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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Uma fotografia, de vez em quando (15)


Provavelmente, o fotógrafo chileno mais conhecido, Sergio Larraín (1931-2012) teve, no entanto, um exercício profissional bastante curto. Da sua integração na Agência Magnum, em 1959, até ao abandono gradual da actividade ao longo dos anos 70, deixou pelo caminho importantes contribuições para a fotobiografia do poeta Pablo Neruda e alguma inspiração para o "Blowup", de Antonioni, bem como uma galeria impressiva de retratos das gentes do povo chileno.

domingo, 12 de maio de 2013

Osmose (43)


Haverá sempre uma área fechada e delimitada de incomunicabilidade humana. De diálogo impossível, mesmo para o próprio, consigo mesmo. Alargada em restrição, para o outro. E esta intransmissibilidade vem de longe.
Pode assumir a forma enigmática do verso "edoi lelia doura", do poema de Pedro Eanes de Solaz, que Herberto Helder quase fez sua. Passa, evidentemente, pela "Cold Song" de Purcell, como atravessa "O Grito" de Munch, ou "a gaguez furiosa" de que fala Jorge de Lima. E pode vir desembocar, mais perto de nós, nos "Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena", de Jorge de Sena. É tudo uma questão de temperamento.
De Leste, e desconexos, os sinais que chegavam só permitiam, ao homem, o pesadume do silêncio e uma tensão de gestos, quase mecânicos ou medidos, para evitar o patético e o excessivo. A desconformidade ininteligível, em suma. Elevou o braço esquerdo, rodeou com o anelar e o dedo mínimo a concha da orelha e começou, simplesmente, a coçar a nuca. Poderia, como o homem de meia idade, no "Eclipse" de Antonioni, ter tomado uma aspirina. Esse homem, aparentemente calmo, que, minutos atrás, tinha perdido tudo o que tinha, na Bolsa. Que, depois, se levantou da mesa do café e, em passos meditados, foi embora. Não podia fazer mais nada...

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Em jeito críptico de metáfora


As arquitecturas frágeis ressentem-se e sofrem com a humidade, que lhes deixa manchas pardas, indeléveis, na porosidade das paredes, por onde há-de alastrar o bolor, esfarelando, pouco a pouco, o interior. No entanto, o seu prumo vertical permanece, embora uma atenção viva possa detectar uma ligeira curvatura ou inclinação.
No "Eclipse", de Antonioni, o homem que perdeu tudo na Bolsa, parece inexpressivo e indiferente ao desastre pessoal. Sai do edifício, e dirige-se para a esplanada, onde se senta. Pede um café e um copo de água, e toma uma pastilha (aspirina?). Escreve qualquer coisa num pequeno papel e, pouco depois, abandona a mesa, dirigindo-se, a passos lentos, em determinada direcção - continua a viver.
Monica Vitti, que tudo observou, curiosa, vai até à mesa, e pega no papel que o homem lá deixou. Encontra apenas os traços pueris de umas pequenas flores que o homem desenhou, e abandonou. Tudo a preto e branco.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Osmose (30) : desfocagem


Wordsworth dizia que, de algum modo, a criança era o centro de tudo, porque "pai do Homem".
Podemos sempre descentrar o motivo principal dos factos, que o acessório ou secundário ganha-lhe o espaço, quase a razão principal, em suma, passa a ser o falso essencial. É o que nos diz, magistralmente, Antonioni no seu filme "Blow-up".
De outro modo, cenário: uma noite insone de um Fevereiro antigo, um velório-vigília com duas pessoas, até de manhã; uma freira galega, um homem ainda jovem (dirão os outros, erradamente, que o homem ficou, por remorso). Falaram pouco: a freira rezou e o homem foi recordando - foram bebendo café, cada vez mais frio, cada vez mais triste e escuro, de reaquecido. A freira velha explicou ao homem novo o que era cientificamente o coma físico e as suas consequências graduais.
O homem lembra-se do som das primeiras águas, na manhã da casa. E fala, obsessiva e recorrentemente, disso.