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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Divagações 217



É uma experiência singular termos à nossa disposição, para consulta ou leitura, um biblioteca alheia. Mais ainda enriquecedora se primar pela afinidade de gostos e/ou temáticas que são os nossos. E foi isso que me aconteceu, na ausência do dono e meu Amigo, durante três dias incompletos que lá passamos por casa dele. As deambulações livrescas saldaram-se por Mário Dionísio (A Paleta e o Mundo), Miguel Sousa Tavares (Cebola crua com sal e broa) e ainda duas obras de José Pedro Machado com artigos, sempre interessantes, sobre a língua portuguesa. O volume da Colóquio/Letras nº 106 (Nov/Dez 1988) também ocupou a minha atenção por uma evocação de Paula Mourão sobre os 40 anos de As Mãos e os Frutos (1948), de Eugénio de Andrade, e duas cartas inéditas de Aquilino Ribeiro para Carlos Malheiro Dias, apresentadas pelo filho dele, Fernando M. D.

grato reconhecimento a H. N..

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Curiosidades 118

 

Há nomes estranhos, outros que, só por parvoíce ou crueldade, se poderiam pôr a uma criança. E há nomes de terras extravagantes produto de excentridades mentais ou espíritos perversos. Lembrei-me disso ao referir a palavra Alcongosta num poste anterior. Também não sei dizer qual será mais usada de nome a nossa mais bonita praça lisboeta: se do Comércio, ou Terreiro do Paço, que eu utilizo com mais frequência.
Ao que parece a nomeação aristocrática ganha quase sempre mais favor, como será o caso do Príncipe Real, que já terá sido Largo  da Patriacal da Queimada, nome que lhe terá vindo de um incêndio que lá terá deflagrado em Março de 1769, no edifício onde se albergavam os serviços do Patriarcado. Quanto ao príncipe, terá sido Luís Filipe que era filho do rei D. Carlos. 
No referente a fogo, temos ainda a Travessa da Queimada, no Bairrro Alto. O olisipógrafo Vieira da Silva atribui o topónimo a uma fidalga do século XVI, que se chamava Ana Queimada e lá morava. Comprovadamente, um nome que vem de longe e se conservou...

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Paula Rego (1935-2022)



Príncipes consortes, Arpad Szenes e Victor Willing abrigaram-se à sombra do talento das suas mulheres que cultivavam a mesma arte - a pintura.
Na França, Maria Helena, na Inglaterra, Paula Rego, ganharam estatuto e cotação internacional, situação muito rara para quem nasce português.
Paula Rego faleceu hoje, em Londres.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

J. R. Jiménez (1881-1958)

 


Biblioteca Mia


Que a obra a si própria não se sinta,

que não entenda sequer

sua formosura! 

                         Nem mesmo o sol se sente,

 e temos dele inveja, o imortal? -

                          Ah! os livros

assim sozinhos, quando vou p'ra longe

- o sol assim fica, lento e cego, a iluminá-los

e nós que os trazemos no olhar!



Juan Ramón Jiménez, in  Poesía (1917-1923).

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Rearrumações


Camilo mudou de sítio e a Revista de Guimarães ganhou região autónoma, na nova estante do átrio. No entretanto, não consegui descobrir os dois primeiros Lobo Antunes, que ainda li, e não mais comprei. No local certo, das antigas estantes, não os encontro. Reapareceram-me, no entanto, obras esquecidas, como uns contos de Tchekhov (1860-1904), editados pela Atlântida (Coimbra, 1962), que agora ando a ler (ou reler?) com gosto e devagar, embora sejam bem pequenas as narrativas.
As novas estantes, milagrosas, não estão ainda cheias, mas olho, com algum desconsolo, para a secretária onde repousa uma parafernália de coisas e restos soltos que tenho dificuldade em voltar a arrumar em sítios convenientes. E que também não consigo imaginar-me a pôr no lixo...

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Última hora


Por informação fidedigna, posso comunicar que foram transformadas em patacos, nas últimas três semanas, 2 grandes bibliotecas que jaziam, respectivamente, em Castelo Branco e Colares. Esta última, embora anafada ou obesa, não contém preciosidades nem clássicos. Mais, não sei.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Livros de arte, catálogos de exposições, preâmbulos


Hoje em dia, é muito raro eu comprar um livro de arte, sobretudo com predominância iconográfica. São normalmente luxuosos, em novos, e muito caros; usados, são muitas vezes vendidos ao desbarato, porque perderam a actualidade. Nos anos 70, eram postos displicentemente em salas de visitas, nas casas de novos-ricos, a dar um toque de fingido requinte...

Na segunda metade do século XX, era também frequente, cá dentro e lá fora, poetas e escritores fazerem pequenos textos introdutórios em catálogos de exposições de pintores. Alguns muito felizes. Estou-me a lembrar de Eugénio de Andrade, com textos belíssimos sobre a pintura de Carlos Carneiro, Resende, Angelo de Sousa, Armando Alves, José Rodrigues... Mas também Pedro Tamen e Vasco da Graça Moura, por exemplo, assinaram belas prosas para o mesmo efeito.
Esta semana, o meu alfarrabista de referência tinha duas mesas grandes coalhadas de catálogos de exposições. Desde os anos 20 da Sociedade de Belas-Artes (modestos), até aos da Galeria S. Mamede, passando pelos de Manuel de Brito, da Galeria 111. O acervo não chegava, porém, ao século XXI, que agora não se vende tanta pintura, e os catálogos são pobretes, muitas vezes não passam de uma folha de fotocópia, com uma ou nenhuma reprodução. 

Catei, naquela floresta, textos que me interessassem, mas a colheita foi pobre em quantidade, embora válida de qualidade. Trouxe para casa um catálogo de uma exposição de Cargaleiro, na S. Mamede (1981/1982), com uma imaginativa prosa de Agustina. E outro, da Fundación Juan March (1991), sobre uma retrospectiva de Vieira da Silva, riquíssimo de iconografia. Com um poema de René Char e que integra, também, um retrato de Árpad Szenes, tendo como modelo a Mulher, que deixo em imagem final, para quem o não conheça. E porque gosto muito dele.


sexta-feira, 23 de maio de 2014

Cronologia e afinidades


Há muito de natural que nasce, em nós, das decisões primeiras e matriciais. E, depois, continua, porque está certo e está de acordo com o nosso sentimento ou razão mais profundos.
A ordem cronológica (e de cima para baixo) sempre presidiu à minha arrumação dos livros. Pela quantidade, a certa altura, tive necessidade de criar espaços distintos para as várias temáticas: Literatura portuguesa (subdividida em prosa e poesia), História, Ensaio e Filosofia, Literaturas estrangeiras, Monografias, etc. Com os policiais, à parte, numa pequena estante que me vem da juventude.
E, hoje, lembrei-me destes factos por causa de uma citação inserida na crónica de António Guerreiro, na revista ípsilon. Regista ele: "...Nela (Biblioteca de Warburg), os livros estavam ordenados não pelas regras da biblioteconomia mas segundo o «princípio de boa vizinhança»..." Pois eu faço o mesmo, principalmente, com os autores portugueses: Sá de Miranda, na prateleira, está entre Bernardim Ribeiro e Diogo Bernardes; Herculano com Garrett, Alberto de Oliveira fica junto de António Nobre (foram grandes amigos), Herberto Helder na companhia de O'Neill e Cesariny. Até as minhas poucas coisas ficam ao lado dos livros do meu bom amigo António...

para MR, que bem compreenderá...

domingo, 15 de dezembro de 2013

Pintura no feminino


A pintura de Marie Laurencin (1885-1956) ilustra com particular evidência, nas suas obras, uma mão feminina. Como, em Portugal, os quadros de Sarah Afonso e Maria Keil evidenciam o género.
Se Vieira da Silva consegue alguma neutralidade, muitas vezes, até uma certa assexualidade, sobretudo pelos temas, já Paula Rego, se não pela pincelada forte e intensa - que lembra Lucian Freud -, quase parece pintar masculinamente. Apenas o perverso, sugerido, da narrativa dos seus quadros denuncia, em última análise, um universo feminino. Que se descobre ou desnuda, subtilmente.
Voltando a Marie Laurencin, cujo auto-retrato, de 1906, encima este poste, cumpre-me informar que a pequena, mas belíssima aguarela (Mulher de chapéu, com cão), aqui há 16 anos, tinha, num leilão da Christie's, em Londres, uma estimativa de venda entre 10.000 e 15.000 libras.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Bibliofilia 89


Não se pode dizer que este livro, com poemas de Cecília Meireles, ilustrado por Vieira Silva, seja raro, até porque esta edição brasileira (1979), de 1.500 exemplares (o meu tem o número 455), promovida pela Confraria dos Amigos do Livro, em Portugal, demorou uns anos a esgotar-se. Custou-me cerca de Esc. 1.200$00, por volta de 1985, porque andei a namorá-lo algum tempo, até me decidir. Mas a beleza da edição e a qualidade do conteúdo venceram a hesitação.
As dimensões avantajadas do livro (29,5 por 31,5 cm.) não permitiram escanar a obra de forma que fosse visível, amplamente, a qualidade desta edição cuidada, que foi acompanhada por Carlos Lacerda e Luiz Forjaz Trigueiros. A capa, em pano verde, é do próprio editor. E as ilustrações de Vieira da Silva, vê-se que foram feitas com afecto. O que não admira, porque Cecília Meireles e Vieira da Silva foram grandes amigas.
Creio que, em leilões, só assisti à venda de um exemplar semelhante, no final dos anos 90, e que atingiu um preço que rondaria Esc. 5.000$00. Para a qualidade do livro, não me parece que tenha sido excessivo.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Miscelânea para rematar o dia


Umas vezes, a gente procura, procura, e não encontra. Outras vezes, coisas curiosas vêm ter connosco.
Houve um tempo, na minha juventude, em que procurei saber tudo o que havia para saber sobre Stonehenge e, depois, sobre as esculturas colossais dos Moai, na Ilha de Páscoa. Mas não fiquei particularmente bem esclarecido.
Há dias, soube que o obelisco de 25 metros, da Praça de S. Pedro, no Vaticano, tinha vindo do Egipto para Itália, no tempo de Calígula. E que a lenda dizia que ele continha no seu interior as cinzas de Júlio César; outra história referia que o obelisco teria sido erigido, no Egipto, precisamente no local onde S. Pedro teria sido martirizado e morto...
E, hoje, inesperadamente, tive conhecimento que Picasso pediu muitas vezes a Eluard que desse títulos aos seus quadros. Vieira da Silva fazia o mesmo, mas com René Char.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Um poema de Eugénio de Andrade


Antes da Neve

As grandes searas
sacudirão a crina,
a luz de setembro
tombará dos olmos,
a espuma do vinho
extinguir-se-á
como lume breve,

só então a neve...

sábado, 23 de junho de 2012

Luz


Quando começo a ouvir sussurros de novas (?) austeridades (Quosque tandem, Catilina, abutere patientia nostra?), a única coisa que ainda me consola é esta luz portuguesa, tão singular e tão bela, que nos é dada. E que me permite poder ler, em Junho, depois das 9 da noite, na varanda - já o sol vai quebrado.
E, no entanto, tão pouco falamos dela!... Teixeira Gomes tem páginas, por ela, iluminadas, mais a sul; Sequeira teve fulgurações dela, nos seus quadros e Vieira da Silva, longe, tentou recuperá-la, por saudade, decerto. Pouco mais... Sejamos justos: o azul de Maluda tem, também, essa luz lisboeta. E Eugénio fala dela como, só ele, podia falar: "...e a luz / impura, até doer."

terça-feira, 24 de abril de 2012

Liberdade


Não havia senão meia-liberdade. Era assim a concessão extrema. Meia liberdade para o homem em movimento. Meia-liberdade para o insecto que dorme e espera na crisálida. Fantasma, precisamente a lembrança, a liberdade no tumulto. A liberdade estava por cima duma massa de obediências dissimuladas e de convenções aceites sob os traços dum engôdo irrepreensível.
A liberdade pode ser encontrada no coração daquele que nunca deixou de a querer, de a sonhar, que a conseguiu contra o crime.

René Char, in Le Nu  Perdu (1964-1970).

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Só mais 2 dias



É um microcosmo de diferenças: da Natureza, e cultural. Se, antes de entrar na exposição, escolhermos percorrer os jardins circundantes, iremos preparando o nosso olhar ao ver as vivas e pequenas flores brancas e amarelas do Inverno, e uma ou outra pétala singela tingida de lilás.
Não haverá, decerto, obras maiores se exceptuarmos, no meu entender, os "Ramos de Castanheiro em Flor", de Van Gogh, fascinante. E também  um Vieira da Silva ("Nature Morte Blue"), exposto de forma timidamente discreta. Mas é uma escolha muito harmoniosa, ou não houvesse um Soutine nesta exposição "A Natureza Morta na Europa" II, sécs. XIX-XX, na Gulbenkian.
A Exposição encerra a 8/1/2012. Mas, nos últimos 2 dias, estará aberta até às 23,00 horas. A não perder, absolutamente.

domingo, 23 de outubro de 2011

Valores em Arte


Serão poucos os pintores portugueses do séc. XX que, no Estrangeiro, tenham cotação equivalente ou superior à que as suas obras alcançam em Portugal. Há pouco tempo, foi uma pintura de Paula Rego que atingiu um recorde de venda, em Londres - falamos disso, aqui, no Arpose. Congratulámo-nos agora com o justo reconhecimento, comprovado pelo preço recorde que "Saint Fargeau" (1965), de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992), atingiu em Paris, num leilão da leiloeira Tajan. A notícia vem hoje, no "Público". O quadro, que pertencera à colecção reunida por Jorge de Brito (1927-2006), alcançou o elevado preço de um milhão e cinquenta e quatro mil euros. O mais alto preço atingido, até hoje, por uma obra da Pintora de origem portuguesa. E o mais elevado preço alcançado por uma pintura nacional, desde sempre. Ou seja, em moeda antiga: Esc. 210.800.000$00. Longe vai o tempo em que o retrato de Fernando Pessoa, pintado por Almada Negreiros, no início dos anos 70, do século passado, foi vendido por Esc. 1.100.000$00, num leilão em Lisboa. E que causou sensação pelo valor recorde atingido.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Os Livros


"...Por vezes a sua mãe aproximava-se antes de se sentar no seu canto. «É a biblioteca», dizia. Pronunciava mal esta palavra que ouvia da boca do seu filho e que não lhe dizia nada, mas ela reconhecia a capa dos livros. «Sim», dizia Jacques sem levantar a cabeça. Catherine Cormery debruçava-se por cima do seu ombro. Olhava o duplo rectângulo sob a luz, as filas regulares das linhas; também respirava o cheiro, e por vezes passava pela página os seus dedos entorpecidos e enrugados pela água das barrelas como se ela tentasse conhecer melhor o que era um livro, aproximar-se um pouco de mais perto desses símbolos misteriosos, incompreensíveis para ela, mas onde o seu filho encontrava tantas vezes e durante horas uma vida que lhe era desconhecida e de onde ele regressava com este olhar que  pousava sobre ela como se fosse uma estranha. ..."
Albert Camus, in Le premier homme (pg.271), 2010.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Sobre Pintura do século XX



As duas pinturas, em imagem, de Paul Klee (1879-1940) e de Paula Rego (1935), foram feitas com um intervalo de 65 anos. "Senecio", de Klee, em 1922, o quadro "Looking back", de Paula Rego, em 1987. Para mim que sou leigo, embora amador atento de Pintura, "Senecio" parece-me mais "moderno" do que o neo-figurativo "Looking back", talvez porque este último é mais transparente e parece, na sua realidade simbólica, contar uma história, ou despertar imediatas sugestões a quem o observa. A informação a propósito deste óleo sobre tela, de Klee, diz-nos que é baseado no retrato do artista Senecio, vestido de Arlequim. O quadro de Paula Rego reinterpreta, de uma forma ambígua, a discreta perversidade feminina.
Cruzaram-se-me, na manhã, porque Klee morreu a 29 de Junho de 1940, e uma boa parte da sua obra foi destruída pelos nazis que a consideravam "degenerada". E o quadro de Paula Rego, ontem em leilão, atingiu um recorde em venda: 860.000,00 euros. Só ultrapassado, em pintores de origem portuguesa, por Vieira da Silva, com o seu "Lisbonne-Ville", de 1958, que foi vendido, em 2007, por: 1.100.000,00 euros. Até parece que os mercados sabem proteger, das vicissitudes, muito melhor a Pintura, do que os políticos. Muito embora os nazis não sejam um bom exemplo de princípios estéticos. Nem éticos, claro.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

4 fragmentos de Char


Os fragmentos abaixo traduzidos pertencem ao volume "Feuillets d'Hypnos" (1943-1944) de René Char (1907-1988) e foram escritos no maquis, no tempo da Resistência. O livro foi dedicado a Albert Camus.

31.
Escrevo em brevidade. Não posso ausentar-me tempo demais. Alongar-me conduziria à obsessão. A adoração dos pastores já não é útil ao planeta.
32.
Um homem sem defeitos é uma montanha sem fracturas. Não me interessa.
(Regra do feiticeiro e do inquieto.)
34.
Casa e não cases com a tua casa.
39.
Somos esquartejados entre a avidez de conhecer e o desespero de ter conhecido. O aguilhão não renuncia à dor aguda e nós à nossa esperança.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Árpád Szenes





É um daqueles casos em que a fama da Mulher (Maria Helena Vieira da Silva) obliterou a do Homem. Mas Árpád Szenes, que nasceu a 6 de Maio de 1897, em Budapeste, é, sem dúvida, um bom pintor e, sobretudo, um grande desenhador. Mostram-se, em imagem, 2 obras de Árpád: um retrato do poeta Alberto de Lacerda e um guache, sem título, de 1961. Árpád Szenes morreu em Paris, a 16 de Janeiro de 1985.