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sexta-feira, 31 de maio de 2019

Os mecanismos de substituição


Admito que não tenha sido por acaso que se convencionou, para hoje, celebrar-se o Dia dos Irmãos que, ontem no jornal Público e em crónica, Guilherme d'Oliveira Martins, afectuosamente, lembrou. Cair a data, no signo dos Gémeos, terá alguma razão de ser. Embora se a crismássemos de Dia da Fraternidade, a opção talvez fosse mais ampla. Até porque há quem não tenha tido irmãos.
A exemplo de Ulisses, o homérico homem dos mil ardis, quem os não tem, pode sempre inventá-los. Ou escolhê-los, que ainda será melhor. Foi o que fiz, desprovido que fui, por sangue, de fraternas presenças. Duas figuras humanas, com o tempo, foram crescendo a meu lado e ganhando o meu afecto crescente e natural, talvez por íntima afinidade e delicada proximidade de sentimentos. Cabe-me, por isso, lembrá-las com ternura. A Fernanda, que irei rever, hoje, e o António, que sempre, memorialmente, me acompanha.

domingo, 14 de outubro de 2012

Clássicos, qualidades e o homem comum



Diz-me quem conhece a língua, ou acordámos o facto entre nós, que o título da obra-prima do austríaco Robert Musil (1880-1942), em alemão "Der Man ohne Eigenschaften", terá sido mal traduzido para português, através de "O homem sem qualidades" (da Livros do Brasil, versão de Mário Braga). Seria mais correcto intitular-se O Homem banal, ou seja, aquele que não se distingue dos outros, que passa despercebido. Uma espécie de homem comum ou anti-herói que é, no fundo, o tema da obra de Musil.
Quanto aos heróis clássicos a questão é mais complexa. Creio, por exemplo, que toda a gente concordará no facto de Ulisses ("A Odisseia", de Homero) ser o mais popular dos heróis gregos clássicos. Ultrapassando em larga medida Ájax ou Aquiles que, apesar de tudo, têm um comportamento mais cavalheiresco. Talvez porque Ulisses fosse o homem dos mil artifícios, mais industrioso a resolver os problemas mais complicados (Polífemo, o canto das Sereias, Calipso, os pretendentes de Penélope...), através de soluções improvisadas, mas argutas. Muito de homem comum, em relação aos aristocráticos Ájax e Aquiles, que também tinham qualidades.

sábado, 31 de julho de 2010

Quem quer viver para sempre?

Quem quererá viver para sempre? A sabedoria antiga, pelo testemunho de Homero, diz-nos que Ulisses declinou essa possibilidade, que lhe foi oferecida. Cuidados paliativos?, vida artificial?, se formos meros vegetais sem viço? - não, obrigado! Como dizia Pessoa, somos apenas "cadáveres adiados que procriam", é útil lembrá-lo. Não embarcar com os políticos que dizem que temos melhor qualidade de vida, por durarmos mais tempo. São falácias onde entram cadeiras de rodas e camas articuladas, onde um ser humano já só tem o silêncio por companhia. Há que viver o minuto seguinte e o dia de amanhã com toda a intensidade de que formos capazes. O resto é usura estúpida, poupança inútil, pensamento fraco. O resto, em resumo, é silêncio.