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segunda-feira, 1 de março de 2021

Bibliofilia 186

 


É minha convicção arreigada que, de toda a obra de Ramalho Ortigão (1836-1915), o livro que mais edições teve, terá sido A Hollanda que começou a ser publicado, em crónicas, na "Gazeta de Notícias", do Rio de Janeiro, pouco depois do escritor ter chegado a esse país (Holanda), em Agosto de 1883. Só em 1885 sairia a primeira edição em livro no Porto (Magalhães & Moniz, Editores), sendo as sete seguintes com a chancela da Parceria da Antonio Maria Pereira. Na mesma editora, foram impressas, pelo menos, as 7 reedições iniciais, sempre ilustradas com 53 bonitas gravuras, nos primeiros 50 anos, ou seja, até 1935.



Tenho 2 destas luxuosas edições de fino gosto: a 3ª (1900) e a 5ª, de 1916. Mas, infelizmente, em nenhuma delas consta o nome do ilustrador. Até à sétima impressão (de 1924), e nos últimos tempos, os volumes oscilavam de preços, em leilões e alfarrabistas, entre os 25 e os 75 euros. Em finais dos anos 70, do século passado, os dois volumes custaram-me respectivamente Esc. 1.500$00 e 2.500$00.



quarta-feira, 15 de março de 2017

Outros tempos


Os tempos são outros, evidentemente, mas a margem direita do Tejo está mais bonita, passeável e amena. Se calhar, tão agradável como Ramalho Ortigão (1836-1915) a pintava, por alturas de 1870. A gente que a frequenta, agora, é que é diferente... Mas voltemos às palavras do escritor portuense, insertas em Correio de Hoje II (pg. 17):

"O Aterro está sendo desde as duas até às cinco horas o passeio predilecto da elegância da Capital. Reunem-se ali muitas carruagens, e muitas senhoras do high-life se apeiam para respirarem a brisa do mar, saudavelmente impregnada nas exalações do alcatrão. É o prazo dado às rainhas do grande e do pequeno mundo, às pálidas estrelas da aristocracia, aos astros rutilantes da finança, e el-Rei vai ali algumas vezes guiar os cavalos da sua carruagem. A senhora condessa de Edla e o sr. D. Fernando escolhem aquele ponto para os seus passeios a pé." 

quinta-feira, 9 de março de 2017

Do que fui lendo por aí... (7)


Foram ontem pateadas no primeiro baile de máscaras no salão da Trindade as cancanistas francesas. Não sabem dançar e doiram esta respeitável ignorância com uma fealdade que lhes guarda a virtude com a hostilidade da ponta de um sabre posto à cara de quem olha para elas.

Ramalho Ortigão, in Correio de Hoje, tomo I (pg. 70).

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Só para marcar o ponto...


É evidente que Vasco Fernandes (1475-1542) domina a cena, com o seu monumental S. Pedro, em Viseu. E tenho que destacar uma magnífica marinha de mar bravo, pintada por António Carneiro (1872-1930). Mas o acervo de Columbano (1857-1929) não é de desprezar, no Museu Grão Vasco. Do atelier (em imagem) aos estudos para as pinturas do Parlamento, mais o excelente retrato de Ramalho Ortigão. E ainda umas 4 tabuínhas, com paisagens de Bruges (?), que me ficaram na retina...

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Apontamento 70: "Ausência de autoridade(s) de espírito


Das minhas leituras, de "coisas antigas", que a Escola, dificilmente, irá recuperar, mesmo em forma de antologia, re-descobri "As Farpas" de Ramalho Ortigão.

R. Ortigão, sobre o falecimento de Alexandre Herculano, a 14 de Setembro de 1877, publicou, no dia seguinte um belíssimo texto. Pela actualidade de algumas das suas observações, aqui deixo um pequeno excerto:


Post de HMJ, dedicado aos Herculanos sérios e verdadeiros

quinta-feira, 12 de março de 2015

Ramalho, em Paris


Ora vejam:

...Os portugueses são indolentes, pezados, mas persistentes, perseverantes, fieis e generosos; taes são as principaes qualidades que fazem o seu elogio. É um paiz onde o "menu" de um banquete de um burguez ainda hoje se cifra em tres palavras: sopa, vaca e arroz. Napoleão dizia que com soldados portugueses daria a volta ao mundo. Os homens, cuja dureza tanto admirava o primeiro guerreiro dos tempos modernos, tinham-se creado com o mais rijo dos alimentos - a broa.
Entre os portugueses são os minhotos os homens que primeiro pegam em armas e sustentam a guerra ao primeiro indicio de opressão com que os ameacem. Se estudarmos a razão d'este forte sentimento de independencia na gente do Minho, encontramol-a na saudavel frugalidade nacional do caldo d'unto e do vinho verde.

Tirando a referência à perseverança, como qualidade dos portugueses, eu estaria tentado a concordar com grande parte do resto desta citação de Ramalho Ortigão (1836-1915). Este livro (Em Paris), um dos menos conhecidos do Escritor portuense, entre outras coisas, é um hino à gastronomia e à Mulher. E lê-se, com imenso agrado, rapidamente.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Três tons


"...As carruagens estão abertas e a locomotiva principia a cuspir fumo. Toca uma sineta. Em França há nestas ocasiões um homem que diz: Meus senhores, queiram subir às carruagens. Em Portugal diz-se: Então os senhores despachem-se daí ou querem ficar em terra? Em Badajoz, uma voz de comando, ferrugenta e ameaçadora, brada apenas com um berro seco: Viajeros, al tren! E esta simples diferença no modo de convidar os viajantes a entrarem nos vagões basta para caracterizar num só traço o espírito desses três povos.
Estamos em Espanha."

Ramalho Ortigão, in Pela Terra Alheia.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Holanda : 3 perspectivas portuguesas


Da Holanda, para mim e a princípio, eram as tulipas e os moinhos; mais tarde, os selos, o queijo, os pôlderes e as cortinas interiores, das casas, sempre abertas. Depois, Ramalho, Nemésio e, mais recentemente, Rentes de Carvalho (1930). Deste gaiense, de ascendência transmontana, lá radicado há muitos anos, vou quase no final de "Com os Holandeses", que tenho vindo a ler, com agrado veloz, e se, até meio do livro, os holandeses não saem bem do retrato, quando ele começa a falar de Amesterdão, começa a declaração de amor. O pragmatismo, a bruteza, a fastidiosa gastronomia, a falta de humor (ou um humor demasiado próprio) - Rentes de Carvalho fala deles, abundantemente. Mas compensa depois, talvez arrependido, com alguma ternura embevecida.
Ramalho Ortigão é mais equilibrado, para o bem e para o mal, no seu "A Holanda", mas também menos intenso. Nemésio, mais efusivo e apaixonado, nos seus versos, talvez porque alguma holandesa lhe desalinhou os "jacintos", que ele julgava já murchos e secos ("...Já para alguns jacintos alinhados/ Na janela fechada do que fui."), no último quartel da sua vida (1963). Assim, entre "A Holanda" (1883) de Ramalho, a de Vitorino Nemésio (livro publicado em 1976) e a obra, mais recente (2009), de Rentes de Carvalho, se compõe o poliedro deste país conquistado ao mar que, eventualmente e com a subida dos oceanos, no futuro, poderá nele, de novo, submergir para sempre.

domingo, 23 de dezembro de 2012

De Natais antigos


"...Não, a vida não é uma festa permanente e imóvel, é uma evolução constante e rude. O Natal é a festa das lágrimas para todos aqueles para quem ele não é a festa da inexperiência. E todavia pensavam alguns que era útil não deixar de a celebrar. Que importa que o número ou que o nome dos convivas varie em cada ano? Que importa que alguns amados velhos faltem ao banquete? Que importa que nós mesmos faltemos para o ano que vem na festa dos mais novos?
Esta noite de alegria para as crianças será sempre de saudade para os adultos. Assim temos a esperança terna de sobreviver, por algum tempo, na lembrança dos que amamos - uma vez ao menos - de ano a ano."
Ramalho Ortigão, in As Farpas, tomo I.

"Ah! como eu tive inveja do saloio que parou o burro à porta de uma mercearia da Bitesga, para comprar as duas dúzias de broas da consoada; do pobre engraxador da esquina, indo à praça, com a mulher, de fato rico, apreçar um quarto de peru; da varina entrando na salsicharia, radiante, a comprar salsichas, ao fim de ter deposto a canastra à porta, rude presepe onde o filho loiro chuchava no dedo, com o ventre de sapo para o ar! Todas essas índoles do povo, roídas de penúria, vergadas de trabalho, primitivas, mas fecundas e convergentes, por uma fatalidade ancestral, à reedição das alegrias periódicas do ano, se me afiguraram infinitamente superiores à minha friável índole de janota céptico, demolindo no ar sem plano certo, negando pelo simples prazer  do paradoxo, incapaz de estabilidade num problema, constantemente à procura do novo, e em cada topo de colina voltando-se, desesperado de só ter achado gosto - ao que era velho. ..."
Fialho de Almeida, in Os Gatos, vol. V.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Recomendado: trinta e três - sobre Gastronomia


É uma obra ligeira, mas muito informativa e agradável de se ler esta "Volúpia - A Nona Arte - A Gastronomia", de Albino Forjaz Sampaio (1884-1949), para quem preze os prazeres da mesa. E também para quem goste de literatura, pois há capítulos dedicados a Eça, Ramalho e Fialho de Almeida.
Lá se encontra a famosa receita, muito simples, de batatas fritas enfoladas, de Ramalho Ortigão, bem como as melhores regras, aconselhadas por Fialho, para arrozes de perdizes. Há também um repositório extenso de bibliografia gastronómica portuguesa e europeia. E apreciações interessantes sobre os pratos mais importantes da Europa, África, China...
O livro teve a sua edição original no ano de 1940. Esta, que possuo e vai a capa em imagem, é a segunda edição (2000), da Editorial Notícias.
Recomendado para ler antes do almoço ou do jantar, porque abre o apetite.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

3 reis e 1 consorte, vistos por um monárquico


Como se sabe, Ramalho Ortigão (1836-1915) foi um monárquico convicto, até ao fim dos seus dias. Mas esse facto nunca o impediu de usar de humor e sentido crítico em relação aos reis portugueses. Em "Perfis e Costumes", Ramalho faz uma apreciação bem disposta sobre 4 representantes da Monarquia portuguesa, assim:
"...D. Pedro fôra um bravo militar, que - como ele próprio escrevia ao marquês de Resende - nos constitucionalizou à força: Sois mon frère ou je te tue.
D. Miguel foi um rei-esbirro, assim como o irmão foi um rei-soldado; acamaradava a dois caceteiros, o José da Polícia e o João Sedvém, êle tinha êste ideal fixo: organizar uma boa sociedade exclusivamente composta de frades e de toureiros, e rachar o resto à bordoada.
D. João VI era um príncipe feito de lombo de porco e marmelada, - um ventre sempre cheio, quási sempre constipado, constantemente polvilhado de rapé e enformado nuns calções sujos.
Enfim Malherbe veio. Chegou o Senhor D. Fernando (Augusto Francisco António).
Um pouco menos rei que os seus predecessores, rei apenas por afinidade, esta circunstância tornava-o simpático. ..."

para MR, em jeito de geminação, por ter falado da morte de D. Pedro IV, no Prosimetron.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

D. Luís - o ponto de vista de Ramalho


Não será bem um retrato, mas dá uma perspectiva sobre quem foi D. Luís, este esboço de Ramalho Ortigão sobre as qualidades do rei. Vinha na revista O Occidente (nº 2 do vol. I, de 15 de Janeiro de 1878). Segue um excerto:
"...O que podemos dizer de sua majestade para honra dêle e ventura nossa, não é pois que é um grande rei, mas que é um rei perfeito.
O seu temperamento é precisamente o que convém aos soberanos constitucionais: o temperamento dos condescendentes.
A sua educação não é de um filósofo. A filosofia dar-lhe-ia um sistema, um método, um ponto de vista pessoal que alguma vez seria incompatível com a maneira de ver do sr. marquês de Ávila, do sr. Brancamp ou do sr. Fontes Pereira de Melo. A educação de sua majestade é a de um gentleman. Fala seis ou sete línguas, é bom músico, desenha espirituosamente, joga as armas, monta a cavalo, guia, governa bem um iate, valsa com elegância, cultiva a caça, a pesca, a navegação, todas as prendas do sport; tem conversação, tem maneiras, tem ar . É afável, compadecido, liberal, generoso. De resto é ainda o único democrata da sua côrte, na qual as vontades de dois monarcas reforçados com um exército permanente, com vários canhões modernos, e com um corpo suplementar de archeiros, não conseguiram ainda abolir inteiramente a cerimónia fetichista do beija-mão! ..."
Resta acrescentar que Ramalho Ortigão era monárquico, e foi-o sempre, mesmo depois da implantação da República, até à morte.

domingo, 20 de maio de 2012

Mercearias Finas 53 : o avesso e o direito


Já por aqui o disse, e mantenho. De primeira água, as gastronomias portuguesa, espanhola, francesa e belga; de qualidade intermédia, a cozinha alemã. Francamente medíocres, a inglesa, a holandesa e a americana - das que conheço, minimamente. Em abono da excelência castelhana, vem uma carta de Ramalho Ortigão (1836-1915) para a filha Berta, no próxima leilão de Junho, da Livraria Luís Burnay (lote 247), em imagem parcial, com loas à gastronomia espanhola que passo a citar:
"...Em toda esta parte de Hispanha, de que eu tanto gosto, há a especialidade de se comer (para o meu paladar) como em parte nenhuma do mundo. Deixei de almoçar, tomando apenas dois pequenos almoços de leite, para não me carregar de mais, mas ao jantar despico-me, e quando aparece o incomparavel, o divino puchero, com gravanços, chouriço e cabrito, e os phenomenaes espargos que se comem todos de ponta a ponta, em azeite gelado, golpe de vinagre e gemas d'ovos cosidos, com tarraçadas de Rioja e agua de In-sallus, é de botar abaixo e de se acabar o mundo. ..."
No reverso (ver vídeo), os olhos esbugalhados de Anthony Bourdain (1956, Nova Iorque), que até fica de cócoras perante um mero prego no pão ou uma gordurenta bifana portuguesa ( como se pode ver e ler noutras declarações do americano), ao ser servido de um magnífico arroz de polvo com filetes do mesmo. Imagine-se as burundangas que o conhecido ianque não terá pastado, na infância e adolescência, pelas pradarias do faroeste americano...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Melancolias


Entre um puto que nos manda emigrar e um saloio estrangeirado que quer que o tratem pelo nome próprio, e fala um português gaguejante e mascavado, é difícil discernir alguma réstea de patriotismo, algum vestígio de pudor nacional a que se possa recorrer, como lenitivo a este Portugal descaracterizado, com pequenas bolsas de resistência activa no meio da abulia geral.
É um erro pensar-se que os "Vencidos da Vida" foi apenas a geração de Eça e Ramalho. O pequeno núcleo esclarecido de cada uma das gerações portuguesas, desde finais do séc. XIX, tem sido sempre, ou quase sempre, vencido por estes arrivistas do Poder, com a sua ganância pessoal, com a sua bajulice ao estrangeiro, com o seu deslumbramento pelo que vem de fora- capatazes por conta d'outrém- vergando a população ao servilismo e à "apagada e vil tristeza".
A China tirou hoje a sua desforra de Macau, comprando a EDP. Será isso o menos, porém, ou apenas o princípio. Venderão tudo a saldo para, no futuro e quando saírem do Poder, terem uma mordomia à espera para recompensa dos favores que prestaram.
Vem de fora, na paisagem, um nevoeiro sobre o rio, e as luzes parecem um incêndio de um navio que se afunda, à espera de um Turner que o registe para sempre. Uma ressaca melancólica inunda toda a esperança possível que ainda resta.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Recomendado : vinte - Ramalho Ortigão


"Ramalhal figura" lhe chamava Eça, com a sua habitual ironia, abstractizando o vulto alto de Ramalho Ortigão (1836-1915), nascido no Porto, a 24 de Outubro. Moderno em muitos aspectos, adepto da prática de ginástica diária e caminhante infatigável, mas conservador nos seus princípios ideológicos de monárquico convicto, eis o autor de "John Bull" que convoco, neste blogue e no dia do aniversário do seu nascimento, para que seja mais lido. Da sua prosa coloquial, simples e elegante, recomendaria "As Praias de Portugal - Guia do Banhista e do Viajante" que, a par de "Os Pescadores" de Raul Brandão, é um dos livros portugueses em que melhor se fala do Mar. Para aguçar o apetite ouçamos, então, um bocadinho de Ramalho Ortigão ("De Pedrouços a Cascais"):
"Se queres dar, leitor, o mais belo dos passeios permitidos ao habitante de Lisboa, faze o que eu ontem fiz.
Levanta-te às 5 horas da manhã, num domingo, veste-te à luz do candeeiro, porque em Setembro ainda não é bem dia a essa hora, pega na tua bengala e no teu binóculo e vai à ponte dos vapores do Cais do Sodré.
Tomamos um bilhete de ida e volta no vapor de Cascais por dez tostões. Ainda é cedo, o vapor não parte senão às 7 horas. Entramos no Café Grego e fazemo-nos servir uma chávena de leite ou chá preto. ..."

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Salão de Recusados XIX : Portugal e Espanha


1. "Opúsculos", tomo III, 1858 (excerto):

"Por mais que a tradição de antigas malquerenças e o ciume da nossa autonomia nos affaste dos outros povos de Hespanha, dos quaes os eventos politicos fizeram, mais ou menos forçadamente, uma só nação, é certo que, apesar de todas as repugnancias entre portugueses e hespanhoes, nas opiniões, nos costumes, nas tendencias moraes de ambas as nações se está revelando a cada passo uma origem comum. Postoque cada uma dellas tenha defeitos especiaes, como os há de provincia para provincia, dão-se alguns tão nossos e tão hespanhoes, que de per si, sem outros adminiculos, provam de sobejo essa comunidade de origem. ..."
Alexandre Herculano (1810-1877).

2. "Uma Campanha Alegre", volume I, Outubro de 1871 (excerto):

" A companhia dos caminhos de ferro está abusando um pouco da amizade impaciente que (no seu entender) nós e a Hespanha nutrimos reciprocamente. A cada momento nos facilita entrevistas eternas. Sim, de certo, nós e os hespanhoes meigamente nos amamos! Mas não sentimos a necessidade urgente e ávida de nos precepitarmos, assim, todos os oito dias, nos braços uns dos outros! (...) O paíz não póde em sua honra consentir que os hespanhoes o venham vêr. O paíz está atrasado, embrutecido, remendado, sujo, insipido. O paíz precisa fechar-se por dentro e correr as cortinas. E é uma impertinencia introduzir no meio do nosso total desarranjo, hospedes curiosos, interessados, de luneta sarcástica! ..."
Eça de Queiroz (1845-1900) e Ramalho Ortigão (1836-1915).

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Para situar e marcar uma data


Raul Brandão, em "Os Pescadores", chamou-lhe "horrível" (sem justificar), mas Bulhão Pato e Ramalho Ortigão foram mais amáveis para com a Trafaria. De Junho a Setembro de 1968, para lá caminhei, diariamente, em direcção ao Quartel de Transmissões, excepto aos sábados e domingos. A travessia do Tejo, no "ferry" que vinha e ia para Belém, de manhãzinha e ao crepúsculo, por esse Verão longínquo, era um esplendor. Ficou-me uma impressão agradável desta vila piscatória que me parecia, na altura, uma aldeia do Norte.
Fizeram-lhe, entretanto, um passeio marginal a acompanhar o Tejo - ficou mais bonita, a Trafaria. Além disso, na "Velha Casa Marítima" come-se a melhor "mousse" de chocolate da zona Sul, tirante a que HMJ faz, às vezes, cá em casa. Por isso, tenho quase a certeza que o jantar nos irá agradar.