Mostrar mensagens com a etiqueta Teixeira de Pascoaes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Teixeira de Pascoaes. Mostrar todas as mensagens

domingo, 3 de maio de 2026

Surpresa

 


Este livro, cuja capa encima o poste, foi acabado de escrever por Teixeira de Pascoaes (1877-1952), em São João de Gatão, a 17 de Outubro de 1944, tendo saído para as livrarias em 1945. Comprei-o usado e em bom estado, na rua do Alecrim, nº 44 (Lisboa), por Esc. 1.700$00, brochado.
Sempre gostei de folhear catálogos de leilões de livros e boletins bibliográficos que me permitem conhecer características próprias das edições, bem como a evolução dos preços de livros antigos e usados. Por vezes, algumas surpresas ocorrem, que me apanham desprevenido.
Foi o caso, recentemente, e a propósito do I Salão do Livro Antigo, a decorrer no Porto, que estive a consultar o catálogo do ANNO QUARTO/12, deparando-se-me dois lotes, com preços que considerei, com franqueza, algo desproporcionados, na minha perspectiva.
Refiro-os, ambos primeiras edições: o lote 69 (Nobre, António - Despedidas, Porto, 1902), com o preço base de 210 euros, e o lote 73 (Pascoaes, Teixeira - Santo Agostinho, Porto, 1945), com uma estimativa de venda de 350 euros. Serão bem vendidos, se o forem...

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Esquecidos (18)

 

Soube, há pouco tempo, que um colégio lisboeta de referência, em relação à literatura portuguesa do século XIX, incluia no seu programa escolar apenas o estudo de Eça de Queiroz. Quanto ao século XX são contemplados unicamente Pessoa e Saramago. O panorama  público de ensino não será muito diferente... Perde-se assim um enquadramento e contexto temporal e cronológico de autores, bem como se soterram no esquecimento a maioria dos escritores nacionais. Mas creio que também Teixeira de Pascoaes (1877-1952), um mal-amado, nunca pertenceu ao cânone português das escolas. Muito embora tivesse merecido importantes estudos de Jacinto do Prado Coelho, Jorge de Sena, Mário Martins, Alfredo Margarido, entre outros ensaístas.
Prado Coelho refere a infância como sendo o tema central na sua obra poética, eu optaria antes pela temática da morte como omnipresente nos seus versos. Não sendo um modernista, a poesia de Pascoaes retém acentos de algum romantismo e, sobretudo, sinais de um simbolismo original e panteísta que difere muito do estilo da obra excessivamente marcada e artificiosa de Eugénio de Castro (1869-1944).
Como contributo de lembrança, aqui deixo um poema de Terra Proibida (1899):

Hora Final

Aí vem a noite... Sente-se crescer...
E um silêncio de estrelas aparece.
Quem é, quem é, meu Deus, que empalidece
E se cobre de cinzas, no meu ser?
Alma que se desprende numa prece...
Que suave e divino entardecer!
Como seria bom assim morrer...
Morrer, como a paisagem desfalece,
Morrer quase a sorrir, devagarinho.
Ser ainda do mundo pobrezinho
E já pairar, sonhando, além dos céus,
Morrer, cair nos braços da ternura;
Morrer, fugir, enfim, à morte escura,
Sermos, enfim, na eterna paz de Deus!

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Ultimas aquisições (39)



Descendo quase em linha recta do recanto da Padaria das Mercês, no Bairro Alto, onde ainda se fabrica e vende o dito sério e "pão honesto" de Cesário, em direcção ao Calhariz, vamos entrar, ao lado do elevador da Bica, na minha velha e bem conhecida Livraria Antiquária de José Manuel Rodrigues. Que, ontem, não estava lá, representado e bem, no entanto, pela sua filha Catarina.
Das estantes e mesas, após cuidada visita, de lá vieram dois poetas estimáveis: Pascoaes, em estudo competente de Alfredo Margarido, e Agostinho da Cruz, arrábido quinhentista, com um pequeno cancioneiro semi-inédito. Custaram-me 10 euros e já comecei a folhear os livros, com agrado.



domingo, 17 de abril de 2022

Bibliofilia 197



Não é raro este livro, cuja capa surge a encimar o poste, e tê-lo-ei comprado, em finais dos anos 80 do século passado, ao sr. Almarjão (José Mª da Costa e Silva), da Livraria Histórica e Ultramarina, numa altura em que estava empenhado num texto sobre Teixeira de Pascoaes, para os Cadernos do Tâmega, publicação cultural de Amarante, dirigida por António José Queirós. Trabalho que veio a sair  no número 6 (Dezembro de 1991) da revista, com o título Perfil a meio da Ponte (pgs. 64/6).  
Mas este VI volume da Bertrand tem, no entanto, a particularidade de me lembrar, por associação, uma série de outros nomes.



Antes de mais, o falecido e sábio alfarrabista da Travessa da Queimada, no Bairro Alto. Depois o poeta de Marânus e Jacinto do Prado Coelho que organizou estas obras completas editadas pela Bertrand, com o seu amplo estudo introdutório.
Finalmente, e não menos importante, a dedicatória de Prado Coelho a Ruben A(ndresen Leitão) e mulher Rosemary Bath, pelo Natal de 1970, em que o estudioso refere (a lápis) ter recebido a oferta do livro Páginas VI do escritor.
Pelo meio disto tudo, esqueci-me de anotar o preço que dei pelo VI Volume das Obras completas de Pascoaes... Creio não ser o mais importante.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Divagações 162


São como as cerejas, as palavras - diz-se. E assim foram, para mim, contagiosas. De Agustina (O Susto), passei para Pascoaes (Regresso ao Paraíso) que, curiosa e poeticamente, nunca me contagiou muito; e ao ensaio e antologia escolhida por Sena (Brasília Editora) sobre o poeta de S. João de Gatão. Poupei-me a reler Os Afluentes do Silêncio, em que Eugénio traça um belo e comovido retrato de Teixeira de Pascoaes (1877-1952), real e não ficcionado como o de Bessa-Luís.


Pela biografia de René Char (Tempus, 2013) ando eu, há meses, mergulhado em leituras do maravilhoso texto de Laurent Greilsamer. Até que fui dar com umas palavras sobre o pintor russo Nicolas de Staël (1914-1955), amigos que eles foram, que me fez ir à estante buscar o livro de Antoine Tudal (Le Musée du Poche, 1958). Sucinto de escrita, como convém à biografia de um suicida, mas bastante. E de competente iconografia.
Fiquemos por aqui!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Qualidade e quantidade


A nossa época é generosa e descuidada. Talvez por falta de critério. O consumismo desenfreado ajudou, os shares das tevês impuseram-se, tiranicamente, o feicebuque e os seus likes desmiolados contribuiram em grande. E até mesmo algumas publicações, com algum prestígio, se contagiaram por esta praga de números, que desprezam a qualidade.  Ou, pelo menos, são muito condescendentes e permissivos.
Já  aqui falei, há pouco tempo, na diferença numérica das escolhas anuais do TLS (20 livros) e Le Magazine Littéraire (100), quanto a opções de leitura aconselhadas. 
Uns bons anos atrás, L'Obs capeou de título e nomeou 20 filósofos do futuro. Portugal estava representado, honrosamente, por José Gil, nos happy few. Na última edição da revista literária francesa Le Magazine Littéraire a caridade generosa e de mãos rotas continua a ser norma. São, nada menos de 35, os pensadores destacados. Só que, desta vez, não há nenhum pensador português na lista.
Pudera!, quando alguns, pela escassez nacional e falta de sentido crítico, consideram Teixeira de Pascoaes como filósofo, o que seria de esperar das promessas destas novas gerações?
Generosidade, sim, mas devagar, pelo menos uma vez... 

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Bibliofilia 166


Com 7 números (dois deles, triplos) dispersos e com a capa do nº 1, em mísero estado, a que um restauro não bastou, adquiri estes exemplares de A Águia no início dos anos 90, por preço módico, dado o estado de conservação do lote, que não era famoso. A revista é, surpreendentemente, uma das mais longevas, em tempo de duração, das publicações nacionais, só comparável, creio, à Seara Nova, que tinha um pendor mais político do que literário e contava com alguns dos mesmos colaboradores (António Sérgio, Raul Proença...).


Com início de publicação em Dezembro de 1910, pouco após a implantação da República, e até 1932, A Águia foi dirigida, ainda que discretamente, por Teixeira de Pascoaes (1877-1952), tendo direcção artística do pintor António Carneiro (1872-1930). A revista, editada pela Renascença Portuguesa, no Porto, deu voz ao Saudosismo, corrente literária muito difundida na época. Teve a sua ressurreição em anos mais recentes (2008), mas creio que, dificilmente, virá a ser tão longeva como a sua progenitora...


Nota: a única colecção completa de "A Águia" vendida, de que tive conhecimento, foi num leilão, no Porto, em 2007 e atingiu o valor de 4.500 euros. A variação de preços em exemplares soltos é totalmente desordenada: já vi números duplos (nº 17/8 e 19/20) precificados a 63,60 euros, cada. Bem como um exemplar triplo (nº 109/110/111), de 1924, anunciado ao preço de 15 euros. Por aqui se podem imaginar os critérios e despautérios de alguns alfarrabistas.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Bibliofilia 136


Vou referir vários poetas, tenham paciência...
A minha opinião sobre Teixeira de Pascoaes (1877-1952) foi sempre um pouco ambígua. E a leitura dos seus poemas poucas vezes me entusiasmou. Menos ainda a sua prosa. E, se Eugénio de Andrade pouco me falou dele, é bem certo que vários textos admiráveis escreveu sobre o Poeta do Gatão. Como alguns também escreveu Cesariny. Poetas que eu aprecio e cuja opinião costumo ter em conta.





Também Jorge de Sena lhe dedicou estudos com a sua habitual agudeza crítica, gabando-lhe o estro, com algum entusiasmo. Mas nem sempre podemos coincidir nas afinidades electivas. Também Sena estudou Florbela com devoção e eu nem por isso lhe consagro a minha adoração, muito embora, em arroubos de juventude eu gostasse de ler os seus apaixonados versos. Como a José Régio também, aliás. Ambos, ousaria eu dizer, devedores ou familiares, se não dos temas, pelo menos do tom exclamativo de Junqueiro que, na adolescência, muito frequentei...



Os livrinhos, que ora se apresentam, são o fruto da dedicação que o poeta vimaranense Guilherme de Faria tinha por Teixeira de Pascoaes, impressos em 1924 e 1925, com mimosos cuidados estéticos e pequena tiragem de muito boa qualidade. D. Carlos, em tiragem especial, custou-me, nos anos 80, Esc. 1.900$00. Os restantes fui-os comprando por cerca de metade do preço, em anos posteriores.


Por curiosidade, posso informar que a caricatura de Teixeira de Pascoaes, que encima este poste, é da autoria do também poeta, de origem moçambicana, Rui Knopfli.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Reflectindo (também sobre poesia)


Depois deste cometa rapace (de apelido Jorge, nome que até me é querido, linguisticamente falando), que durou, ao leme, apenas trinta dias, pergunto-me se o barco não estará a ser governado por uma quadrilha de piratas...
Entre um livrinho sobre os quadros de Dufy, inspirados pela Música, uma Velha Guarda (aguardente vínica velha) e o "Últimos Versos", de Pascoaes (1877-1952) - que me pousa, ao lado, na mesa - começo a entrar nesta minha noite, amena de Verão, com uma aragem simpática e fresca, que me vem do Tejo, ao longe, por acréscimo e companhia grata.
Destes versos finais de Teixeira de Pascoaes, falou Eugénio de Andrade com fiel amizade e alguma contenção verbal. O livro é já póstumo: saíu em Fevereiro de 53. E volto a admirar o último livro de Herberto Helder, que continuo a ler, e me continua a surpreender, num poeta que já completou os 82 anos.
Felizes os poetas que morreram moços. Nobre, Cesário Verde, Keats, nunca perderam a voz. 

terça-feira, 12 de março de 2013

Raul Brandão


Passa hoje mais um aniversário do nascimento de Raul Brandão, nascido que foi a 12 de Março de 1867. E o facto veio-me com a boa notícia de que os seus dispersos, nos jornais, foram reunidos por Vasco Rosa, e publicados em livro pela Quetzal, sob o título " A pedra ainda espera dar flor".
Que ele era escritor, toda a gente o sabe - pelo menos, quem lê -, mas nem todos saberão que, nos últimos anos da sua vida, também pintava. Por isso, aqui deixo uma fotografia de Raul Brandão a pintar, bem como um fragmento de um quadro que ele ofereceu ao seu amigo Teixeira de Pascoaes.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Citações XCI : Teixeira de Pascoaes


"O Poeta alcança os píncaros da Vida; e vem depois contar, aos outros homens, a paisagem contemplada."

Teixeira de Pascoaes (1877-1952), in Verbo Escuro.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O(s) Pobre(s) Tolo(s)


 Em pequenos aglomerados populacionais, eles são notórios, apontados e, por vezes, ridicularizados, sem piedade. No seio de famílias com algumas posses, são escondidos em casas sombrias ou quintas afastadas - ou eram... Os últimos que vi, quase quotidianamente, foi numa vila dos subúrbios de Lisboa, acompanhados, na rua e de mão dada, pelas mães já velhas. Uma delas vestia o deficiente mental, sempre, como se ele fosse um eterno adolescente, embora ele já tivesse quase 40 anos. E trouxesse na mão, invariavelmente, um pequeno alguidar de plástico ou uma panela de alumínio onde chocalhava botões, moedas em desuso, pedrinhas ou outros pequenos objectos estridentes. Há, habitualmente, uma vergonha genética ou familiar que os esconde mas, há também, às vezes, uma cegueira maternal que, a nós, quase nos parece um exibicionismo despudorado e gritante. Mas não é, com certeza.
Lembrei-me dos pobres tolos quando postei, por amável envio de ms, no Arpose, o final do excelente filme "Sib (A Maçã)" de Samira Makhmalbaf. A belíssima e límpida fotografia clássica do vídeo, porém, não consegue afastar o lado pesado, sem saída aparente, de um fatídico destino desta família paupérrima persa. São realmente outros mundos que não conseguimos imaginar, encerrados num cemitério ainda sem cruzes de uma Natureza madrasta (para não falar em deuses), condenados a um labirinto de pesadelo. Sempre achei também curioso que, ao tema de "O Pobre Tolo", Teixeira de Pascoaes (1877-1952) tivesse dedicado dois livros. Não satisfeito com o volume em prosa (de 1924), veio a refundí-lo em poesia (1930), ou elegia satírica, mais tarde. Não tenho a menor dúvida que havia deficientes mentais, em Amarante. E, Pascoaes, deve tê-los visto, muitas vezes...

"Na tua velha ponte, São Gonçalo,
Contempla um pobre tolo, as duas margens
Do Tâmega. ..."

sábado, 23 de outubro de 2010

Bibliofilia 33 : Teixeira de Pascoaes



É um caso singular e curioso este livro O Pobre Tolo, de Teixeira de Pascoaes (1877-1952), publicado pela Renascença Portuguesa, no Porto, em 1924. Foi escrito em prosa e terminado pelo poeta de S. João do Gatão (Amarante), em Novembro de 1923. Mas, em 1930, refunde o tema em verso e com o mesmo título. Acrescenta-lhe o sub-título : Elegia Satírica. Virá a publicá-lo, em edição de autor, através das Livrarias Aillaud e Bertrand. Não me lembro de nenhum outro caso, na Literatura Portuguesa, de um autor abordar em prosa e depois em verso o mesmo tema.
O meu exemplar encadernado, da versão de 1924, tem dedicatória do Autor a José Ventura da Camara. Custou-me, em Janeiro de 1992, num leilão da Livraria D. Pedro V (Luís Burnay), Esc. 7.260$50 (cca. 36,30 euros). Mostra-se também, na imagem, a capa da edição em verso de O Pobre Tolo, de 1930.

sábado, 2 de outubro de 2010

Memória 41 : Manuel Antunes


"...Doutra maneira e servindo-me, para a aplicar aqui, da terminologia do próprio F. Pessoa: Pascoaes pensa o que sente, e é romântico; Pessoa sente o que pensa, e é clássico. Não exclusivamente, contudo. Há uma dose de classicismo em Pascoaes, um certo apolinismo que o leva a erguer o poema e a conservar a métrica tradicional; como existe uma tendência romântica no Engenheiro Álvaro de Campos. Mas parece não existir dúvida, Pascoaes é arrebatado por um impulso des-realizante e super-realizante e Pessoa é contido por uma força intelectualizante que lhe modera a vis resolutiva da existência no tumulto e no caos. ..."
Manuel Antunes, in Pontos de Vista (pg. 160) Ed. Verbo.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

"Oito luas fatais fitam o espaço"


O título deste poste tirei-o de um poema que Fernando Pessoa dedicou a António Duarte Gomes Leal (1848-1921), também ele poeta, e a quem, no amplo sentido "verlaineano" do termo, poderíamos apelidar de "maldito". Na idade adulta, vivendo de expedientes ou da colaboração em jornais republicanos, mas também do património que o Pai - morto jovem - deixara, e que sua Mãe, parcimoniosamente, moeda a moeda lhe ia dando, após a morte dela, em pouco tempo, delapidou o que sobrara. Os restantes 11 anos, viveu-os Gomes Leal em decadência gradual até à sua morte, em casa do amigo Ladislau Batalha, na Rua do Telhal. Vagabundeou muito, antes. Pode dizer-se que foi um sem-abrigo, "avant la lettre", e muitas vezes, sem dinheiro para pagar um quarto, adormecia nos bancos do Rossio ou da Avenida da Liberdade. Mas assim como esbanjou dinheiro, também esbanjou talento. Dos seus versos se sente o eco em Cesário e Nobre, e um pouco menos em Pascoaes.
Era consensualmente admirado como poeta. Quando já quase indigente, a República, pelo seu Parlamento, votou-lhe uma tença, no melhor exemplo camoniano - pagavam-na tarde e a más horas... E Aníbal Soares, monárquico convicto, também lhe arranjou um subsídio, provavelmente, do seu próprio bolso. Dele, na literatura e antigas selectas, ficou memória do poema "A Duquesa de Brabante" que Gomes Leal dedicou a Alberto Osório de Castro. Opto pelo soneto "Fantasias" onde se notam "raízes" do que, depois, Cesário Verde viria a fazer com outra elegância e geometria...

Tenho, às vezes, desejos delirantes
De a todos te roubar, meu lírio amado!...
E levar-te, em um vôo arrebatado,
Aos países fantásticos, distantes.

À Índia, China ou Irão, e os meus instantes
Passá-los a teus pés, grave e encruzado,
Num tapete chinês aveludado,
Com flores ideais e extravagantes.

Nossa vida seria - ó pomba minha! -
Mais leve do que a asa da andorinha,
E, nas horas calmosas, eu e tu...

Olhando o mar sereno, o mar unido,
Comeríamos os dois arroz cozido...
- Embalados num junco de bambu!

sábado, 1 de maio de 2010

William Butler Yeats



W. B. Yeats nasceu em Dublin (Irlanda), em 1865, mas com 11 anos a família foi para Londres, onde fica até 1880. Regressam à Irlanda, mas em 1887 estão de novo em Inglaterra. Yeats convive com os intelectuais britânicos e Ezra Pound chega a ser seu secretário, em 1913. O Poeta irlândes interessa-se por ocultismo, teosofia e lendas antigas. Em 1923 é-lhe atribuído o Nobel. Morre em França, em 1939.
Foi, predominantemente, um poeta simbolista, mas se o quisermos comparar com algum poeta português, eu diria que está muito mais próximo de Teixeira de Pascoaes, pelo seu lado visionário e um pouco místico, do que de Camilo Pessanha que foi o nosso simbolista, por excelência. W. B. Yeats conviveu mal com a sua própria velhice e, isso é visível, sobretudo no poema "Sailing to Byzantium". Particularmente no primeiro verso do poema - "That is no country for old men...". Por outro lado, quero alertar que este poema não tem nada a ver com o recente filme dos irmãos Coen, "No country for old men". O título deve ter sido, apenas, uma piscadela de olho aos intelectuais nova-iorquinos e irlandeses. Aqui vai, portanto, a tradução de "Sailing to Byzantium" de Yeats.

Zarpar para Bizâncio

I

Este país não é para velhos. Os jovens
Trocam abraços e os pássaros nas árvores
- Aquelas gerações agonizantes - no seu cantar,
Cascatas com salmão, mares de golfinhos
Povoados, peixe, carne ou aves que louvam o Verão,
Tudo o que foi gerado, nasceu e vai morrer.
Seduzidos pela música sensual todos esquecem
As grandes obras que o espírito fez eternas.

II

Um velho não é mais que um empecilho,
Um casaco esfarrapado sobre um ponto fixo, a menos
Que a alma bata palmas e cante, cante forte
Por cada trapo velho do seu mortal vestido,
Porque não há escola de canto para o estudo
Das grandes obras na sua magnitude;
Por isso eu naveguei nos mares para chegar
À sagrada cidade de Bizâncio.

III

Ó sábios guardiões do sagrado fogo de Deus
Como no dourado mosaico da parede
Deixai o fogo sagrado, falcão de seu voo circular,
Sêde os mestres-cantores da minha alma.
Esgotai meu coração; doente no desejo
E preso a um animal moribundo
Que não se reconhece no que é; acolhei-me
No artifício próprio da eternidade.

IV

Para sempre abandonada a natureza, nunca
Mais regressarei à minha forma corporal,
Apenas relevo cinzelado por gregos artífices
No ouro martelado ou esmaltes dourados
Para manter desperto um Imperador com sono;
Ou talvez eu pouse num áureo ramo a cantar
Para os senhores ou damas de Bizâncio
Celebrando o passado, o presente, e o porvir.


Obsv.: o poema é datado de 1927.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Guilherme de Faria, ainda



Já tinha falado (Bibliofilia 11) no poeta vimaranense Guilherme de Faria (1907-1929), mas vou voltar a ele. Foi sempre, na sua curta vida, católico convicto e monárquico fervoroso (daí o seu entusiasmo pelo sidonismo), tendo até feito um poema à morte de D. Miguel II e outro a saúdar o novo "Príncipe", poesias que vieram a integrar o livro "Manhã de Nevoeiro", a última obra que publicou (1927) em vida. "Desencanto" e a colectânea "Saudade Minha" são já póstumos (1929), embora tenham respeitado as indicações que o Poeta deixara. Aliás, os seus pequenos livros são de grande apuro gráfico e qualidade estética; bem como os que editou de Teixeira de Pascoaes: "Londres", "Sonetos", "Cânticos"...Afora a colectânea "Saudade Minha" que inclui uma escolha de toda a poesia publicada de Guilherme de Faria, os dois últimos livros revelam já uma voz própria. Os primeiros ("Poemas", "Mais Poemas" e "Sombra") são ainda muito devedores de influências. Entre um Nobre, sem ironia, um Mário de Sá-Carneiro, menos ousado, e um Pessanha, um pouco menos subtil. Também há um ligeiro eco de Pessoa ("Eu próprio me desconheço, / E, nesta hora em que vou, / Desconhecendo, aborreço / O nada inútil que sou...").

Nota-se, na sua poesia, uma sensibilidade excessiva, quase mórbida, e um grande desencontro com a vida real, pequenos tiques de aristocratismo. Mas também aquela intuição quase feminina que denuncia o poeta e que, na verdadeira acepção de "vate" (profeta, aquele que faz vaticínios), adivinha o futuro pelo passado ("A minha alma - noite morta - / Crucificada nas ondas, / Morreu nas ondas do Mar..."). A morte não o deixou, no entanto, evoluir até uma maturidade poética já anunciada e pressentida:

Enquanto a vida perpassa
Pela tua indiferença,
Em risos de sol que passa
E se morre em névoa densa,
Tu nem reparas, de ausente
E em vagos sonhos perdida,
Nos encantos que ela tem...
E, a sonhar eternamente,
Não tens esperança na vida
Nem saudades de ninguém.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Bibliofilia 11 : Cesário Verde




O exemplar que se mostra de "O Livro de Cesário Verde"(1855-1886), sendo uma 4ªedição, não é raro e foi impresso, em Lisboa, em 1919. Mas o seu valor estimativo, para mim, é grande. Tem a particularidade de ter pertencido ao poeta Guilherme de Faria (1907-1929), nascido em Guimarães, ostentando data e marca de posse, manuscrita (1920). O Poeta conheceu e deu-se com Fernando Pessoa que tinha, na sua biblioteca, dois livros com dedicatória, manuscrita, do jovem vimaranense; e, no espólio do autor de "Mensagem", havia apontamentos para fazer o horóscopo de Guilherme de Faria. Teve também relações amistosas com Teixeira de Pascoaes, António Pedro, entre muitas outras figuras literárias da sua época. Na sua curta vida, foi autor prolífico. Estreou-se aos 15 anos, em 1922, com "Poemas". Nos anos seguintes publicou mais quatro livros. Mas não chegou a completar 22 anos. No dia 4 de Janeiro de 1929, vindo de sua casa da Rua da Horta Seca, atravessou o Largo Luis de Camões e desceu a Rua do Alecrim até ao Cais do Sodré. Na estação, comprou o bilhete de ida para Cascais. Aí chegado, escreveu dois postais a explicar ou desculpar-se do que ia fazer e meteu-os na caixa do Correio da Vila. Depois, encaminhou-se para a Marginal e, descalço e rezando por um terço, seguiu até à Boca do Inferno.
De onde se atirou ao mar. Dizem que foi uma história de Paixão. E, como estamos próximos da Páscoa, talvez mereça ter sido lembrada, agora.
Grande parte da biblioteca de Guilherme de Faria ficou para o irmão (mais tarde,Frei) Francisco Leite de Faria, grande estudioso da História do Livro, falecido há poucos anos. Mas este exemplar de "O Livro de Cesário Verde" foi parar às mãos de outro dos vários irmãos, de nome, Miguel de Faria. Que lhe colou o seu ex-libris. O volume tem uma encadernação bonita, em pele, e está bem conservado. Custou-me, nos anos 90 do século passado, e na mesma Rua do Alecrim, por onde Guilherme de Faria desceu, pela última vez e em direcção à Morte, Esc. 2.200$oo, ou seja cerca de euros 11,00. Por isso eu dizia que tinha, para mim, um grande valor estimativo. E há-de acompanhar-me até "sempre".