Os instantâneos pertencem a um portefólio singular que atesta a relação amistosa e recíproca de Hitchcock/Truffaut. As fotos são dos anos 60 do século passado e foram tiradas por Philippe Halsman, fotógrafo membro da Agência Magnum.
Se há escritores que não perdem, após a morte, a sua popularidade e cujas obras se vão continuando a imprimir e vender, como os livros de Simenon, por exemplo, outros há em que a crítica começa logo a questionar a qualidade da sua ficção, a seguir ao falecimento do autor, como foi o caso de John Updike. Ou mesmo em vida, como parece estar a acontecer, agora, com a avaliação que se tem feito das últimas obras de J. M. Coetzee.
Na Inglaterra, a perda de interesse pela obra de Françoise Sagan (1935-2004) tem sido progressiva (o TLS regista-a) e raros, dos seus livros, têm sido reeditados, encontrando-se esgotados na sua maioria, talvez porque esse clima fluído e leve da ficção da escritora francesa, que lembra a atmosfera cinematográfica de um Rohmer ou de um Truffaut dos anos 60/70 ( certeiro, oTLS dixit), se tenha perdido para sempre, nos dias de hoje.
Sobre a superfície rugosa do puro papel japonês, há um laço incompleto e um pássaro discreto.
A imagem fixou Truffaut e o seu alter ego Léaud, sob um céu outoniço e parisiense.
Tanto basta para criar uma atmosfera, sinalizar uma intenção, esboçar uma forma de estar.
De Losey, Eva, realizado por Truffaut, Jules et Jim, ou La Notte, em que foi dirigida por Antonioni, bastariam para a inscrever, indelevelmente, na história do cinema. Acrescem aqueles lábios estranhos, dissonantes, a lembrar a sofreguidão dos peixes. Ou de viver...
Jeanne Moreau (1928-2017) deixou de existir.
Com música de Pascal Comelade, lembrêmo-la, nalgumas cenas de La Notte, de Antonioni, em que contracena com Marcello Mastroiani.
O Festival de Cinema de Cannes celebra este ano a sua edição 70. Por isso, L'Obs (nº 2740) dedicou ao acontecimento seis páginas, com depoimentos de vários cineastas que ganharam a Palma de Ouro. Lembra também, a revista francesa, alguns dos realizadores agraciados, como por exemplo: Emir Kusturica (Underground), Quentin Tarantino (Pulp Fiction), Martin Scorcese (Taxi Driver). O cineasta francês Claude Lelouch (1937) foi também premiado com a Palma de Ouro, em 1966, pelo seu filme Un homme et une femme, partilhando o galardão com o italiano Pietro Germi (1914-1974).
O realizador francês, no seu depoimento a L'Obs, refere que François Truffaut o felicitou efusivamente, na altura, dizendo-lhe também: Vous êtes l'enfant de la Nouvelle Vague qui a le mieux grandi, j'aimerais qu'on fasse un numero spécial sur vous dans les "Cahiers du cinema". Mas Lelouch não gostou de se ver perfilhado e retorquiu-lhe: Je suis ravi, mais je ne suis pas un enfant de la Nouvelle Vague. Ao que Truffaut lhe respondeu, algo irritado: Vous avez la grosse tête. Uma semana depois, o crítico Jean-Louis Comolli, em artigo nos Cahiers du Cinema, arrasava o filme de Claude Lelouch, pela negativa...
Em 2012 completam-se 50 anos sobre o lançamento do filme "Jules et Jim", de François Truffaut (1932-1984), cujo argumento se baseava no "ménage à trois" que os pais de Stéphane Hessel (1917) personificaram, na vida real.
O papel feminino foi interpretado por Jeanne Moreau (1928). Le Nouvel Observateur juntou os dois, para dialogarem sobre o filme e os tempos que passam. Eis um breve excerto, em tradução livre:
Jeanne Moreau: "...Agora eu poderia trepar para as barricadas mas infelizmente já ultrapassei a idade de o fazer . Tornei-me revolucionária demasiado tarde. Os escândalos políticos ou financeiros acumulam-se. Fala-se sem cessar em transparência, enquanto tudo é obscuro: abuso de poder, cupidez pelo dinheiro."
Stéphane Hessel: "Nós vivemos num mundo que merece todas as revoltas. Se se considera como uma revoltada, é porque tem razão."
Este pequeno opúsculo, de cerca de 15 páginas, tem como base um discurso proferido a 17 de Maio de 2009, em Glières (local sagrado da Resistência francesa), por Stéphane Hessel (1917). O título "Indignai-vos!" lembra-nos o "direito à indignação" de Mário Soares que, precisamente, fará o prefácio para a edição portuguesa a sair, dentro de poucos dias. Nele Hessel, ancião de 93 anos, e antigo resistente, retoma algumas ideias muito simples, ou causas renovadas: solidariedade, ecologia, direitos do Homem (Hessel foi um dos redactores da Declaração, em 1946). E aponta o conflito israelo-árabe como um dos nós-górdios, problemático, da modernidade.
De ascendência judaica, Stéphane Hessel nasceu em Berlim, filho de Franz Hessel e Helen Grund (casal cujo ménage à trois com Pierre-Henry Roché inspirou o filme "Jules e Jim" de Truffaut), naturalizou-se francês, durante a II G. Guerra, e foi embaixador da França na O. N. U. (1977). "Indignez-vous!", na sua edição original, francesa já vendeu mais de 1.300.000 exemplares e tem provocado polémica. Uns acham o livro excessivamente naïf, outros defendem-no como se fosse o novo Evangelho do futuro e da Humanidade.
Fez, há poucos dias, um ano que faleceu Éric Rohmer (4/4/1920-11/1/2o10), pseudónimo de Jean-Marie Maurice Schérer. O seu pseudónimo foi escolhido, como homenagem a Erich von Stroheim, realizador de cinema, e a Sax Rohmer, escritor policial. Rohmer era católico, e isso é notório nos seus filmes, ou nalguns deles, pelo menos. Foi dos meus realizadores europeus de referência, com Bergman, Risi, Fellini, Truffaut, e tantos outros, numa época (feliz) em que o cinema europeu não era asfixiado pelo americano. Onde a acção trepidante faz esquecer, muitas vezes, a pobreza dos diálogos e de pensamento. Diálogos, aliás, que nos filmes de Éric Rohmer, tinham uma importância nobre e fundamental.
Para quem goste, a RTP2, passa às 22,4ohrs de hoje, respectivamente: "Os Amores de Astrea e de Celadon", seguindo-se "O Joelho de Claire". Bom proveito!, a quem quiser rever.