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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Recomendado : oitenta e três


A recomendação é porventura tardia, porque este Dicionário Sentimental do Vinho (Casa das Letras), de Bernard Pivot (1935), saíu em 2007 e, provavelmente, será difícil, hoje, ainda o encontrar à venda nas livrarias. Acontece que a obra me foi oferecida há pouco e só agora a  estou a ler.
Grande divulgador cultural francês (Lire, Apostrophes...), o autor tem uma escrita elegante e animada, além de fornecer variadíssimos informes úteis sobre enologia, sobretudo gaulesa. Fiquei, por exemplo, a saber que o conceituado néctar Châteauneuf-du-Pape, que eu julgava existir apenas tinto, tem também a sua versão em vinho branco.
Recomenda-se, abertamente, este livro!

agradecimentos cordiais a H. N..

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Mercearias Finas 152

                                                                                                         Deambulações enológicas

Por mero e feliz acaso fiquei a saber que no Luxemburgo também se produz vinho. Branco, pelo menos, bom e nas margens do Mosela, no sudeste do Grão-Ducado. Acompanhámos, num restaurante do aeroporto, um fricassé de frango e cogumelos, com arroz branco, de um muito agradável Pinot Gris (em Itália, seria Pinot Grigio) monocasta, levemente frutado e mineral, com 13º. Equilibradíssimo.


Nos dias precedentes, restritos em sólidos e líquidos por razões alheias, tivemos no entanto o acesso a uns Riesling de Trier, que se cruzaram, razoavelmente, com umas massas frescas com carne picada e salpicada de mozzarella a dar-lhe sabor - cumpriram, alemães e episcopais, a sua função de acólitos, com os seus 11,5º suaves e macios de textura.


Aguardando a vinda de amigos, para prova condigna e certificada, na adega outrabandista repousa um Châteauneuf du Pape, desde Novembro a abeberar. Desta vez, tinto, nos seus poderosos 14,5º, com Grenache, Syrah, Mourvèdre e Cinsault, há-de bater-se, com galhardia - estou certo! - com queijos curados portugueses, de feição e qualidade serrana.


Será para meados de Janeiro, a funçanata, a que certamente não faltará, antes, um bacalhau no forno, post-natalício.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Mercearias Finas 135


Com a descida brutal das temperaturas, ressentiu-se a coluna e convocaram-se os queijos. Para depois do conduto, a seguir a um peixe assado, escoltado que foi, e bem, por um branco alentejano (Herdade dos Coteis, 2016), robusto mas macio.
Nesse particular, um Fratel, mais seco, e um Serra, mais generoso e babão. Havia que acompanhá-los, portanto, com a dignidade e nobreza que merecem. Por outro lado, recebíamos, ontem, um casal amigo de peito, que tem sabor enófilo e mundo de experiências variadas. Havia que estar à altura...
Ora, eu que conheço muito pouco de vinhos estrangeiros, tenho duas fixações teimosas, duas fés enófilas inabaláveis, que nunca me deixaram ficar mal: o Châteauneuf-du-Pape, em França, e o Barolo, na Itália. Ambos tintos, normalmente, de qualidade.
Há anos, alguém que de vinhos sabe e saber tem, em ocasião festiva, ofertara-me este Châteauneuf (Vignobles de Jean Avril), colheita de 1995, que eu guardara, religiosamente, na garrafeira, a esperar "o vento que o merecesse" - para plagiar  Eugénio que o disse por outras palavras e motivo, mas para sempre.
Como era de marca o vinho e tinha os seus provectos 14º, achei que era de guarda. E não me enganei.
Com os seus 23 anos, de bela juventude, abriu-se às 10 e começou a saborear-se cerca das 13h40, para satisfação plena e colectiva, acompanhando os dois queijos portugueses que, patrioticamente, mereceram esse vinho de eleição.
Não quero entrar em redundâncias, nem exageros barrocos - o vinho era magnífico. Parecia ter a elegância suprema de alguns, raros, vinhos do Dão e a força tranquila dos melhores do Douro. Assim mesmo, sem tirar, nem pôr.
Disse.

sábado, 9 de outubro de 2010

Mercearias Finas 19 : Vinhos estrangeiros preferidos


Fora os vinhos que bebi em viagens, fora de Portugal, e de que não tenho a menor recordação, cá dentro o primeiro vinho estrangeiro, que me lembro de provar, foi um Chablis, nos anos 70. Só mais tarde vim a saber que era um monocasta Chardonnay. E, ainda mais tarde, tomei conhecimento de que, em Portugal e durante muitos anos, a casta Chardonnay era apenas usada, na Bacalhôa, na produção do Catarina embora não exclusivamente ( por vezes entram também a casta Fernão Pires e outras da zona de Azeitão). A Quinta da Bacalhôa é aliás pioneira no uso de castas estrangeiras. O tinto da Quinta sempre teve Cabernet Sauvignon, pelo menos, desde que o conheço. Só depois apareceu no Vale Pradinhos, de Trás-os-Montes. Hoje, é a proliferação que sabemos...
Em meados dos anos 80 provei, pela primeira vez o Tokay (Hungria), o Vega Sicília ( o Barca Velha espanhol) e o Châteauneuf-du-Pape (de França, com predominância, no lote, da casta Grénache). Deste último já aqui falei, no Arpose. Em finais dos anos 90, ou já talvez neste século, um amigo, que tinha estado em Veneza, falou-me do Barolo. Memorizei o nome e informei-me, posteriormente. Era e é um vinho monocasta, feito de Niebollo, numa zona muito restrita do Piemonte. Na sua robustez e cor vermelho-escura lembra alguns Douros, mas alguns Bairrada, muito bons, fazem-mo lembrar, no sabor. Não é muito difícil encontrá-lo à venda, em Portugal, nalgumas cadeias de supermercados de origem estrangeira.
Há cinco ou seis anos, num jantar ali para as bandas do Areeiro, e numa mesa que juntava pessoas de, pelo menos, quatro nacionalidades, ouvi, pela primeira vez, falar no Brunello di Montalcino. Que era um dos melhores vinhos do mundo - disse uma senhora belga. Ora os belgas e os ingleses, embora quase não produzam vinhos, são peritos a descobrir os melhores... Pedi à Senhora que escrevesse o nome, num papelinho. E, em menos de um ano, acabei por prová-lo; depois, no Porto, na boa companhia de um Amigo, degustamos duas marcas do Brunello. Concordamos os dois que não era o melhor vinho do mundo. Já tinhamos provado melhor. Mas era um vinho suave e agradável. Tem região demarcada na Toscânia, e é também um monocasta feito de Sangiovese, ou na base etimológica - Sanguis Jovis: Sangue de Jove, ou Júpiter. O Brunello de Montalcino bem como o Barolo são vinhos tintos de boa longevidade. Ainda não cheguei, no entanto, ao Château d'Yquem, nem ao Pétrus...Não se pode ter tudo. Agora, se tivesse que dar classificação aos 3 tintos referidos acima, segundo o meu gosto, poria em primeiro lugar o Châteauneuf-du-Pape. Seguir-se-iam o Barolo e, em último, o Brunello di Montalcino. E, para um primeiro contacto de prova, a minha sugestão é simples: um bom pão e um bom queijo português (Serra ou Serpa), por companhia - numa destas noites de Outono ou Inverno, que são frias.