sexta-feira, 31 de maio de 2019

Os mecanismos de substituição


Admito que não tenha sido por acaso que se convencionou, para hoje, celebrar-se o Dia dos Irmãos que, ontem no jornal Público e em crónica, Guilherme d'Oliveira Martins, afectuosamente, lembrou. Cair a data, no signo dos Gémeos, terá alguma razão de ser. Embora se a crismássemos de Dia da Fraternidade, a opção talvez fosse mais ampla. Até porque há quem não tenha tido irmãos.
A exemplo de Ulisses, o homérico homem dos mil ardis, quem os não tem, pode sempre inventá-los. Ou escolhê-los, que ainda será melhor. Foi o que fiz, desprovido que fui, por sangue, de fraternas presenças. Duas figuras humanas, com o tempo, foram crescendo a meu lado e ganhando o meu afecto crescente e natural, talvez por íntima afinidade e delicada proximidade de sentimentos. Cabe-me, por isso, lembrá-las com ternura. A Fernanda, que irei rever, hoje, e o António, que sempre, memorialmente, me acompanha.

Revivalismo Ligeiro CCXXXII

quinta-feira, 30 de maio de 2019

O ar do tempo


Entre esta famosa edição incunabular da Crónica de Nuremberga (1500), de Schedel, uma das primeiras em língua alemã (a original era em latim) e este Potter da Pedra Filosofal, de J. K. Rowling, vai quase um intervalo de 5 séculos.
Por ironia do tempo e do destino, a base de licitação deste último livro é o dobro (20.000/30.000 libras) do valor estimado do célebre incunábulo alemão (10.000/15.000 libras). 
Assim vão os tempos ligeiros, que correm.
Os dois lotes pertencem ao leilão da Forum Auctions, que decorre hoje, em Londres.

Em tempo:
terminado o leilão, posso informar que Das Buch der Croniken und Geschichten foi retirado de praça. Enquanto a primeira edição (1997) de Harry Potter and the Philosopher's Stone foi arrematada por 28.000 libras.

Alguns sublinhados


O jornal Le Monde, de 24/5/2019, traz uma recensão crítica de Roger-Pol Droit ao recente livro Vulgarité et Modernité, de Bertrand Buffon (1969). O tema da obra é pertinente e já o tenho abordado aqui no Arpose, nomeadamente, num poste sobre um pindérico cartaz de propaganda, do MNAA, ainda há pouco tempo.
Esta tentativa paternalista de alargar ao populacho a cultura, rebaixando-a, em vez de o tentar elevar pedagogicamente pela criação de gosto e sentido crítico, está, infelizmente, na ordem dos nossos dias, promovida por muitos agentes culturais e até mesmo por instituições, que já foram de prestígio...

Evitando tecer considerações subjectivas sobre este tema, limitar-me-ei a citar, traduzindo, alguns sublinhados da recensão acima referida, com a respectiva autoria:

A vulgaridade invadiu o espaço público - Bertrand Buffon.
Uma simplicidade nobre (Madame de Staël), referindo-se às relações entre cidadãos.
O mais provável é portanto que a hipermodernidade persista na hipervulgaridade - Roger-Pol Droit.


os melhores agradecimentos a H. N..

Últimas aquisições (14)


Como o tempo passa e as coisas saem de moda, ou se esquecem!...
Nos meus tempos juvenis de aprendizagem, Benedetto Croce (1866-1962) era uma figura cimeira, sempre citada em questões de teoria literária. Um dos papas e mestres nas lições de Costa Pimpão, em Coimbra. Mas também em Lisboa tinha um lugar imprescindível, nas bibliografias das Letras.
Quanto ao livro sobre Florença, de Piero Bargellini (1897-1980), que adquiri por abrir, recentemente, sei que estive várias vezes para o comprar, mas não me lembro por que razão nunca o fiz.
Arrisco dizer que são dois autores esquecidos e, hoje, talvez pouco procurados.
Assim se explica que tenha dado pelos livros, usados, apenas 7 euros.

Uma Polca de Carl M. von Weber (1786-1826)

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Quem não sabe, ensina...


Alguns conselhos a um jovem "blogger" que se inicie nestas lides:

1. Mesmo que não tenha ideias, evite a profusão babélica de imagens nos postes. Que denunciam, quase sempre, um certo novo-riquismo desarrumado.

2. Tente, sempre que possível, enquadrar os postes num contexto, não se limitando a disparar um tema, frase ou motivo, sem mais.

3. Se incluir música, no blogue, evite vídeos com duração superior a 5 minutos - raramente serão ouvidos por inteiro.

4. Evite excessivas transcrições em línguas estrangeiras. Não se esqueça que nem todos os visitantes são poliglotas. Além disso, se percebe o que cita, porque é que não traduz?

5. Procure fugir de derrames líricos. Dos "eus" e dos "inhos".  De dogmatismos e superlativos. Exclua os verbos "adorar" e "amar", que têm, ou deviam ter, funções mais nobres.


P. S. : em jeito de auto-crítica, apraz-me citar um provérbio: Bem prega Frei Tomás, façamos o que  ele diz e não o que ele faz.

Memória de um Pintor (quase) desconhecido


Uso pela segunda vez como título, deste texto (a primeira vez foi num jornal), palavras de Mário Dionísio (1916-1993) que, sugestivamente, ele usou para dar nome a um livro de poemas que publicou em 1965.
Plagiando-o, faço-o para expressar os trabalhos baldados a que me entreguei para tentar descobrir elementos biográficos do pintor, de origem húngara, Attila Mendley Vetyemy (1911-1964?), que se terá radicado em Portugal, no início dos anos 30 do século passado.
Não sei se teria ascendência judaica, o que explicaria talvez a sua migração. Sei que teria tido o favor do regime estadonovista, que lhe permitiu expor numa colectiva da Sociedade Nacional das Belas Artes, em 1936, mostra que contou, na inauguração, com a presença do ministro das Comunicações. 
Também ilustrou com xilografias alusivas, um livro de Silva Tavares, publicado pela A. G. U.. Pintor de paisagens e naturezas mortas, Vetyemy terá calcorreado Portugal e produziu prolificamente. As suas telas, que nunca vão muito caras, aparecem, por vezes, em leilões.
Tem muitos quadros sobre Lisboa, particularmente de Alfama, do Porto, Leiria e Guimarães.
É desta última cidade que, por razões objectivas, reproduzo uma pequena tela do Largo da Colegiada, ou de N. Senhora da Oliveira. De que gosto, especialmente.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Interlúdio 68


Um sol maior, cumulativo, em trânsito
para o fá sustenido de ternura
que não ama ninguém, senão o acto
de ir subindo, mental, pela fecunda
solidão do espírito, do vasto
horizonte espacial da escuta.
...
Leio estes versos, de um poema de Echevarría (Via Analítica, pg. 147), na varanda a leste, ao fim da tarde, enquanto o vento se levanta gradual e o giz de um jacto alto desenha um traço tremido e branco no azul imenso.
Silêncio logo após interrompido pelo ladrar desconforme dum cão vadio, reagindo a alguém que julga ter-lhe invadido o seu espaço térreo. Não sei se terá sido a criança estridente que, pouco depois, lança um grito desmesurado.
Salva-me o fim da tarde, em contraponto, o canto harmonioso do melro anónimo escondido na folhagem verde, lá ao fundo.
Há dias, porém, a que nos vamos afeiçoando devagar. Ou porque as horas da manhã correram bem, ou, talvez, porque encontrámos a leitura certa ao fim do dia.
Como um soneto que vai crescendo para o verso final, num desaguar que nos parece perfeito.

Josefa de Óbidos


Segundo noticia o jornal Público, é já no próximo dia 1 de Junho que, em Bona (Alemanha), irá à praça, na casa leiloeira Plückbaum, uma pintura pouco conhecida de Josefa de Óbidos (1630-1684), com uma base de licitação de 25.000 euros (cerca de 0,005%  do orçamento português para a Cultura, em 2019).
Pintada em cobre, a obra tem o tamanho de uma folha A4, está assinada e datada (1667), e representa a Virgem e o Menino, num grupo de 3 mulheres e 2 crianças. A pintura integra ainda um pequeno espaço de natureza morta decorativa, no fundo à direita, com frutos.
Será que, por graça da Cultura, alguém português se fará representar em Bona, no leilão, com alguns cobres disponíveis?
Oxalá.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Revivalismo Ligeiro CCXXXI

Produtos Nacionais 25


Em tempos imemoriais, as modestas pensões nortenhas de província costumavam apresentar, entre outras sobremesas caseiras, o trio combinado de uma fatia de queijo bola (flamengo), e 1 ou 2 ladrilhos de marmelada artesanal, acompanhados de uma banana. Este conúbio guloso, pela minha experiência, prolongava-se até à Beira Litoral. Pelo menos, em Albergaria-a-Velha e Coimbra, ainda os provei. Não destoava, no fundo, de uma sobremesa de Inverno, que era costume das nossas casas. Em palacetes de média e alta burguesia, o popular queijo flamengo era, às vezes, substituído, por Queijo Serra ou Castelões. Consoante as posses. A aromática, saborosa e maneirinha banana da Madeira era, na altura, rara. Mas é hoje a que eu prefiro, nesta sobremesa nacional, de outros tempos.
Foi  a minha sobremesa ao almoço, de hoje.

Divagações 147


É expectável, por cá, que, durante uma semana, jornais, televisões, redes sociais e comentariado se desdobrem em interpretações metafísicas sobre o resultado das Europeias. Num barroquismo balofo e desmesurado que já nos vem, no ADN, desde o século XVII.
Entretanto, o jornal alemão Die Zeit titula, sucinto, qualquer coisa como: "O ataque do quarto das crianças", numa alusão expressiva e divertida à subida percentual surpreendente dos Verdes (Die Grünen) em relação aos "velhos" (ou maduros) partidos germânicos.
Por cá, talvez a mais expressiva subida tenha pertencido ao partido dos animaizinhos, mais do que justificada pelo aumento exponencial e enorme dos dejectos que vamos vendo pelas ruas portuguesas. Mas também pelo crescente espaço que, nas grandes superfícies, vai sendo consagrado às gôndolas dedicadas aos alimentos para animais...

Citações CDIII


Cada um (escritor) escreve apenas metade do livro; a outra metade é com o leitor.

Joseph Conrad (1857-1924), em carta a Cunnninghame Graham (1897).

domingo, 26 de maio de 2019

Eugen Doga (1937)

arte menor (28)


Tempo a contar

Sempre a ferida aberta
algures no corpo
que às vezes sangra,
outra vez, boceja,
mas suspira
ao fazer-se ruga
quando cicatriza.


Sb., 24/5/2019.

Uma fotografia, de vez em quando... (126)


Se, nos primórdios da sua criação e uso, o acto da fotografia era um momento e cerimónia muito especial, quase sempre, e daí a pose circunspecta e a vestimenta a rigor dos retratados, as selfies de hoje não passam da fixação rotineira de banalidades, normalmente sem qualquer interesse, senão para quem as tira. Ou para mostrar aos amigos e próximos, depois das férias terem acabado.
De ascendência irlandesa, Mathew Brady (1822-1896) foi um dos fotógrafos pioneiros norte-americanos. E raras foram as celebridades da altura (Lincoln, Whitman, Custer...) de que este fotógrafo não fixou os traços.



Mathew Brady iniciou a sua actividade profissional em 1849, tendo aberto um estúdio, em Washington. Mas foi a Guerra Civil Americana (1861-1865) que lhe proporcionou a maioria dos motivos para a sua prolífica obra. A manufactura dos negativos levou-lhe grande parte das suas economias. E morreu pobre. Porque, nessa altura, a fotografia era uma arte só acessível a ricos ou a profissionais muito competentes e, simultaneamente, bem sucedidos.


sábado, 25 de maio de 2019

Memória 131 (de uma Colecção)


Os tempos leveiros de espírito que vamos vivendo, talvez ajudem a explicar a inexistência, que eu saiba ou me lembre, actualmente, de uma colecção de ensaística com a qualidade desta da Ática, em imagem, que se prolongou por quase três décadas, em Portugal.
Mas também a Sá da Costa, a Verbo, a Editora Ulisseia tinham as suas colecções de estudos e ensaios que, não sendo propriamente académicos, ajudavam os leitores a pensar e a desenvolver o sentido estético e crítico.


Hoje, as editoras estão mais preocupadas e interessadas em promover obras de auto-ajuda, para uma população cada vez mais carecida de competências e infantilizada, biografias pífias de pivots televisivos para consumo bisbilhoteiro do populacho, ou ficções paupérrimas de publicistas que fazem da sua exposição pública o ganha pão da sua actividade mercenária. O ensaio deixou de estar na agenda da edição e também, talvez, do público leitor.


Dos ensaístas aqui representados, apenas José-Augusto França (1922) sobrevive. Mas é sempre um reencontro enriquecedor revisitar Sena, Mourão-Ferreira e Prado Coelho nas páginas memoráveis destes ensaios da Ática.


sexta-feira, 24 de maio de 2019

Antes da pausa de reflexão eleiçoeira...



Não virá muito a propósito eu dizê-lo, agora e aqui. Mas quero reafirmar que, na minha experiência, são os espanhóis e os franceses aqueles europeus que pior falam e pronunciam línguas estrangeiras.
Assim, e neste caso concreto, Enric Casasses faz o pleno, ao cantar em inglês esta Europe Change Bad, integrado no sempre original e alternativo grupo catalão-francês de Pascal Comelade.
Adiante.
Pois então que todos votemos pelo melhor, no próximo Domingo!

Mercearias Finas 145


Dá gosto ver a Leonor, no Mercado do Monte da Caparica, com a sua faca de eleição, fazer, de uma Pescada fresca, limpos e finos filetes. É um trabalho manual que exige grande perícia, concentração q. b. e alto saber de experiência feito. Desta vez, cumprimentei-a pela arte e vi que ela se sentiu recompensada. Sorriu, a agradecer o meu reconhecimento.
Foi já tarde que comecei a gostar de filetes de pescada. Os do falecido Restaurante Jordão, em Guimarães, eram celebrados. E os do Hotel da Penha, em tempos, também corriam fama pelo Minho. Mas também nalguns restaurantes do Porto os filetes de pescada, para não falar nos de Polvo, no Aleixo, a Campanhã, ganhavam o favor de muitos clientes. De Coimbra, inclusivé, para baixo, não passavam do trivial e comesinho, essas amostras de filetes. Ressalvem-se, no entanto, os de Peixe-galo no restaurante 1º de Maio, ao Bairro Alto.
Cá por casa e com a ajuda prévia da Leonor, a HMJ capricha-os na perfeição e sábio tempero, e dá gosto comê-los. Até volto a Guimarães, por momentos, na imaginação gustativa...
Abri, generoso, um Chardonnay (Jean Giner) legítimo e estreme, gaulês de origem. E tudo esteve à maneira, no almoço da passada Quarta-feira.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Revivalismo Ligeiro CCXXXI

Cá como lá, ontem como hoje


" Dificilmente encontraremos cinco críticos literários na América, e alguns deles estão a dormir."

Herman Melville (1819-1891), em recensão crítica a Mosses from an Old Manse, de N. Hawthorne.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

A cultura do placebo


Tenho vindo a assistir nos últimos anos, e com crescente inquietação, aos esforços e contorcionismos patéticos de muitos agentes culturais, no sentido de tornar acessível e mais apetecível às grandes camadas populares o gosto pela Cultura.
Na maior parte dos casos, isso passa por uma infantilização dos motivos e algumas vezes até por caricaturizar obras de arte que deveriam merecer algum respeito. Em vez dos esforços se concentrarem no desenvolvimento, para todos, do sentido estético e do gosto cultural, esta forma pífia de delicadeza da democracia contribui apenas para o aumento da barbárie - que Steiner refere.
O último anúncio do MNAA, fala por si...

Desabafo (46)


Volta, Dylan, que estás perdoado!
Afinal, quem é Luís de Camões, comparado com Alfred Nobel!?
Apenas um pobre homem luso que nem sequer inventou a dinamite...

Mia Couto no TLS


Eu não poderia deixar de registar o facto.
Creio que é a primeira vez que vejo e leio, no TLS (nº 6058), um texto de colaboração de um escritor de língua portuguesa. Traduzida para inglês por Miranda France, a crónica de Mia Couto (1955) aborda as consequências nefastas para a sua terra natal (Beira, Moçambique) do recente ciclone Idai. Mas faz também referências às suas recordações de infância, aquando da passagem (1962)* do ciclone Claude, pela Beira, que lhe deixaram impressões terríveis e imorredouras.
Só lamento que esta inesperada crónica, originalmente escrita em língua portuguesa, tenha surgido pelas piores razões, no jornal literário britânico.
Numa perspectiva muito secundária, dou-me a pensar que, das ex-colónias portuguesas, é Moçambique (bem como Cabo Verde), proporcionalmente à população, que detém o maior número de artistas e escritores de qualidade e a nível internacional. E desde há muito. O maior novo país, Angola, no passado, só pode responder com Luandino Vieira, praticamente. Embora, hoje em dia, Agualusa e Pepetela possam também ser citados. Não refiro Ondjaki, porque não conheço a sua obra, suficientemente.

* Em tempo (24/5/19):
   no último TLS (nº 6059) e em carta ao director, Eugénio Lisboa (1930) corrige Mia Couto, referindo que o ciclone Claude passou por Moçambique em Janeiro de 1966, e não em 1962.                             

terça-feira, 21 de maio de 2019

Viotti / Perlman

Recepção e correspondência entre confrades


Como Sophia (1919-2004) está na ordem do dia e anda nas bocas do mundo (português), achei oportuno aqui registar, em poste, cópia de uma carta que Herberto Helder (1930-2015) lhe mandou de Santarém (a 5 de Junho de 1962), acusando a recepção do Livro Sexto (1962) e referindo o seu gosto pela leitura da obra.
Quanto ao meu exemplar, que é da 3ª edição (1966), lembro-me bem do prazer que tive a lê-lo, com destaque especial para os poemas A Conquista de Cacela, O Velho Abutre e As Pessoas Sensíveis. Creio que terá sido, na obra de Sophia Andresen, o seu livro talvez ostensivamente mais interventivo, do ponto de vista político, que publicou.


segunda-feira, 20 de maio de 2019

Disposições para a eternidade


São quase sempre saudadas, de forma efusiva pelo público leitor, as obras póstumas dos grandes escritores. Em Portugal, mas também lá fora, nem sempre esses livros acrescentam mais valia ao que já fora publicado. Antes pelo contrário, muitas vezes. Isso deve-se, com frequência, a interesses comerciais das editoras e pecuniários, da parte dos descendentes e/ou respectivas famílias desses artistas. O sentido crítico ou o respeito pelo escritor raras vezes é tido em conta.
Em 1938, T. S. Eliot (1888-1965) prevenindo o futuro literário da sua obra e memória, escreveu ao seu amigo John Hayward (1905-1965), que escolhera para executor testamentário, uma carta sobre as suas vontades, e de que, em tradução livre, vamos dar um pequeno, mas significativo excerto. Que segue:

"Os trabalhos da profissão podem ser, por vezes, demasiado comuns e negativos.
Eu tive que escrever, uma vez por outra, textos banais em jornais, que, em grande parte e por aquela razão, nunca mais foram reeditados. O meu amigo deve tomar em consideração que, se esses artigos não foram publicados em livros meus posteriores, é porque não merecem voltar à luz do dia, depois da minha morte. A Faber & Faber pode ser tentada a reeditá-los, ora a sua obrigação deverá ser evitá-lo. E eu não desejo qualquer biografia escrita sobre mim, nem correspondência minha em livros póstumos, sobretudo a anterior a 1933, ou quaisquer cartas íntimas que eu tenha dirigido a alguém.
De facto, eu tenho uma grande preocupação com a privacidade póstuma. Portanto, e mais uma vez, o seu trabalho será desencorajar qualquer tentativa para publicarem livros sobre mim e suprimir tudo aquilo que seja de suprimir.
E deixarei, por isso, instruções nesse sentido, no meu testamento."


Nota pessoal : vale a pena acrescentar que as vontades pessoais de T. S. Eliot não foram acatadas. Para isso também ajudou o facto do seu amigo, John Hayward, ter falecido no mesmo ano do escritor, embora alguns meses depois. Mas a própria viúva, Valerie, segunda mulher de Eliot, pouco depois da sua morte, começou logo a organizar a correspondência existente, com vista à publicação...

domingo, 19 de maio de 2019

Algaravias (9)


No seguimento da temática, damos hoje sequência a palavras começadas por n, o e p, que foram seleccionadas do livro Dicionário do falar Algarvio, de Eduardo Brazão Gonçalves. Assim:

1. Negregado - pessoa muito brincalhona.
2. Nhoifa - medo; cagufa; cagoifa.
3. Nuvresia - grande quantidade, sobretudo de aves, como que formando uma nuvem.
4. Ondespôjinho - há muito pouco tempo; há poucochinho; agora mesmo.
5. Òvado - diz-se do peixe e do marisco que tem ovas, ou de qualquer coisa que está repleta.
6. Pagela - montinho de peixe.
7. Pailão - homem mole, pouco activo; paspalhão; imbecil.
8. Panga - indivíduo amaricado; mulherengo.
9. Papas moiras - papas de milho feitas em água em que se dá uma leve cozedura aos chouriços de sangue.
10. Pelgona - mulher obesa, ociosa e que nem sempre guarda rigor à castidade.
11. Pote barrilote - homem gordo e baixo.

Lully, para engrinaldar o Domingo...

sábado, 18 de maio de 2019

Bibliofilia 175


Gosto de ler biografias, sobretudo de figuras que me despertam alguma curiosidade pela riqueza humana das suas vidas. Ou pela sua importância no curso da História.
A recente saída de uma biografia de Sophia Andresen deu motivo a alguns artigos e uma ligeira polémica. Também se falou de que, em Portugal, há poucos livros de memórias e biografias sobre figuras ilustres. Sobre poetas, seria bom lembrar que não nos podemos inteiramente queixar. Gomes de Amorim, por exemplo, dedicou alguns anos da sua vida para depois vir a publicar Garrett : Memórias Biográficas; Júlio Castilho fez editar 7 volumes sobre a vida de seu pai - Memórias de Castilho (1926) e Vitorino Nemésio tem um bom ensaio biográfico sobre Alexandre Herculano, por exemplo.


Não temos, é certo, nenhum escritor-biógrafo com a qualidade literária e histórica do inglês Lytton Strachey (1880-1932), mas vamos remediando bem com o que temos.
Andei a namorar, aqui há tempos e no meu alfarrabista de referência, uma biografia de Metternich (1773-1859), diplomata e homem de estado austríaco que, quanto a mim, é, com o francês Talleyrand (este mais camaleónico na flexibilidade ideológica), um dos grandes artífices, no século XIX, da moderna Europa.
O livro, elegante na sua encadernação bonita, embora cansada, custou-me 20 euros, na semana passada. Lido apenas o prefácio, nada posso dizer, para já, sobre o seu conteúdo. Nem sobre Algernon Cecil (1879-1853) que o escreveu. Mas ainda estou satisfeito por o ter comprado.

Retratos (23)


Desta vez, o retrato é dúplice, porque os Mascarenhas eram gémeos. Foram meus colegas de proximidade e carteira, no 1º e 2º anos do liceu. Vinham de fora, de uma pequena vila na proximidade da cidade. Vestiam de igual, um pouco à campesina nos tecidos grosseiros, mas sempre de fato e gravata, excepto no Verão. E cercavam-me na numeração escolar, a mim, que era o nº 2. Antecedia-me o Abel Artur, e o Artur Abel detinha o número 3. Eram ambos muito bons alunos, mas o Artur levava a palma ao Abel em quase todas as disciplinas.
A partir do primeiro mês de camaradagem, na turma C, nunca mais tive dificuldade em os distinguir, embora grande parte dos colegas liceais os confundissem, com frequência. Em traços, natureza e feitio, era possível identificar cada um deles. Mas até os próprios professores, às vezes, lhes trocavam os nomes, para gaúdio e galhofa discretos de alguns de nós. Que me lembre, só o dr. Carvalho (de Francês) e a Dra. Maria Estrela, professora de Matemática, atinavam sempre com os seus nomes correctos, para nossa admiração.
Analisando, hoje, a questão de eu os distinguir bem, chego à conclusão que o Artur era mais masculino de aspecto e mais agressivo no trato. O Abel mais compassivo e feminino, pelo rosto glabro mais suave das expressões e pela voz.
Lembrei-me deles, recentemente, ao ver na televisão as duas gémeas Mortágua - a Joana e a Mariana, ambas deputadas do BE.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Idiotismos 45


Ora, hoje, que se anunciam para o almoço jaquinzinhos, pus-me a pensar se a alcunha se deve a algum Joaquim com que fossem parecidos esses carapauzinhos pequenos, a exemplo dos Oscares de Hollywood, que assim foram crismados por a bibliotecária da Academia, Margaret Herrick (1902-1976), ter achado a estatueta do prémio, em 1931, muito parecida com o seu Tio Oscar. A história correu mundo e assim lhes ficou o nome.



Petinga fia mais fino. Que é sardinha miúda, sabem-no todos, mas donde lhe virá o nome?
Diz Houaiss, referindo Nascentes, que provirá do tupi (pe'tinga), com significado de pele branca.  Morais já antes o tinha referido, acrescentando que, no Brasil, a esse peixinho pequeno lhe chamavam: petitinga. E mais não disse o estudioso da língua portuguesa.
Por isso, nós, simples ignorantes, teremos de nos ficar por aqui.

Citações CDII


Melhores meios e o aumento do tempo de lazer são dois factores de civilização do ser humano.

Benjamin Disraeli (1804-1881).

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Buena Vista Social Club - Candela

Adagiário CCXCVI



Vodka é o inimigo, por isso dêmos cabo dele.

(Provérbio russo)


Nota extensa, complementar e explicativa:
sempre que posso, anexo aos postes uma imagem relacionada, que a eles se associe. Este caso concreto, hoje, carece de uma explicação complementar. A foto é do restaurante Nazdarovie (interior e esplanada), situado no último andar de um prédio, localizado no Malecón, ou Avenida de Maceo, que bordeja a bela marginal de Havana. O Nazdarovie (que, em russo, significa "À saúde!", ao fazer um brinde) é o mais antigo e primeiro  restaurante russo-cubano de Havana. E a sua ementa é encimada pelo provérbio russo, deste poste.
Quod erat demonstrandum.

P. S. : sugiro que cliquem sobre a imagem, para terem uma visão mais ampla do restaurante e da vista da esplanada, sobre o mar.

Mais uma listagem


A escolha é ampla e abrangente, embora o título quase pareça dramático. A tradução do livro (960 páginas) não me pareceu das melhores e a revisão é descuidada. As ilustrações são de qualidade notória. A selecção é inclusiva e contempla até livros policiais, com apenas um senão, para mim:  o nome de Simenon não consta.
De livros portugueses, há 34 entradas que vão de Os Lusíadas, de Camões, até Lídia Jorge (O Vale da Paixão), passando por Camilo, Aquilino, Torga, Agustina, Mário de Carvalho. O autor mais representado é Lobo Antunes, com 5 obras. Seguem-se Saramago (4) e Eça, com 3 livros. Do conjunto nacional, 9 nunca os li.
Podia ser pior. No meio de tantas sumidades, haver cerca de 3,5% de autores portugueses, só prova a liberal generosidade do professor Peter Boxall (1969), da universidade de Sussex (Inglaterra)...

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Ideias fixas 51


Estas imagens, que me saltaram à vista, numa publicação periódica, deixaram-me positivamente indiferente, mas admito que possa haver quem se entusiasme com elas. Creio que há uma altura para tudo, até há um tempo para crescer de forma arrumada, na minha perspectiva. Em anos tenros, empanturrei-me de BD e Super-heróis, quero eu dizer: tive uma infância feliz...
Mais tarde, por dever e com humildade, reciclei-me acompanhando o amadurecer dos meus filhos, nestas leituras juvenis e filmes, até eles ganharem, com a idade, interesses outros mais maduros, como a mim já me tinha acontecido. Fiz essa camaradagem, com o sentido de missão humana e sem grande sacrifício pessoal. Mas, a partir daí, o copo transbordou, para sempre...
Já tenho a minha conta.

Heinrich Biber (1644-1704) : uma das "Sonatas Mistério"

terça-feira, 14 de maio de 2019

A evolução dos géneros


A actriz inglesa Glenda Jackson (1936), em entrevista ao Daily Mail (24/11/1978):



Um actor pode ir do Hamlet e chegar até Lear, homens, através do seu desenvolvimento espiritual. Será que há a possibilidade de um percurso semelhante numa mulher? Não me consigo imaginar a fazer de Ama, em Romeo and Juliet. A vida é demasiado curta.


Desabafo (45)


Há um momento em que, talvez ajudados pela idade, descobrimos que as elites (políticas, culturais, financeiras...) nacionais actuais, e não só cá, oscilam, maioritariamente, por entre a mediocridade, o lixo e um bando de ladrões, associadas entre si.
É por isso que, sempre que posso, evito citar nomes desta ralé ética e procuro não remexer no lixo.

Curiosidades 74


De Victor Hugo (1802-1885), quem se interessa por literatura, sobretudo francesa, saberá decerto o essencial. Se o escritor foi sucinto e simples no título de uma das suas obras mais conhecidas (Notre-Dame), nas traduções é rara a língua em que não lhe acrescentaram um apêndice espúrio, denominando-a "O Corcunda de Notre-Dame". Assim aconteceu, e acontece, na versão inglesa, por exemplo, e nas traduções em português. Talvez por pensarem as editoras que a obra seria assim mais apelativa para o potencial leitor estrangeiro.
O romance foi publicado em França, no ano de 1831. Victor Hugo - talvez nem toda a gente o saiba -, ocasionalmente, pintava. É desse mesmo ano (1831), um desenho-pintura a carvão de Notre-Dame. Se o fez antes ou depois de escrever o referido romance, é que eu, com rigor, não o posso dizer. Mas inclino-me para a primeira hipótese, no sentido de ter um apoio inspirador e concreto para essa obra.


segunda-feira, 13 de maio de 2019

1 haikai, traduzido, de Kobayashi Issa (1763-1827)


Exigindo que eu tome
e lhe traga essa lua do céu,
minha filha não pára de chorar.


com envoi e agradecimentos a H. N..

Há 80 anos, em Berlim...

domingo, 12 de maio de 2019

Um CD por mês (1)


Foi através da audição deste CD, da Chandos, que eu comecei a apreciar a obra de Franz Liszt (1811-1886) e vim a considerá-lo como um dos meus compositores preferidos. O intérprete é o pianista franco-canadiano Louis Lortie, nascido no Quebec a 27 de Abril de 1959, cujo repertório abarca, para além do compositor húngaro, obras de Chopin, Mozart e Beethoven, maioritariamente. O CD comprei-o na Livraria Bucholz, em 1992, tendo sido editado no ano anterior, pela Chandos Records Ltd.
As composições deste CD incluem apenas o 2º Ano dos Années de Pèlerinage (Itália), de Liszt. Inspiradas em viagens que ele fez, na companhia da sua amante, a condessa Marie d'Agoult (1805-1876), escritora de origem francesa. Transposições culturais de impressões provocadas por um quadro de Rafael (Sposalizio), de Milão, uma escultura de Miguel Ângelo (Il Penserozo) e leituras de Petrarca, Salvator Rosa e de Dante, que Liszt foi fazendo, durante a sua viagem por terras de Itália.


Da riqueza e dificuldades da língua portuguesa (2)


Terminei com prazer, gosto de leitura e o sentimento do dever cumprido os três últimos contos de Noite de Fogo, de João Araújo Correia (1899-1985). Ao lado, ia apontando as palavras que não conhecia. E a colheita deu quatro vocábulos, para depois os ir ver ao dicionário. Eram eles:
1. Escalhar
2. Leicenço
3. Cardenho
4. Barbisco.
Só encontrei o significado de duas das palavras, nos dicionários cá de casa. Leicenço, que é um furúnculo, e Cardenho, com o significado de: pequena casa térrea onde dormem os jornaleiros. Conjecturei que Escalhar, pelo sentido, poderia ser cozer (uma bebedeira). Finalmente, Barbisco, pela sequência no texto, deveria ser um peixe de rio, talvez da família do barbo.
Se não cheguei lá, em absoluto, devo ter andado perto. Que não se diga  que escritores como Araújo Correia são difíceis de ler e dão muito trabalho. É sempre compensador descobrir uma palavra nova da nossa língua portuguesa, e que não conhecíamos. Mais ainda, quando rigorosamente aplicada.

P. S.: pergunto-me muitas vezes, assim como se pergunta decerto quem tem biblioteca em casa, quantos livros terei nas estantes. Mas só hoje me perguntei, inopinadamente, quantas palavras portuguesas conheço ou uso, no meu quotidiano. Se dos livros posso ter uma vaga ideia, quanto ao meu léxico pessoal, não faço a menor ideia. E não ouso sequer arriscar um número.
Especialistas norte-americanos estimam que o adolescente médio, no seu país, actualmente, utiliza um paupérrimo léxico de 50 palavras, fora os grunhos. Estudiosos franceses da obra de Simenon referem que o escritor belga, nos seus livros, não excedia a utilização de 2.000 palavras.
Na média, é que está a virtude - diz o povo. Por isso, é provável que eu ande ou andemos por aí... 

sábado, 11 de maio de 2019

Uma fotografia, de vez em quando... (125)



Dora Philippina Kallmus (1881-1963), que usou o nome artístico de Madame d'Ora, foi uma pioneira como fotógrafa de moda. Judia austríaca, converteu-se ao catolicismo em 1919. Em 1907, depois de estudos profissionais, abriu o seu estúdio em Viena, vindo mais tarde, com a ascensão do nazismo, a mudar-se para Paris.



Em França retratou Foujita, Coco Chanel, Chevalier. Mas também Greta Garbo e Colette, esta última escritora num instantâneo surpreendente que acabou por se tornar emblemático e sua imagem de marca.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

De um Abril português, à SNI...



Para MR, em geminação indirecta, com os seus Os Meus Franceses.

Gurus


Trouxe ontem, quase em jeito de bónus quanto a preço, do meu alfarrabista de referência, juntamente com Ulisses, de Joyce, um número duplo (69/70) de O tempo e o modo dedicado a António Sérgio (1883-1969), com ampla colaboração de destacados intelectuais portugueses da altura (Março/Abril de 1969). O número é o primeiro dirigido por Bénard da Costa, que sucedeu a António Alçada Baptista, e reflecte já algumas vozes dissonantes (Arnaldo de Matos, por exemplo), no conteúdo, que, com o tempo, viriam a provocar uma deriva ideológica e resultar, mais tarde, na desaparição, pura e simples, desta revista, que foi de referência na vida intelectual portuguesa.
A minha geração, no geral creio, foi já pouco influenciada pelo método de pensar de António Sérgio, que foi decisivo para as duas gerações anteriores. Lembro-me bem que Mário Castrim, sempre que pronunciava o nome do ensaísta, o fazia com excessivo respeito e reverência. Mas eu li poucos livros do pensador português. Este número, que comprei, de O tempo e modo, reflecte à saciedade a diversidade ideológica dos seguidores deste maître à penser português. Do sucinto depoimento de Jorge de Sena, ao embrulhado artigo de Vasco Pulido Valente, há de tudo, quanto a qualidade. Do barroquismo erudito de Joel Serrão até à meridiana clareza do texto de Oliveira Marques.
Deste último colho o conselho, e hei-de ler, sem falta, a Introdução Geográfica à História de Portugal, que o historiador recomenda, elogiosamente.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Ultimas aquisições (13)


Aqui há cerca de 40 anos atrás, tive por casa Joyce, de empréstimo. Quero eu dizer, a versão brasileira (1966) de Antônio Houaiss, do Ulysses (1922), de James Joyce (1882-1941).
Ou por curiosidade minha ou pelo entusiasmo do meu falecido e saudoso amigo J. J C. G., o livro veio parar às minhas mãos e a casa, onde permaneceu durante pouco mais de seis meses.
Não sei se foi pelos tempos serem controversos, se pela minha falta de disposição para devassar a complexidade da obra, creio que não ultrapassei as primeiras 50 páginas de leitura.
Resolvi assim devolver o livro ao meu Amigo, confessando-lhe a minha incapacidade de leitor. Mas ficou-me a pedra no sapato, até hoje, em que comprei, por 18 euros, um exemplar no alfarrabista.
Vamos a ver, se agora vai...

Citações CDI


Nada melhor que o Reader's Digest para despertar o optimismo e os bons sentimentos.

Ernesto Sábato (1911-2011), in Alejandra (1961).

Pinacoteca Pessoal 150


A poeta e crítica britânica Hilary Davies (1954) escreveu, a propósito de uma exposição retrospectiva de Dorothea Tanning (1910-2012), na Tate Modern, que era impossível ficar indiferente à obra-prima Ilha dos Mortos (1886), do pintor suiço Arnold Böcklin (1827-1901), desde que o observador tivesse sensibilidade e consciência estética. O pintor teria influenciado a pintora, pelo menos, na sua vocação de se dedicar à pintura.

O quadro, referido acima, de Böcklin foi inspirado no cemitério inglês de Florença, onde estava sepultada a sua filha Maria, e que ficava nas proximidades do seu estúdio, na cidade italiana. O tema da morte é recorrente na obra do pintor suiço e está reflectido, de forma impressiva e flagrante, até no seu auto-retrato, de 1872, que o artista intitulou: Auto-retrato com a Morte tocando violino.

Considerado um simbolista, Arnold Böcklin aproximou-se dos românticos na fase final da vida, mantendo-se fiel, no entanto, à sua especialidade de paisagista e ao seu gosto por temas mitológicos.