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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Poesia

 

Respeito e admiro, embora me surpreendam, as raríssimas pessoas, na blogosfera, que têm a coragem de dizer que não gostam de poesia, de facto uma afirmação politicamente considerada incorrecta - julgo. Mas é natural, quando sabemos que um livro de versos vende, quando muito 300 exemplares, em Portugal, só ultrapassados por autores consagrados como Sophia, Eugénio de Andrade ou Herberto Helder, este último, aliás, objecto favorito dos especuladores e alfarrabistas sem escrúpulos, como se viu no passado.
Mas fiquei ainda mais estupefacto quando li no ML que: plus de 100.000 personnes s'adonnent à l'écriture de la poésie. mais le tirage moyen des recueils édités est de moins de 300 exemplaires.
Afinal, não estamos assim tão longe da França...

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

arte menor (46)

 

Sem título

Nada se arruma por si
- são os inertes nocivos -,
talvez o mundo seja
ainda o caos primitivo
de desejos múltiplos e forças
absurdas à procura
de uma razão distante
e um final coerente
inesperado.


Sb., 14/8/2026

terça-feira, 7 de julho de 2026

Um terceto de Drummond

 

Hipótese

E se Deus é canhoto
e criou com a mão esquerda?
Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), in Corpo (1984).

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Recuperado de um moleskine (49)

 


Inha

Vem de longe o cheiro
de casas campestres e nogueiras altas,
o aroma limpo da aguardente branca
misturado com maçãs no cimo
de roupeiros velhos, o perfume todo
de coisas sem idade ou da infância
sumida lá no fundo
e sussurrando.

Qlz.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Em tempo

 

Deixei passar o centenário do nascimento do poeta José Gomes Ferreira (9 de Junho de 1900) e, para me penitenciar, aqui deixo a imagem das capas de um encarte publicitário em que a A. P. E. com a parceria da Carris celebrou o acontecimento, na altura própria.

(Só lamento que a caricatura do Poeta seja tão má [o autor nem sequer assinou o desenho...] e com um apêndice nasal que não tem nada a ver com o de JGF.)

sábado, 9 de maio de 2026

Um poema de E. de A.



O cheiro do Verão

Quem me traz morangos não sabe
que também me traz
um punhado
desses tão delicados e carnais
frutos silvestres
que os garotos de Roma vendem
pelas ruas, sorrindo, ao fim da tarde.
Só eles me trazem a sombra
dos bosques do verão,
e o canto do rouxinol
pegado ainda à frescura da pele.


Eugénio de Andrade (1923-2005), in Rente ao Dizer (1992).

sexta-feira, 1 de maio de 2026

1 poema, em versão portuguesa

 



I, 2

A morte, às vezes, toca-nos os cabelos,
até nos despenteia
mas não entra.

É  um grande pensamento que a faz parar?
Ou talvez sejamos nós que pensamos
algo maior do que o próprio pensamento?


Roberto Juarroz (1925-1995), in Poesía Vertical.


quarta-feira, 22 de abril de 2026

Leilão

 


Não são muito frequentes os leilões de livros, hoje em dia, e este que a Livraria Ecléctica levará a efeito, a partir de 24/4/2026, tem alguma importância pelo acervo rico que contém. O destaque centra-se na literatura portuguesa do século XX, com particular incidência na poesia. As obras pertenciam  ao bibliófilo Joaquim Guerreiro (1967-2017).
Por amostra, vou referir alguns dos lotes de 3 colecções:

1. Cancioneiro Geral, Lisboa (Centro Bibliográfico, 1950-58): 21 volumes, faltando apenas o nº17.
    Com uma uma base de licitação de... 150 euros.
2. Poetas de Hoje (1961-1972), Portugália Editora 32 livros (de 39). Com uma estimativa de venda        
    entre 150 e 250 euros.
5. Cadernos Iniciativas Editoriais (Lisboa, 1956-80), 26 obras. Estimativa entre 150/200 euros. 

terça-feira, 3 de março de 2026

Steinn Steinarr (Islândia, 1908-1958)

 


Fim do Caminho 


Por fim após um dia pesado
termina o teu caminho. Sentado numa pedra
percorres com o olhar o panorama
um instante.

E recordas então
que uma vez, uma vez há muito tempo
começaste a caminhar deste mesmo lugar.


Spor í sandi, 1940 (Amadeu Baptista trad.)


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

arte menor (45)

 
post-scriptum 


Não nos avisaram, os antigos, que a velhice
era uma pátria exausta sem boas
notícias, os horizontes trémulos
e frios. E que alguns amigos
de lá saiam, sem dizer adeus.

Há que apontar no livro
que não há histórias cor de rosa,
nem anjos ou fadas,
e raras são as damas
de companhia.


Sb., 25/2/2026.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Recuperado de um moleskine (48)


 
O poema tem sempre de nos convencer primeiro, para gostarmos dele e o incorporarmos no nosso entendimento. Ainda que as palavras não nos sejam próximas. Pode até acontecer que desconheçamos o significado de uma ou outra palavra e que os possíveis sinónimos nos levem a dispersos e inconclusivos caminhos e motivos. Um esforço que teremos de fazer pela compreensão do todo, de forma a que o sentido ganhe uma dimensão pacífica de leitura pessoal ou subjectiva.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Gil Nozes de Carvalho : 1 poema


 
Os Antepassados

Tinham fome.
Vieram de madrugada pelo
baço cheiro da toutinegra possuídos
antes do cisne da luz.
Aberta só uma casa de petiscos,
cerveja, mexilhões, arenques em vinha d'alho
e batata frita era o que havia
na Flandres e a guerra.
O futuro, esse duro privilégio, derramou-se
na tijela dum deles.
Foi quanto bastou para lhe cortarem
a mão e a revelação da fé veio depois
na unha extirpada.
Não tivesse alguém fixado as figuras
e julgaríamos hoje o nosso mundo um
foral exausto.


Gil Nozes de Carvalho (1954-2025), in Alba (1983).



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A propósito do último poste

 

Uma pátria tem algum sentido
quando é a boca
que nos beija a falar dela,
a trazer nas suas sílabas
o trigo, as cigarras,
a vibração
da alma ou do corpo ou do ar
ou a luz que irrompe pela casa
com as frésias
e torna, amigo, o coração tão leve.


Eugénio de Andrade (1923-2005), in Rente ao Dizer (1992).

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

De um livro rejeitado de E. de. A.

 

Em geminação com a Livraria Lumière, que se lembrou do aniversário de Eugénio de Andrade (1923-2005), hoje, aqui deixo um pequeno e singelo poema do terceiro livro (Pureza, 1945) do Poeta, menos conhecido, pois não mais foi reeditado.

Madrigal

Coisinha frágil...:
Teu corpo perdeu-se
no meu coração.

Queres encontrá-lo?
- Tenho-o fechado
na minha mão.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Um poema, para o acabar do ano

 


Ver Claro

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.



Eugénio de Andrade (1923-2005), in Os Sulcos da Sede (2001).

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Citações DXXVI

 

O poema - esta hesitação prolongada entre o som e o sentido.

Paul Valéry (1871-1945), in Tel quel.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Leituras paralelas 3

 

A propósito de Paul Éluard (1895-1952), o escritor Claude Roy (1915-1997) anota, sobre a declamação da poesia francesa, algumas observações pertinentes que também se poderiam aplicar à forma de declamar poesia portuguesa, pela mesma época do tempo. Ora, citemos, traduzindo:
"... Há apenas uma coisa que o (Éluard) trai e que são os seus discos. A sua dicção era a de muitos poetas, em atraso de 30 anos sobre a sua poesia; quando se ouvem Breton, Aragon, Éluard, apercebêmo-nos que é  poesia dos anos 30 ou 50 gravada com a técnica teatral de 1890 ou 1910."

sábado, 6 de dezembro de 2025

De Weendy Cope (1945)

 


Sunset at Widemouth Bay

Fogo
por detrás do mar.
O céu está cheio de anjos
de longas asas
a arder.


Wendy Cope, in Uncollected Poems (pg. 71)

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Ainda Eugénio

 

Por opção e exclusão pessoal não mais voltaram a editar-se as primeiras três obras de Eugénio de Andrade (1923-2005): Narciso (1940), Adolescente (1942) e Pureza (1945), sendo que a sua bibliografia canónica se inicia, na prática, com As Mãos e os Frutos, publicado em 1948. Muito embora o Poeta venha a recuperar, em 1978, 9 poemas desses livros iniciais sob o título de Primeiros Poemas, que agrupou com os dois livros já reconhecidos, numa edição conjunta da editora Limiar (Inova).
Assim, pareceu-me interessante reproduzir por imagem dois pequenos poemas de Pureza, cuja frescura juvenil deverá interessar conhecer àqueles que apreciam a poesia de Eugénio de Andrade. E que o Poeta, lá do alto, me perdoe a ousadia atrevida.


quinta-feira, 13 de novembro de 2025

arte menor (44)



Alguma coisa lhes trago
de limpo e natural.
De longe, lembro
coisas extintas,
afagos de memória.

A ternura é porém de outrora
- e já não volta.


Sb., 13/11/2025