmosfera, qualquer coisa comparável por entre Charles Dickens e o Speedy Gonzalez...

sábado, 25 de novembro de 2017

Variações


Nomes e apelidos


Um apelido, normalmente, cuida-se, cultiva-se e conserva-se. Está muitas vezes colado à pele. Um nome pode ganhar outra liberdade, mas revela também um ADN. E um gosto paterno, normalmente, que a mãe na altura do registo ainda está de cama, quase sempre. Pode indiciar um afecto, cultura, uma tradição familiar, um amor antigo sibilino e secreto. Mas pode vir a ser um anátema, no futuro da criancinha.
E também pode revelar um incrível mau gosto. Não me passaria pela cabeça registar, uma filha que tivesse tido, com o nome de Leonete. Ou Vanessa, a tal vanessinha de que fala o António Variações na sua canção dirigida à Maria Albertina. E isto, porque mesmo tendo-se nascido em Vila Verde, podemos ter sentido crítico e do ridículo, bem como algum mundo mental, para além das telenovelas do costume.

Citações CCCXXXI


Nenhum escritor pode julgar, em bom rigor, se um seu trabalho é bom ou mau, mas ele pode vir a saber, não imediatamente talvez, e dentro de pouco tempo, se algo do que escreveu é autêntico - no seu íntimo - ou falso.
...
A mais penosa de todas as experiências para um poeta é descobrir que um poema seu, que ele sabe que é falso, agradou ao público e até foi incluído em antologias. Porque, apesar de saber e pensar, que o poema pode ser razoavelmente bom, não é essa a questão; é que ele não o devia ter escrito.


W. H. Auden, in The Dyer's Hand (pg. 17).

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Memória (118)


Não dei, por entre tanto noticiário habitualmente inútil entremeado de minudências domésticas e regionais, por que se falasse, a 9 de Novembro, da passagem do cinquentenário da morte do grande tenor português Tomás Alcaide (1901-1967) que, mesmo lá fora, grangeou respeito e admiração.
Venho aqui reparar a omissão, quinze dias passados, arquivando no Arpose, uma sua interpretação de uma ária da ópera "Os Pescadores de Pérolas", de Georges Bizet. 
(Embora a gravação do vídeo não seja das melhores.)

Apontamento 108: Afinal, são os países do Sul a dar lições

[Tempo das conversas a sós ...]

Com medo de novas eleições e, sobretudo, esta incerteza quanto a um novo governo alemão que aliás, e também ao contrário dos “pigs”, costuma levar bastante tempo para se concretizar. Deve ser um mal de um centrão: Alemanha, Bélgica e Holanda formam um novo governo quando os cidadãos já se esqueceram das eleições.
No entanto, desta vez e depois do falhanço das negociações para uma coligação um pouco estranha, lá estão os alemães preocupadíssimos, como se vê pela informação da estação televisiva de referência, a Tagesschau:
“In Spanien hat sie jahrelang funktioniert, in Portugal arbeitet sie erfolgreich, und in Skandinavien ist sie quasi politischer Alltag: die Minderheitsregierung. Wie funktioniert sie und wäre eine solche Konstellation auch für Deutschland denkbar?”
Von Oliver Bilger für tagesschau.de

Em síntese, diz o senhor Bilger que, afinal, Portugal até “TRABALHA COM MUITO ÊXITO” numa solução de governo minoritário. Quem diria ??? Um país do Sul a dar lições à “grande” Alemanha.

Fico contente com esta abertura de espírito. É uma lufada de ar fresco !

Post de HMJ

As palavras do dia (32)


"... E o Google ensina-nos que a democracia digital se baseia em filtros e algoritmos que permitem deduzir a opinião da maioria e empurrar para zonas invisíveis o que é minoritário. ..."

António Guerreiro, in O monstro cibernético (jornal Público, de 24/11/2017).


Comentário pessoal: ao Poder interessa sobretudo padronizar, para melhor arrebanhar os carneirinhos.

Desconversando


A produtividade do trabalho intelectual raramente compensa, nem a boa vontade, de cujas intenções está o inferno cheio. Deus, no entanto, transformou o nada em tudo, durante apenas uma semana (depois de ter criado o tempo finito?), num recorde de produção divina, impaciente.  Ou, talvez, num desespero de solidão metafísica. Compreensível, aliás, para um sem-familia.
Depois, descansou eternamente, ao que parece.
E vai-se vendo, sobretudo, após o fim da Guerra Fria e a queda do Muro de Berlim - tudo tem aquecido imenso. E a chuva, caprichosa, faz negaças, continuamente. É o diabo! - como dizia o outro.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Para a cabeça


Por entre o cartaz e o bilhete-postal utilizável, duas formas de publicitar coberturas para a cabeça: o boné e o chapéu. Serão de anos próximos, muito embora a imagem do cartaz francês, na sua simplicidade essencial, denuncie a estética do traço profissional de quem o fez. É mais modesto, de ambição, o reclamo do chapéu português (que agrega ainda publicidade a uma marca de calçado), não deixando de ser curioso e definir uma época, que se deverá situar por entre os anos 30 e 40 do século passado.


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Música

Este segundo movimento da Suite BWV 1068, de Bach, quase toca aquilo que imagino ser o sublime. Tudo depende dos intérpretes. Creio que os Voice of Music cumprem, pelo menos, bem.
Aqui fica (pela segunda vez, no Arpose), no Dia Internacional da Música.

Afinidades


Estas fotografias da norueguesa Hebe Robinson (1970) pertencem a um ciclo sobre Lofoten (Echoes of Lofoten), pequena área isolada da Noruega. A artista sobrepôs, sobre paisagens desertas e naturais da região, pequenas fotos de personagens humanas de há mais de 60 anos. Gostei muito do resultado obtido. 
Mas uma destas fotografias (a primeira) tem, por trás, uma explicação, de como eu cheguei até ela.
A única maneira de aderirmos por inteiro a uma ideia é concebermo-la nós próprios. O mesmo poderá acontecer com um cozinhado, a que demos um pequeno toque pessoal de gosto: nas omoletas, costumo ripar em tiras duas ou três folhas de hortelã, por exemplo...
Quem quiser, também, um blogue a seu modo, tem de o fazer. Não quero dizer com isto que eu não tenha afinidades com os blogues que acompanho. Mas nem sempre estou com eles, de alma e coração, inteiramente. Com alguns, estou mesmo muito próximo. Mas são poucos. Razões de sentido crítico, tom, enquadramento da estética iconográfica, temas tratados, excesso de imagens em prejuízo de texto num neo-riquismo visual desabusado, às vezes, me separam.
Ora, de há uns dias a esta parte, o Arpose tem recebido um(a) visitante que lhe chega por via de um outro blogue que segue o nosso. Por curiosidade, fui lá, a esse blogue, e as afinidades eram muitas e próximas, excepto  talvez nas escolhas musicais - questões geracionais, provavelmente... Mas em quase tudo o resto, havia sintonia: em poesia (António Reis, por exemplo), em prosa (citações do Desgraça, de Coetzee), a leitura referenciada do TLS, o sentido crítico da ficção escrita do(a) autor(a), o bom gosto estético geral desse blogue que, infelizmente, foi de curta duração, mas de grande qualidade e coerência. Não lhe vou referir o nome por discrição. Mas reproduzo essa tal fotografia de Hebe Robinson, que lá descobri, ao cimo deste poste.
Acrescentando uma segunda foto que, essa sim, fui eu a escolher. 
In memoriam de um(a) Blogger anónimo(a) e desconhecido(a).


terça-feira, 21 de novembro de 2017

Atrás de grades...


Não passará despercebida, a quem passar pela rua de S. José (Lisboa), um árvore insólita engaiolada numa estrutura metálica. É um dragoeiro, planta tão ou mais velha que as figueiras e oliveiras, na história do mundo, mas muito mais rara em Portugal. Mercê de umas obras de Santa Engrácia, que se eternizam nessa rua, a árvore foi protegida para lhes sobreviver (?), entretanto, e enjaulada.



Num dos seus passeios lisboetas, HMJ colheu este instantâneo pitoresco da base de uma grande árvore, no Jardim de Santos. As raízes, à superfície, lembram répteis fossilizados pela sua imponência e gigantismo. E graças à perspectiva das grades do jardim também parecem ter sido enjaulados.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Mais um Fado

Este fado, algo insólito e heterodoxo pelo tema, com letra de Gabriel de Oliveira sob mote e versos de Augusto Gil (1873-1929) e música de Frederico de Brito, dá pelo nome de Maria Madalena. É, de algum modo, o contraponto lisboeta do Samaritana, fado de Coimbra (com letra de Álvaro Cabral) que, até 1974, estava proscrito das serenatas públicas na cidade do Mondego. Só se podia ouvir no recato das Repúblicas conimbricenses - onde a Censura não entrava - como de facto o ouvi por duas vezes, pelo menos. Por ser um dos meus poucos fados-fetiche, arquivei-o no Arpose, em poste de 12 de Agosto de 2010.
É tempo, no meu entender, de dar voz a Lucília do Carmo (1919-1998), nesta belíssima interpretação de Maria Madalena, incluindo-a no Blogue.

domingo, 19 de novembro de 2017

V. A.


Vale bem a pena acompanhar, mesmo que à distância, as novas produções que as Porcelanas Vista Alegre vão criando, engenhosamente, ao longo do tempo. As suas montras, ao Chiado, são sempre um motivo de alegria, júbilo e prazer estético para o olhar - mesmo que não entremos para comprar. Marca nacional de prestígio, mesmo além fronteiras, criada em 1824, está prestes a completar o seu bicentenário.



Este encarte, de que reproduzo algumas imagens, não é já muito recente. Mas este Veado Vermelho, com uma produção de apenas 190 exemplares, é um fino exemplo da qualidade dos produtos da Vista Alegre.
Acresce a particularidade de eu só há poucos anos ter sabido que as presas dos veados caíam e se renovavam, de tempos a tempos. Renovo e re-criação de que também as Porcelanas Vista Alegre são um magnífico exemplo.