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terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Da pintura e da paisagem



Quando a bátega forte, mas breve, se abateu sobre nós, já tínhamos passado pelo lago, por onde circulavam, livres, patos e garnisés de cores vibrantes, em volta. Também ladeamos o insólito, mas digno  busto do Inca Garcilaso de la Vega (1539-1616) que lá está, à sombra das árvores, e que eu descobri, um dia, surpreso, aqui há mais de dez anos, quando passeava no Campo Mártires da Pátria. Mas eu não fora ao Largo para rever esse dotado renascentista de dois mundos e de linhagens nobres, em estátua...




Fôramos simplesmente ver a exposição de Pedro Chorão (1945) na Galeria Monumental.
E, ao contrário do que li sobre a mostra, há um novo caminho embora em sequência da penúltima exposição, mas em ruptura com a anterior e última exibida na Sá da Costa, recentemente.
Evocarei desta, hoje, os azúis, não tanto clarinhos ou quase translúcidos dos anos 80/90, mas uns azúis densos e fortes de agora que, aliados aos rosas, pareciam procurar agarrar a alegria.
Depois há a competência da idade, na pintura. Falamos por exemplo de Matisse ou Picasso. Saber que não acompanha os poetas, normalmente. Seres muito mais breves no seu exercício...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Estatuária e jardim suspenso - itinerário pedestre


Quem vier da Almirante Reis e virar para a rua do Paço da Raínha, ainda tranquila à hora do almoço, encontra, à direita, junto da Academia Militar, um busto rendilhado da que foi a única portuguesa raínha de Inglaterra - Catarina de Bragança (1638-1705), mulher de Carlos II. Não deu herdeiros ao Rei, mas deixou um legado composto de geleia de laranja e chá à paupérrima e cinzenta gastronomia da Grã-Bretanha. Convenhamos que não foi coisa pouca.
Se continuarmos a avançar, já no Campo dos Mártires da Pátria (Campo de Santana), deparamos - e eu nunca me tinha apercebido - com o busto de El Inca Garcilaso de la Vega (1539-1616), obra do escultor peruano Miguel Baca Rossi (1917), que foi oferecido à cidade de Lisboa, pelo Peru, em 1984. El Inca foi um homem de duas culturas muito distintas. Criado, até aos 10 anos, na corte Inca, porque filho da princesa Isabel Palla Occlo, veio aos 21 anos para a corte espanhola, uma vez que era filho, também, de um nobre espanhol. Aí escreveu "Los comentarios reales...", cuja primeira edição foi impressa em Lisboa, obra singular de um renascentista desenraízado e dividido.
Continuemos. Há um pequeno lago, na Praça: há girinos, pequenos patos, garnisés lutando, entre si, por uma minhoca, há um gigantesco pombo castanho-róseo passeando a sua soberba; há velhos dando miolo de pão às pombas. Mas se seguirmos em direcção ao elevador do Lavra, pouco antes, podemos descer preguiçosamente até ao chamado jardim (suspenso) do Torel. Infelizmente, tem muito mais betão que verde vegetal...é uma pena. Mas, mesmo assim, dos vários patamares podemos alcançar horizontes únicos, no meio do casario. Para trás o que parecem sumptuosas "villas" italianas; em frente, a linda mancha verde, ao longe, do Jardim Botânico que, na Rua da Escola Politécnica, se esconde atrás da antiga Faculdade de Ciências.
Há uma esplanada quieta, silente, convidativa. Uma caipirinha ou um "mojito" são sempre bem vindos na canícula, ao princípio da tarde. Quando acabarmos, mesmo que as palavras apeteçam demorar-se, é só descer mais alguns patamares deste jardim suspenso. Até à Rua das Pretas, para regressar, de novo, ao ruído e à civilização...

P. S.: para ms, com afecto.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Um homem dividido



A literatura espanhola conta com dois escritores de nome Garcilaso de la Vega. Um, poeta e o outro historiador. Aquele de que quero falar, para o distinguirem do poeta, chamam-lhe "El Inca Garcilaso de la Vega". Nasceu no Peru, em Cuzco, a 12 de Abril de 1539, filho do capitão espanhol D. García Lasso de la Vega e da princesa inca Isabel Palla Chimpu Occlo, filha do chefe Huallpa Tupac. Garcilaso viveu com a mãe até aos 10 anos e é dessas memórias e conhecimentos que irá falar na sua obra-prima intitulada "Comentarios Reales de los Incas", publicado pela primeira vez em Lisboa, em 1609. Garcilaso viera para a Europa aos 21 anos de idade. Estudou, combateu, escreveu e traduziu os "Diálogos de Amor" de Leão Hebreu. Dominava o latim, o italiano, o espanhol e o quechua. Homem da renascença espanhola, como militar serviu sob as ordens de D. João de Áustria, mas acabou por se retirar para um mosteiro, desiludido. Dividido entre duas culturas, dizia nos "Comentarios Reales...": "...Naquele tempo tive notícia de tudo aquilo que temos vindo a escrever porque, na minha meninice, me contavam as suas histórias (dos Incas, reis do Peru) como se contam as fábulas às crianças pequenas. ..."
P. S. : em complemento, para H. N..