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terça-feira, 2 de outubro de 2018

Texto e contexto


Dentro de uma semana as amoras ficarão maduras.
A princípio, só uma, luzidia de bagas púrpuras,
Por entre outras, vermelhas, verdes apertadas como um nó.
Hás-de saborear essa primeira, de carne tenra e doce
Como um vinho denso: onde cabe todo o sangue do verão.


Seamus Heaney (1939-2013).

domingo, 18 de outubro de 2015

Pseudo-japoneses


Sempre tive alguma dificuldade em aceitar chamar haiku a pequenos poemas sujeitos a regras semelhantes, mas que não fossem escritos por poetas japoneses. Soava-me a falso, a imitação deslavada. Muito embora algumas vezes, poucas aliás, na sua essência e conteúdo, eles tivessem um resultado satisfatório.
No século XX, o haikai tornou-se popular e foi cultivado por vários poetas do Ocidente. No meu entender, porém, a esses poemas faltava sempre qualquer coisa de essencial. Talvez a alma, apesar da ossatura... Mesmo assim, aqui deixo em tradução, que fiz, dois pseudo-haiku de poetas ocidentais conhecidos:

Pavimentos perigosos...
Mas este ano enfrento o gelo
com a bengala de meu pai.

Seamus Heaney (1939-2013).
...
Face que se fez morena
de tanto olhar os gansos
partir para o oeste.

Alec Finlay (1966).

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Seamus Heaney, Madrid e Goya


É minha convicção que as viagens só têm aproveitamento de aprendizagem e só ganham espessura, na memória, a partir da adolescência. Até lá poderão talvez ficar fiapos de recordações e imagens, não mais.
Madrid poderá ver-se de várias perspectivas, consoante o visitante, sendo que duas serão as mais claras: consumo e cultura. Tudo, também, depende da razão por que lá fomos, o estado de espírito da altura, a idade, o que vimos e comprámos. Há porém quem defenda que a memória das cidades resulta das experiências afectivas ou eróticas que lá tivemos. Será, porventura, uma forma poética ou psicanalítica de ver as coisas...
Era eu um infante, a primeira vez que fui a Madrid. Ficaram-me, da chegada, as imagens de prédios altos (que nunca tinha visto tão altos) iluminados, porque já era de noite. E ainda a lembrança de um detestável e enjoativo sorvete de baunilha, que não consegui acabar; bem como uma armadura perfurada por balas da Guerra Civil, num museu. As moedas, mais leves que as portuguesas e um vago quarto de hotel. Foi tudo. Vieram também comigo 1.000 selos de colecção: Hungria, Checoslováquia, do período da inflação alemã.
O poeta irlandês Seamus Heaney (1939-2013) esteve lá em 1969. Pouco menos de três anos antes da Bloody Friday, mas já a Irlanda do Norte fervilhava. Heaney viu Madrid através de algumas pinturas de Goya e, mais tarde, escreveu um poema, que intitulou Summer 1969. De que vou traduzir uma pequena parte dos versos finais:

Refugiei-me na frescura interior do Prado.
Os "Fuzilamentos do 3 de Maio" de Goya
Cobriam uma parede, as armas apontadas
E o espasmo do rebelde, os protegidos
E trajados militares, a eficiente descarga
De fuzilaria. Na sala adjacente os seus
Pesadelos incrustados na parede do palácio
- ciclones sombrios, sôfrego, recurvado Saturno
Enfeitado no sangue dos seus próprios filhos
O caos gigantesco em redor da barbárie
Sobre o mundo. (...)
Ele terá pintado de punhos cerrados, sobrancelhas
Franzidas, coração endurecido pelo peso da história.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Arte, liberdade e intervenção


Quando, a 1/9/14, aqui citei uma frase de Justin Willis, veio-me à memória um verso de Drummond de Andrade: "...não faças versos sobre acontecimentos..." Mas também poderia invocar W. Wordsworth que definia poesia como "emoção recordada em tranquilidade". Não significa isto que o artista não deva participar, activamente, e do ponto de vista cívico, no dia a dia da sua comunidade e contemporaneidade, tomando posição clara sobre os acontecimentos mais relevantes. Mas deve deixar de lado a sua arte, para que ela se possa assumir com mais isenção e intemporalidade.
À roda das obras de Yeats e, mais recentemente, de Seamus Heaney criou-se, em alguns espíritos mais preconceituosos, a ideia de que esses poetas irlandeses quiseram manter uma certa neutralidade, nos seus poemas, de forma a poderem beneficiar, por uma certa ambiguidade, de um público mais alargado. No entanto, uma leitura mais atenta das suas obras, permitirá ver que eles assumiram posição sobre as questões que afectaram a Irlanda, nas suas épocas - que foram conturbadas.
Há que lembrar, ainda, Robert Frost: "(a poesia) nasce da liberdade criativa, mais do que da obrigação social". Ou, finalmente, referir Eugenio Montale: "a poesia terá de fazer uma peregrinação obscura através da consciência e da memória", muito embora deva mergulhar na "circulação diária, donde retira o seu primeiro alimento e inspiração".

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Poetas vistos por poetas


Popa
à memória de Ted Hughes

"E como era ele," perguntei-lhe eu,
"O estar com Eliot?"
                     "Quando nos olhava"
Disse ele, "era como se nos encontrássemos parados no cais
Observando a proa do Queen Mary
Chegar até nós, muito lentamente."

                     Agora parece-me
Que estou parado no paredão do molhe a vê-lo
Ao mesmo tempo que ele me observa enquanto vai zarpando
E uma inacabada popa de madeira
Vai sendo trabalhada, mas trémula se afunda
Sem conseguir verdadeiro progresso.


Seamus Heaney, in District and Circle (Faber and Faber, 2006).

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Seamus Heaney (2) : caridade e impiedade


Às vezes, tenho a tentação de chamar aos irlandeses os latinos do Norte, embora celtas - suponho que não será difícil perceber porquê...
Quero voltar a abordar o discurso de Seamus Heaney, em Dezembro de 1995, quando recebeu o Nobel, em Estocolmo, porque ele é rico de conteúdo, e sábio pela simplicidade das palavras que proferiu. Nele conta 2 histórias, uma sobre caridade e amor, outra sobre a impiedade e o ódio. A primeira sobre São Kevin, frade irlandês que terá vivido entre o séc. VI e VII; a segunda história é sobre uma acção do IRA, nos anos 70 do século XX. A primeira narração pode muito bem ser uma lenda que, como tantas outras, ajuda a solidificar a imagem de um santo nos altares da Igreja católica. A segunda é real. Contá-las-ei pelas minhas palavras, e resumidamente.
São Kevin: a caridade. O Santo estava em contemplação e rezava. Deitou-se, olhando o céu, como em posição de crucificado, as mãos abertas. Veio um pássaro negro e, achando a mão macia e morna, lá poisou. O Santo apercebeu-se e ficou imóvel, sem se mexer. Poucos minutos depois o pássaro começou a pôr ovos na mão de Kevin e, quando acabou, voou para longe. O Santo aguardou, pacientemente, dias e semanas até os ovos abrirem e os passarinhos nascerem...
Segunda história: o IRA. Anos setenta. Um pequeno autocarro leva, para casa, um grupo de trabalhadores, depois do trabalho. A meio do percurso, um grupo de encapuzados manda parar o veículo. Estão armados de metralhadoras. Depois, abrem a porta e dizem: "Os católicos que saiam, todos!" No grupo de trabalhadores há apenas um católico que faz um gesto imperceptível para se levantar. Mas o vizinho, protestante como todos os outros, segura-lhe a perna, com força. Todos os trabalhadores pensam que os encapuzados são para-militares ("lealistas") protestantes e que querem matar os adversários. Apesar da cumplicidade silenciosa, o católico, talvez por orgulho, corajosamente, levanta-se e dirige-se para o grupo de mascarados. Estes mandam-no para trás deles e, em seguida, metralham todos os outros trabalhadores do autocarro - os encapuzados eram, afinal, do IRA.

Uma sequência Irlandesa


Para acompanhar Seamus Heaney (1939).

Seamus Heaney (1)


Seamus Heaney, poeta irlandês (como insiste em ser considerado) de língua inglesa, completará, no próximo dia 13 de Abril, 71 anos. Em 1995, foi agraciado com o Nobel de Literatura. O seu discurso de Dezembro desse ano, em Estocolmo, é um documento humano, muito vivo e interessante em que percorre a sua geografia sentimental, os seus afectos e experiências. A sua infância e adolescência passadas numa quinta do norte da Irlanda onde o barulho dos cavalos, no estábulo junto à casa, se misturava com as vozes das pessoas; fala da chuva sobre as árvores, nos ratos do celeiro, nas vozes dos locutores da BBC que, na infância e na sua invisibilidade radiofónica, lhe pareciam "divinas"... Refere Keats, Yeats, Hopkins para vir a centrar a sua intervenção, quase no final, na poesia. O seu discurso, na Academia Sueca, termina assim:
"... A forma do poema, ou por outras palavras, é decisivo para a força da poesia fazer aquilo que é e sempre foi a sua credibilidade: o poder de persuadir aquela parte vulnerável da nossa consciência da sua legitimidade, a despeito da evidência do fingimento que existe à volta dela, para nos lembrar que somos perseguidores («hunters») e coleccionadores de valores, e que a nossa própria solidão e angústia são credíveis na medida em que são, também, o que há de mais autêntico no ser humano."