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terça-feira, 8 de novembro de 2022

Recuperado de um moleskine (41)


O passado é um tempo em que tudo parece estar no seu lugar. Arrumado na sua razão e pela sua utilidade. Penso isso, ao contrário do que escreveu o romancista inglês L. P. Hartley (1895-1972) no início da sua obra "The Go-Between" (1953): The past is a foreign country; they do things differently there.
Apercebi-me que o Fanca perdera a compostura e a segurança habituais, quando teve a informação. Perguntou-me, quando soube que eu me aboletara 3 dias por lá, titubeante, em voz baixa: e trataram-te bem? Para o sossegar, eu disse-lhe que sim, mas omiti o muito visível alzheimer do visconde, seu tio avô, que nos apareceu em pijama e robe, ao cimo das escadas de pedra exteriores do palacete, quando chegámos, e o descuido visível da senhora viscondessa com o lixo e pó interior das dependências. O turismo local da casa apalaçada deixava muito a desejar. A começar pelas torneiras, gotejantes ou perras...
A natureza, naturalmente, cuidara dos jardins, com alguma visível assimetria selvagem, mas acabei por me esquecer de referir, ao Francisco José, o aviário pequeno do jardim da frente, bem como as rolinhas diamante que me tinham enternecido, para sempre. O que, em parte, tudo desculpou das atribulações passadas...

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Recuperado de um moleskine (36)


O romancista inglês L. P. Hartley (1895-1972) tem, para o seu conhecido romance The Go-Between (1953), um início soberbo: The past is a foreign country; they do things differently there. Ocorre-me uma variante banal, mas para mim verdadeira, que uso, com frequência, intimamente: o passado está quase sempre muito bem arrumado, o presente é que não. Se as gavetas de infância albergam muitas vezes uma parafernália insólita e já inútil, esse conjunto não deixa de fazer um sentido afectuoso, na memória intocada (?). E, se o presente, muitas vezes, precisa do futuro para se reorganizar, é do passado que vem uma paz resolvida e tranquila. Ruas e casas onde se instalaram os jogos felizes, os amigos fiéis, os livros inesquecíveis, os resumos fáceis e concordes, as palavras certas e amorosas de outrora. Que pareciam, agora à distância, estarem certas, harmoniosamente. Ainda que elas possam ser piedosas mentiras da memória já míope ou cansada, por lutas desgastantes e inúteis.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Mercúrios


A frase "The past is a foreign country: they do things differently there" (O passado é um país estranho: fazem lá coisas de modo diferente) é conhecida, e considero-a um dos melhores inícios de romance  inglês, que conheço. A obra em causa, que li no original em 1965, é "The Go-Between" (O Intermediário), escrita por L. P. Hartley (1895-1972), publicada em 1953. O livro foi adaptado ao cinema, em 1970, por Joseph Losey, com script de Harold Pinter, e interpretado por Julie Christie (Marian) e Alan Bates (Ted), nos principais papéis.
O núcleo central do enredo reside nos amores clandestinos e impossíveis de uma jovem de família rica, que está noiva, com o caseiro da quinta, Ted. A jovem (Marian) usa Leo Colston, de 13 anos, para portador de mensagens, em encontros com o caseiro. O tema é também o da perda de inocência de Leo, ao descobrir as razões, e o sequente traumatismo que sofre pelas consequências do seu papel de Mercúrio - tendo sido descobertas as relações do par, Ted acaba por se suicidar. A acção do romance decorre em 1900.
Não sei se hoje ainda se usam mercúrios, ou intermediários, para o estreitamente de relações amorosas mas, no meu tempo de juventude, isso era frequente. Fui Mercúrio, por três vezes, na minha infância/adolescência, mas as relações que medeei não eram pecaminosas, nem tiveram consequências demasiado funestas. E, há que dizê-lo, também utilizei mercúrios, algumas vezes. Sem grandes resultados, aliás...