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domingo, 23 de outubro de 2011

Mercearias Finas 40 : Bolo-rei


Ao princípio são os lagares, onde fruta diversa (cereja, cidrão, calondro, casca de laranja, figo...) é acompanhada por pasteleiros encartados que dela tratam, adicionando-lhe água e açúcar, e a remexem profissional e semanalmente. Retirada e enxugada, esta fruta dita "escorrida" (e não cristalizada, que é um outro tipo), bem como a fruta seca laminada (amêndoas, pinhões, nozes e, às vezes, avelãs) associada às uvas passas, serão o elemento decorativo e interior, imprescindível, da massa do célebre Bolo-rei. A isto se acrescentava uma fava embrulhada, antigamente, que, dizia-se, trazia sorte a quem coubesse, na fatia de brinde, do Bolo. As pastelarias de referência fabricam-no, tradicionalmente, desde o feriado de 5 de Outubro, até ao Carnaval. Aos fins-de-semana, mas com extrema intensidade nos dias 24 e 31 de Dezembro, e no dia de Reis (6 de Janeiro).
O Bolo-rei inspira-se, dizem, na "Galette des Rois", francesa, e começou a fabricar-se em Portugal, em data incerta do séc. XIX, provavelmente, na Confeitaria Nacional, de Lisboa, propagando-se gradualmente por todo o país. É hábito respeitado, normalmente, ser o Pasteleiro-chefe com o cotovelo a fazer o buraco central, em cada Bolo-rei. Com o advento da República quiseram chamar-lhe "Bolo da República", mas a moda não pegou e, por isso, sempre manteve o nome inicial. Pelo Natal e no Ano Novo, bem como no dia de Reis, o Bolo-rei era acompanhado por Vinho Fino (Vinho do Porto particular), nas mesas onde as famílias se reuniam, festivamente.
Ora, ontem, sábado 22/10, cá em casa iniciou-se a "saison", com o primeiro Bolo-rei. Que estava muito bom. Fiz uma pequena alteração ao que é tradicional: em vez do habitual Vinho do Porto, na fotografia, dei-lhe por companheiro um Vinho de Carcavelos, dos antigos e raros, da Quinta do Barão, entre Oeiras e Carcavelos. É um vinho mais seco e data do início dos anos 70, do século passado. Posso garantir que Willy Brandt o apreciava, enormemente, porque tinha um admirador português (Miguel Cerqueira) que, todos os anos, lhe enviava uma caixa de 6 garrafas deste vinho, para Berlim, através de uma família alemã de apelido Kirchwitz, que vinha passar Agosto e Setembro, em Esposende. E Willy Brandt agradecia. Só não tinha era o Bolo-rei português para acompanhar...

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Mercearias Finas 24 : com "açúcar e afecto"


A última vez, naquela casa, terá sido em 1968, mas já faltava 1/3 do grupo inicial, à mesa. A data da primeira ceia de Natal perdia-se no tempo. Mas houve sempre pequenos ramos de violeta, na sala de jantar. A Matriarca dava-lhe a direita, na mesa, desde 1954; à esquerda ficava a sobrinha mais antiga, depois da morte dos mais velhos. Primeiro fora a Avó, sempre silenciosa, que se sentava na outra cabeceira, em frente ao Patriarca da família, que era Poveiro. O momento mágico era-lhe devido, quando, em vida, depois dos mexidos, rabanadas, sonhos, depois do Bolo-rei, que tinha favas e podia ter uma libra inglesa, o Patriarca se levantava, ia buscar a maquineta de café e iniciava o ritual em que a água límpida, no balão do fundo aquecido a lamparina, se transformava num líquido escuro, fumegante e aromático, que subia ao balão de vidro superior.
A única coisa que ele não apreciava, totalmente, era o pão de mistura, de brancura imaculada no miolo, para acompanhar o cozido de bacalhau. Com o peixe natalício sempre teria preferido, como hoje prefere, o pão dos pobres: a broa de milho minhota. Mas esse pão grande de mistura fora o seu segundo momento mágico da ceia de Natal. Quando Joaquim Leite, antigo motorista da casa - que era sempre convidado, democraticamente, para a mesa dos "Senhores" - depois de fazer o molho, no prato, com azeite, vinagre, sal e pimenta, e de cortar, em bocadinhos, a cabeça do alho, limpava a faca de prata brilhante a uma fatia de pão de mistura, com requinte deliciado, e comia esse pão com o suco do alho, regaladamente, antes de se atirar ao Cozido.
O vinho fora sempre do Dão, Grão Vasco, tinto, aberto meia-hora antes, para respirar, e a aquecer na sala de jantar, que já estava tépida, com o aquecimento ligado.
Nos últimos anos, bastante depois da morte do Patriarca, ele escapulia-se, logo após o Vinho Fino (Vinho do Porto caseiro), para tomar café na sede dos Bombeiros Voluntários, numa rua estreita e de má fama, que era o único sítio que o servia na cidade, na noite de 24. Onde encontrava, também, os amigos juvenis. Ficavam a falar até às 11 da noite, mais coisa menos coisa, para depois regressar a casa e esperar para seguir para a missa do Galo, na Igreja dos Redentoristas.
Hoje, e dessas Consoadas de Natal, só restam dois sobreviventes. Mas vem-me à memória um aroma, ainda agradável, com sabor de violetas ressequidas e eternas, enquanto eu for vivo.