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terça-feira, 23 de abril de 2019

Salazar e Guterres, em casa de minha Tia


O inconsciente é como um carro sem travões, desgovernado. Anárquico, surreal, inconveniente muitas vezes, liberto de censuras. Se já o nosso filme interior, quando acordados, muitas vezes, nos compromete, que dizer do nosso mundo onírico, frequentemente libertino, despropositado e caótico?
Não é que na noite passada fui sonhar com Salazar e Guterres, tendo por cenário o terraço de uma casa, bem minha conhecida, na Av. Humberto Delgado, em Guimarães? Saudavelmente, a minha Tia tinha-se ausentado dela, talvez por questões de princípio. Ou, quem sabe?, ofendida, com a intrusão...
Entretanto, os dois Primeiros entraram para o interior da mansão, a fim de dar início ao Conselho de Ministros. A que eu, naturalmente, não tive acesso.
E acordei...


sábado, 29 de dezembro de 2018

Para uma cenografia do passado


Invariavelmente, entre 24/12 e 1/1 do ano seguinte, nos meus primeiros vinte e poucos anos de vida, os meus espaços situavam-se num perímetro vimaranense que compreendia não mais de 800 metros quadrados, calcorreados naturalmente entre duas casas familiares. Sem mágoa excessiva ou saudades aflitivas, me lembro delas e das pessoas que, então, as ocupavam.
Mas recordo-me, com gula eterna, de um salpicão de língua de porco, tenríssimo e saboroso, que acompanhava, sempre, o Cozido à Portuguesa, do dia 25, no almoço de Natal. Porque esse, a partir de 1979, nunca mais lhe pus a vista em cima e não mais o consegui provar. A minha tia Ermelinda levou para a cova o segredo e o local onde o comprava, pouco antes do dia de Natal...


quinta-feira, 7 de abril de 2011

Osmose (15)


Há sempre alguns nomes, fixos, na memória, depois de uma longa travessia. Mas são menos os que ainda fazem estremecer o coração. Pode até ser, e apenas, uma desvanecida máscara retalhada pelos sulcos de uma vida. Ou um olhar já sem brilho, muito líquido, mas intenso num último fulgor, quase hipnótico, por momentos. Que desperta do sono e do silêncio, para dizer: "Tenho tanta paixão pelos que ficam!" E depois mergulhar, por 6 dias em delírio, até desaparecer.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Mercearias Finas 24 : com "açúcar e afecto"


A última vez, naquela casa, terá sido em 1968, mas já faltava 1/3 do grupo inicial, à mesa. A data da primeira ceia de Natal perdia-se no tempo. Mas houve sempre pequenos ramos de violeta, na sala de jantar. A Matriarca dava-lhe a direita, na mesa, desde 1954; à esquerda ficava a sobrinha mais antiga, depois da morte dos mais velhos. Primeiro fora a Avó, sempre silenciosa, que se sentava na outra cabeceira, em frente ao Patriarca da família, que era Poveiro. O momento mágico era-lhe devido, quando, em vida, depois dos mexidos, rabanadas, sonhos, depois do Bolo-rei, que tinha favas e podia ter uma libra inglesa, o Patriarca se levantava, ia buscar a maquineta de café e iniciava o ritual em que a água límpida, no balão do fundo aquecido a lamparina, se transformava num líquido escuro, fumegante e aromático, que subia ao balão de vidro superior.
A única coisa que ele não apreciava, totalmente, era o pão de mistura, de brancura imaculada no miolo, para acompanhar o cozido de bacalhau. Com o peixe natalício sempre teria preferido, como hoje prefere, o pão dos pobres: a broa de milho minhota. Mas esse pão grande de mistura fora o seu segundo momento mágico da ceia de Natal. Quando Joaquim Leite, antigo motorista da casa - que era sempre convidado, democraticamente, para a mesa dos "Senhores" - depois de fazer o molho, no prato, com azeite, vinagre, sal e pimenta, e de cortar, em bocadinhos, a cabeça do alho, limpava a faca de prata brilhante a uma fatia de pão de mistura, com requinte deliciado, e comia esse pão com o suco do alho, regaladamente, antes de se atirar ao Cozido.
O vinho fora sempre do Dão, Grão Vasco, tinto, aberto meia-hora antes, para respirar, e a aquecer na sala de jantar, que já estava tépida, com o aquecimento ligado.
Nos últimos anos, bastante depois da morte do Patriarca, ele escapulia-se, logo após o Vinho Fino (Vinho do Porto caseiro), para tomar café na sede dos Bombeiros Voluntários, numa rua estreita e de má fama, que era o único sítio que o servia na cidade, na noite de 24. Onde encontrava, também, os amigos juvenis. Ficavam a falar até às 11 da noite, mais coisa menos coisa, para depois regressar a casa e esperar para seguir para a missa do Galo, na Igreja dos Redentoristas.
Hoje, e dessas Consoadas de Natal, só restam dois sobreviventes. Mas vem-me à memória um aroma, ainda agradável, com sabor de violetas ressequidas e eternas, enquanto eu for vivo.