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quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Do que fui lendo por aí... 61

 

" Vespera de S. Nicolau e toda a populaça na rua: (...) Vem a cerração da noite e a chuva pegada e tão miuda que se colla e amollece o proprio granito. Das ruas que abrem na praça rompem successivos magotes, tambores à frente, n'um clamor d'inferno. (...)  - S. Nicolau! S. Nicolau!...
É, na vespera da festa, o dia das posses, em que desde tempos immemoriaes certas familias estão na obrigação, que a populaça não perdôa nem perde, de dar, uns castanhas, outros lenha, vinho, pão, uma arvore inteira. Forma-se o cortejo. Já estrondeiam os primeiros compassos da charanga, que desce uma rua a passos marciaes, archotes á frente." (pgs. 49/50, A Farça, 1903, Raul Brandão)

Comentário pessoal: não só esta obra, mas uma boa parte dos livros de Raul Brandão (1867-1930) têm por cenário e retratam, muitas vezes, a paisagem e costumes vimaranenses. Neste excerto são invocadas as Festas Nicolinas, dos estudantes, que se iniciam com o Pinheiro, a 29 de Novembro e encerram, a 6 de Dezembro, com o cortejo das Maçãzinhas.

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Raul Brandão em França



O suplemento Livres do jornal Le Monde (23/3/23) dá nota da saída de mais uma tradução da obra Húmus, de Raul Brandão (1867-1930). É já a segunda edição deste livro, publicada pelas edições Chandeigne (Paris). Gladys Marivat, que faz a recensão, refere a "voz impiedosa do seu narrador, a sua terrível acuidade que nada perdeu do seu poder de fascinação."  E adianta que Húmus seria uma espécie de ante-câmara do Livro do Desassossêgo de Fernando Pessoa.         

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Recomendado : setenta e sete - correspondência de Teixeira Gomes


Nestas cartas e postais endereçados a João de Barros (1881-1960), palpita movimento e vida. Melhor diria, alegria e raiva de viver. A correspondência, que vai de 1919 a Julho de 1941, poucos meses antes da morte de Manuel Teixeira Gomes (1860-1941), nunca é monótona, mas de leitura agradabilíssima.
Impressões de viagens, descrições paisagísticas lindamente escritas, opiniões políticas e cortes na casaca, com apreciações por vezes acerbas e duras sobre alguns políticos da época e escritores coevos e confrades, a correspondência inclui também textos de ficção-realidade de grande beleza. De que eu destacaria uma descrição de um Copejo algarvio, de grande realismo, à altura dos textos de Raul Brandão e Paul Valéry, sobre o mesmo tema.
Altamente recomendável a leitura deste livro, com um interessante prefácio da jornalista Manuela de Azevedo (1911-2017), só é pena que a obra tenha tido pouca divulgação. Aqui estou, porém, a fazer a minha parte, lembrando-a...

os maiores agradecimentos a H. N..

terça-feira, 6 de novembro de 2018

A biblioteca de Raul Brandão


Uma biblioteca define, de algum modo, os gostos e, porventura, a maneira de ser do seu proprietário.
Foi por isso que, com alguma curiosidade, folheei o inventário da biblioteca de Raul Brandão (1867-1930), inserto na Revista de Guimarães (Volume LXXXIX, Jan--Dez. de 1979), biblioteca que, por disposição testamentária do Escritor, teria ficado à guarda da Sociedade Martins Sarmento. Só a partir de 1979,  isso aconteceu, por demora dos herdeiros em cumprirem a sua vontade, atempadamente. Uma vez que a viúva, Maria Angelina Brandão, teria falecido por volta de 1964.
O acervo é de média dimensão e, para lá dos livros portugueses, há bastantes volumes em língua francesa. Mesmo os volumes das obras de William Shakespeare (10), Dickens (8), Stevenson (6) e de Joseph Conrad (4), autores de língua inglesa, são versões em francês. Bem como as obras de Tolstoi (10), e Dostoievsky (7). Dos escritores gauleses representados, o maior número pertence a Balzac, com 25 livros, seguido de Anatole France (11), Michelet, Alexandre Dumas e Moliére, com 9 volumes, cada. Stendhal, com 8 livros e Paul Bourget, com 7.
Mas a minha grande surpresa, deu-se com os escritores portugueses. Do poeta, hoje esquecido, António Correia de Oliveira, havia 17 livros, na biblioteca de Raul Brandão - provavelmente eram amigos. Seguido por 12 livros de João Grave e 7 obras de Camilo. Junqueiro e António Sérgio (5), Pascoaes, Fialho de Almeida e Garrett, representados por 4 livros, cada. Seguia-se Aquilino Ribeiro, com apenas 3 obras. E não faltava, também, o polémico e escandaloso na altura, O Marquez de Bacalhoa, de António de Albuquerque, publicado em 1904.
Em síntese, eram estas  as leituras de Raul Brandão, na sua Casa do Alto, em Nespereira (Guimarães).

domingo, 25 de março de 2018

Uma louvável iniciativa (54)


Não é muito extensa a bibliografia de Raul Brandão (1867-1930). Pouco passará de vinte, o rol de livros publicados, muitos dos quais, hoje, se encontram esgotados. As suas primícias literárias ocorreram em 1890, com o livro de contos Impressões e Paizagens, editado no Porto. Creio que esta obra nunca terá sido reeditada. O primeiro dos contos (A Pimpinella) é dedicado a Eça de Queiroz.



Era das poucas obras brandonianas que eu não tinha, nem nunca tinha lido. Em boa hora, o jornal Público decidiu, recentemente, publicar alguns dos livros de Raul Brandão, em edição fac-similada. Assim adquiri o voluminho (saído a 3/3/18), com gosto e proveito, por preço módico (5,95 euros).
Ainda sem a maturidade maior que viria a consagrar o Escritor, o livrinho juvenil tem ritmo picaresco, pinceladas anti-clericais, como era de tom na época, e lê-se lindamente.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Do tom


Os encómios, de leituras minhas recentes, que convergiam para A Ilustre Casa de Ramires, como obra preferida de V. S. Pritchett e Costa Pimpão, da bibliografia de Eça de Queiroz, levaram-me a repegar no volume e retirá-lo, da estante da biblioteca, levando-o para a mesinha de cabeceira. Até porque era o único romance de Eça de que eu não tinha a certeza absoluta de ter lido até ao fim. Depois, aquele carimbo circular da Livraria Académica, de Manaus, só poderia ter vindo do meu Tio Jorge, que andara pela Amazónia dos Brasis, em tenra e, muito provavelmente, difícil juventude... 
Foi, efectivamente, o reencontro confirmado. Com aquele atmosfera bem disposta, de gozo e de ironia, que faz reconhecível o tom ou estilo do "pobre homem da Póvoa de Varzim". Tal como a ambiência melodramática é a marca de água da escrita de Camilo, embora temperada, algumas vezes, por uma ironia mais sofrida. Para não falar do tom pungente de algumas obras de Raul Brandão, mais anoitecido ainda na prosa minhota de Tomaz de Figueiredo. Em contraponto com a algarvia claridade do tom de Teixeira Gomes, sulista e solar.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Lisboa-Nova Iorque-Lisboa


Por entre as vicissitudes da diáspora e o pequeno meio editorial lisboeta dos anos 60 portugueses, surge esta correspondência, entre José Rodrigues Miguéis (1901-1980) e José Saramago (1922-2010), que começa por ser quase só de teor comercial, mas que se vai alargando para os limites das letras e chega a atingir o tom cordial da amizade. Director (?) literário da Estúdios Cor, Saramago vai dando notícias, números de venda e enviando cheques (direitos de autor) a Miguéis que, em Nova Iorque, quase sempre amargurado e sedento de novas do seu país, apesar do sucesso das suas obras (Leah, Escola do Paraíso...), lhe vai dando conta da sua via crucis, por terras americanas. A correspondência cessa em 1971, altura em que Saramago se demite da Editora, quando os donos lhe impõe, como chefe e directora literária, a escritora Natália Correia.
A franqueza entre os dois predomina, nesta conversa de homem para homem, pese embora alguma reserva de Miguéis, nas suas cartas iniciais. Saramago é mais frontal, chega a desabafar, por vezes:
"...Espero com o maior interesse o seu artigo sobre o Raul Brandão, que é uma das maiores e mais velhas admirações minhas em literatura. Um livro como o Húmus, por exemplo, como é possível que tanta gente o ignore? Não percebo, palavra. Falava o Régio, já aqui há uns tempos, no mau gosto de certas passagens. Bolas! Sempre gostava que me dissessem onde há, nos livros do Régio, às vezes duma pieguice muito professor-de-liceu-em-cidade-de província, algo que iguale em ternura aquelas «mãos como cepos» da Joana, dessa criação única da nossa literatura que é a mulher da esfrega! Quantas vezes exprimiu assim a frustração um escritor português, uma frustração que nega até o direito a sonhos próprios?... Assim estamos nós, descendentes de Afonso Henriques e Albuquerque, de Cabral e Camões... Desculpe o excesso de a-propósito da ironia!..." (pg. 106)
Editado em 2010, é um livro que vale a pena ler, até porque nos traz, ressuscitado, o panorama literário de Portugal, que se vivia nos anos 60 do século passado.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Obsessões


Às vezes, gostava de ser detective, para poder descobrir alguns mistérios...
Nesta altura do ano, é bastante normal, por parte de visitantes estranhos, a procura frenética e sistemática, aqui no Blogue, de postes e imagens de presépios, de pais natais, de cartões de boas festas, numa massificação regularmente monótona e previsível, correspondente às inquietações interiores de tanta boa gente.
Mas também há casos insólitos que poderão configurar extravagâncias, obsessões, mistérios. Dá-se o caso, ultimamente, que 2 visitantes se têm multiplicado em visitas sucessivas aos mesmos postes, facto para que não consigo encontrar uma explicação racional ou justificativa. Nos últimos 2 ou 3 dias, há uma visita que, clicando sistematicamente "angelina e raul", vem repetidamente parar a um poste antigo (8/9/2010), sobre Raul Brandão. E continua... O outro caso, retrata ainda uma maior persistência obsessiva. O cibernauta, nestes últimos dois dias, já visitou mais de 10 vezes um poste que transcreve, apenas, um poema de José Tolentino Mendonça (aqui colocado a 20/11/2013). E, muito embora no Arpose, haja mais dois poemas do Padre-poeta, o visitante autista clica, visita, revisita, lê (provavelmente) e relê sempre o mesmo poema, numa fixação que me parece doentia.
Às vezes, gostava de ser detective...

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Parece de hoje...


"...Há muitos séculos decerto, há muitos... Havia longos meses que chovia sem interrupção: cordas de água tombavam sobre a terra farta e túmida e as nuvens oleosas e prenhes atabafavam o mundo. A humidade era tão espessa que as plantas transbordavam e inchavam; o jorro da água interminável e claridade lúgubre e baça. Naquele solo, de húmus encharcado, as raízes alastravam: cada árvore era uma floresta, cada floresta um caos. ..."

Raul Brandão, in A pedra ainda espera dar flor (pg. 23).

quarta-feira, 20 de março de 2013

Recomendado : trinta e oito - Raul Brandão


Já aqui falei, há dias (12/3), desta obra de inéditos, em livro, de Raul Brandão (1867-1930), reunidos por Vasco Rosa, e saída recentemente. E, como vem a propósito, transcrevo o início da crónica Primavera:
"Fez hoje, 22, primeiro dia de Primavera, segundo o calendário, exactamente cinquenta e oito anos que Henry David Thoreau (1817-62), ao deparar com uma árvore cheiinha de flor, fugiu das pedras da cidade, dos exasperos, dos egoismos, da vida aborrecida, contraditória e inútil, e foi viver sozinho para uma floresta. Este simples facto: o ter encontrado por acaso nessa esplêndida manhã de Março um ramo tombado de um quintal para a rua bastou para revolucionar toda a sua existência. Partiu só e livre enfim!...
A Primavera também me estonteia. Sinto que estou prestes a sonhar com as velhas árvores tontas. É a época em que a cidade, com a secura das suas pedras amontoadas, me horroriza e me dá vontade de fugir, como ao poeta americano Thoreau, que tudo deixou para viver em pleno contacto com a natureza..."

terça-feira, 12 de março de 2013

Raul Brandão


Passa hoje mais um aniversário do nascimento de Raul Brandão, nascido que foi a 12 de Março de 1867. E o facto veio-me com a boa notícia de que os seus dispersos, nos jornais, foram reunidos por Vasco Rosa, e publicados em livro pela Quetzal, sob o título " A pedra ainda espera dar flor".
Que ele era escritor, toda a gente o sabe - pelo menos, quem lê -, mas nem todos saberão que, nos últimos anos da sua vida, também pintava. Por isso, aqui deixo uma fotografia de Raul Brandão a pintar, bem como um fragmento de um quadro que ele ofereceu ao seu amigo Teixeira de Pascoaes.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Pequena história (14) : O Marquês via Raul Brandão


Na introdução a "El-rei Junot", Raul Brandão (1867-1930) faz-se eco de um caso que lhe foi relatado sobre o Marquês de Pombal que, pelo seu pitoresco, aqui passo a transcrever:
"Conta-me o senhor marquês da Foz: - Um dia, quando se vendeu a mobília do palácio de Oeiras, dos Pombais, pediram-me para ceder uma casa que tinha com escritos na Rua do Ferragial, para se fazer leilão. Acedi e antes do leilão fui lá e agradaram-me diferentes objectos que comprei por 8 contos. Entre eles estavam cinco grandes vasos da China, cinco maravilhas, como nunca vi. Ao centro tinham as armas dos Pombais e eram precisas duas pessoas para os erguerem. Quatro coloquei-os à entrada da minha casa e o quinto na sala de jantar, defronte de uma estufa. Um dia estava à mesa quando por acaso reparei que o verniz do vaso estalara com o calor. Levantei-me, fui vê-lo: sob a casca aparecia outro desenho. Com a ponta de uma faca levantei o craquelé - e debaixo das armas de Pombal apareceram as armas dos Távoras! Tão certo é que até os grandes homens estão sujeitos a estas misérias!"

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Fluir


Há muito que não via/ouvia o telejornal das vinte. Mas também não perdi muito, afora as imagens das marés vivas (ou águas vivas, para respeitar um especialista fardado, que assim as denominou) que vieram, intensas.
São 20h44, e as luzes públicas e autárquicas iluminaram o triângulo das quatro árvores, em frente, obedientes à luz, que desapareceu de todo. Mais escuros parecem ficar os 9 limões toscos e selvagens, na varanda a leste. Na do sul, 6 mais pequenos, da segunda floração, em Junho, muito femininos e redondos, lá vão crescendo, lentamente - darei conta deles, mais tarde.
Por uma curiosa coincidência emparceiraram, recentemente, "A Paixão de Maria do Céu", de Carlos Malheiro Dias, na mesinha de cabeceira, e "Guerra das Laranjas - 1801", de António Ventura, na secretária de trabalho. Ambos os livros têm como cenário o dealbar do séc. XIX. E, como não há duas sem três, já planeei a leitura (releitura?) de "El-rei Junot", de Raul Brandão. Trindade santíssima que me imunizará contra qualquer paulo coelho best-seller que se me atravesse no horizonte, para pura perda de tempo, que já me vai sendo escasso.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Saudades da Terra


O título do poste roubei-o à celebre obra do padre Gaspar Frutuoso, em 6 volumes, sobre os Açores. Porque esta casa que o meu Amigo H. N. fotografou, em Guimarães, pertenceu à família de Angelina Brandão, mulher de Raul Brandão, que lá viveu em solteira. Depois, já casada, foi habitar com o Marido, a chamada Casa do Alto, em Nespereira. A casa, na Rua Val-de-Donas (lindo nome!), está esventrada e vai para obras, mas a fachada mantém ainda a dignidade sóbria do granito vimaranense, de bom gosto.

com agradecimentos a H. N..

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

domingo, 11 de dezembro de 2011

Cidade Capital de Cultura 2012 / Fastos vimaranenses XI : Paços dos Duques de Bragança



Muito próximos do Castelo, no chamado Monte Latito (ou "Colina Sagrada" como gostam de lhe chamar os vimaranenses), os Paços dos Duques de Bragança são, no meu modesto entender, o edíficio mais singular de Guimarães. Foram mandados construir pelo primeiro conde de Guimarães, D. Afonso, filho bastardo de D. João I. Viúvo da filha única de Nuno Álvares Pereira, o conde voltou a casar com D. Constança de Noronha, e os Paços começaram a ser edificados, por volta de 1420. D. Afonso era um homem viajado e conhecedor da arquitectura europeia, daí, talvez, a traça do edíficio ter sido de um tal "Mestre Antom", provavelmente francês, e "sob a vedoria de Johane Steuez". Foi habitado pelos duques sequentes, mas a partir do séc. XVII, começou a entrar em decadência.
Em finais do séc. XIX, o edifício apresentava-se já muito desfigurado (como se pode ver pela 1ª imagem que data de 1886), porque fora adaptado a quartel - situação que se manteve até ao início do séc. XX. Foi lá oficial, Raul Brandão, que em Guimarães veio a conhecer a sua futura esposa. Em meados do séc. XX, começaram as obras de restauro, que tentaram reconstituir a traça de Mestre Antom. Renovada a capela, os restantes espaços foram preenchidos por boas peças de Arte Sacra, cópias das Tapeçarias de Pastrana, bem como outras, flamengas, de Jan Raes. Os Paços dos Duques incluem também um significativo acervo de armas do 2º visconde de Pindela. Um interessante retrato da rainha de Inglaterra, D. Catarina de Bragança, e a emblemática obra de Josefa de Óbidos, o "Cordeiro Místico", para citar apenas uma pequena parte.
Indo a Guimarães, é imprescindível visitar os Paços dos Duques de Bragança.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Divagações 15 (com algum cinismo e aduares)


Vai voltar a melancolia à portuguesa, essa "apagada e vil tristeza" de que falava Camões. E que vem sempre de cima: ou da ausência do sol, ou de quem nos governa. Hoje, ainda a luz é intensa, embora o azul vá desmaiando, pouco a pouco.
De uma forma visual e epidérmica, o sol da tarde ainda inebria e nos ajuda num optimismo fátuo, infundado, superficial que quase nos faz esquecer o futuro, e tudo aquilo que aí vem. Os escuros cerrados de Columbano, a negrura intensa de Raul Brandão, a loucura controlada de Herberto Helder. A cegante claridade de Teixeira Gomes apenas vem para comprovar a regra, por excepção.
Os "indignados" portugueses terão hoje a sua última oportunidade de serem notícia e aparecerem na Tv. Poderão ainda montar as suas tendas frágeis, o seu aduar, na praça mediática, e dizer uma última palavra, antes de voltar a chover. A maioria, creio, até Março, voltará à comodidade e conforto da casa paterna (ou materna), aos jogos de computador e ao "facebook", hibernando até o sol reaparecer. Irão crescendo, é certo, e talvez descubram objectivos mais concretos, solidários e pragmáticos. As revoluções, normalmente, fazem-se pela Primavera, ou até ao princípio do Outono. O Inverno não é estação propícia.

Recomendado : vinte - Ramalho Ortigão


"Ramalhal figura" lhe chamava Eça, com a sua habitual ironia, abstractizando o vulto alto de Ramalho Ortigão (1836-1915), nascido no Porto, a 24 de Outubro. Moderno em muitos aspectos, adepto da prática de ginástica diária e caminhante infatigável, mas conservador nos seus princípios ideológicos de monárquico convicto, eis o autor de "John Bull" que convoco, neste blogue e no dia do aniversário do seu nascimento, para que seja mais lido. Da sua prosa coloquial, simples e elegante, recomendaria "As Praias de Portugal - Guia do Banhista e do Viajante" que, a par de "Os Pescadores" de Raul Brandão, é um dos livros portugueses em que melhor se fala do Mar. Para aguçar o apetite ouçamos, então, um bocadinho de Ramalho Ortigão ("De Pedrouços a Cascais"):
"Se queres dar, leitor, o mais belo dos passeios permitidos ao habitante de Lisboa, faze o que eu ontem fiz.
Levanta-te às 5 horas da manhã, num domingo, veste-te à luz do candeeiro, porque em Setembro ainda não é bem dia a essa hora, pega na tua bengala e no teu binóculo e vai à ponte dos vapores do Cais do Sodré.
Tomamos um bilhete de ida e volta no vapor de Cascais por dez tostões. Ainda é cedo, o vapor não parte senão às 7 horas. Entramos no Café Grego e fazemo-nos servir uma chávena de leite ou chá preto. ..."

sábado, 12 de março de 2011

Raul Brandão: alguns livros e capas





Raul Brandão nasceu na Foz (Porto), a 12 de Março de 1867, e faleceu em 1930. É um escritor de minha particular estima, pese embora o tom pesado e lúgubre de algumas das suas páginas. Conhecida é a sua relação de amizade com Columbano que o pintou, pelo menos duas vezes. Numa delas, ainda jovem; outra, já no limiar da velhice, com a esposa, Maria Angelina. Mas as capas dos seus livros atestam o bom gosto estético e demonstram as boas relações que teria tido com outros pintores e desenhadores. Assim, cronologicamente, aqui vai a indicação gráfica dos autores, em relação às capas dos livros de Raul Brandão em imagem:
- "Os Pobres", 3ª edição, 1925, com desenho, na capa, de Stuart Carvalhais.
- "A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore", 1ª edição, 1926, ilustrado por Martinho da Fonseca.
- "A Farsa", 3ª edição, 1926, capa de Stuart Carvalhais.
- "Portugal Pequenino", em colaboração com Maria Angelina Brandão, 1ª edição, 1930, com capa de Alberto de Sousa e desenhos, no interior, de Carlos Carneiro.
- "O Pobre de Pedir" (livro póstumo), 1ª edição, 1931, desenho de capa de autor desconhecido.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Raul Brandão, Guimarães e S. Nicolau



"...Uma nuvem desce da serra: arrastam-se os rolos pelas encostas pedregosas; depois as baforadas espessas juntam-se e abafam de todo a villa. E noite, cerração compacta, nevoa e granito, formam um todo homogeneo: unem-se para construirem um immenso e esfarrapado burgo de pedra e sonho. Pastas sobre pastas de nuvens algidas, que a noite transforma em crepes, amontôam-se na escuridão. O granito revê água. E sob a chuva ininterrupta, sobre as cordas incessantes, a villa, envôlta na treva glacial, parece toda lavada em lagrimas...
(...)
A vida da provincia é assim - suffoca: pesa sobre uma alma como um pedregulho: abafa e esmaga. Para se resistir é necessario viver-se peito a peito com um sonho disforme. A banalidade desgasta, a uniformidade secca. Os outros mandam mais em nós mesmos, do que nós proprios mandamos. Afeiçôam-nos. As arestas alheias desbastam-nos. As palavras são quasi as mesmas, os sêres identicos. E depois ha a necessidade de fingir. Todos espreitam com rancor á espera d'um acontecimento. A provincia ama o escandalo.
(...)
A turba avança, a praça transborda: ha milhares de boccas que gritam, e os tambores tomam-se de furia n'uma ensurdecedora descarga. Aquelle mar humano oscilla, amontôa-se, cresce, clama e dispersa-se. Quando os archotes se apagam, fica só a noite e o ruido; aviva-se o lume e voltam a entrever-se as faces, as boccarras abertas, os risos estupidos, rasgados d'orelha a orelha.
- S. Nicolau! S. Nicolau! ..."
Raul Brandão, in A Farça (1903), pgs.5, 14-15 e 50.

Os excertos, acima, de Raul Brandão, que faleceu há, precisamente, 80 anos, têm, com certeza, como cenário a cidade de Guimarães, embora lhe dê o nome de "villa". Aliás, aquando da escrita de A Farça (Outubro 1902-Maio 1903), Guimarães estava a fazer 50 anos da sua elevação a cidade, por D. Maria II, em 1853.
Raul Brandão foi para Guimarães, para o Regimento de Infantaria 20 (na altura sedeado no Paço dos Duques de Bragança), em 1896. Em 1897 casou com a vimaranense Maria Angelina e, pouco depois, vai habitar a Casa do Alto, em Nespereira, muito próximo de Guimarães. Reforma-se da vida militar, em 1912, e a partir daí é que reinicia, mais intensamente, a sua obra literária, até vir a morrer, a 5 de Dezembro de 1930.
Este granito e chuva, o cinzento e o negro, esta serra (que é, de certeza, a Penha), o ambiente fechado e de coscuvilhice da "villa" e até as Festas Nicolinas traçam um esboço bem nítido da cidade que o acolheu, e onde deverá ter assistido, muitas vezes, às celebrações que os estudantes vimaranenses faziam pelo S. Nicolau, com os seus bombos, tambores e caixas troando no ar molhado de Dezembro.