Por três vezes, hoje, a cegueira se cruzou comigo.
Para quem, como eu, utiliza com alguma regularidade o metropolitano, faz sentido eu dizer que, a maioria dos desprotegidos residentes (embora móveis através das carruagens) são ou músicos, ou cegos. E as nacionalidades serão duas: a portuguesa, quanto aos cegos, a romena, quanto aos músicos. Ambos se manifestam pelo som. Não deixa de ser desagradável o batimento seco da bengala, no chão das carruagens, de um dos cegos nacionais. E, no meu entender, ele acentua a batida (como hoje) quando está mais mal disposto - fantasia minha, talvez...
À tarde, chegou-me à mão um postal amigo reproduzindo um quadro, onde a personagem principal é Dom Pérignon. Cego, ele, também, e ao que consta.
Finalmente, à noite, estive a ouvir uma magnífica conferência (1977) de Jorge Luis Borges, em que ele fala da sua própria cegueira e aborda as cores da sua vida. Destaca o seu gosto pelo amarelo que ele recorda como primordial, desde que o viu, pela primeira vez, nos tigres do jardim zoológico. Contrastando com o negro. Da cegueira?
