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terça-feira, 9 de setembro de 2025

Retratos (36)

 

Reconhecem-se à distância. Calçam chanatos de plástico, sem meias, usam calções para mostrar as pernas muito brancas e escanzeladas, usam, normalmente, camisas berrantes com motivos havaianos. E bonés. Param de boca aberta para ouvir músicos vadios de rua, aplaudindo freneticamente, no fim das canções, mas raramente dão esmola a estes ambulantes. Fotografam de fio a pavio, babosamente tudo, desde o poeta Chiado ao Pessoa, de Lagoa Henriques, sem saber quem são, ou da montra da Hermés a um lulu da Pomerânia que se lhes atravessa no caminho. Se forem espanholas (castelhanas) falam muito alto.
São os turistas de terceira categoria, chungas, que nos aparecem por Lisboa e província, aos magotes.

sábado, 4 de maio de 2019

Contorcionismos


Em tempos de canícula, tenho por costume, às vezes, depois de subir a rua do Alecrim, virando para o Chiado, fazer um pausa e entrar na Igreja da Encarnação. O seu interior é amplo, fresco e silencioso. Os bancos de madeira, embora não sendo muito confortáveis, dão para descansar, sem grandes incómodos, durante uns 5 ou 10 minutos, até voltar a seguir viagem. Por outro lado evito, momentaneamente, as hordas  ruidosas dos turistas low cost que preferem tirar fotos sentados ao lado do Fernando Pessoa, de Lagoa Henriques ou, então, entrar na Igreja do Loreto, que fica defronte à da Encarnação. Sobretudo os turistas italianos, por razões patrióticas e óbvias, naturalmente.
Ora, há dias, lá retomei o hábito e entrei no Templo. Havia apenas uma mulher rezando, silenciosamente e de pé, frente a um dos altares do lado esquerdo da Igreja. Eu sentei-me no último banco do lado direito. Não se teriam passado 5 minutos, entraram duas jovens japonesas resmoneando alto, que também se sentaram, bastante mais à frente e continuaram na sua ladainha nipónica. Pouco depois, chegou um japonês magro e desengonçado, que deveria ser o pai delas, pela idade. Disse-lhes qualquer coisa e desatou logo a fotografar a torto e a direito, todos os altares e cantos da igreja. Não satisfeito, deitou-se de costas ao comprido, no corredor central, para tirar 2 fotografias ao tecto pintado do templo...
Eu iria apostar que, sobre a história da Igreja da Encarnação e seus aspectos culturais, ele nada saberia, nem se terá documentado, porventura. Depois disso, seguiu, tipo ratazana coleante, para a sacristia, em passos lépidos e coscuvilheiros, de máquina em punho.
Incomodado, levantei-me e saí...
Deus também já não se livra destes turistas de meia tigela.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Cidades imaginadas


Em determinados meios, Veneza não seria a mesma, sem Mann ou Visconti. Nem Tanger, sem tudo aquilo que William Burroughs lhe acrescentou. Alexandria não projectaria o fascínio mítico, que exerce, sem as obras de Cavafy e Durrell. E Dublim foi outra, depois de Joyce. À nossa medida talvez não o sintamos tanto, mas Lisboa, para alguns estrangeiros, tem a aura imaginada que Saramago lhe deu, através de Pessoa, em "O Ano da Morte de Ricardo Reis". Tenho a certeza que há turistas que visitam a Capital portuguesa, num itinerário espiritual que o livro lhes transmitiu. E, decerto, não desdenham ser fotografados, na cadeira vazia que Lagoa Henriques lhes deixou, junto à "Brasileira", e em boa companhia. Mas os portugueses podem ainda percorrer Lisboa pelos versos de Cesário, ou através da prosa de Eça.
Quem não vê isto, infelizmente, são os nossos burocratas cinzentos e agentes da Cultura, que servem apenas para a estrangular, numa pobreza de espírito sem futuro.

sábado, 12 de junho de 2010

A ressaca de Pessoa



Amanhã completar-se-ão 122 anos sobre o nascimento de Fernando Pessoa (1888-1935) que, parei de reler, quando o começaram de novo a "matar por entusiasmo" os estudiosos, as escolas, os políticos... Sobrou-me Ricardo Reis e, mais recentemente, li, pela primeira vez as "Novas Poesias Inéditas", da Ática, em Julho de 2009.
Por outro lado constato que a estátua mais fotografada de Portugal é, com toda a certeza, a de Lagoa Henriques, no Chiado, onde portugueses e estrangeiros não resistem a sentar-se ao lado de Pessoa, para tirar o retrato. Mas também penso que, muito provavelmente, a esmagadora maioria dos retratados não faz a mínima ideia de quem foi o Poeta - "sic transit..."
Este Gémeos /Escorpião dispensaria, certamente, estas familiaridades, mas nada pode fazer, ali sentado em bronze, à frente da "Brasileira". Vou lembrá-lo através de um dos poemas, que mais gosto, do heterónimo que mais aprecio: Ricardo Reis.

Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
De afectos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses.