Mostrar mensagens com a etiqueta Chaim Soutine. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Chaim Soutine. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Divagações 127


Era Harold Bloom que falava da angústia da influência, querendo dizer que nenhum artista se pode libertar, inteiramente, da herança de outros, por muito original e inovador que seja. E a afirmação tanto poderá servir para escritores, poetas, como para escultores e pintores. Mesmo para outros artífices de profissão mais modesta.
O tema insólito e anódino de uma carcaça de animal abatido, para consumo, que, aparentemente, não apresenta nem desperta grandes sentimentos estéticos, foi usado por dois pintores, muito diferentes, com um intervalo de quase 300 anos. Rembrandt (1606-1666) pintou o quadro (carcaça de bovino) entre 1640 e 1645; a tela de Soutine (1893-1943) foi executada (neste caso, a carcaça de um cavalo) em 1925.


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Onde me apetecia estar... e estive, realmente


Com os anos, vamos sendo mais frugais. Vamos sendo mais discretos e comedidos, deixando de ter mais olhos do que barriga - como diz o provérbio, aconselhadamente. Inscrevem-se neste aspecto os livros a ler, as coisas por fazer, os países a visitar, os filmes a não perder, os quadros que queremos ainda ver... Mas um dos aspectos secundários, que me levou a Londres, era ver, realmente, na Royal Academy of Arts, a exposição Matisse in the Studio, aberta até 12/11/2017. E vi-a.



Por alturas do início da II Grande Guerra e posterior ocupação nazi de parte da França, houve, pelo menos, dois pintores que se deslocaram para fora de Paris, vindo a usar outra residência. Henri Matisse (1869-1954), que já habitava Nice desde 1917, episodicamente, por uma questão de tranquilidade criativa, provavelmente, e Chaim Soutine (1893-1943), de origem judaica, por questões de segurança física. Ambos tiveram, também, problemas de saúde, graves, por essa altura, no início dos anos 40.



Curiosamente, na sequência da mostra de Matisse, na Royal Academy (Londres), seguia-se uma exposição de Soutine, que eu já não tive oportunidade de visitar, infelizmente. Sendo, como é, um dos meus pintores europeus preferidos.
Soutine, em 1943, na sequência do rebentamento de uma úlcera de estômago, foi transportado, em condições urgentes e adversas, para Paris, onde veio a falecer, pouco depois. Matisse teve mais sorte. Levado  de Nice para Lyon, foi operado, de urgência, a um tumor no duodeno, e apesar de muito fragilizado, sobreviveu. Esteve algum tempo acamado e foi durante esse tempo, na impossibilidade de pintar, que começou a recortar  pedaços de papel colorido, e intensificou o seu período inovador e pioneiro de colagens, que tinha iniciado de forma incipiente, nos anos 30.



A exposição de Matisse, que ocupa algumas salas da Royal Academy, é muito coesa e, sobretudo, intimista na sua sobriedade. E a existência de objectos domésticos cria uma envolvência muito peculiar, de outro tempo, e de interior, que quase nos faz esquecer que estamos numa galeria pública. Reconstitui parte do ambiente do seu estúdio: as obras preferidas do Pintor e de que ele nunca se quis separar, um bela cadeira veneziana que comprou, fascinado, duas cafeteiras antigas, uma das quais oferecida como presente de casamento, colagens, têxteis norte-africanos, alguns objectos de uso pessoal, e um pequeno acervo de esculturas africanas do Mali. Além dos quadros.


Gostei muito de ver a mostra. E, para concluir, devo dizer que valeu a pena, apesar das 13 libras que esportulei pelo ingresso. Que os ingleses são austeros, e só descontam 1 libra para quem é sénior...


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Memória (112)


Por um acaso aparente, o nome de Mário Cesariny de Vasconcelos, nos últimos dois dias, cruzou-se várias vezes comigo. Inicialmente, e num Blogue amigo, em comentário, citei dele um pequeno poema. Depois, à noite, zapeando na TV, apanhei o falecido realizador Fernando Lopes, num programa antigo, a chamar-lhe Mago. Finalmente ontem, num jornal, vinha a notícia de que a Câmara de Lisboa lhe iria disponibilizar um jazigo individual, no Cemitério dos Prazeres. Lembro que ele tinha sido sepultado, anteriormente, no Talhão dos Artistas.
Há reconhecimentos que chegam tarde à nossa vida. Dei por Turner na meia idade, quando, por exemplo, comecei a gostar da obra de Soutine, na adolescência. Quanto a poetas, e surrealistas, sempre privilegiei mais, e desde cedo, Alexandre O'Neill, que tinha uma irreverência mais viva e criativa. Depois, não levei muito a bem que Cesariny tivesse trocado a poesia pela pintura (necessidades?) que, aliás, nunca me despertou grande interesse. Mas aqueles dedos trémulos, segurando o eterno cigarro, em dois leilões de livros, em que lhe fiquei ao pé, comoveram-me...
E, estando tão esquecido, há que lembrar que era um bom poeta.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Três temas em volta


1. Lembro-me bem ainda, na minha infância vimaranense, da estranheza que me provocavam duas personagens, da cidade, que tinham vozes esquisitas. Um era ex-tenente do exército português e o outro, coronel reformado, ambos gaseados da I Grande Guerra e que eram o testemunho vivo das terríveis sequelas do conflito.
2. O que faz a perenidade estética de um obra de arte não é apenas a sua beleza, mas também a sua singularidade, ousadia ou atrevimento em relação aos cânones da época, por vezes. É talvez por isso que eu gosto da obra de Chaim Soutine (1893-1943) e de alguns quadros de Francis Bacon (1909-1992), apesar da sua aparente e característica fealdade.
3. O médico britânico Henry Tonks (1862-1937), que a meio da vida começou a desenhar e pintar, retratou em muitos dos seus quadros homens desfigurados em consequência da I Grande Guerra. Bem executados, não serão propriamente agradáveis de ver, ou belos, mas são, sem dúvida, um testemunho realista dos horrores da guerra.


quarta-feira, 1 de junho de 2016

Usos, abusos e desusos


Dia Internacional da Criança? Pois seja...
Quando eu era infante, aqui há muitos e muitos anos atrás, uma das coisas que eu mais gostava era de ir, com a Maria, à Praça, logo pela manhã. E, no Mercado, onde eu mais gostava de entrar era no talho do Zé Bento, marchante corpulento, de bigode saraivado, mas que tinha, além dum vozeirão, um sorriso menino acolhedor. Parecia-me entrar numa segunda casa... E talvez seja por isso que eu gosto, ainda hoje, das pinturas de Soutine. Além disso, era rara a vez em que eu não encontrava, lá dentro, alguma coisa preciosa, no chão. De uma vez, foi uma moeda de 2$50, uma fortuna para a época e para a minha altura, que tinha 1$00 de semanada; noutra ocasião, foi uma medalhinha de S. António, em ouro, que ainda conservo.
Ora hoje, Dia Internacional da Criança, ao folhear a revista da minha Freguesia,  nas páginas dedicadas às Marchas Populares de Lisboa, dou de caras com o senhor "Vítor Silva (, que) foi marchante durante 20" (anos). Claro que me lembrei logo do Zé Bento, marchante vimaranense. De boa memória, na minha infância. Mas depressa se desfez o encanto e houve um curto-circuito de memória. Porque este Vítor Silva nunca foi cortador, como se chama em Lisboa aos marchantes. Usa, impropriamente, um atributo nobre minhoto. Este alfacinha é apenas um vulgar acompanhante das Marchas Populares lisboetas... Não é um Zé Bento, notável artífice na arte da desmancha ou desossa de carnes.
E assim se desfez mais um sonho vocabular de infância, na criança que eu, outrora, fui.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Pinacoteca Pessoal 107


Não poderei dizer que sou um entusiasta da obra expressionista do pintor austríaco, naturalizado britânico (1946), Oskar Kokoschka (1886-1980). De algum modo, parece-me haver algumas afinidades, nas suas telas, com outro pintor que eu admiro - Chaim Soutine. E, em ambos os casos, a vida acidentada os tenha marcado negativamente. Pese embora alguma tranquilidade que Kokoschka experimentou nos últimos anos da sua longa vida, ao contrário de Soutine, que morreu relativamente jovem e em circunstâncias infelizes.
Destaco, no entanto, os trabalhos que Kokoschka executou nas primeiras décadas do século XX. Não tanto as paisagens, que pouco me dizem, mas alguns retratos que pintou, como o do Marquês Montesquieu-Fezensac, de 1910, ou o simbólico "Cavaleiro Errante" de 1915, que deixo em imagens. 



segunda-feira, 25 de maio de 2015

Recuperado de um moleskine (12)


É um canto mágico por onde eu vejo o tempo, às vezes, transfigurado. Outras, muito objectivo.
Estava um azul de Magritte, ao fim do dia. Mas as nuvens eram pouco criativas - nada sugeriam, entre as suas oblíquas linhas brancas, mal definidas, e os flocos de algodão, banais. Um dos flocos, quase a diluir-se, ainda tentou metamorfosear-se, escurecendo, num famélico leão aéreo. Depois, num cabrito esventrado, à Soutine, a preto e branco porém, mas cada vez mais ténue, que desapareceu, levado pelo vento, para Sul.
Pouco antes da noite cair, houve ainda uma pomba negra que parecia vir na minha direcção, mas que se afastou a tempo, no último momento, para meu sossego. E sua salvação.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Memória (85) : Soutine


Décimo filho, entre onze, de um modesto alfaiate de Minsk, Chaim Soutine (1894-1943) nasceu faz hoje, precisamente, 120 anos. Solitário por natureza, perfeccionista na pintura, destruía, com frequência, obras suas que o não satisfaziam ou lhe pareciam menores. Foi em França que atingiu a sua maturidade artística, e onde veio a falecer.
Lembrámo-lo através de duas telas: o "Retrato de Maria Lani", do MOMA, e um pequeno quadro da série de "Meninos de coro", pertença da Galerie Paul Guillaume.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Soutine, em destaque


Há muito que Chaim Soutine (1893-1943) é um dos meus pintores preferidos. Pois, ontem, o seu quadro "O pequeno pasteleiro" (cca. 1927), na Christie's de Nova Iorque, atingiu o mais alto preço das suas obras, em leilão, até hoje. O feliz e anónimo comprador deu pela tela 18 milhões de dólares. É obra!...

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Pinacoteca Pessoal 39 : Anselm Kiefer




Nascido na Alemanha, a 8 de Março de 1945, Anselm Kiefer passou a viver em França, a partir de 1991. Mas o jornal Público (27/8/2009) dá a notícia que se teria fixado em Portugal, mais concretamente, em Alcácer do Sal (não consegui confirmar se ainda por cá se mantém).
Autor de instalações e quadros de dimensões cada vez maiores, onde espelha um pessimismo pictórico que virá, quanto a mim, muito na linha de Soutine, Kiefer utiliza frequentemente pequenos detritos, cinza, palha, para pontuar as suas colagens e telas. Há quem o queira incluir no Novo Simbolismo. O pesadume de Celan cerca muitas das suas obras, às vezes, até usando versos do Poeta, como títulos, ou marcas dessa influência.
Muitas das suas obras não deixam de ter uma beleza singular, normalmente dramática. Os quadros, em imagem, intitulam-se: "Cada um fica debaixo da sua redoma" e o outro, sem título, tem escrito, em alemão - "Que mil flores floresçam!".

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Chaim Soutine



Controverso, no mínimo, o pintor Chaim Soutine, nascido próximo de Minsk, a 13 de Janeiro de 1893, faleceu em Paris, em 1943. O seu amigo Henri Serouya, evocando o seu sorriso de "menino cândido", diz que ele era la douceur même. Pelo contrário, o escritor Maurice Genevoix sublinha-o como um solitário assumido, e de mau feitio. Há uniformidade em atribuir-lhe, no entanto, persistência e tenacidade no seu labor artístico, e coerência de estilo. Raramente pintava sobre esboços prévios de desenho, mas as cores projectava-as com intensidade sobre a tela, logo de início. Após períodos de esterilidade criativa, entrava em fases de frenesim criador, numa espécie de misticismo laico, torturado. E, ao evitar a preparação e desenho prévio nos seus quadros, procurava sobretudo não dispersar ou fragmentar a sua inspiração.
Nos anos que passou em Céret (1919-1923) produziu cerca de 200 obras. A série de "Meninos de côro" data de 1927. O quadro em imagem, o primeiro que eu vi de Soutine, e um dos que mais gosto, pertence à colecção particular da família Castaing. A ocupação nazi fê-lo passar por grandes provações e sofrimento moral e psicológico, pelas ameaças que sofreu. Em 1943, refugiado que estava em Champigny-sur-Veude (Touraine), uma perfuração intestinal obrigou-o a regressar, de urgência, a Paris. Operado demasiado tarde, Chaim Soutine morre na manhã de 9 de Agosto.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Só mais 2 dias



É um microcosmo de diferenças: da Natureza, e cultural. Se, antes de entrar na exposição, escolhermos percorrer os jardins circundantes, iremos preparando o nosso olhar ao ver as vivas e pequenas flores brancas e amarelas do Inverno, e uma ou outra pétala singela tingida de lilás.
Não haverá, decerto, obras maiores se exceptuarmos, no meu entender, os "Ramos de Castanheiro em Flor", de Van Gogh, fascinante. E também  um Vieira da Silva ("Nature Morte Blue"), exposto de forma timidamente discreta. Mas é uma escolha muito harmoniosa, ou não houvesse um Soutine nesta exposição "A Natureza Morta na Europa" II, sécs. XIX-XX, na Gulbenkian.
A Exposição encerra a 8/1/2012. Mas, nos últimos 2 dias, estará aberta até às 23,00 horas. A não perder, absolutamente.

sábado, 24 de setembro de 2011

Sobre auto-retratos


Andrew Forge (1923-2002), crítico inglês arguto e pintor reconhecido, deveria saber do que estava a falar quando afirmou, na sua obra "Soutine" (Londres, 1965): "... porque uma paisagem por Van Gogh ou uma natureza morta são também um auto-retrato" (pg.14).

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O bonito, o belo e o feio


O bonito gera mais amplos consensos de agrado, em Arte, do que o feio, quando representado. Para, esteticamente, apreciarmos o "feio" é sempre necessário ultrapassarmos alguns obstáculos pessoais, sociais e até, por vezes, de cânone consagrado no Tempo. É muito mais fácil gostar ou aceitar a pintura dos pré-rafaelitas, do que admirar a obra de um Chaim Soutine ou de Francis Bacon. Pelo meio ficarão decerto Munch, Lucian Freud ou Paula Rego, e tantos outros pintores. Comecei pela Pintura, para chegar a outra arte. O poema (traduzido por João Barrento, para a Relógio d'Água) que vou transcrever, foi escrito por Gottfried Benn (1886-1956), escritor alemão que exerceu medicina, civilmente e no exército alemão. É, na minha opinião, um bom poema, embora possa não ser considerado "bonito". Intitula-se "Kleine Aster" (Pequena Sécia). Aqui fica:

Um carroceiro afogado foi içado para cima da mesa.
Alguém lhe tinha enfiado entre os dentes
Uma sécia, de um lilás claro-escuro.
Quando, a partir do peito,
por debaixo da pele,
lhe arranquei a língua e o palato
com uma grande faca,
devo ter-lhe tocado, porque ela escorregou
para o cérebro que estava ao lado.
Meti-lha na caixa torácica,
no meio das aparas de madeira,
quando o cosiam.
Bebe no teu vaso até à saciedade!
Descansa em paz
Pequena sécia!

domingo, 17 de julho de 2011

Retratos (3) : o Simões


O Simões tinha aspectos muito singulares. Um deles é que nunca comia carne e, posso afirmá-lo com relativa segurança, porque almocei com ele muitas vezes. A única excepção que abria, de longe a longe, era para as costeletas de borrego, grelhadas. Não que fizesse dieta, ou que tendesse para vegetariano, nada disso. Simplesmente, dizia ele, trabalhara em carnes tantos anos na sua vida, que agora, a meio dos 50, a carne lhe provocava alguma repugnância. Por isso, às refeições, só Peixe. Era um homem de extremos: ou preto ou branco, nim - nunca. E como era sempre frontal, tinha poucos amigos, mas todos eles muito fiéis. Na empresa, no entanto, todos o respeitavam, porque era um profissional exemplar. E era justo.
Tinhamos uma diferença, na idade, de quase 20 anos. Quando foi indicado para meu subordinado, e como ele tinha fama de mau feitio, a princípio pus-me na defensiva, mas viemos a dar-nos muito bem. Como ser humano, não como profissional, tinha várias teorias dogmáticas de que não abdicava. Uma delas, que ele explicava até à exaustão, citando exemplos, era a da arritmia dos sentimentos, nos portugueses. E lembrava, quase sempre, que já trabalhara em França e no Brasil. Dizia ele que os portugueses, em matéria de afectos, tinham "grandes fogachos, mas apagavam depressa". Eram muito bons corredores de 100 metros, mas eram péssimos na Maratona. E ria-se, citando como únicas excepções, a Rosa Mota e o Carlos Lopes. Rematava quase sempre a dizer que era preciso disciplina, sobriedade e sentido de compromisso nos sentimentos, fossem eles de amizade ou de amor. Creio que para além de uma boa relação de fidelidade e respeito profissionais, desenvolvemos, também, uma relação de estima.
Por isso, tenho a certeza que o Simões, fidelíssimo como era nos seus afectos, já morreu. É que, de alguns anos a esta parte, nunca mais deu sinal de si. Nunca o esqueci, no entanto. 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Pinacoteca Pessoal 1 : Chaim Soutine


O Arpose inicia, hoje, uma nova secção: Pinacoteca Pessoal. Que abordará pinturas, trabalhos gráficos, gravuras e, eventualmente, esculturas de artistas que, por um ou outro motivo, sejam da minha particular predilecção. Inicio a rubrica com Chaim Soutine (1893-1943), um dos meus pintores de referência, que nasceu a 13 de Janeiro de 1893, na que é, hoje, Lituânia, mas na altura pertencia, territorialmente, à Rússia. A sua vida artística desenvolveu-se e consolidou-se na França, tendo sido grande amigo de Modigliani, que lhe fez, pelo menos, 2 retratos. Era, ao que parece, homem de mau feitio (Maurice Genevoix dixit in "O Vairão"), solitário. As suas pinceladas fortes e largas, os seus retratos torturados (mesmo quando pinta crianças, e pintou muitas) denunciam a sua marca pessoal. Os seus meninos de coro, peças de carne esventradas, as paisagens dramáticas, são seus temas recorrentes. Creio que Francis Bacon lhe deve algumas influências... Escolhi, de Chaim Soutine, o "Retrato de uma Enfermeira" (1919) que integra o acervo do Los Angeles County Museum of Art.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Do "Bestiário", de Leonardo da Vinci


Muitos autores escreveram bestiários. Retenho dois, de que gosto particularmente: de Maurice Genevoix (que a propósito do Vairão, até fala de Chaim Soutine, pintor muito da minha preferência) e de Leonardo da Vinci. Na imagem do poste, o quadro de Da Vinci que mais aprecio: "Senhora com um arminho", que está no Museu de Cracóvia (Polónia). O quadro já consta do arquivo do Arpose, mas foi posto há mais de um ano, e é tempo de o recordar. Seguem-se, então, algumas transcrições do "Bestiário" de Leonardo da Vinci:
35. Moderação
O arminho pela sua moderação apenas come uma vez por dia e prefere deixar-se apanhar pelos caçadores a fugir para a sua toca se estiver enlameada, a fim de não macular a sua pureza.
95. Camaleão
Este apanha sempre a cor da coisa onde pousa; por isso, juntamente com os ramos onde pousam, muitas vezes são devorados pelos elefantes.
97. Dos Pressentimentos
O galo não canta se antes por três vezes não bater as asas.
O papagaio, ao deslocar-se pelos ramos, só põe o pé onde antes já pôs o bico.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Salão de Recusados XVIII : Crianças



1. - ...Mas as crianças, Senhor
porque lhes dais tanta dor?
porque padecem assim?...

Augusto Gil (1873-1929).

2. - É tão bom ser pequenino,
ter mãe, ter pai, ter avós,
ter esperança no destino
e ter quem goste de nós. ...

João Linhares Barbosa (1893-1965)

3. - Varech

Eu estimo sobretudo os teus olhos incolores
as tuas mãos inúteis, a tua boca verde
Eu falo somente dos relógios caídos, dos autocarros
Eu falo somente dos pés vermelhos
Eu falo... eu falo... eu falo...
No vigésimo século as nuvens são árvores
e os pássaros mais pequenos grandes paquidermes

Sim, é verdade, os cabelos loiros
Então, meia noite!
Senhora, se me dá licença, este dia acabou
por este dia simplesmente

A criança é porca, é inútil
Muito obrigado...

António Maria Lisboa (1928-1953).

domingo, 10 de janeiro de 2010

Favoritos V : Soutine






Parece que tinha mau feitio...


Chaim Soutine nasceu na Lituânia - integrada na Rússia, nessa época - a 13 de Janeiro de 1893 e veio a falecer, em Paris onde se radicou em 1913, no ano de 1943. Foi grande amigo de Modigliani (1884-1920) que o retratou algumas vezes. A pintura expressionista de Soutine, na minha opinião, parece ter como antecedentes Bosch e El Greco, e, como sequente, Francis Bacon. Nunca pintava de memória, mas sempre com o modelo à sua frente.


Maurice Genevoix (1890-1980), esse grande esquecido, retrata-o, assim, no seu texto "O Vairão" do "Tendre Bestiaire": "...O homem, macilento e magro, com um chapéu de feltro cinzento muito enterrado na cabeça, de olhos escuros, ardentes, quase febris, falava alto, era o único a levantar assim a voz dentro do veículo, com uma autoridade talvez demasiado confiante e forçada, onde havia um certo tom de provocação."