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quinta-feira, 17 de abril de 2025

T. S. Eliot

 

É um dos últimos TLS (nº 6356) que dá a boa notícia de que a editora Faber and Faber publicou, em 4 volumes, The Collected Prose, de T. S. Eliot (1888-1965), num total de 3.536 páginas. É a primeira vez que tal acontece, de forma completa, quanto aos ensaios do notável pensador.
Na minha opinião, com Paul Valéry (1871-1945), Eliot foi o mais capacitado estudioso de poesia e que dela falou com mais propriedade intelectual, até ao momento. Por cá, só talvez Jorge de Sena (1919-1978) se aproximou mais na abordagem  desta difícil temática literária.

terça-feira, 11 de abril de 2023

Impromptu 67



Falamos no tempo presente de coisas do passado só porque lhes fomos contemporâneos e contíguos.
T. S. Eliot (1888-1965), porém, disse-o de outra forma, e em verso, assim:

O tempo presente e o tempo passado
estão ambos talvez presentes no tempo futuro
e o tempo futuro contido  no tempo passado
se todo o tempo é eternamente presente
todo o tempo é irredimível em si mesmo.
O que podia ter sido uma abstracção
permanece uma possibilidade perene
...
...
O seu a seu tempo.
As 4 últimas frésias (amarelas) já floriram na varanda a Sul. Por alguns dias ainda, aroma e beleza.
Na varanda a Leste, impacientes, duas pujantes amaryllis começam a querer romper os seus casulos verdes, já gretados, entreabertos para a luz.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Disposições para a eternidade


São quase sempre saudadas, de forma efusiva pelo público leitor, as obras póstumas dos grandes escritores. Em Portugal, mas também lá fora, nem sempre esses livros acrescentam mais valia ao que já fora publicado. Antes pelo contrário, muitas vezes. Isso deve-se, com frequência, a interesses comerciais das editoras e pecuniários, da parte dos descendentes e/ou respectivas famílias desses artistas. O sentido crítico ou o respeito pelo escritor raras vezes é tido em conta.
Em 1938, T. S. Eliot (1888-1965) prevenindo o futuro literário da sua obra e memória, escreveu ao seu amigo John Hayward (1905-1965), que escolhera para executor testamentário, uma carta sobre as suas vontades, e de que, em tradução livre, vamos dar um pequeno, mas significativo excerto. Que segue:

"Os trabalhos da profissão podem ser, por vezes, demasiado comuns e negativos.
Eu tive que escrever, uma vez por outra, textos banais em jornais, que, em grande parte e por aquela razão, nunca mais foram reeditados. O meu amigo deve tomar em consideração que, se esses artigos não foram publicados em livros meus posteriores, é porque não merecem voltar à luz do dia, depois da minha morte. A Faber & Faber pode ser tentada a reeditá-los, ora a sua obrigação deverá ser evitá-lo. E eu não desejo qualquer biografia escrita sobre mim, nem correspondência minha em livros póstumos, sobretudo a anterior a 1933, ou quaisquer cartas íntimas que eu tenha dirigido a alguém.
De facto, eu tenho uma grande preocupação com a privacidade póstuma. Portanto, e mais uma vez, o seu trabalho será desencorajar qualquer tentativa para publicarem livros sobre mim e suprimir tudo aquilo que seja de suprimir.
E deixarei, por isso, instruções nesse sentido, no meu testamento."


Nota pessoal : vale a pena acrescentar que as vontades pessoais de T. S. Eliot não foram acatadas. Para isso também ajudou o facto do seu amigo, John Hayward, ter falecido no mesmo ano do escritor, embora alguns meses depois. Mas a própria viúva, Valerie, segunda mulher de Eliot, pouco depois da sua morte, começou logo a organizar a correspondência existente, com vista à publicação...

sábado, 3 de novembro de 2018

Segundas vias


Uma coisa é vocação, outra, sobrevivência.
Há, no entanto, equivalências que são mais bem aceites do que outras, pelo espírito humano. Que um professor seja também romancista ou poeta, é tacitamente entendível e considerado normal, pela comunidade. Um médico romancear (Torga, Namora, Araújo Correia...), não causa ainda a mínima estranheza.
Já um bancário ser poeta e ensaísta (T. S. Eliot) cria alguma perplexidade e, nalguns espíritos demasiado ortodoxos, causa alguns engulhos de classe ou elitistas. Mais ainda, se um contabilista ou correspondente de línguas (Fernando Pessoa) se põe a poetar, ou se um empregado de uma loja de ferragens (Cesário Verde) se dedica, em primeira instância, a escrever versos. Primorosos, aliás.
Para subsistir, ocupar a rotina com banalidades pode ser útil e saudável, sobretudo se for para deixar à solta a criatividade pessoal. Como fez, por inicial necessidade, Carlos Paredes, administrativo dos Hospitais Civis de Lisboa, que nos deixou melodias maravilhosas...
O ócio, quando existe e é bem administrado, pode vir a ser arte. É preciso  é ter vocação para algo mais, do que passear na vida, por ver andar os outros.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Natal, livros, fadas, arte e pesadelos...


Por esta época, retrocedemos. Ao menos, de memória. Uma fuga ilusória para o virtual aconchego de uma infância retocada de lareiras, brinquedos, livros de fadas e afectos desaparecidos, em que o futuro parece ser apenas o passado do presente. E não será preciso citar T. S. Eliot para reunir os três tempos do Tempo, numa confluência desejada, mas irreal.


A artista britânica Su Blackwell (Sheffield, 1975), tirado o curso de Belas-Artes, tem-se dedicado, desde 2003, a recortar livros infanto-juvenis, usados, que compra em alfarrabistas, transformando-os em pequenas esculturas de papel, alusivas às histórias aí narradas. Evidentemente que as palavras acabam por ser canibalizadas pela imagem. Como antes, as árvores tinham sido canibalizadas pelos livros.



Será muito discutível este processo. Para alguns, esta destruição dos livros pode assemelhar-se a um pesadelo desrespeituoso; para outros, sobretudo nesta época natalícia, a fantasia que desperta, anula, de algum modo, o acto criminoso.
Seja como for, cada um destes livros artísticos é vendido a 5.000 libras inglesas...
Alguém quer atirar a primeira pedra?

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Alta cultura, pop e baixa cultura, nimbadas por ironia


Numa sua recensão crítica, no TLS (nº 5875), o escritor e filósofo inglês Roger Scruton (1944), professor convidado da Universidade de Oxford, ao abordar o volume (traduzido) de Vargas Llosa, Notes on the death of Culture, epígono da obra de T. S. Eliot (Notes towards a definition of Culture, 1948), permite-se um tom irónico, muito british na sua essência, ao caracterizar as diferentes formas de cultura. Porque o texto me divertiu imenso, vou traduzir, de forma livre, um pequeno excerto dessa recensão bem humorada. Assim:
"... Há segredos que é preciso saber descriptar, ao contrário de outros, que são permissivos livros abertos. Ao contrário da cultura pop, a alta cultura é algo que não se pode consumir. É alguma coisa em que apenas somos iniciados. E que tem um efeito transformador na nossa vida, e uma vez partilhada, tudo muda - amigos, amantes, companhias, actividades, dia a dia e lazer. Algumas vezes, é verdade, acontecer beijarmos uma rapariga, mesmo quando ela não saiba distinguir o prelúdio menor do Livro primeiro de Bach, da Opus 48 do Livro II; mas esses beijos não foram verdadeiros beijos: eles pertencem ao mundo da ephemera, e não à vida autêntica que deve ser vivida. Bem assim como à diferença entre a pop e a clássica aplicada a beijar como deve ser. Não reconhecer isso, é trair tudo aquilo que aprendemos com F. R. Leavis, Eliot e D. H. Lawrence. ..."

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Impromptu (20)


Jamais escrevi sobre cães. Naturalmente, os cães não parecem prestar-se ao verso, tão bem, colectivamente, como os gatos.

T. S. Eliot (1888-1965).

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Poetas vistos por poetas


Popa
à memória de Ted Hughes

"E como era ele," perguntei-lhe eu,
"O estar com Eliot?"
                     "Quando nos olhava"
Disse ele, "era como se nos encontrássemos parados no cais
Observando a proa do Queen Mary
Chegar até nós, muito lentamente."

                     Agora parece-me
Que estou parado no paredão do molhe a vê-lo
Ao mesmo tempo que ele me observa enquanto vai zarpando
E uma inacabada popa de madeira
Vai sendo trabalhada, mas trémula se afunda
Sem conseguir verdadeiro progresso.


Seamus Heaney, in District and Circle (Faber and Faber, 2006).

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Uma fotografia, de vez em quando (34) : Cecil Beaton


Abarcando temas tão diversos, como a moda e a guerra, o fotógrafo inglês Cecil Beaton (1904-1980) iniciou a sua carreira profissional na América, trabalhando para a Vanity Fair e a Vogue. Desta última, viria a ser despedido, em 1938, por ter legendado algumas fotografias de forma politicamente incorrecta...
Regressado a Inglaterra, cobriu documentalmente os resultados dos bombardeamentos alemães sobre a capital britânica. Não era um inovador, mas um clássico, o que lhe permitiu, de algum modo, vir a ser, informalmente, o fotógrafo oficial da família real inglesa. Mas não deixa de ser curioso o retrato em que fixou, de três ângulos diferentes, o poeta inglês T. S. Eliot.
O retrato de Cecil Beaton, que encima o poste, foi tirado por Louise Dahl-Wolfe.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Ainda sobre Poesia, e com Eugénio


Há séculos, pelo menos 9, que os portugueses se exprimem, também, através da poesia. Mas raramente se interrogam sobre ela e sobre a criação. Ao contrário dos poetas ingleses, por exemplo, que muito teorizaram sobre ela: de Wordsworth e Coleridge até T. S. Eliot.
Mas Eugénio de Andrade, algumas vezes, falou sobre poesia, com palavras justas e sábias, que o saber da experiência lhe dava. Numa ocasião, a uma pergunta/acusação (do entrevistador) sobre a dureza dos seus juízos a propósito de jovens poetas, respondeu assim:
"...A juventude não precisa de piedade, mas de verdade. Há muito jovem que me pede ajuda onde não há ajuda possível, pois ninguém pode viver por eles a sua própria vida, remontar às fontes do ser. Porque a poesia é a perpétua procura dessas águas. Quando não é isso, é uma inútil cantilena com que se embalam as horas, com que alguns espíritos superficiais enganam a vida. Num tempo degradado como o nosso, todas as fontes estão ocultas. A tarefa do poeta é desocultá-las. Tudo o que nos saia das mãos sem esse sabor original são só palavras a mascarar a palavra, miséria que nos impede até de ouvir a magnífica e alta música do silêncio."

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Citações CLXVII


E uma boa tradução como esta* não é uma mera tradução, para o tradutor é dar o original através de si próprio, e encontrar-se a si mesmo através do original.

T. S. Eliot, na Introdução a Ezra Pound - Selected Poems.

* T. S. Eliot refere-se às traduções que Ezra Pound fez sobre poesia chinesa.


terça-feira, 1 de outubro de 2013

Leitores e elites, segundo Eliot


Talvez de uma forma ligeiramente polémica, T. S. Eliot (1888-1965), em Ensaios de Doutrina Crítica (tradução de J. Monteiro-Grillo), aborda a questão da recepção à leitura de Poesia, da seguinte forma:
"...Pouco importa que um poeta tivesse tido um público numeroso no seu tempo. O que realmente interessa é que tenha tido público, mesmo que reduzido, em todas as gerações. E contudo, o que afirmei acima sugere, que a importância do poeta é a sua própria época, ou que os poetas que já morreram deixam de ter utilidade para nós, se não possuirmos também poetas vivos. Eu ainda vou mais longe: afirmo que, quando um poeta consegue público numeroso muito rapidamente, se torna suspeito, pois somos levados a recear que não está a realizar nada de novo, que apenas está a dar ao público aquilo a que o público já está habituado, ou seja, aquilo que já lhe foi dado pelos poetas da geração anterior. Mas importa de facto que um poeta, no seu tempo tenha tido aquele público adequado e reduzido. Deve sempre existir uma pequena vanguarda de gente apreciadora de poesia, independente e adiantada à sua época, ou pronta a mais rapidamente assimilar a novidade. O desenvolvimento da cultura não significa trazer toda a gente para frente, o que seria equivalente a manter tudo nivelado; o desenvolvimento consiste na conservação de uma élite, mas seguida pela grande massa, mais passiva, dos leitores, com um atraso não superior a uma geração, aproximadamente."

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

T. S. Eliot, sobre Poesia


"Maus versos poderão ter uma voga transitória, enquanto o poeta reflectir uma atitude popular momentânea; mas a verdadeira (poesia) sobrevive, não só a uma mudança de opinião popular, mas ainda ao desaparecimento de todo e qualquer interesse à volta das questões que motivaram o arrebatamento do poeta."

T. S. Eliot (1888-1965), in A Função social da Poesia (trad. por J. Monteiro-Grillo).

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Da importância dos nomes em literatura


Para a grande maioria dos escritores, não são inteiramente indiferentes os nomes que usam, para os protagonistas, nas suas obras de ficção - às vezes, são maduramente pensados, por várias razões. Fixáveis, sonantes, sugestivos.
Henry James costumava coleccionar nomes que apareciam em "The Times", para depois os vir a utilizar nos seus romances. Simenon, quando se hospedava em hotéis estrangeiros, frequentemente folheava as listas telefónicas dessas cidades, anotando nomes que lhe parecessem memoráveis, para futuras obras de ficção. T. S. Eliot era mais original e criativo, ideando nomes exóticos e inexistentes, até aí: Prufrock, Madame Sosotris, Mr. Apollinax...
Por cá, Eça era sucinto, normalmente: "Os Maias", "O Primo Basílio". Quanto a Camilo, atente-se nestes dois títulos de romances:
- "Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado"
- "O carrasco de Víctor Hugo José Alves",
que, apesar de longos, são nomes facilmente fixáveis. E eu quero crer que Camilo não os usou por mero acaso.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

As palavras sucintas


De Wislawa Szymborska (1923-2012), polaca, que recebeu o Nobel em 1996, conheço muito pouco: 2 ou 3 poemas que apareceram traduzidos, em jornais portugueses. Mas, por outro lado, sou um curioso interessado pelos discursos que os galardoados fazem em Estocolmo, ao agradecer o prémio. Já aqui, no Blogue, me referi às palavras de Camus, às de T. S. Eliot e às de Saramago, pelo menos. Porque me parecem importantes, sempre, para melhor conhecimento da obra e do homem ou mulher, em causa.
Ao que parece, o discurso Nobel de Wislawa Szymborska foi dos mais sucintos, se não o mais curto dos que foram pronunciados, em Estocolmo, até hoje. E cheio de auto-ironia. Aqui vai uma parte dele:
"...O trabalho dos poetas não podia ser menos fotogénico. Há alguém que se senta a uma mesa ou se deita num sofá e, imóvel, olha para a parede ou para o tecto. De vez em quando essa pessoa escreve umas linhas, apenas para riscar uma delas, 15 minutos depois, e lá se passa mais uma hora sem que nada aconteça... Quem suportaria assistir a uma coisa destas? ..."

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Favoritos LV : T. S. Eliot


T. S. Eliot, nascido nos Estados Unidos a 26 de Setembro de 1888, é como ser humano uma personagem curiosa. Ao inverso de W. H. Auden, trocou na idade adulta o seu país de origem pela Inglaterra. Procuraram, talvez, os dois o local de vida mais de acordo com os seus temperamentos. E Eliot era realmente mais conservador. Vindo a converter-se, depois, ao catolicismo. Foi poeta importante e crítico perspicaz e influente. Nos seus exemplares Essays, a propósito de Pascal, escreveu:
"...Pascal é um homem do mundo entre ascetas, e um asceta entre homens do mundo; tinha o conhecimento da mundanidade e a paixão do ascetismo, e nele os dois  fundem-se num todo individual.
A maioria da humanidade é intelectualmente preguiçosa, não sente curiosidade, deixa-se absorver por futilidades e é emocionalmente tíbia, e por isso incapaz quer de dúvida quer de muita fé; e quando o homem vulgar se chama a si próprio céptico ou descrente trata-se em geral de uma simples pose, que disfarce a aversão a pensar sobre qualquer coisa até chegar a uma conclusão. ..."

sexta-feira, 4 de março de 2011

Bibliofilia 42 : T. S. Eliot



O livro não é raro e já aqui falei dele, no Arpose, a 4/12/2010, como uma boa sugestão de prenda de Natal. Esta edição, que ora se apresenta, é a 4ª impressão, ilustrada por Nicolas Bentley, de 1948, da Faber and Faber. O "Old Possum's Book of Practical Cats" de T. S. Eliot, em verso, na Abe Books, e nesta mesma edição, pode comprar-se entre 8 e 22,00 libras, consoante o estado do exemplar, e o critério pessoal de 4 ou 5 alfarrabistas diferentes. O meu volume tem as capas, de pano, um pouco sujas, mas está bastante razoável, no resto. As ilustrações são bonitas e muito sugestivas. O livro, em terceira mão, custou-me, há dias, 10,00 euros, em Lisboa. Tem, manuscritas a tinta, duas indicações. A primeira é um pouco enigmática, e diz: "To Audrey, with much love, from Audrey. 17 April 1948". A segunda é uma marca de posse, a letra mais fina, com data (London, 1986), mas o nome e apelido são ilegíveis.

para JAD que, como Eliot, também gosta de gatos, sobretudo pretos.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Marianne Moore


A propósito de Elizabeth Bishop, referi (5/2/11) que tinha sido amiga de Marianne Moore (1887-1972). A poesia desta escritora americana não é simples, embora pareça. Uma ironia, por vezes quase corrosiva, diluída em palavras suaves, é uma das suas marcas de água. As palavras deixam sempre algo por dizer, ou, pelo menos, sugerem-no. Há quem diga que a sua poesia tem como privilegiados destinatários, apenas, outros poetas de vocação. Não concordo, inteiramente, com esta afirmação. Alguns versos de Marianne Moore fazem-se-me eco, na memória, com o tom de alguns poemas de Fernando Assis Pacheco que não tem, de maneira nenhuma, uma poesia hermética ou ininteligível - bem pelo contrário.
Esta mulher singular que tinha uma forma de vestir muito própria e que usava, com frequência, um exótico chapéu tricórnio era, em quase tudo o mais, relativamente discreta. Gostava muito de desporto e frequentava espectáculos desportivos, com gosto. Agregou tertúlias literárias ao longo da sua vida, e era amiga de Ezra Pound. T. S. Eliot apreciava muito a poesia de Marianne Moore. Para que se faça uma ideia, vamos traduzir-lhe um poema:

Silêncio

Meu pai costumava dizer,
"As pessoas superiores nunca fazem visitas demoradas,
e devem ser vistas junto ao túmulo de Longfellow
ou nos canteiros floridos de Harvard.
Auto-confiantes como um gato -
que leva a sua presa para um lugar privado,
a cauda flácida oscilante do rato, suspensa da boca,
como um cordão de sapatos - às vezes
essas pessoas gostam da solidão,
e podem até perder a fala
diante de um discurso que lhes dê prazer.
O sentimento íntimo e profundo deve sempre manter-se
silencioso; não em silêncio, mas discreto".
Ele nem sequer era insincero quando dizia, "Faz da minha casa
a tua hospedaria". As hospedarias não são moradas.


terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A idade e o artista - T. S. Eliot


É minha convicção que o melhor da obra de um poeta é feito na sua juventude. Com boa vontade, vou até aos 40 anos. Claro que há algumas excepções (poucas)...que só vem confirmar a regra... Depois, a frescura perde-se, a novidade deixa de ser novidade, esse tom pessoalíssimo de voz vai-se repetindo. Como uma voz singular que nos surpreende, quando a ouvimos pela primeira vez, mas depois se integra na nossa memória de sons - e apenas a vamos reconhecendo uma vez, outra e muitas vezes. Daí talvez que, sendo a obra poética de Eugénio de Andrade uma das que conheço melhor, lhe prefira, da totalidade: "As Mãos e os Frutos" (1948), "Até Amanhã" (1956) e "Ostinato Rigore" (1964); publicados, respectivamente, com 25, 33 e 41 anos, e com certeza com poemas anteriores à data dos livros.
Mas hoje, ao folhear os Ensaios de T. S. Eliot, no dia de aniversário da sua morte, 4 de Janeiro (em 1965), dei por algumas palavras do crítico, que também foi poeta, que talvez ajudem a clarificar o que disse acima. Ou a explicar, como se segue:
"...Tanto quanto posso julgar, a partir de referências, citações e reimpressões em antologia, são os meus ensaios mais antigos que causaram a impressão mais profunda. Atribuo isto a duas causas. A primeira é o dogmatismo da juventude. Quando somos jovens, vemos as questões nitidamente definidas: à medida que envelhecemos, tendemos a pôr mais reservas, a moderar as nossas asserções categóricas, a introduzir mais parênteses. Descobrimos objecções aos nossos próprios pontos de vista, olhamos o inimigo com mais tolerância e às vezes até com simpatia. Quando somos jovens temos confiança nas nossas opiniões, seguros de que possuímos toda a verdade; somos entusiásticos ou indignámo-nos. E os leitores, mesmo os leitores com maturidade, são atraídos por um escritor que está bastante seguro de si. ..." (T. S. Eliot, Ensaios Escolhidos, pg. 237, Cotovia, 1992)

domingo, 26 de setembro de 2010

T. S. Eliot : a idade, nos poetas


Thomas Stearns Eliot nasceu nos Estados Unidos da América a 26/9/1888. Foi prémio Nobel de Literatura em 1948. Naturalizado inglês, morreu em Londres a 4 de Janeiro de 1965, convertido ao catolicismo, e monárquico. Além de poeta, foi um crítico e ensaísta de Literatura extremamente perspicaz e lúcido. A propósito de W. B. Yeats e sobre a influência da idade nos poetas, T. S. Eliot escreveu:

"...É difícil e precipitado generalizar sobre modos de composição - cada cabeça, seu modo - mas é experiência minha que, quando se aproxima da meia-idade, um homem tem três opções: deixar completamente de escrever, repetir-se talvez com crescente virtuosismo ou reflectindo, adaptar-se à meia-idade e descobrir um modo diferente de trabalhar. (...) Ora, em teoria, não há razão para que a inspiração ou os materiais de um poeta falhem, na meia-idade ou em qualquer altura antes da senilidade. Porque um homem que é capaz de experimentar descobre-se num mundo diferente em cada década da sua vida; como os vê com outros olhos, os materiais da sua arte renovam-se continuamente. Todavia, de facto muito poucos poetas têm mostrado esta capacidade de adaptação aos anos. ..."
T. S. Eliot, in Ensaios Escolhidos, Cotovia, 1992 (tradução de Maria Adelaide Ramos).